31 de agosto de 2018

A flor e a náusea - Carlos Drummond de Andrade

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Por fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ónibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos move-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

22 de agosto de 2018

Trechos do Livro ~~ Água Viva ~~ de Clarice Lispector (Água viva : Editora Rocco 1973)

Sinopse:

Neste longo texto ficcional em forma de monólogo, Clarice Lispector se confunde com a personagem, uma solitária pintora que se lança em infinitas reflexões sobre o tempo, a vida e a morte, os sonhos e visões, as flores, os estados da alma, a coragem e o medo e, principalmente, a arte da criação, do saber usar as palavras num jogo de sons e silêncios que se combinam. Tudo é revelado através do olhar dessa pintora-narradora, que cai em estado de graça em plena madrugada.

&&&&&&&

“Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa. Esses instantes que decorrem no ar que respiro: em fogos de artifícios eles espocam mudos no espaço. Quero possuir os átomos do tempo. E quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já."

&

"A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio".

&

"O dia parece a pele esticada e lisa de uma fruta que numa pequena catástrofe os dentes rompem, o seu caldo escorre. Tenho medo do domingo maldito que me liquidifica".

&

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada".

&

"O que mais me emociona é que o que não vejo contudo existe. Porque então tenho aos meus pés todo um mundo desconhecido que existe pleno e cheio de rica saliva. A verdade está em alguma parte: mas inútil pensar. Não a descobrirei e no entanto vivo dela".

&

"Criar a si próprio um ser é muito grave. Estou me criando. E andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos. Dói. Mas é dor de parto: nasce uma coisa que é. É-se. É duro como uma pedra viva".

&

"De novo estou de amor alegre. O que és eu respiro depressa sorvendo o teu halo de maravilha antes que se finde no evaporado o ar. Minha fresca vontade de viver-me e de viver-te é a tessitura mesma da vida? A natureza dos seres e das coisas - é Deus? Talvez então se eu pedir muito à natureza, eu paro de morrer? Posso violentar a morte e abrir-lhe uma fresta para a vida?"

&

"Ao amanhecer eu penso que nós somos os contemporâneos do dia seguinte: que o Deus me ajude. Estou perdida. Preciso terrivelmente de você. Nós temos que ser dois. Para que o trigo fique alto."


19 de agosto de 2018

Federico Garcia Lorca (‎5 de junho de 1898 ~~18 de agosto de 1936 (38 anos) ~~ Três poemas de Garcia Lorca extraídos de “Romancero Gitano” ~~ em "Obra poética completa" ~~(tradução de William Agel de Melo)

“Solo el misterio nos hace vivir. Solo el misterio”

Cantos novos (Agosto de 1920)

Diz a tarde: “Tenho sede de sombra!”
Diz a lua: “Eu, sede de luzeiros.”
A fonte cristalina pede lábios
e suspira o vento.

Eu tenho sede de aromas e de sorrisos,
sede de cantares novos
sem luas e sem lírios,
e sem amores mortos.

Um cantar de manhã que estremeça
os remansos quietos
do porvir. E encha de esperança
suas ondas e seus lodaçais.

Um cantar luminoso e repousado
cheio de pensamento,
virginal de tristezas e de angústias
e virginal de sonhos.

Cantar sem carne lírica que encha
de risos o silêncio
(um bando de pombas cegas
lançadas ao mistério).

Cantar que vá à alma das coisas
e à alma dos ventos
e que descanse por fim na alegria
do coração eterno.

&

Cantos nuevos (Agosto de 1920)

Dice la tarde: “¡Tengo sed de sombra!”
Dice la luna: “¡Yo, sed de luceros!”
La fuente cristalina pide labios
y suspira el viento.

Yo tengo sed de aromas y de risas,
sed de cantares nuevos
sin lunas y sin lirios,
y sin amores muertos.

Un cantar de mañana que estremezca
a los remansos quietos
del porvenir. Y llene de esperanza
sus ondas y sus cienos.

Un cantar luminoso y reposado
pleno de pensamiento,
virginal de tristezas y de angustias
y virginal de ensueños.

Cantar sin carne lírica que llene
de risas el silencio
(una bandada de palomas ciegas
lanzadas al misterio).

Cantar que vaya al alma de las cosas
y al alma de los vientos
y que descanse al fin en la alegría
del corazón eterno.

&

Chagas de amor

Esta luz, este fogo que devora.
Esta paisagem gris que me rodeia.
Esta dor por uma só ideia
Esta angústia de céu, mundo e hora.

Este pranto de sangue que decora
lira já sem pulso, lúbrica teia.
Este peso do mar que me golpeia
Esta lacraia que em meu peito mora.

São grinaldas de amor, cama de ferido,
onde sem sono, sonho tua presença
entre as ruínas de meu peito oprimido.

E ainda que busque o cume da prudência,
me dá teu coração vale estendido
com cicuta e paixão de amarga ciência.

&

Llagas de amor

Esta luz, este fuego que devora.
Este paisaje gris que me rodea.
Este dolor por una sola idea.
Esta angustia de cielo, mundo y hora.

Este llanto de sangre que decora
lira sin pulso ya, lúbrica tea.
Este peso del mar que me golpea.
Este alacrán que por mi pecho mora.

Son guirnalda de amor, cama de herido,
donde sin sueño, sueño tu presencia
entre las ruinas de mi pecho hundido.

Y aunque busco la cumbre de prudencia,
me da tu corazón valle tendido
con cicuta y pasión de amarga ciencia.

&

E depois

Os labirintos
que cria o tempo
se desvanecem.

(Só fica
o deserto.)

O coração,
fonte do desejo,
se desvanece.

(Só fica
o deserto)

A ilusão da aurora
e os beijos
se desvanecem.

Só fica
o deserto.
Um ondulado
deserto.

&

Y despues

Los laberintos
que crea el tiempo
se desvanecen.

(Solo queda
el desierto.)

El corazón,
fuente del deseo,
se desvanece.

(Solo queda
el desierto.)

La ilusión de la aurora
y los besos
se desvanecen.

Solo queda
el desierto.
Un ondulado
desierto.

&&&&&&&

Deixaria neste livro/ toda a minha alma./ Este livro que viu/ as paisagens comigo/ e viveu horas santas./ Que pena dos livros/ que nos enchem as mãos/ de rosas e de estrelas/ e lentamente passam! (...)"

Federico García Lorca foi um dos maiores poetas espanhóis do século XX, mas foi também um incansável pesquisador da cultura de seu povo e um divulgador do teatro popular e um ativista por demais interessante. Inteiramente avesso a qualquer tipo de violência física, Lorca dedicou seu fervor republicano a um ativismo cultural itinerante. Uma parte considerável de seus poemas e obras teatrais dialoga diretamente com as tradições de crítica e contestação populares e desnuda uma Espanha violenta, ignorante e fratricida, permeada por uma religiosidade opressora e uma classe dominante despótica.

Em agosto de 1936, logo depois do início da Guerra Civil Espanhola, o poeta foi arrestado, a partir de uma ordem escrita das autoridades franquistas e foi fuzilado na madrugada de 18 para 19 do mesmo mês. As circunstâncias do assassinato de Lorca permaneceram obscuras durante décadas, seu corpo nunca foi encontrado e, somente recentemente, documentos provando a autoria e a procedência das ordens superiores para sua morte vieram a luz. As circunstâncias do encobrimento desse assassinato foram exaustivamente pesquisadas por Ian Gibson, autor de farto material sobre Lorca.

Afinal, o aspecto mais monstruoso do assassinato de Lorca é exatamente seu caráter clandestino e criminoso. Os franquistas não tiveram a coragem e nem decência de prendê-lo abertamente como fizeram com outros tantos intelectuais. Ele foi arrestado para a prisão em surdina e depois de assassinado foi jogado em alguma vala comum ou sepultado em local desconhecido para impedir que sua memória fosse respeitada.

O fato de Federico ser homossexual era considerado inadmissível no mundo católico franquista e esse foi um dos fatores que precipitou sua eliminação. A covardia das autoridades espanholas, que durante décadas se recusaram a assumir qualquer responsabilidade nesse crime e nada fizeram para localizar seus restos mortais e devolvê-los à família, figura na galeria da infâmia da humanidade. Bem como a recusa de admitir que o poeta não representava qualquer perigo físico aos falangistas e foi assassinado por motivos torpes ligados ao machismo patriarcal.

Fonte: COMPARTILHANDOHISTORIAS

18 de agosto de 2018

16 de agosto de 2018

Cristal ~~ por Maria Laura Guevara (Tradução: Vanda Lúcia da Costa Salles)

by MarinaCoric
"La imagen del espejo no me pertenece,
Hay uma primavera latente todavía.
El otoño se asoma por mis ojos
Relatando uma disimulada melancolia.
Los brillos rojizos del cabello
Como um ocaso ocultan las nueves del
inverno
Em todo mi ser late la vida,
Esa imagen del espejo, no es la mia”

&&&

Espelho

"A imagem do espelho não me pertence,
Ainda há uma fonte oculta.
O outono se assoma em meus olhos
Relatando uma dissimulada melancolia.
Os brilhos avermelhados do cabelo
Como um ocaso oculta as neves
Do inverno
Em todo o meu ser a vida bate,
Essa imagem do espelho, não é a minha"

15 de agosto de 2018

No Silêncio dos Olhos... por José Saramago, em Os Poemas Possíveis/Lisboa, 1985

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

14 de agosto de 2018

Como é o amor para as pessoas inteligentes? (publicado em A Soma de Todos Afetos ~~ Blog oficial da escritora Fabíola Simões) - (Fonte indicada: A Mente é Maravilhosa)

Como é o amor para as pessoas inteligentes? A ciência, sempre interessada nesta dimensão, mostrou que, em média, ter esse perfil não aumenta a probabilidade de encontrar um parceiro afetivo. São mais analíticos, independentes, exigentes… Quando encontram alguém próximo de suas expectativas, o vínculo que podem criar é muito forte e satisfatório.

Para quem procura um livro sobre esse assunto, não há proposta mais esclarecedora, e por sua vez mais divertida, do que “O Tao dos Namoros” (tradução livre), do professor de filosofia de Harvard, Alex Benzer.

Ele explica, a partir de um ponto de vista irônico, por que as pessoas inteligentes tendem a ter relacionamentos menos duradouros. Tal como o próprio autor revela, nem tudo o que reluz é ouro, e ser brilhante do ponto de vista intelectual não se traduz necessariamente em sucesso, especialmente em alguns planos.

“A inteligência e o bom senso abrem caminho com poucos artifícios.”
-Johann Wolfgang von Goethe-

Pessoas inteligentes ficam entediadas facilmente e às vezes até entediam os outros com seus interesses e paixões únicas. São esquecidos, procrastinadores, difíceis de entender, altamente exigentes (e autoexigentes) divagam facilmente, sofrem de constantes crises existenciais e, por último mas não menos importante, possuem um termômetro emocional que oscila desde a sensibilidade mais requintada ao mau humor mais explosivo.

Não são exatamente fáceis, não há dúvidas. No entanto, todos nós, sem levar em conta o nosso QI, também apresentamos nossos cantos, cavidades e bordas singulares. Em questões do coração, nem tudo é harmonia e flechas à primeira vista. Nós sabemos disso. No entanto, do ponto de vista científico, o que as pessoas inteligentes têm em comum quando se trata de viver o amor tem sido tradicionalmente objeto de atenção.

Assim, temos vários estudos sobre como funciona o amor para as pessoas inteligentes. Vamos vê-los.

Como é o amor para as pessoas inteligentes?:

A maioria assume que é muito difícil ser brilhante do ponto de vista intelectual e desfrutar, ao mesmo tempo, de relacionamentos afetivos felizes, estáveis ​​e satisfatórios.

Não é fácil encontrar alguém igual, uma pessoa com o mesmo potencial intelectual, as mesmas paixões e singularidades cognitivas. No entanto, às vezes nos deixamos levar por estereótipos e suposições sem nos permitir perguntar um pouco mais, sem consultar o lado científico.

Em primeiro lugar, há pessoas com um alto QI que estabelecem compromissos satisfatórios. Além disso, algumas pessoas não precisam de um parceiro afetivo com uma mente excepcional para se apaixonar e participar de um relacionamento sólido.

A conexão emocional é suficiente. Em muitos casos, para que o amor nasça, é suficiente contar com alguém capaz de enriquecer pontos de vista, com facilidade de se complementar e que, de uma forma ou de outra, estimule seu crescimento. Para entender como é o amor para as pessoas inteligentes, podemos nos referir a um trabalho realizado pelo psicólogo holandês Pieternel Dijkstra e sua equipe em 2017.

Buscam pessoas que vejam o mundo da mesma maneira:

Perfis com alto QI têm uma concepção muito clara do mundo. Seus ideais, sua filosofia e seu gosto pelo transcendental são às vezes muito altos, de modo que não toleram certas abordagens, comentários banais ou desconsideração por certas áreas do saber e do conhecimento. Gostam das pessoas envolvidas, personalidades com as quais se desviam por interesses comuns, por objetivos semelhantes.

Portanto, não é nada fácil encontrar pessoas que, sem precisarem ser muito inteligentes, sejam brilhantes em termos de ideais, sensibilidades. Por isso, às vezes é tão comum que esse perfil seja frustrado em questões emocionais. Tantas decepções e tentativas fracassadas os levam a preferir sua solidão e independência. Seu desejo seria encontrar um parceiro para ter afinidades mais profundas e transcendentais, aquelas que vão além do intelecto.

As pessoas inteligentes e o apego inseguro:

O professor Pieternel Dijkstra descobriu algo interessante neste estudo. Entre todas as pessoas com alto QI que entrevistaram e analisaram ao longo de vários anos, uma boa parte delas tinham um apego inseguro. O que isso significa e que implicação tem a um nível afetivo?

São pessoas que, em alguns momentos, se mostram próximas e carinhosas e depois mostram frieza emocional.
Também apresentam uma grande insegurança nessa questão de relacionamentos. Temem que, no fundo, sejam abandonados ou traídos, por isso, às vezes, ficam obcecados com certas nuances, analisam qualquer gesto, tom de voz, contradição, etc.

Temem o abandono, mas, ao mesmo tempo, quando a outra pessoa precisa deles, podem mostrar rejeição ou distância. Este é um aspecto complexo que uma parte (não toda) da população com altas capacidades intelectuais apresenta.
Quando o intelecto é combinado com a inteligência emocional: sucesso nos relacionamentos

Apontamos para isso no início: o amor às vezes pode ser tão satisfatório quanto estável para as pessoas inteligentes. Isso acontece em pessoas que combinam um alto potencial intelectual com uma boa inteligência emocional. Podemos acrescentar outra condição: encontrar alguém com as mesmas perspectivas, com aquelas afinidades com as quais harmonizar vidas e projetos.

O amor não é suficiente nestes casos; em primeiro lugar vem esta correspondência em objetivos, em filosofias pessoais, em metas, em valores, em uma implicação com a qual se permitir crescer juntos em uma aspiração comum. Quando isso acontece, o casal é altamente eficaz. São bons em administrar seus conflitos e discrepâncias. Lidam muito bem com o respeito, a comunicação e, ao mesmo tempo, são casais que desfrutam de um alto senso de humor.

Como vemos, o amor não é impossível nesses perfis de alta capacidade: não estão condenados a relacionamentos infelizes e efêmeros. Há sempre uma pessoa adequada, alguém capaz de enriquecer igualmente seu intelecto e seu coração.

13 de agosto de 2018

Saudades por Clarice Lispector

Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...

&

* “Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.”

11 de agosto de 2018

Verso da música "Benvinda" ~~ de Chico Buarque (Francisco Buarque de Hollanda)

(...) Certo de estar perto da alegria
Comunico finalmente
Que há lugar na poesia
Pode ser que você tenha
Um carinho para dar
Ou venha pra se consolar
Mesmo assim pode entrar
Que é tempo ainda, ai
Benvinda

6 de agosto de 2018

Serpente (Snake) ~~David Herbert Lawrence (1885 – 1930) ~~ in "Birds, Beasts and Flowers (1923) ~~ Tradução de Lucas Haas Cordeiro (2012)

Art by Delph Ambi

Uma serpente surgiu em minha tina d’água,
Em um dia muito, muito quente, e eu com pijamas de verão,
Para ali s’embevecer.

Na sombra profunda, o singular aroma, de uma gigantesca árvore de alfarrobas,
Eu descia os degraus, e comigo a ânfora,
E precisei esperar, em pé esperando, porque ali estava ela na tina à minha frente.
Ela descendeu de uma fissura no muro-da-terra na obscuridade
E trilhou a sua indolência marrom-amarelada de ventre-sutil na direção das profundezas, através do limiar da pedra, que era a tina,
E descansou a sua garganta por sobre o leito da pedra,
E onde a água gotejava da torneira, em ínfima clareza,
Ela bebeu com sua boca linear,
Suavemente bebeu através das gengivas, para dentro de seu corpo comprido e vagaroso,

Silenciosamente.

Havia alguém em minha frente na minha tina d’água,
E eu, como um outro, à espera.

Ela alçou a cabeça do embevecimento, como faz o gado,
E olhou para mim vagamente, como faz o gado que embevece,
E tremeluziu a língua bifurcada em seus lábios, e meditou por um momento.
E inclinou-se e embeveceu-se ainda mais,
Suas cores do marrom da terra, do dourado da terra das vísceras flamejantes da terra
Em um dia siciliano de julho, quando Etna fumava.

A voz da minha educação enunciou que
Eu precisava matá-la,
Porquanto na Sicília as cobras negras negras são inocentes, e as douradas venenosas.

E as vozes em mim disseram, Se tu fosses um homem
Tomarias para ti um graveto e quebranta-la-ia, e acabaria com isto.

Mas deveria eu confessar que me afeiçoeei a ela,
Que exultei a sua tão tranquila presença, a embevecer-se em minha tina d’água
E a ir-se embora em paz, pacificada, sem jamais agradecer-me,
Para dentro das vísceras flamejantes da terra?

Foi covardia, o não ousar matá-la?
Foi perversão, o desejo de comunicar-me?
Foi por humildade a honradez?
Eu realmente me senti honrado.

E ainda assim aquelas vozes:
Se não estivesses com medo, mata-la-ia!

E eu verdadeiramente temia, eu estava incrivelmente assutado,
E por isso mesmo, ainda mais honrado
Por ela desejar a minha hospitalidade
De através da porta sombria dos segredos da terra.

Ela embeveceu-se o bastante
E soergueu a cabeça, oniricamente, como um bêbedo,
E tremeluziu a língua como uma noite bifurcada pelos ares, tão negra,
Parecendo lamber-se os lábios,
E olhou ao redor como um deus, invisível no ar,
E vagarosamente virou a cabeça,
E vagarosa, vagarosamente, três vezes onírica
Evocou o traçado de seu lento comprimento a curvar-se em rodopios
A escalar a margem esfacelada das faces do muro.

E à medida em que ela instigava as faces para dentro do buraco mais terrível,
E à medida em que ela lentamente ascendia, abreviando viboramente os ombros, imiscuindo-se nas profundezas,
Uma espécie de horror, uma espécie de protesto contra a sua retirada para dentro do nefasto buraco negro,
Deliberadamente avançando em direção à escuridão, e vagarosamente levando a si mesma consigo,
Dominou-me, agora que encarava-me pela superfície oposta.

Eu olhei ao redor, livrei-me da ânfora,
Peguei uma tora grosseira
E arremessei-a dentro da tina d’água com um estrondo.

Pensei que não a tivesse acertado;
Mas de repente aquela parte da serpente que ficara para trás convulsionou com indigna prontidão,
Estorcendo-se como um raio, e esvaeceu
Dentro do buraco negro, a fissura labial da terra na fronte do muro,
O qual, na intensidade do meio-dia, eu fiquei a contemplar.

E imediatamente arrependi-me.
Pensei em quão insignificante, quão vulgar, um ato tão mesquinho!
Desprezei a mim mesmo e às vozes de minha maldita educação humana.

E pensei no albatroz,
E desejei que ela retornasse, a minha serpente.

Porque ela era como um rei, aos meus olhos,
Como um rei no exílio, destronado no submundo,
Prestes a ser coroado novamente.

E então, eu perdi a minha chance com um dos soberanos
Da vida.
E eu tinha algo a expiar:
A minha mesquinhez.


&&&&&&&&

Snake

A snake came to my water-trough
On a hot, hot day, and I in pyjamas for the heat,
To drink there.

In the deep, strange-scented shade of the great dark carob tree
I came down the steps with my pitcher
And must wait, must stand and wait, for there he was at the trough before me.
He reached down from a fissure in the earth-wall in the gloom
And trailed his yellow-brown slackness soft-bellied down, over the edge of the stone trough
And rested his throat upon the stone bottom,
And where the water had dripped from the tap, in a small clearness,
He sipped with his straight mouth,
Softly drank through his straight gums, into his slack long body,
Silently.

Someone was before me at my water-trough,
And I, like a second-comer, waiting.

He lifted his head from his drinking, as cattle do,
And looked at me vaguely, as drinking cattle do,
And flickered his two-forked tongue from his lips, and mused a moment,
And stooped and drank a little more,
Being earth-brown, earth-golden from the burning bowels of the earth
On the day of Sicilian July, with Etna smoking.

The voice of my education said to me
He must be killed,
For in Sicily the black, black snakes are innocent, the gold are venomous.

And voices in me said, if you were a man
You would take a stick and break him now, and finish him off.

But must I confess how I liked him,
How glad I was he had come like a guest in quiet, to drink at my water-trough
And depart peaceful, pacified, and thankless,
Into the burning bowels of this earth ?

Was it cowardice, that I dared not kill him ?
Was it perversity, that I longed to talk to him ?
Was it humility, to feel so honoured ?
I felt so honoured.

And yet those voices :
If you were not afraid, you would kill him !

And truly I was afraid, I was most afraid,
But even so, honoured still more
That he should seek my hospitality
From out the dark door of the secret earth.

He drank enough
And lifted his head, dreamily, as one who has drunken,
And flickered his tongue like a forked night on the air, so black,
Seeming to lick his lips,
And looked around like a god, unseeing, into the air,
And slowly turned his head,
And slowly, very slowly, as if thrice adream,
Proceeded to draw his slow length curving round
And climb again the broken bank of my wall-face.

And as he put his head into that dreadful hole,
And as he slowly drew up, snake-easing his shoulders, and entered farther,
A sort of horror, a sort of protest against his withdrawing into that horrid black hole,
Deliberately going into the blackness, and slowly drawing himself after,
Overcame me now his back was turned.

I looked round, I put down my pitcher,
I picked up a clumsy log
And threw it at the water-trough with a clatter.

I think it did not hit him,
But suddenly that part of him that was left behind convulsed in undignified haste,
Writhed like lightning, and was gone
Into the black hole, the earth-lipped fissure in the wall-front,
At which, in the intense still noon, I stared with fascination.

And immediately I regretted it.
I thought how paltry, how vulgar, what a mean act !
I despised myself and the voices of my accursed human education.

And I thought of the albatross,
And I wished he would come back, my snake.

For he seemed to me again like a king,
Like a king in exile, uncrowned in the underworld,
Now due to be crowned again.

And so, I missed my chance with one of the lords
Of life.
And I have something to expiate :
A pettiness.


&&&&&&&



David Herbert Lawrence (1885 – 1930), ou D. H. Lawrence, como é mais conhecido, foi um importante romancista, dramaturgo, poeta e crítico literário do modernismo inglês. Apesar de mais conhecido por seus romances, como O Amante de Lady Chatterley ou A Virgem e o Cigano, Lawrence foi autor de cerca de 800 poemas, organizados em 12 volumes, fora as antologias. Até o seu segundo volume, Amores (1916), ele escrevia com metro e rima, mas passa a adotar o verso livre whitmaniano a partir do terceiro livro, Look! We have come through! (1917).

4 de agosto de 2018

Quem me quiser... ~~ por Rosa Lobato de Faria

Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.
Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.

&


Rosa Lobato de Faria, nasceu em Lisboa em abril de 1932, e faleceu a 2 de fevereiro de 2010, aos 77 anos, tendo sido uma das mais importantes atrizes, poetisas e romancistas portuguesas. Para além de ter sido autora de diversos livros infantis, publicou vários títulos desde o seu primeiro romance (1995), O Pranto de Lúcifer, ao qual se seguiram outros como Os Pássaros de Seda(1996), Os Três Casamentos de Camillas. (1997), Romance de Cordélia (1998), O Prenúncio das Águas (1999), A Trança de Inês (2001), O Sétimo Véu (2003), Os Linhos da Avó (2004), A Flor do Sal (2005), A Alma Trocada (2007), A Estrela de Gonçalo Enes (2007) e As Esquinas do Tempo (2008). A sua obra encontra-se traduzida em Espanha, França e Alemanha e representada em várias coletâneas de contos, em Portugal e no estrangeiro. Foi também conhecida do grande público como atriz de televisão e cinema. No ano de 2000 recebeu o Prêmio Máxima de Literatura.

2 de agosto de 2018

Você só pode compartilhar aquilo que você é... ~~ by OSHO

"Você só pode compartilhar aquilo que você é, e, quando o compartilha, repercute em você. Essa é a lei. A vida reflete e ecoa tudo o que você lança na vida — vem de volta, mil vezes mais vem de volta. Sorria, e a existência inteira sorri para você. Grite e insulte, e a existência inteira grita e o insulta. E você é a causa de tudo isso; você cria o processo inteiro."