14 de julho de 2018

A busca da sentido ~ por Hellen Reis Mourão

Art by ~Blekotakra

Joseph Campbell em sua obra O Poder do Mito, afirma que a experiência que o ser humano mais procura é a de se sentir vivo. Essa seria a base do sentido da vida.
Infelizmente hoje uma profusão de doenças psíquicas como a depressão - que vem se tornando o mal do século - ocorre devido a um embotamento do homem em relação a si próprio e a vida.
A maioria de nós não sabe qual o sentido de estarmos nessa vida e apenas sobrevive. Trabalha, come, dorme, passeia, mas por dentro não se sente vivo.
O avanço tecnológico e intelectual nos trouxe muitos benefícios em termos intelectuais, de saúde e culturais, entretanto com ele tivemos uma perda substancial de contato com o inconsciente.
Nossa cultura ocidental voltada para ”o fazer”, “o acontecer” e para a atitude extrovertida nos anestesiou e denegriu tudo o que é voltado para o subjetivo, para o interior. Perdemos a paciência em esperar que as coisas aconteçam no tempo certo.
Observamos essa atitude ocidental na forma como lidamos com a literatura do “espírito” como a mitologia e os contos de fadas.
Hoje nos interessamos mais em nos anestesiarmos com as noticias do dia e os acontecimentos do momento, deixando assim de valorizar o encontro com algo que irá falar a nossa alma.
Antigamente os contos eram formas de entretenimento do adulto. Atualmente são vistos como entretenimento infantil. Conforme Von Franz (2010), isso ocorreu devido a uma tendência do homem moderno em infantilizar os conteúdos do inconsciente.
Além disso, atualmente não possuímos uma mitologia sagrada que norteie a consciência. O mito cristão foi durante muito tempo uma fonte de vida espiritual para o homem, no entanto, como tudo na vida, hoje ele se tornou um sistema petrificado.
Von Franz (2011) explica que os símbolos coletivos do Self se desgastam. As religiões, as convicções e as verdades, tudo envelhece e precisa ser renovado. Tudo o que dirigiu uma sociedade por determinado tempo é deficiente, no sentido que envelhece. A consciência humana costuma desinteressar-se ao longo do tempo.
Por essa razão e pelo fato de não possuirmos algo que venha substituir esse sistema já desgastado, o homem ocidental se volta cada vez mais para a busca de uma anestesia contra a falta de sentido de sua vida.
Vicio de todas as formas como jogos, bebidas, sexo, computador, fanatismo religioso, trabalho e até o vício em pensar, são formas de anestesia e também de busca de transcendência da vida cotidiana.
Entretanto, essa busca tem sido externa o que a torna efêmera. Vemos nos contos de fadas o tema da busca do tesouro difícil de encontrar, como uma jóia preciosa, uma fonte de água da vida ou um animal sagrado, que irá trazer a solução para a situação desgastada da consciência coletiva.
Esse tesouro é algo difícil mesmo, pois requer o enfrentamento de forças sombrias da psique, contudo por mais difícil que seja esse enfrentamento o resultado é mais sólido e permanente do que a busca efêmera de algo externo. O tesouro é interno e está no mais profundo de cada individuo.
Hoje vem acontecendo uma profusão de revisitações e adaptações dos contos de fadas para o cinema e televisão, trazendo de volta essas histórias ao mundo adulto. O que vejo de forma bastante positiva, pois eles mostram de maneira simbólica a iniciação do mundo infantil para o adulto; as mortes e as ressurreições simbólicas necessárias pelas quais precisamos passar.
Isso mostra também que a consciência coletiva está em busca de algo que está faltando nos ensinamentos cristãos.
Não temos mais ritos de passagem, que nos indique o momento das transições da vida, por isso a psique coletiva de forma compensatória nos traz no entretenimento os caminhos que indiquem como podemos seguir em nossa jornada rumo a individuação. É uma pena que hoje ainda seja somente um entretenimento.
A análise é uma das formas que mais beneficia o processo de individuação, contudo existem outros meios de despertar o sentido de nossa alma e dos símbolos, favorecendo assim a individuação.
Infelizmente para nós ocidentais que perdemos o contato com essa literatura do espírito, o mais indicado para o processo de individuação é a psicoterapia, pois assim é possível buscar seu mito pessoal e se preencher consigo mesmo.
A água da vida está no interior de cada um, mas é preciso ter coragem para empreender essa viagem até o mais recôndito da própria alma e assim conhecer seus desejos mais profundos.
Toda vez que alguém se depara com seus desejos mais profundos, surge o medo na mesma proporção, pois algo de numinoso e transformador vêm daí.
Medo e desejo caminham juntos, mas o mais importante é saber para qual face da mesma moeda você vai olhar: para o desejo com a fonte da vida ou o medo com seus aspectos aprisionantes?

13 de julho de 2018

"O REI E O LOBO" Extraído de 'O Sufismo no Ocidente', Edições Dervish 1988

The Lupine Stare by Jonny Lancaster.

Certo rei decidiu domesticar um lobo e transformá-lo em um cão dócil. Seu desejo baseava-se na ignorância e na ânsia de que os outros aprovassem e admirassem sua atitude, o que é causa freqüente de muitos problemas neste mundo. Fez com que tirassem de uma loba um dos seus filhotes recém-nascidos, e que fosse criado entre cães domésticos.
Quando o filhote de lobo cresceu, foi levado diante do rei e durante vários dias se comportou exatamente como um cão.
As pessoas que viam esse fato assombroso ficavam maravilhadas e pensavam que o rei era extraordinário.
Agindo de acordo com essa crença, fizeram do rei seu conselheiro em todas as coisas e lhe atribuíam grandes poderes. O próprio rei acreditou que o que acontecera era quase um milagre. Um dia, quando estava caçando, o rei ouviu uma matilha de lobos que se aproximava. Quando os animais chegaram perto, o lobo doméstico deu um salto, mostrou as presas e correu para lhes dar as boas vindas.
Em poucos segundos desapareceu, de volta aos seus companheiros naturais.

*Esta é a origem do provérbio: "Um filhote de lobo será sempre lobo, ainda que criado entre os filhos do homem".

Durante milhares de anos, as pessoas acreditaram que se podia mudar os homens impondo-lhes padrões por meio de hábitos e exortações, convencidas de que isto produziria neles uma diferença ou uma mudança verdadeira. No entanto, quando certos fatos ocorrem, o "lobismo" se reafirma. 
As únicas pessoas nas quais isto não acontecerá são aquelas que são tão débeis que podem ser treinadas e aquelas nas quais uma mudança fundamental se realizou.

12 de julho de 2018

"Freud e o mal-estar inerente à condição humana" - texto de Fátima Caropreso (publicado no Site Ciência e Vida)

De acordo com o pensamento freudiano, os homens estão fadados a serem infelizes ou, ao menos, a não gozar de uma felicidade plena.

"O propósito de que o homem seja `feliz` não está contido no plano da Criação". Esta afirmação de Freud sintetiza bem a ideia geral do seu texto Mal-estar na cultura, publicado em 1930. Nesse texto, Freud envereda por uma longa reflexão sobre a origem da cultura e as condições de sua possibilidade, tendo em vista esclarecer os motivos que fazem que certo "mal-estar" seja inevitavelmente inerente à vida humana na civilização.
No texto "O futuro de uma Ilusão" (1927) Freud define "cultura" ou "civilização" como tudo aquilo no qual a vida humana se elevou acima de suas condições animais e se distingue da vida animal. Por um lado, diz ele, a cultura abarca todo o saber e o poder-fazer que os homens têm adquirido para governar as forças da natureza e lhes arrancar bens que satisfaçam suas necessidades. Por outro lado, compreende todos os meios usados para regular os vínculos entre os homens e para regular a distribuição dos bens entre eles. Este último aspecto da cultura (a regulação dos vínculos entre os homens), como veremos, seria a fonte principal do mal-estar inerente à vida humana, mas seria, ao mesmo tempo, a condição de sua existência.

"A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz" (Freud)

Essas duas orientações da cultura não são independentes, argumenta Freud. Primeiro, porque os vínculos recíprocos entre os seres humanos são profundamente influenciados pela medida de satisfação das necessidades pulsionais que os bens existentes tornam possível. Segundo, porque o ser humano individual pode se relacionar com seu semelhante como se fosse ele mesmo um bem, por exemplo, quando explora a sua força de trabalho. E, em terceiro lugar, porque todo indivíduo é virtualmente um inimigo da cultura, a qual, contudo, está destinada a ser um interesse humano universal.

No texto Mal-estar na cultura, Freud se pergunta o que os seres humanos querem alcançar na vida e responde que seu objetivo é atingir a felicidade e mantê-la. No entanto, o máximo que conseguem é gozar de uma felicidade momentânea, resultante, na verdade, da satisfação de necessidades retidas com alto grau de estase. Só podemos gozar o "contraste", diz ele, e nunca o estado.

Por exemplo, sentimo-nos felizes quando encontramos alguém amado que há tempo não víamos, mas o estado de felicidade que vivenciamos nos primeiros momentos do encontro, logo se dissipa, dando lugar a um sentimento menos intenso. Mas se os momentos de felicidade são raros, os de infelicidade são bem mais frequentes, discorre o autor.

O sofrimento nos ameaça de três lados:

1) a partir do corpo, que destinado à ruína, não pode evitar a dor e a angústia;
2) a partir do mundo externo, que nos ameaça com suas forças hiper potentes;
3) a partir dos vínculos com os outros seres humanos.

As duas primeiras fontes de sofrimento nos parecem facilmente compreensíveis e inevitáveis, embora, é claro, possamos fazer muito para amenizar o sofrimento por elas provocado. Já a terceira nos causa certa estranheza, dado que aparentemente parece ser supérflua. No entanto, ao julgarmos essa terceira fonte de sofrimento como algo que poderia ser evitado, nos enganamos.

Tendo em vista a gênese e as condições de manutenção da civilização, a relação entre os homens seria fonte inevitável de sofrimento, segundo o pensamento freudiano.

Os vínculos entre os seres humanos são influenciados pela medida de satisfação das necessidades pulsionais que os bens existentes tornam possível

Segundo Freud, o passo cultural decisivo, no âmbito das relações entre os homens, teria sido a substituição do poder do indivíduo pelo da comunidade. Antes disso, os vínculos entre os homens teriam estado submetidos à arbitrariedade de alguns indivíduos: aqueles de maior força física dominariam os demais de acordo com seus próprios interesses e necessidades.

A partir de certo momento, o poder do indivíduo passa a ser condenado como "violência bruta" e o poder da comunidade se contrapõe como "direito" àquele do indivíduo. Como consequência, surge uma limitação das possibilidades de satisfação (dos impulsos agressivos e sexuais) que os membros da comunidade até então desconheciam. Nesse momento, portanto, a maior parte dos homens troca parte de sua liberdade por uma maior segurança.

A gênese da Cultura

O próximo requisito cultural que se torna necessário é a justiça, ou seja, encontrar meios para garantir que a ordem jurídica estabelecida não seja quebrada para favorecer a um indivíduo ou grupo.

O desenvolvimento cultural passa, então, a buscar evitar que as leis que regem os homens sejam expressão da vontade de uma comunidade restrita (de um extrato da população, de uma etnia...), que pudesse voltar a se comportar a respeito do restante da população como o faria um indivíduo violento.

O resultado desse processo seria, então, alcançar certa regulação para os vínculos entre os homens, à qual requereria destes certa renúncia de suas satisfações pulsionais, mas lhes garantiria, em compensação, que ninguém fosse vítima da violência bruta. Tendo isso em vista, conclui Freud: "a liberdade individual não é um patrimônio da cultura", pois o desenvolvimento cultural impôs aos homens certa limitação de sua liberdade; e boa parte da luta da humanidade gira em torno da tarefa de encontrar um equilíbrio entre as demandas individuais e as exigências culturais das massas.

Mas será que é possível, a partir de certa configuração cultural, alcançarmos esse equilíbrio, ou o conflito é inevitável? - pergunta-se Freud. Para tentar encontrar uma resposta a esta questão, é preciso aprofundar um pouco mais a reflexão sobre as limitações das satisfações pulsionais exigida pela Cultura.

Repressão sexual

Uma das bases sobre a qual se edifica a cultura é a repressão da sexualidade, pois ela retira parte da energia psíquica necessária para a sua manutenção da limitação da satisfação sexual direta, ou seja, ela exige que os homens usem parte de sua energia sexual para o trabalho e para outras atividades culturais.

Assim, diz Freud, a cultura se comporta em relação à sexualidade como um povo que submete outro para explorá- lo. Essa limitação da sexualidade, contudo, não é algo facilmente alcançado.

É necessário um trabalho de domesticação das pulsões sexuais desde o início do desenvolvimento psíquico do indivíduo, o que faz que seu primeiro passo consista na proibição das exteriorizações da vida sexual infantil.

"É quase impossível conciliar as exigências do instinto sexual com as da civilização" (Freud)

A cultura acaba, então, impondo a reivindicação de uma vida sexual uniforme para todos os seus membros: a escolha de objeto do sujeito sexualmente maduro é circunscrita ao sexo contrário; a maioria das satisfações não genitais é proibida como perversão; além da exigência de monogamia e legitimidade das relações. Em outras palavras, a cultura só permite relações sexuais sobre a base de uma ligação definitiva e indissolúvel entre um homem e uma mulher.

O máximo que os homens conseguem é gozar de uma felicidade momentânea, resultante, na verdade, da satisfação de necessidades retidas com alto grau de estase

No entanto, esta exigência de vida sexual uniforme imposta aos indivíduos, argumenta Freud, não leva em conta as desigualdades na constituição sexual inata e adquirida dos seres humanos, o que acaba por distanciar grande parte deles do gozo sexual.Muitas pessoas não conseguem satisfizer-se sexualmente a partir das atividades sexuais consideradas legítimas e, dado que a sexualidade consiste em uma necessidade humana - assim como a de alimentação, respiração e tantas outras -, a impossibilidade de obter satisfação sexual acaba levando muitos homens a adoecer psiquicamente.

As pulsões sexuais insatisfeitas buscam uma forma de satisfação substitutiva por meio dos sintomas neuróticos. Dessa maneira, a repressão da sexualidade converte-se em uma das fontes de sofrimento impostas pela cultura aos homens. Freud conclui, então, que "a vida sexual do homem culto recebeu grave dano (...) podemos supor que experimentou um sensível retrocesso quanto ao seu valor como fonte de felicidade". (Freud, 1930, p.103).

11 de julho de 2018

A primeira amizade precisa ser consigo mesmo, by OSHO, in The True Sage

A primeira amizade precisa ser consigo mesmo, mas muito raramente se encontra uma pessoa que seja amistosa consigo mesma.
Ensinaram-nos a condenar a nós mesmos. O amor-próprio foi considerado como um pecado. 
E não é.
O amor-próprio é a base de todos os outros amores, e é somente através dele que o amor altruísta é possível.
Como o amor-próprio foi condenado, todas as outras possibilidades de amor desapareceram.
Essa foi uma estratégia ladina para destruir o amor. 
É como se você dissesse a uma árvore:

"Não se alimente da terra, isso é pecado.
Não se alimente da lua, da chuva, do sol e das estrelas; isso é egoísmo.
Seja altruísta, sirva outras árvores"

Parece lógico, esse é o perigo. Se você deseja servir os outros, sacrifique-se: "servir significa sacrificar-se".
Mas, se uma árvore se sacrificar, ela morrerá e não será capaz de servir a nenhuma outra árvore; de maneira nenhuma será capaz de existir.

Ensinaram-nos: "Não ame a si mesmo". Essa foi praticamente a mensagem universal das pretensas religiões organizadas.
Não de Jesus, mas certamente do cristianismo; não de Buda, mas do budismo –
de todas as religiões organizadas, este foi o ensinamento: condene a si mesmo, você é um pecador, você não tem valor.
E, por causa dessa condenação, a árvore do ser humano se retraiu, perdeu o brilho, não pode mais festejar.
As pessoas vão dando um jeito de se arrastar, não têm raízes na existência – estão desenraizadas.
Elas estão tentando prestar serviço aos outros e não podem, porque nem foram amistosas consigo mesmas.

Eu não tenho nenhuma condenação, não crio nenhuma culpa em você.
Eu não digo: "Isto é pecado".
Eu não digo que o amarei só quando você preencher certas condições.
Eu o amo como você é, porque essa é a maneira que uma pessoa pode ser amada.
Eu o aceito como você é, porque sei que esse é o único modo que você pode ser.
É assim que o todo desejou que você fosse. É como o todo destinou-o a ser.
Relaxe e aceite-se e alegre-se - e então vem a transformação.
Ela não vem através de esforços.
Ela vem pela aceitação de si mesmo com tal profundidade de amor e felicidade, que não há nenhuma condição, consciente, inconsciente, conhecida, desconhecida.
O amor é alquímico. Se você se amar, a sua parte feia desaparece, é absorvida, é transformada.
A energia é liberada daquela forma.
Todas as coisas chamadas de pecado simplesmente desaparecem.
Eu não digo que você tenha que mudá-las; você tem que amar o seu ser, e elas mudam.
A mudança é um sub-produto, uma conseqüência.
Ame-se. Esse deveria ser o mandamento fundamental.
Ame-se. Tudo o mais se seguirá, mas este é o alicerce.

8 de julho de 2018

Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos ~ Zygmunt Bauman – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004

O autor descreve a fragilidade dos vínculos humanos, o sentimento de insegurança e os desejos conflitantes, estimulados por sentimentos, que ao apertar os laços já querem mantê-los frouxo, ao tentar estabelecer um relacionamento. Traz a imagem do homem moderno e a liberdade que necessitam e, os riscos e ansiedades de se viver junto e separado.

A sua tese é em que vivemos em um mundo onde as relações dissolvem, elas não são solidas, duráveis, que não sustenta, por isso chama-se, amor líquido. Para ele estamos na era em que os bens e as relações são usáveis e descartáveis a fim de abrir espaço para outros bens e usos. O homem moderno busca o outro pelo medo à solidão, mas a fragilidade das relações humanas é tamanha que as pessoas procuram manter o outro a uma distância que permita o exercício da liberdade e do descarte quando for conveniente.

‘’Apaixonar-se e desapaixonar-se’’

O que sabemos é que devemos tentar saber sobre o amor ou rejeição, com isso as biografias individuais e as histórias coletivas pontuam as relações dos seres humanos, pode se dizer quase o mesmo do amor e da morte. A afinidade são elos causais da individualidade ou do convívio humano, assim, não se pode aprender a amar, como não se pode aprender a morrer. De fato, é possível alguém se apaixonar mais de uma vez, particularmente todos nós somos ‘’propensos’’ ou ‘’vulneráveis’’ ao amor. A súbita abundância e a evidente disponibilidade das ‘’experiências amorosas’’ pode alimentar a convicção de que amar é uma habilidade que se  adquirir, e que o domínio dessa habilidade aumenta com a prática, o próximo amor será uma experiência mais estimulante, embora não tão emocionante quanto a que virá depois.

A nossa cultura é consumista, o que favorece o produto pronto para uso imediato, prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exija esforços prolongados, garantia de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta de construir a ‘’experiência amorosa’’ à semelhança de outras mercadorias, que seduzem exibindo todas essas características e promete desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço. O desejo quer consumir e o amor quer possuir, com a ação por impulso profundamente incutida na conduta cotidiana pelos poderes supremos do mercado de consumo, seguir um desejo é o modo desastrado e desconfortável, na direção do compromisso amoroso, eminentemente descartável.

Esta geração precisa de coisas novas e aperfeiçoadas versões, os relacionamentos amorosos são como negócios, não se pode evitar que o parceiro ou parceira prefira sair do negócio. Para o parceiro, você é a ação a ser vendida ou o prejuízo a ser eliminado. Investir no relacionamento é inseguro e tende a continuar sendo, mesmo que você deseje o contrário. A oportunidade de se abrir à aventura do desconhecido e do imprevisível é a maior das seduções do amor, a parceira é somente um coalizão de ‘’interesses confluentes’’ tende a ser flutuante, frágil e flexível, contudo, nós não precisamos fazer nada para nos tornarmos ‘’um deles’’.

‘’Dentro e fora da caixa de ferramentas da sociabilidade’’

O encontro dos sexos é o terreno em que natureza e cultura se deparam um com o outro pela primeira vez, e, além disso, o ponto de partida, a origem de toda cultura. Hoje, a medicina possibilita escolher o seu futuro filho em um catálogo, mas antigamente a chegada de um novo filho se tornava um meio de aumentar a renda familiar. Os objetos de consumo servem a necessidades, desejos ou impulsos do consumidor, assim como os filhos que estão entre as aquisições mais caras, é o tipo de obrigação que se choca com a vida do liquido mundo moderno. È o produto conjunto do liquido ambiente da vida moderna e do consumismo como estratégia escolhida. Nos compromissos duradouros, a liquida razão moderna enxerga a opressão, no engajamento permanente percebe a dependência. Essa razão nega direitos aos vínculos, espaciais ou temporais, não tem necessidade ou uso que possam ser justificados pela liquida racionalidade moderna dos consumidores.

A vida consumista favorece promovem a variedade e ninguém está a salvo das conseqüências à insegurança é eterna. Há sempre a possibilidade de por a culpa numa escolha, considerando-a equivocada e não na incapacidade de aproveitar as oportunidades por ela oferecidas, pelo fato de não ter conseguido se materializar.

Em nossa liquida era moderna, os poderes constituídos não mais parecem interessados em traçar a fronteira entre o sexo ‘’correto’’ e o ‘’perverso’’. Descobriu uma forma de explorar a receptividade humana a sublimar os instintos sexuais sem recorrer à repressão.

Os celulares nos fazem estar sempre conectados, não importa aonde você esta quem são as pessoas à sua volta e o que você esta fazendo é o único ponto estável num universo de objeto em movimento em suas conexões.

Em direção a liquida e individualizada sociedade moderna para tornar os compromissos de longo prazo, para os breves. Um mundo em que a solidariedade, a compaixão, a troca, a ajuda e a simpatia mútuas suspendem ou afastam a escolha racional e a busca do auto-interesse, cujos habitantes não são nem concorrentes nem objetos de uso e de consumo, mas colegas no esforço contínuo e interminável de construir vidas compartilhadas e torná-las possíveis. A capacidade humana de viver com riscos e de aceitar a responsabilidade pelas conseqüências, como viver para os outros, estreitar e manter os vínculos humanos. Contudo, o estilo de vida consumista dominante, a tratar os outros seres humanos como objetos de consumo e a julgá-los, segundo o padrão desses objetos, pelo volume de prazer que provavelmente oferecem e em termos de seu "valor monetário".

"Sobre a dificuldade de amar o próximo" Amar o próximo como a si mesmo é um dos preceitos fundamentais para a vida civilizada, sendo a razão do interesse próprio e da busca da felicidade. Também é passagem decisiva do instinto de sobrevivência para a moralidade, tampouco, precisam do amor próprio para nos manter vivos, ou seja, precisamos ser amados. Então significaria respeitar a singularidade de cada um, o valor de nossas diferenças, aumentando a suas promessas. Todas as coisas valorosas na vida humana nada mais é que diferentes fichas de aquisição do único valor que torna a vida a ser vivida. A memória seria francamente um risco e não uma ela seleciona e interpreta e possível reciclar a memória. As pessoas tendem a tecer suas memórias do mundo utilizando o fio de suas experiências. O "relacionamento puro" tende a ser, nos dias de hoje, a forma predominante de convívio humano, na qual se entra "pelo que se pode ganhar" e se "continua apenas enquanto ambas as partes imaginem que estão proporcionando a cada uma satisfações suficientes para permanecerem na relação". Esse confronto coloca em movimento e orienta a dinâmica da cidade ‘’líquido-moderno’’, mas tende a permanecer consistente e caprichosa.

Ameaças ao corpo e à propriedade do indivíduo, reais ou supostas, estão se transformando em considerações importantes quando se avaliam os méritos ou desvantagens de um lugar para viver (ex: São Paulo, Rio de Janeiro). Quanto mais as pessoas permanecem num ambiente uniforme, na companhia de outras como elas, as quais podem socializar-se de modo superficial e prosaico sem o risco de serem mal interpretadas e nem a irritante necessidade de tradução de universos diferentes.

‘’Convívio destruído’’

A modernidade produz e continua produzindo enormes quantidades de lixo humano, sendo a soberania o poder de definir os limites da humanidade, a vida do ser humano que for jogado fora não vale à pena. A intensa produção de lixo exige uma indústria de tratamento eficiente, apesar da quantidade crescente de odores cada vez maior. Juntamente com outras funções, esses empreendimentos servem de unidade de deposito e reciclagem para os crescentes suprimentos de lixo humano.  O fato de outro discordar de nós não é um obstáculo no caminho que conduz a humanidade. Na era da globalização, a causa e a política da humanidade compartilhada enfrenta a mais decisiva de todas as fases que já atravessamos.

Conclusão

O autor descreve os relacionamentos modernos e pós-modernos, marcados pela falta de compromisso, onde as pessoas gostam de estar juntas apenas para sentir prazer momentâneo em pouco tempo as relações são trocadas por outras. O relacionamento virtual ocupa mais espaço que os encontros concretos.

Em suma, na sociedade de hoje há uma propensão de relacionamentos mais descartáveis e flexíveis. 

Na sociedade consumista, globalizada, há sempre novos produtos modernos, atraentes e estimulantes para serem consumidos. O livro ainda trata das conseqüências provocadas por uma sociedade que sustenta a busca pela individualização, pela liberdade em detrimento a uma vida afetiva e estável. Dentro da fragilidade o outro é visto como um produto, um objeto disponível para consumo. Onde a qualquer hora pode-se tomar a decisão de querer possuir ou preferir “trocar”.


BIOGRAFIA:

Zygmunt Bauman nasceu em Poznán, na Polônia, em 19 de novembro de 1925, em uma família de judeus não praticantes. Em 1939, foge com os pais para a União Soviética, escapando do cerco nazista de Adolf Hitler sobre a Polônia. Bauman serviu na divisão polonesa do Exército Vermelho durante a II Guerra Mundial e foi condecorado com uma medalha ao valor militar. Estudou filosofia e sociologia em Varsóvia, na Polônia, mas foi afastado devido à leitura de livros e artigos censurados. Crítico do autoritarismo soviético, mudou-se para a Inglaterra, onde se tornou professor da Universidade de Leeds. Recebeu os prêmios Amalfi (1989, por sua obra Modernidade e Holocausto) e Adorno (1998, pelo conjunto de sua obra). Morreu em janeiro de 2017, aos 91 anos.

“A incerteza é o habitat natural da vida humana – ainda que a esperança de escapar da incerteza seja o motor das atividades humanas. Escapar da incerteza é um ingrediente fundamental, mesmo que apenas tacitamente presumido, de todas e quaisquer imagens compósitas da felicidade. É por isso que a felicidade ‘genuína’ adequada e total sempre parece residir em algum lugar à frente: tal como o horizonte, que recua quando se tenta chegar mais perto dele.”

“Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar.”
Zygmunt Bauman

7 de julho de 2018

Nas praças vindouras — talvez as mesmas que as nossas — Álvaro de Campos(3-2-1927) ~ Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

Nas praças vindouras — talvez as mesmas que as nossas —
Que elixires serão apregoados?
Com rótulos diferentes, os mesmos do Egipto dos Faraós;
Com outros processos de os fazer comprar, os que já são nossos.

E as metafísicas perdidas nos cantos dos cafés de toda a parte,
As filosofias solitárias de tanta trapeira de falhado,
As ideias casuais de tanto casual, as intuições de tanto ninguém —
Um dia talvez, em fluido abstracto, e substância implausível,
Formem um deus, e ocupem o mundo.
Mas a mim, hoje, a mim
Não há sossego de pensar nas propriedades das coisas,
Nos destinos que não desvendo,
Na minha própria metafísica, que tenho porque penso e sinto
Não há sossego,
E os grandes montes ao sol têm-no tão nitidamente!

Têm-no? Os montes ao sol não têm coisa nenhuma do espírito.
Não seriam montes, não estariam ao sol, se o tivessem.

O cansaço de pensar, indo até ao fundo de existir,
Faz-me velho desde antes de ontem com um frio até no corpo.

O que é feito dos propósitos perdidos, e dos sonhos impossíveis?
E porque é que há propósitos mortos e sonhos sem razão?
Nos dias de chuva lenta, contínua, monótona, uma,
Custa-me levantar-me da cadeira onde não dei por me ter sentado,
E o universo é absolutamente oco em torno de mim.

O tédio que chega a constituir nossos ossos encharcou-me o ser,
E a memória de qualquer coisa de que me não lembro esfria-me a alma.
Sem dúvida que as ilhas dos mares do sul têm possibilidades para o sonho,
E que os areais dos desertos todos compensam um pouco a imaginação;
Mas no meu coração sem mares nem desertos nem ilhas sinto eu,
Na minha alma vazia estou,
E narro-me prolixamente sem sentido, como se um parvo estivesse com febre.

Fúria fria do destino,
Intersecção de tudo,
Confusão das coisas com as suas causas e os seus efeitos,
Consequência de ter corpo e alma,
E o som da chuva chega até eu ser, e é escuro.



6 de julho de 2018

Dizer o amor ~ Ana Jácomo

Se você ama, diga que ama. Não tem essa de não precisar dizer porque o outro já sabe. Se sabe, maravilha, mas esse é um conhecimento que nunca está concluído. Pede inúmeras e ternas atualizações. Economizar amor é avareza. Coisa de quem funciona na frequência da escassez. De quem tem medo de gastar sentimento e lhe faltar depois. É terrível viver contando moedinhas de afeto. Há amor suficiente. Há amor para todo mundo. Há amor para quem quer se conectar com ele. Não perdemos quando damos: ganhamos junto. Quanto mais a gente faz o amor circular, mas amor a gente tem. Não é lorota. Basta sentir nas interações do dia-a-dia, esse nosso caderno de exercícios.

Se você ama, diga que ama. A gente pode sentir que é amado, mas sempre gosta de ouvir e ouvir e ouvir. É música de qualidade. Tão melodiosa, que muitas vezes, mesmo sem conseguir externar, sentimos uma vontade imensa de pedir: diz de novo? Dizer não dói, não arranca pedaço, requer poucas palavras e pode caber no intervalo entre uma inspiração e outra, sem brecha para se encontrar esconderijo na justificativa de falta de tempo. Sim, dizer, em alguns casos, pode exigir entendimentos prévios com o orgulho, com a bobagem do só-digo-se-o-outro-disser, com a coragem de dissolver uma camada e outra dessas defesas que a gente cria ao longo do caminho e quando percebe mais parecem uma muralha. Essas coisas que, no fim das contas, só servem para nos afastar da vida. De nós mesmos. Do amor.

Se você ama, diga que ama. Diga o seu conforto por saber que aquela vida e a sua vida se olham amorosamente e têm um lugar de encontro. Diga a sua gratidão. O seu contentamento. A festa que acontece em você toda vez que lembra que o outro existe. E se for muito difícil dizer com palavras, diga de outras maneiras que também possam ser ouvidas. Prepare surpresas. Borde delicadezas no tecido às vezes áspero das horas. Reinaugure gestos de companheirismo. Mas, não deixe para depois. Depois é um tempo sempre duvidoso. Depois é distante daqui. Depois é sei lá.

5 de julho de 2018

Fragmentos disso que chamamos de "minha vida" ~ por Caio Fernando Abreu

Há alguns anos. Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania

4 de julho de 2018

Eu sou lúcida na minha loucura ~ por Martha Medeiros

“Eu sou lúcida na minha loucura, permanente na minha inconstância, inquieta na minha comodidade.
Pinto a realidade com alguns sonhos, e transformo alguns sonhos em cenas reais.
Choro lágrimas de rir e quando choro pra valer não derramo uma lágrima.
Amo mais do que posso e, por medo, sempre menos do que sou capaz. Busco pelo prazer da paisagem e raramente pela alegre frustração da chegada. Quando me entrego, me atiro e quando recuo não volto mais. Mas não me leve a sério, sei que nada é definitivo. Nem eu sou o que penso que eu sou. Nem nós o que a gente pensa que tem.
Prefiro as noites porque me nutrem na insônia, embora os dias me iluminem quando nasce o sol. Trabalho sem salário e não entendo de economizar. Nem de energia. Esbanjo-me até quando não devo e, vezes sem conta, devo mais do que ganho. Não acredito em duendes, bruxas, fadas ou feitiços. Não vou à missa. Nem faço simpatias. Mas, rezo pra algum anjo de plantão e mascaro minha fé no deus do otimismo. Quando é impossível, debocho. Quando é permitido, duvido.
Não bebo porque só me aceito sóbria, fumo pra enganar a ansiedade e não aposto em jogo de cartas marcadas. Penso mais do que falo. E falo muito, nem sempre o que você quer saber. Eu sei. Gosto de cara lavada — exceto por um traço preto no olhar — pés descalços, nutro uma estranha paixão por camisetas velhas e sinto falta de uma tatuagem no lado esquerdo das costas.
Mas há uma mulher em algum lugar em mim que usa caros perfumes, sedas importadas e brilho no olhar, quando se traveste em sedução.
Se você perceber qualquer tipo de constrangimento, não repare, eu não tenho pudores mas, não raro, sofro de timidez. E note bem: não sou agressiva, mas defensiva. Impaciente onde você vê ousadia. Falta de coragem onde você pensa que é sensatez.
Mas mesmo assim, sempre pinta um momento qualquer em que eu esqueço todos os conselhos e sigo por caminhos escuros. Estranhos desertos. E, ignorando todas as regras, todas as armadilhas dessa vida urbana, dessa violência cotidiana, se você me assalta, eu reajo”.

Sou uma mulher madura, que às vezes brinca de balanço,
Sou uma criança insegura, que às vezes anda de salto alto.

2 de julho de 2018

Mulher de minutos por Mônica Montone

Não sou mulher de minutos
Daquelas que os segundos varrem para debaixo do tapete sujo
Não pinto os cabelos de fogo
Nem faço tatuagem no umbigo
Me recuso a usar corpetes e cinta-liga

Há sementes em meu ventre
São poemas que ainda não reguei
Prefiro guardá-los em silêncio
Até que o tempo amadureça meus minutos
E a vida me contemple com seus frutos

Não borro meus cílios com a solidão da noite
Nem pinto meu rosto com a palidez das manhãs
Meu corpo é feito de marés
Onde navegam mil anseios
Veleiros sem direção
Estou sempre na contramão

1 de julho de 2018

Antipoema para olvido ~ por Lou Vilela

Divina Comédia - Inferno - Canto XVIII, Gustave Doré III


Chega o dia em que se percebe que não há pausas.

- Como tratar as feridas?

O mundo é um rolo compressor.

- É preciso agilidade para não ser esmagado.


E tudo tem um preço.


Os medos crescem:

lida-se com a violência, com a intolerância, com o desamor;

o sumo da bestialidade, a fera de cada um.


Os bolsos vão-se esvaziando.

Sim, há um preço [e um risco].


Com_tudo há também o arco, a flecha [o impulso]

e quintanares de possibilidades

além do excremento humano.