19 de agosto de 2018

Federico Garcia Lorca (‎5 de junho de 1898 ~~18 de agosto de 1936 (38 anos) ~~ Três poemas de Garcia Lorca extraídos de “Romancero Gitano” ~~ em "Obra poética completa" ~~(tradução de William Agel de Melo)

“Solo el misterio nos hace vivir. Solo el misterio”

Cantos novos (Agosto de 1920)

Diz a tarde: “Tenho sede de sombra!”
Diz a lua: “Eu, sede de luzeiros.”
A fonte cristalina pede lábios
e suspira o vento.

Eu tenho sede de aromas e de sorrisos,
sede de cantares novos
sem luas e sem lírios,
e sem amores mortos.

Um cantar de manhã que estremeça
os remansos quietos
do porvir. E encha de esperança
suas ondas e seus lodaçais.

Um cantar luminoso e repousado
cheio de pensamento,
virginal de tristezas e de angústias
e virginal de sonhos.

Cantar sem carne lírica que encha
de risos o silêncio
(um bando de pombas cegas
lançadas ao mistério).

Cantar que vá à alma das coisas
e à alma dos ventos
e que descanse por fim na alegria
do coração eterno.

&

Cantos nuevos (Agosto de 1920)

Dice la tarde: “¡Tengo sed de sombra!”
Dice la luna: “¡Yo, sed de luceros!”
La fuente cristalina pide labios
y suspira el viento.

Yo tengo sed de aromas y de risas,
sed de cantares nuevos
sin lunas y sin lirios,
y sin amores muertos.

Un cantar de mañana que estremezca
a los remansos quietos
del porvenir. Y llene de esperanza
sus ondas y sus cienos.

Un cantar luminoso y reposado
pleno de pensamiento,
virginal de tristezas y de angustias
y virginal de ensueños.

Cantar sin carne lírica que llene
de risas el silencio
(una bandada de palomas ciegas
lanzadas al misterio).

Cantar que vaya al alma de las cosas
y al alma de los vientos
y que descanse al fin en la alegría
del corazón eterno.

&

Chagas de amor

Esta luz, este fogo que devora.
Esta paisagem gris que me rodeia.
Esta dor por uma só ideia
Esta angústia de céu, mundo e hora.

Este pranto de sangue que decora
lira já sem pulso, lúbrica teia.
Este peso do mar que me golpeia
Esta lacraia que em meu peito mora.

São grinaldas de amor, cama de ferido,
onde sem sono, sonho tua presença
entre as ruínas de meu peito oprimido.

E ainda que busque o cume da prudência,
me dá teu coração vale estendido
com cicuta e paixão de amarga ciência.

&

Llagas de amor

Esta luz, este fuego que devora.
Este paisaje gris que me rodea.
Este dolor por una sola idea.
Esta angustia de cielo, mundo y hora.

Este llanto de sangre que decora
lira sin pulso ya, lúbrica tea.
Este peso del mar que me golpea.
Este alacrán que por mi pecho mora.

Son guirnalda de amor, cama de herido,
donde sin sueño, sueño tu presencia
entre las ruinas de mi pecho hundido.

Y aunque busco la cumbre de prudencia,
me da tu corazón valle tendido
con cicuta y pasión de amarga ciencia.

&

E depois

Os labirintos
que cria o tempo
se desvanecem.

(Só fica
o deserto.)

O coração,
fonte do desejo,
se desvanece.

(Só fica
o deserto)

A ilusão da aurora
e os beijos
se desvanecem.

Só fica
o deserto.
Um ondulado
deserto.

&

Y despues

Los laberintos
que crea el tiempo
se desvanecen.

(Solo queda
el desierto.)

El corazón,
fuente del deseo,
se desvanece.

(Solo queda
el desierto.)

La ilusión de la aurora
y los besos
se desvanecen.

Solo queda
el desierto.
Un ondulado
desierto.

&&&&&&&

Deixaria neste livro/ toda a minha alma./ Este livro que viu/ as paisagens comigo/ e viveu horas santas./ Que pena dos livros/ que nos enchem as mãos/ de rosas e de estrelas/ e lentamente passam! (...)"

Federico García Lorca foi um dos maiores poetas espanhóis do século XX, mas foi também um incansável pesquisador da cultura de seu povo e um divulgador do teatro popular e um ativista por demais interessante. Inteiramente avesso a qualquer tipo de violência física, Lorca dedicou seu fervor republicano a um ativismo cultural itinerante. Uma parte considerável de seus poemas e obras teatrais dialoga diretamente com as tradições de crítica e contestação populares e desnuda uma Espanha violenta, ignorante e fratricida, permeada por uma religiosidade opressora e uma classe dominante despótica.

Em agosto de 1936, logo depois do início da Guerra Civil Espanhola, o poeta foi arrestado, a partir de uma ordem escrita das autoridades franquistas e foi fuzilado na madrugada de 18 para 19 do mesmo mês. As circunstâncias do assassinato de Lorca permaneceram obscuras durante décadas, seu corpo nunca foi encontrado e, somente recentemente, documentos provando a autoria e a procedência das ordens superiores para sua morte vieram a luz. As circunstâncias do encobrimento desse assassinato foram exaustivamente pesquisadas por Ian Gibson, autor de farto material sobre Lorca.

Afinal, o aspecto mais monstruoso do assassinato de Lorca é exatamente seu caráter clandestino e criminoso. Os franquistas não tiveram a coragem e nem decência de prendê-lo abertamente como fizeram com outros tantos intelectuais. Ele foi arrestado para a prisão em surdina e depois de assassinado foi jogado em alguma vala comum ou sepultado em local desconhecido para impedir que sua memória fosse respeitada.

O fato de Federico ser homossexual era considerado inadmissível no mundo católico franquista e esse foi um dos fatores que precipitou sua eliminação. A covardia das autoridades espanholas, que durante décadas se recusaram a assumir qualquer responsabilidade nesse crime e nada fizeram para localizar seus restos mortais e devolvê-los à família, figura na galeria da infâmia da humanidade. Bem como a recusa de admitir que o poeta não representava qualquer perigo físico aos falangistas e foi assassinado por motivos torpes ligados ao machismo patriarcal.

Fonte: COMPARTILHANDOHISTORIAS

Nenhum comentário: