8 de julho de 2018

Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos ~ Zygmunt Bauman – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004

O autor descreve a fragilidade dos vínculos humanos, o sentimento de insegurança e os desejos conflitantes, estimulados por sentimentos, que ao apertar os laços já querem mantê-los frouxo, ao tentar estabelecer um relacionamento. Traz a imagem do homem moderno e a liberdade que necessitam e, os riscos e ansiedades de se viver junto e separado.

A sua tese é em que vivemos em um mundo onde as relações dissolvem, elas não são solidas, duráveis, que não sustenta, por isso chama-se, amor líquido. Para ele estamos na era em que os bens e as relações são usáveis e descartáveis a fim de abrir espaço para outros bens e usos. O homem moderno busca o outro pelo medo à solidão, mas a fragilidade das relações humanas é tamanha que as pessoas procuram manter o outro a uma distância que permita o exercício da liberdade e do descarte quando for conveniente.

‘’Apaixonar-se e desapaixonar-se’’

O que sabemos é que devemos tentar saber sobre o amor ou rejeição, com isso as biografias individuais e as histórias coletivas pontuam as relações dos seres humanos, pode se dizer quase o mesmo do amor e da morte. A afinidade são elos causais da individualidade ou do convívio humano, assim, não se pode aprender a amar, como não se pode aprender a morrer. De fato, é possível alguém se apaixonar mais de uma vez, particularmente todos nós somos ‘’propensos’’ ou ‘’vulneráveis’’ ao amor. A súbita abundância e a evidente disponibilidade das ‘’experiências amorosas’’ pode alimentar a convicção de que amar é uma habilidade que se  adquirir, e que o domínio dessa habilidade aumenta com a prática, o próximo amor será uma experiência mais estimulante, embora não tão emocionante quanto a que virá depois.

A nossa cultura é consumista, o que favorece o produto pronto para uso imediato, prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exija esforços prolongados, garantia de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta de construir a ‘’experiência amorosa’’ à semelhança de outras mercadorias, que seduzem exibindo todas essas características e promete desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço. O desejo quer consumir e o amor quer possuir, com a ação por impulso profundamente incutida na conduta cotidiana pelos poderes supremos do mercado de consumo, seguir um desejo é o modo desastrado e desconfortável, na direção do compromisso amoroso, eminentemente descartável.

Esta geração precisa de coisas novas e aperfeiçoadas versões, os relacionamentos amorosos são como negócios, não se pode evitar que o parceiro ou parceira prefira sair do negócio. Para o parceiro, você é a ação a ser vendida ou o prejuízo a ser eliminado. Investir no relacionamento é inseguro e tende a continuar sendo, mesmo que você deseje o contrário. A oportunidade de se abrir à aventura do desconhecido e do imprevisível é a maior das seduções do amor, a parceira é somente um coalizão de ‘’interesses confluentes’’ tende a ser flutuante, frágil e flexível, contudo, nós não precisamos fazer nada para nos tornarmos ‘’um deles’’.

‘’Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade’’

O encontro dos sexos é o terreno em que natureza e cultura se deparam um com o outro pela primeira vez, e, além disso, o ponto de partida, a origem de toda cultura. Hoje, a medicina possibilita escolher o seu futuro filho em um catálogo, mas antigamente a chegada de um novo filho se tornava um meio de aumentar a renda familiar. Os objetos de consumo servem a necessidades, desejos ou impulsos do consumidor, assim como os filhos que estão entre as aquisições mais caras, é o tipo de obrigação que se choca com a vida do liquido mundo moderno. È o produto conjunto do liquido ambiente da vida moderna e do consumismo como estratégia escolhida. Nos compromissos duradouros, a liquida razão moderna enxerga a opressão, no engajamento permanente percebe a dependência. Essa razão nega direitos aos vínculos, espaciais ou temporais, não tem necessidade ou uso que possam ser justificados pela liquida racionalidade moderna dos consumidores.

A vida consumista favorece promovem a variedade e ninguém está a salvo das conseqüências à insegurança é eterna. Há sempre a possibilidade de por a culpa numa escolha, considerando-a equivocada e não na incapacidade de aproveitar as oportunidades por ela oferecidas, pelo fato de não ter conseguido se materializar.

Em nossa liquida era moderna, os poderes constituídos não mais parecem interessados em traçar a fronteira entre o sexo ‘’correto’’ e o ‘’perverso’’. Descobriu uma forma de explorar a receptividade humana a sublimar os instintos sexuais sem recorrer à repressão.

Os celulares nos fazem estar sempre conectados, não importa aonde você esta quem são as pessoas à sua volta e o que você esta fazendo é o único ponto estável num universo de objeto em movimento em suas conexões.

Em direção a liquida e individualizada sociedade moderna para tornar os compromissos de longo prazo, para os breves. Um mundo em que a solidariedade, a compaixão, a troca, a ajuda e a simpatia mútuas suspendem ou afastam a escolha racional e a busca do auto-interesse, cujos habitantes não são nem concorrentes nem objetos de uso e de consumo, mas colegas no esforço contínuo e interminável de construir vidas compartilhadas e torná-las possíveis. A capacidade humana de viver com riscos e de aceitar a responsabilidade pelas conseqüências, como viver para os outros, estreitar e manter os vínculos humanos. Contudo, o estilo de vida consumista dominante, a tratar os outros seres humanos como objetos de consumo e a julgá-los, segundo o padrão desses objetos, pelo volume de prazer que provavelmente oferecem e em termos de seu "valor monetário".

"Sobre a dificuldade de amar o próximo" Amar o próximo como a si mesmo é um dos preceitos fundamentais para a vida civilizada, sendo a razão do interesse próprio e da busca da felicidade. Também é passagem decisiva do instinto de sobrevivência para a moralidade, tampouco, precisam do amor próprio para nos manter vivos, ou seja, precisamos ser amados. Então significaria respeitar a singularidade de cada um, o valor de nossas diferenças, aumentando a suas promessas. Todas as coisas valorosas na vida humana nada mais é que diferentes fichas de aquisição do único valor que torna a vida a ser vivida. A memória seria francamente um risco e não uma ela seleciona e interpreta e possível reciclar a memória. As pessoas tendem a tecer suas memórias do mundo utilizando o fio de suas experiências. O "relacionamento puro" tende a ser, nos dias de hoje, a forma predominante de convívio humano, na qual se entra "pelo que se pode ganhar" e se "continua apenas enquanto ambas as partes imaginem que estão proporcionando a cada uma satisfações suficientes para permanecerem na relação". Esse confronto coloca em movimento e orienta a dinâmica da cidade ‘’líquido-moderno’’, mas tende a permanecer consistente e caprichosa.

Ameaças ao corpo e à propriedade do indivíduo, reais ou supostas, estão se transformando em considerações importantes quando se avaliam os méritos ou desvantagens de um lugar para viver (ex: São Paulo, Rio de Janeiro). Quanto mais as pessoas permanecem num ambiente uniforme, na companhia de outras como elas, as quais podem socializar-se de modo superficial e prosaico sem o risco de serem mal interpretadas e nem a irritante necessidade de tradução de universos diferentes.

‘’Convívio destruído’’

A modernidade produz e continua produzindo enormes quantidades de lixo humano, sendo a soberania o poder de definir os limites da humanidade, a vida do ser humano que for jogado fora não vale à pena. A intensa produção de lixo exige uma indústria de tratamento eficiente, apesar da quantidade crescente de odores cada vez maior. Juntamente com outras funções, esses empreendimentos servem de unidade de deposito e reciclagem para os crescentes suprimentos de lixo humano.  O fato de outro discordar de nós não é um obstáculo no caminho que conduz a humanidade. Na era da globalização, a causa e a política da humanidade compartilhada enfrenta a mais decisiva de todas as fases que já atravessamos.

Conclusão

O autor descreve os relacionamentos modernos e pós-modernos, marcados pela falta de compromisso, onde as pessoas gostam de estar juntas apenas para sentir prazer momentâneo em pouco tempo as relações são trocadas por outras. O relacionamento virtual ocupa mais espaço que os encontros concretos.

Em suma, na sociedade de hoje há uma propensão de relacionamentos mais descartáveis e flexíveis. 

Na sociedade consumista, globalizada, há sempre novos produtos modernos, atraentes e estimulantes para serem consumidos. O livro ainda trata das conseqüências provocadas por uma sociedade que sustenta a busca pela individualização, pela liberdade em detrimento a uma vida afetiva e estável. Dentro da fragilidade o outro é visto como um produto, um objeto disponível para consumo. Onde a qualquer hora pode-se tomar a decisão de querer possuir ou preferir “trocar”.


BIOGRAFIA:

Zygmunt Bauman nasceu em Poznán, na Polônia, em 19 de novembro de 1925, em uma família de judeus não praticantes. Em 1939, foge com os pais para a União Soviética, escapando do cerco nazista de Adolf Hitler sobre a Polônia. Bauman serviu na divisão polonesa do Exército Vermelho durante a II Guerra Mundial e foi condecorado com uma medalha ao valor militar. Estudou filosofia e sociologia em Varsóvia, na Polônia, mas foi afastado devido à leitura de livros e artigos censurados. Crítico do autoritarismo soviético, mudou-se para a Inglaterra, onde se tornou professor da Universidade de Leeds. Recebeu os prêmios Amalfi (1989, por sua obra Modernidade e Holocausto) e Adorno (1998, pelo conjunto de sua obra). Morreu em janeiro de 2017, aos 91 anos.

“A incerteza é o habitat natural da vida humana – ainda que a esperança de escapar da incerteza seja o motor das atividades humanas. Escapar da incerteza é um ingrediente fundamental, mesmo que apenas tacitamente presumido, de todas e quaisquer imagens compósitas da felicidade. É por isso que a felicidade ‘genuína’ adequada e total sempre parece residir em algum lugar à frente: tal como o horizonte, que recua quando se tenta chegar mais perto dele.”

“Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar.”
Zygmunt Bauman

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