22 de setembro de 2018

Primavera... por Alice Poltronieri

Metamorfose dos encantos
Encaixe dos sentimentos
Delicadezas se ondulam em flores
Nas asas da imaginação
Seu sorriso, meu disfarce
Me perco no equinócio do seu florescer
Num canto bem adubado do meu coração
Outra semente germina
Pulula em vida pós-inverno
De begônias e hortênsias
Ornando meu caminhar.
Quem hibernou, involuntário
Ao saltar para a primavera
Encontra suave brisa
A refrescar a tez acalorada
febrilmente.
Enfim vitória de uma semente
É primavera chegando
A esperança renascendo
O colorido tingindo
O caminho do passante
Desencasula... para a vida
Desacrisola... para a maturidade
As forças da natureza me deixam em êxtase
Momento de recomeçar
Floreça em mim a primavera de minh'alma
As lágrimas transformem-se em suave brisa
Ou num orvalho manso a regar meu coração...
Estação das flores dentro de mim,
Reaja ao inverno sequioso dos sonhos meus
E brotem novos sonhos
Novas forças,
Nova vontade de sonhar.
Caminho lentamente, mas com firmeza
Esqueço o que doeu
Apago o traço da dor
Aborto a palavra saudade
Construo ruas de felicidade
Onde dançarei a dança da paz
Com o arco-iris a brincar
Ao vento vão os pensamentos
Novos sonhos, novos alentos
O tempo... ah, o tempo!
Meu íntimo confidente,
A primavera me trouxe.
Um dia novo está surgindo
Um sonho novo me envolve
Vida nova...Saúde...Paz...
Enfim, a primavera me beija a face.

20 de setembro de 2018

Para Que Serve A Utopia? Por Eduardo Galeano

Pandora's Box1951 by René Magritte 

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

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O direito de sonhar

Que tal se delirarmos por um tempinho
Que tal fixarmos nossos olhos mais além da infâmia
Para imaginar outro mundo possível?

O ar estará mais limpo de todo o veneno que
Não provenha dos medos humanos e das humanas paixões.

Nas ruas, os carros serão esmagados pelos cães.
As pessoas não serão dirigidas pelos carros
Nem serão programadas pelo computador.
Nem serão compradas pelos supermercados
Nem serão assistidas pela TV,
A TV deixará de ser o membro mais importante da família,
Será tratada como um ferro de passar roupa
Ou uma máquina de lavar.

Será incorporado aos códigos penais
O crime da estupidez para aqueles que a cometem
Por viver só para ter o que ganhar
Ao invés de viver simplesmente
Como canta o pássaro em saber que canta
E como brinca a criança sem saber que brinca.

Em nenhum país serão presos os jovens
Que se recusem ao serviço militar
Senão aqueles que queiram servi-lo.
Ninguém viverá para trabalhar.
Mas todos trabalharemos para viver.

Os economistas não chamarão mais
De nível de vida o nível de consumo
E nem chamarão a qualidade de vida
A quantidade de coisas.

Os cozinheiros não mais acreditarão
que as lagostas gostam de ser fervidas vivas.
Os historiadores não acreditarão que os países adoram ser invadidos.
Os políticos não acreditarão que os pobres
Se encantam em comer promessas.

A solenidade deixará de acreditar que é uma virtude,
E ninguém, ninguém levará a sério alguém que não seja capaz de rir de si mesmo.

A morte e o dinheiro perderão seus mágicos poderes
E nem por falecimento e nem por fortuna
Se tornará o canalha em virtuoso cavalheiro.

A comida não será uma mercadoria
Nem a comunicação um negócio
Porque a comida e a comunicação são direitos humanos.
Ninguém morrerá de fome
Porque ninguém morrerá de indigestão.

As crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo
Porque não existirão crianças de rua.
As crianças ricas não serão como se fossem dinheiro
Porque não haverá crianças ricas.

A educação não será privilégio daqueles que podem pagá-la
E a polícia não será a maldição daqueles que podem comprá-la

A justiça e a liberdade, irmãs siamesas
Condenadas a viver separadas
Voltarão a juntar-se, bem agarradinhas,
Costas com costas.

Na Argentina, as loucas da Plaza de Mayo
Serão um exemplo de saúde mental
Porque elas se negaram a esquecer
Os tempos da amnésia obrigatória.

A Santa Madre Igreja corrigirá
Algumas erratas das Taboas de Moisés,
E o sexto mandamento mandará festejar o corpo.
A Igreja ditará outro mandamento que Deus havia esquecido:
“Amarás a natureza, da qual fazes parte”

Serão reflorestados os desertos do mundo
E os desertos da alma
Os desesperados serão esperados
E os perdidos serão encontrados
Porque eles são os que se desesperaram por muito esperar
E eles se perderam por tanto buscar.

Seremos compatriotas e contemporâneos
De todos o que tenham
A vontade de beleza e vontade de justiça
Tenham nascido quando tenham nascido
Tenham vivido onde tenham vivido
Sem importarem nem um pouquinho
As fronteiras do mapa e do tempo.

Seremos imperfeitos
Porque a perfeição continuará sendo o aborrecido privilégios dos deuses
Mas neste mundo, trapalhão e fodido,
Seremos capazes
De viver cada dia como se fosse o primeiro
E cada noite como se fosse a última.

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16 de setembro de 2018

A um Estranho ~~ Walt Whitman (To a Stranger ~~ Walt Whitman - 1855)



Estranho que passa! você não sabe com quanta saudade eu lhe olho,
Você deve ser aquele a quem procuro, ou aquela a quem procuro, (isso me vem, como em um sonho,)
Vivi com certeza uma vida alegre com você em algum lugar,
Tudo é relembrado neste relance, fluído, afeiçoado, casto, maduro,
Você cresceu comigo, foi um menino comigo, ou uma menina comigo,
Eu comi com você e dormi com você – seu corpo se tornou não apenas seu, nem deixou o meu corpo somente meu,
Você me deu o prazer de seus olhos, rosto, carne, enquanto passamos – você tomou de minha barba, peito, mãos, em retorno,
Eu não devo falar com você – devo pensar em você quando sentar-me sozinho, ou acordar sozinho à noite,
Eu devo esperar – não duvido que lhe reencontrarei,
Eu devo garantir que não irei lhe perder.

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To a Stranger ~~  Walt Whitman

Passing stranger! you do not know how longingly I look upon you,
You must be he I was seeking, or she I was seeking, (it comes to me as of a dream,)
I have somewhere surely lived a life of joy with you,
All is recall’d as we flit by each other, fluid, affectionate, chaste, matured,
You grew up with me, were a boy with me or a girl with me,
I ate with you and slept with you, your body has become not yours only nor left my body mine only,
You give me the pleasure of your eyes, face, flesh, as we pass, you take of my beard, breast, hands, in return,
I am not to speak to you, I am to think of you when I sit alone or wake at night alone,
I am to wait, I do not doubt I am to meet you again,
I am to see to it that I do not lose you.

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Walt Whitman nasceu em 31 de maio de 1819, em West Hills, Nova York, o segundo filho de Walter Whitman, um construtor de casas, e Louisa Van Velsor. A família, que consistia de nove filhos, morava no Brooklyn e em Long Island nas décadas de 1820 e 1830.

Com a idade de doze anos, Whitman começou a aprender o ofício da gráfica e se apaixonou pela palavra escrita. Em grande parte autodidata, ele leu vorazmente, familiarizando-se com as obras de Homero, Dante, Shakespeare e a Bíblia.

Whitman trabalhou como impressor em Nova York até que um incêndio devastador no distrito de impressão demoliu a indústria. Em 1836, aos dezessete anos, começou sua carreira como professor nas residências escolares de uma só sala de Long Island. Ele continuou a ensinar até 1841, quando se voltou para o jornalismo como uma carreira em tempo integral.

Ele fundou um jornal semanal, Long Island, e depois editou vários jornais do Brooklyn e de Nova York. Em 1848, Whitman deixou o Brooklyn Daily Eagle para se tornar editor do New Orleans Crescent. Foi em Nova Orleans que ele experimentou em primeira mão a maldade da escravidão nos mercados de escravos daquela cidade. Em seu retorno ao Brooklyn no outono de 1848, ele fundou um jornal de “solo livre”, o Brooklyn Freeman, e continuou a desenvolver o estilo único de poesia que mais tarde surpreendeu Ralph Waldo Emerson.

Em 1855, Whitman tirou um copyright da primeira edição de Leaves of Grass, que consistia em doze poemas sem título e um prefácio. Ele mesmo publicou o volume e enviou uma cópia a Emerson em julho de 1855. Whitman lançou uma segunda edição do livro em 1856, contendo trinta e três poemas, uma carta de Emerson elogiando a primeira edição e uma longa carta aberta de Whitman. em resposta. Durante sua vida, Whitman continuou a refinar o volume, publicando várias outras edições do livro. O famoso erudito de Whitman, M. Jimmie Killingsworth, escreve que “a 'fusão', como Whitman a concebeu, é a tendência do eu individual para superar limites morais, psicológicos e políticos. Tematicamente e poeticamente, a noção domina os três principais poemas de 1855: 'Eu canto o corpo elétrico', 'Os adormecidos' e 'Canção de mim mesmo', todos os quais foram 'fundidos' na primeira edição sob o título único 'Folhas'. de Grass, mas foram demarcados por claras rupturas no texto e pela repetição do título ”.

No início da Guerra Civil, Whitman prometeu viver uma vida "purgada" e "limpa". Ele trabalhou como jornalista freelancer e visitou os feridos nos hospitais da área de Nova York. Ele então viajou para Washington, DC em dezembro de 1862 para cuidar de seu irmão que havia sido ferido na guerra.

Vencido pelo sofrimento dos muitos feridos em Washington, Whitman decidiu ficar e trabalhar nos hospitais e permaneceu na cidade por onze anos. Ele aceitou um emprego como balconista do Departamento do Interior, que terminou quando o secretário do Interior, James Harlan, descobriu que Whitman era o autor de Leaves of Grass, que Harlan achou ofensivo. Harlan demitiu o poeta.

Whitman lutou para se sustentar durante a maior parte de sua vida. Em Washington, ele vivia com o salário de um funcionário e os royalties modestos, e gastava qualquer excesso de dinheiro, incluindo presentes de amigos, para comprar suprimentos para os pacientes que ele alimentava. Ele também estava enviando dinheiro para sua mãe viúva e um irmão inválido. De tempos em tempos, escritores nos estados e na Inglaterra lhe enviavam “bolsas” de dinheiro para que ele pudesse sobreviver.

No início da década de 1870, Whitman se estabeleceu em Camden, Nova Jersey, onde ele veio visitar sua mãe moribunda na casa de seu irmão. No entanto, depois de sofrer um derrame, Whitman achou impossível retornar a Washington. Ele ficou com seu irmão até que a publicação de 1882 de Leaves of Grass (James R. Osgood) deu a Whitman dinheiro suficiente para comprar uma casa em Camden.

Na simples casa de madeira de dois andares, Whitman passou seus anos decadentes trabalhando em acréscimos e revisões de uma nova edição do livro e preparando seu volume final de poemas e prosa, Adeus, Minha Fantasia (David McKay, 1891). Após sua morte em 26 de março de 1892, Whitman foi enterrado em uma tumba que ele projetou e havia construído a muito tempo em Harleigh Cemetery.

Juntamente com Emily Dickinson, ele é considerado um dos poetas mais importantes da América.

14 de setembro de 2018

Senhor, que és o céu e a terra, e que és a vida e a morte ~~ Fernando Pessoa (Arquivo Pessoa - OBRA INÉDITA - Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho - Lisboa: Ática, 1966. - 61)

Senhor, que és o céu e a terra, e que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo estás — (o teu templo) — eis o teu corpo.

Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

[...]

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.

12 de setembro de 2018

Caio Fernando Abreu - (Caio Fernando Loureiro de Abreu ~~ Santiago do Boqueirão/RS, 12 de setembro de 1948 ~~ Porto Alegre/RS, 25 de fevereiro de 1996)

* “Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez, que leve para longe da minha boca este gosto podre de fracasso, este travo de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando. A chave gira na porta. Preciso me apoiar contra a parede para não cair.”
- Caio Fernando Abreu, fragmento do conto “Os Sobreviventes". em: Morangos Mofados. (Saraiva de Bolso). Edição especial, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2013. p. 29.

* "[...] sem conseguir juntar os sons em palavras, como uma língua estrangeira, como uma língua molhada, nervosa entrando rápida pelo mais secreto de mim para acordar alguma coisa que não devia acordar nunca, que não devia abrir os olhos nem sentir cheiros nem gostos nem tatos, uma coisa que devia permanecer para sempre surda cega muda naquele mais dentro de mim, como os reflexos escondidos, que nenhum ofuscamento se fizesse outra vez, porque devia ficar enjaulada amordaçada ali no fundo pantanoso de mim, feito bicho numa jaula fedida, entre grades e ferrugens, quieta, domada, fera esquecida da própria ferocidade, para sempre e sempre assim."
- Caio Fernando Abreu, fragmento do conto "Sargento Garcia". In: Morangos Mofados. (Saraiva de Bolso). Edição especial, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2013. p. 93 e 94.

* "Provisoriamente, guardei minha alegria. Mas sou bonito assim: quase nascendo. Quem canta, custa a morrer, e eu não sabia."
- Caio Fernando Abreu, fragmento de "Uma Canção provisória". em "Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu". [Organização Letícia da Costa Chaplin, Márcia Ivana de Lima e Silva]. Rio de Janeiro: Editora Record, 2012.

* "Parece exagero, mas eu comecei a escrever ficção com 6 anos de idade, assim que aprendi a ler e escrever. As coisas foram indo devagar. Eu nasci no interior e minha avó, que era professora de português no colégio estadual, me estimulava muito. Minha mãe era professora de história, tinha muito livro em casa, e eu comecei a escrever de uma forma um pouco inconsistente, intuitiva mesmo. Logo comecei a inventar as minhas historinhas: minha primeira heroína foi Lili Terremoto, uma menina da pá virada. Não parei mais. Eu não sabia muito bem o que estava fazendo. Acho que não me passava pela cabeça que livros fossem escritos por escritores. Não sabia que queria ser escritor. Depois, eu comecei a ir por esse caminho, li muito Monteiro Lobato, li As mil e uma noites, e atacava a biblioteca do meu pai às escondidas: as coisas que ele me proibia de ler eram justamente as que eu lia."
- Caio Fernando Abreu, do "seu diário", publicado em “Para sempre teu, Caio F.: cartas, memórias, conversas de Caio Fernando Abreu”, de Paula Dip. 2ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2009.

* “A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso”
- Caio Fernando Abreu, em "Ovelhas Negras", Porto Alegre: Sulina, 1995.

* "Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que fica em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro."
- Caio Fernando Abreu, fragmento de “Lixo e Purpurina”, em: Ovelhas Negras, Porto Alegre: Sulina, 1995.

*"− São tudo histórias, menino. A história que está sendo contada, cada um a transforma em outra, na história que quiser. Escolha, entre todas elas, aquela que seu coração mais gostar, e persiga-a até o fim do mundo. Mesmo que ninguém compreenda, como se fosse um combate. Um bom combate, o melhor de todos, o único que vale a pena. O resto é engano, meu filho, é perdição."
- Caio Fernando Abreu, em "Onde andará Dulce Veiga?", Porto Alegre: Editora Agir, 1990.

* "Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada."
- Caio Fernando Abreu, em “Os Dragões não conhecem o paraíso”, São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

* "Descobre, desvenda. Há sempre mais por trás. Que não te baste nunca uma aparência do real."
- Caio Fernando Abreu, fragmento de "Dodecaedro Sétimo fragmento da décima terceira voz", em: Triângulo das águas, 1983.

* “[...] Creio que movido pela esperança de que a luz e o calor pudessem amenizar a dor e secar as feridas, aproximei-me lentamente do fogo. Estendi as mãos e, quando olhei em volta, havia mais doze pares de mãos estendidas ao lado das minhas. Os doze pares de mãos estavam cheios de feridas úmidas e violáceas. Todos viram ao mesmo tempo, mas ninguém gritou. Eu gostaria de ter conseguido olhá-los no fundo dos olhos, de ter visto neles qualquer coisa como compaixão, paciência, tolerância, ou mesmo amizade, quem sabe amor. Não tenho certeza de ter conseguido.”
- Caio Fernando Abreu, em “Pedras de Calcutá”. São Paulo: Alfa-Ômega, 1977, p. 21.

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Caio sobre o período da Ditadura no Brasil:

"Aconteceram coisas bastante duras nos últimos tempos [...], mas a conclusão, amarga, é que não há lugar para gente como nós aqui neste país, pelo menos enquanto se vive dentro de uma grande cidade. As agressões e repressões nas ruas são cada vez mais violentas, coisas que a gente lê um dia no jornal e no dia seguinte sente na própria pele. A gente vai ficando acuado, medroso, paranóico: eu não quero ficar assim, eu não vou ficar assim. Por isso mesmo estou indo embora. [...] Acho que o mundo está aí pra ser visto e curtido, antes que acabe. Vou de consciência tranquila, sabendo que dentro de todo o bode fiz o que era possível fazer por aqui. E não sei quando volto. Nem se volto."
- Caio Fernando Abreu, "carta" in: "Caio Fernando Abreu: cartas" (org.), Italo Moriconi. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002, p. 437. (Cansado desta realidade, Caio se exilou por um ano na Europa).

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Caio Fernando Loureiro de Abreu (Santiago do Boqueirão/RS, 12 de setembro de 1948 - Porto Alegre/RS, 25 de fevereiro de 1996). Foi escritor e jornalista, além de manter fortes vínculos com o teatro. Iniciou-se na literatura com o conto “O príncipe sapo” (Cláudia, 1966) e o romance Limite branco (1970). O gênero privilegiado pelo autor foi o conto, tendo publicado os livros: Inventário do irremediável (1970 – Prêmio Fernando Chinaglia, 1969); O ovo apunhalado (1975 – Prêmio Nacional de Ficção, 1973) com trechos censurados sob a alegação de atentado aos bons costumes; Pedras de Calcutá (1977);Morangos mofados (1982), um dos seus maiores sucessos de críticas e de vendas; Triângulo das águas (1983 – Prêmio Jabuti, 1985) conjunto de três narrativas longas, que não alcançou o êxito do anterior.

Com Os dragões não conhecem o paraíso (1988), volta a ganhar destaque, mantido com o seu segundo romance, Onde andará Dulce Veiga? (Prêmio APCA Melhor Romance do Ano, 1991, e um dos seis finalistas do Prêmio Laura Battaglion, melhor romance traduzido na França, 1994). Lançou ainda os contos de Ovelhas negras, (Prêmio Jabuti, 1996) e, postumamente, foram lançados Estranhos estrangeiros e a coletânea de crônicas Pequenas epifanias (1996). Publicou ainda As frangas (1989), para o público infantil, e participou de diversas antologias.

Destacou-se também na atividade teatral: atuou, escreveu e teve adaptados diversos textos para o palco. Recebeu o prêmio Leitura do Serviço Nacional de Teatro (1974) pela peça Uma visita ao fim do mundo (redenominada Pode ser que seja só o leiteiro lá fora) e o Prêmio Molière (1989) pela peça A maldição do Vale Negro, escrita com Luiz Arthur Nunes. O livro Teatro completo (1997) reúne sua produção teatral.

A carreira literária mesclou-se sempre com a atividade jornalística, sua principal fonte de subsistência: trabalhou na primeira equipe da revista Veja (1968), nas revistas Manchete e Pais e Filhos (1971) e Isto É (1983). Em Porto Alegre, atuou nos jornais Zero Hora (1972; 1994 – 1995) e Folha da Manhã (1974; 1976). Entre 1977 e 1980, em São Paulo, trabalhou nas revistas Pop, Nova e Veja. Foi editor das revistas literárias Leia Livros (1981) e A-Z (1985) e redator do Caderno 2 de O Estado de São Paulo (1986 – 1988 e 1993 – 1995).

As primeiras manifestações da crítica sobre sua obra apontavam-no como representante de uma determinada geração ou segmento social, evidenciando relações sociológicas entre a obra e vivência de um grupo cuja visão de mundo revela-se diferente dos padrões comportamentais hegemônicos da sociedade tradicional. À medida que sua produção se desenvolveu, a identificação não se fez mais com a geração dos anos 60-70, mas sim é designado porta-voz daqueles que se sentiam sufocados em uma sociedade massificadora e alienante, independente de uma filosofia de grupo: era o escritor que falava da falência dos sonhos, mas principalmente da inadequação e do vazio das pessoas no cenário das grandes cidades. Na obra, apesar dos aspectos negativos do dia-a-dia, é nítido o tema da constante busca por algo capaz de dar sentido à vida, pela possibilidade de se descobrir uma forma de realização pessoal que supere o esmagamento dos sonhos. Assim, Caio lida com temas universais e permanentes, inerentes aos questionamentos mais profundos do ser humano, e transcendentes às circunstâncias sócio-históricas que por ventura tenham estimulado a produção.
Fonte: PIVA, Mairim Linck. ‘Verbete biográfico’. in: Pequeno Dicionário da Literatura do Rio Grande do Sul. (organização Luiz Antonio de Assis Brasil; Maria Eunice Moreira; e Regina Zilberman). Porto Alegre: Novo Século, 1999.

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Cronologia

1948 - Caio Fernando Loureiro de Abreu nasce no dia 12 de setembro de 1948, em Santiago do Boqueirão (RS), cidade fronteiriça com a Argentina.
1954 - Com seis anos de idade, Caio F. escreve seus primeiros textos.
1963 - Caio F. se muda para Porto Alegre para cursar o colegial.
1966 - Seu primeiro conto, "O Príncipe Sapo" é publicado na revista Cláudia. Inicia a escritura do primeiro romance Limite Branco.
1967 - Começa o curso de Letras e Arte Dramática na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), não conclui nenhum dos cursos. Dedica-se ao jornalismo.
1968 - Após seleção em um concurso nacional, muda-se para São Paulo para integrar a primeira redação da revista Veja. Recebe menção honrosa do Prêmio José Lins do Rego para o conto Três tempos mortos.
1969 - Recebe o Prêmio Fernando Chinaglia da União Brasileira de escritores (UNEB) para a coletânea de contos Inventário do irremediável. Participa da antologia de autores gaúchos Roda de fogo.
1970 - Publica pela editora Movimento o livro Inventário do irremediável.
1971 - Caio F. se muda para o Rio de Janeiro para ser pesquisador e redator das revistas Manchete e Pais e Filhos, do grupo Bloch Editores. Ele retorna para Porto Alegre onde é preso por porte de drogas.
1972 - É redator do jornal Zero Hora e colaborador do Suplemento Literário de Minas Gerais. Recebe o prêmio do Instituto Estadual do Livro para o conto Visita que será publicado posteriormente na coletânea O ovo apunhalado.
1973 - Viaja para a Europa onde se sustenta exercendo vários tipos de trabalho como modelo, faxineiro ou lavador de pratos. O livro O ovo apunhalado receba menção honrosa do Prêmio Nacional de Ficção.
1974 - De volta ao Brasil, ele trabalha em Porto Alegre com o grupo teatral Província como ator na peça Sarau das Nove às Onze. Escreve para o teatro. Colabora com diversos veículos de imprensa, inclusive com a imprensa alternativa para Opinião, Movimento, Ficção, Inéditos, Versus, Paralelo, Escrita.
1975 - O livro O ovo apunhalado sofre vários cortes da censura e é reconhecido pela Veja como um dos melhores livros do ano. Sua peça Pode ser que seja só o leiteiro lá fora, primeiramente intitulada Uma visita ao fim do mundo, recebe o Prêmio Leitura do SNT.
1976 - Trabalha como crítico teatral na Folha da Manhã. Participa das antologias Assim escrevem os Gaúchos e Teia.
1977 - Publicação de Pedras de Calcutá e participação na antologia História de um Novo Tempo.
1978 - Muda-se para São Paulo onde trabalha como redator da revista Pop. Participa da Antologia de Literatura Rio-Grandense Contemporânea.
1980 - Recebe o Prêmio Status de Literatura para o conto Sargento Garcia.
1981 - Torna-se editor da Leia Livros.
1982 - Lançamento de Morangos Mofados pela editora Brasiliense.
1983 - Muda-se para Rio de Janeiro para colaborar com a revista Isto é. Publica Triangulo das águas.
1984 - Primeira encenação, com direção de Luciano Alabarse, da peça Pode ser que seja só o leiteiro lá fora, em Porto Alegre, no Clube da Cultura. O livro Triângulo das águas ganha o prêmio Jabuti.
1985 - Volta para São Paulo onde trabalha como editor da revista A-Z. Escreve um roteiro para a série de TV Joana Repórter estreada por Regina Duarte. Morangos mofados é adaptado para o teatro e encenado por Paulo Yutaka.
1986 - Trabalha como redator no Caderno 2 do Estado de São Paulo. Em Porto Alegre a adaptação teatral de Morangos mofados é encenada por Luciano Alabarse.
1987 - Escreve a peça teatral A maldição do Vale Negro em colaboração com Luiz Artur Nunes. Escreve o roteiro da longa metragem de Sérgio Bianchi intitulado Romance.
1988 - Publica Os dragões não conhecem o paraíso. Trabalha novamente como redator para a revista A-Z. Lançamento de Mel & girassóis pela editora Mercado Aberto.
1989 - Recebe o Prêmio Molière junto com Luiz Artur Nunes pela autoria do melodrama A maldição do Vale Negro. Publicação do primeiro livro infantil As frangas pela Editora Globo.
1990 - Publicação do romance Onde andará Dulce Veiga? pela Companhia das Letras.
Em Londres, tradução para o inglês do livro Os dragões não conhecem o paraíso sob o título de Dragons..., é publicada pela editora Boulevard Books e traduzido por David Treece.
1991 - Em Paris é traduzido sob o titulo: Les dragons ne connaissent pas le paradis, pelas edições Complexe e é traduzido por Claire Cayron. Onde Andará Dulce Veiga? recebe o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) de melhor romance do ano.
1992 - Mora três meses na França, em Saint-Nazaire, como escritor/residente na Maison des Écrivains et des traducteurs Étrangers (MEET), onde ele escreve a novela Bien loin de Marienbad.
1993 - Realiza leituras de sua obra, em Amsterdam, Utrecht e Haia e na Holanda. Participa, em Berlim, do Congresso Internacional de Literatura e Homossexualismo. Em Milão, lança, em italiano, de Dov’è Finita Dulce Veiga?, pela editora Zanzibar, traduzido por Adelina Aletti. Representa o Brasil na III Interlit, Encontro Internacional de Escritores, em Erlangen, na Alemanha, junto dos escritores Rubem Fonseca e Sonia Coutinho. Leituras de sua obra em Erlangen, Nüremberg e Berlim. Escreve crônicas dominicais no jornal o Estado de São Paulo.
1994 - Reedição pela editora paulista Siciliano do seu primeiro romance Limite Branco. São lançados no Salão do Livro de Paris: Qu’est devenue Dulce Veiga?, publicado pelas edições Autrement; Bien loin de Marienbad, publicado pelas edições Arcane 17 e L’Autre voix, publicado pelas edições Complexe. Todos são traduzidos por Claire Cayron.
O autor retorna da França e anuncia, explicitamente, na crônica publicada no jornal O Estado de S. Paulo “Última carta para além dos muros”: “Voltei da Europa em junho me sentindo doente. Febres, suores, perda de peso, manchas na pele. Procurei um médico e, à revelia dele, fiz O Teste. Aquele. Depois de uma semana de espera agoniada, o resultado: HIV Positivo.” (ABREU, 2006, p. 212).
Leitura dramática de seu monólogo teatral O homem e a Mancha, no primeiro Porto Alegre em Cena.
O autor volta a morar com os pais e a partir de outubro torna-se colaborador do caderno Cultura do jornal Zero Hora. Em Amsterdam lança de Waar zit Dulce Veiga?, traduzido por Maartje de Kort. Participa da 46° Feira Internacional do Livro de Frankfurt que tem o Brasil como pais-tema. Lança na Alemanha de Waas Geschach Wirklich mit Dulce Veiga?, traduzido por Gerd Hilger.
Caio F. Abreu - Foto: (...)1995 - É escolhido pela Câmara Rio-Grandense do Livro para ser patrono da 41° Feira do Livro de Porto Alegre. Participa da antologia The Penquim Book of International Gay Writing com o conto Beauty (Linda, uma história horrível), traduzido por David Treece. Em maio, é publicada pela editora Sulina a antologia de textos Ovelhas Negras. Em setembro, na Itália, as edições Zanzibar publicam Molto Lontano di Marienbad, com tradução de Bruno Parsico. Reedição do seu primeiro livro de contos completamente reformulado, sob o título Inventario do irremediável.
1996 - Em 25 de fevereiro, Caio Fernando Abreu falece em Porto Alegre, aos 47 anos. Ovelhas Negras recebe o Prêmio Jabuti de melhor livro de contos do ano.

Fonte: Delfos - Espaço de Documentação e Memória Cultural/PUC-RS - Acervo Caio Fernando Abreu



9 de setembro de 2018

José ~~ poema de Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Um dos maiores e mais conhecidos poemas de Drummond, "José" exprime a solidão do individuo na cidade grande, a sua falta de esperança e a sensação de estar perdido na vida.

José, um nome muito comum, pode ser entendido como um sujeito coletivo, simbolizando um povo. Assim, parece-nos estar perante a realidade de muitos que superam inúmeras privações e batalham, dia após dia, por um futuro melhor. Mas mesmo listando possíveis soluções ou saídas para a situação atual, percebem que nenhuma delas funcionaria.

Nem mesmo o passado ou a morte surgem como refúgios. Contudo, o sujeito assume a sua própria força e resiliência ("Você é duro, José!"). Sozinho, sem a ajuda de Deus ou o apoio dos homens, continua vivo e segue em frente, mesmo sem saber para onde.

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O poema "José" de Carlos Drummond de Andrade foi publicado originalmente em 1942, na coletânea Poesias.

3 de setembro de 2018

Avante cavaleiro andante... Miguel de Cervantes (D. Quixote de La Mancha - 1605 e 1615)

Dom Quixote Salvador Dalí

Concluídos, pois todos estes arranjos, não quis retardar mais o pôr em efeito o seu pensamento, estimulando-o a lembrança da falta que estava fazendo ao mundo a sua tardança, segundo eram os agravos que pensava desfazer, sem-razões que endireitar, injustiças que reprimir, abusos que melhorar, e dívidas que satisfazer. E assim, sem a ninguém dar parte de sua intenção, e sem que ninguém o visse, uma manhã antes do dia, que era um dos encalmados de julho, apercebeu-se de todas as suas armas, montou-se no Rocinante, posta a sua celada feita à pressa, embraçou sua adaga, empunhou a lança, e pela porta furtada de um pátio se lançou ao campo, com grandíssimo contentamento e alvoroço, de ver com que felicidade dava principio ao seu bom desejo.

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"A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos, que aos homens deram os céus: não se lhe podem igualar os tesouros que há na terra, nem os que o mar encobre; pela liberdade, da mesma forma que pela honra, se deve arriscar a vida, e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode acudir aos homens."