8 de junho de 2018

Trechos do livro "O tempo é um rio que corre" - por Lya Luft (2014)

AS FASES DA VIDA NA VISÃO DE UMA DAS MAIORES ESCRITORAS DO PAÍS ~ Lya Luft escreve um poderoso livro, que faz o leitor refletir sobre nosso mais precioso bem: o tempo. Logo no título a força e a beleza do texto se anunciam. O Tempo é um rio que corre ininterruptamente, afinal, da nascente até a foz, não há desembocadura que pare o rio e seu curso de água natural. Sempre caudaloso, torrencial, porém jamais imóvel. Se só o título já suscita tanta reflexão, é certo que essa leitura tem capacidade de mudar a vida e o pensamento de muita gente. Ao mesclar memória e reflexões sobre a passagem do tempo, Lya Luft cria um pungente ensaio sobre as relações humanas, a infância, a juventude, o amadurecimento e a morte, e o valor da vida, temas e inquietações que são sua especialidade. O Livro é divido em três partes — Águas mansas, Marés altas e A embocadura do rio, mostrando como é a passagem do tempo nas diferentes etapas da vida e buscando caminhos para usufruir o que há de melhor em cada uma delas. Em uma era marcada pela suposta falta de tempo, esta obra é uma importante reflexão sobre a cultura da futilidade e da eterna juventude em que vivemos.

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"O tempo pode ser visto como um assassino em série: suas correntezas levam pessoas, esperanças, possibilidades. Mas também é um Papai Noel bondoso: quem vou encontrar naquela esquina, que horizonte depois daquela curva, que visões, que experiências, que esperanças? Indagar é um desafio permanente."

"Cada um de nós precisa (mas ninguém explica isso) escrever o roteiro de sua existência dando-lhe sentido nos espaços brancos e nas entrelinhas das fatalidades e dos acasos (nos quais eu não acredito)."

"Cúmplices de nós mesmos nesse solitário brinquedo de existir, alternamos trabalho duro com euforia cintilante, desejo de se ocultar atrás de fantasmas e o ímpeto de arrancar as máscaras e finalmente ser."

"Se tivéssemos consciência de que estamos em transformação, de que tudo é passageiro e pode acabar em alguns minutos - ou anos, ou décadas, que seja -, não suportaríamos a pressão, não haveria espaço emocional para viver com certa normalidade. (Ou, na ambiguidade que nos caracteriza, daríamos mais valor ao que temos?)

"(...) E ao nosso encalço corre o espectro traiçoeiro de acabarmos sensatos demais: temerosos, quando para viver é preciso uma dose de audácia e fervor. Em que medida? Ninguém tem a resposta."

"Porque somos perversos?
- Porque somos humanos.
Pensar dói."

"Um dia escrevi que com as perdas só há um jeito: perdê-las. Hoje digo que com o tempo só há um jeito: vivê-lo."

"O tempo faz florescer paixões que fenecem logo adiante, ou transfigura um amor intenso na generosa árvore de uma longa boa reflexão. Mais uma vez, as contrações do tempo são as nossas: ele mata, ou eterniza, e para sempre estará conosco aquele cheiro, aquele toque, aquele vazio, aquela plenitude, aquele segredo."

"- O tempo traz soluções que a gente nem imaginava - me disse alguém sábio.
E não é que ele tinha razão?"

"- Ninguém é capaz - me explicaram - a gente aprende na hora."

"Porque o tempo passa é que tudo se torna tão precioso. Porque estamos sempre nos despedindo - dessa luz, dessa paisagem, dessa rua, desse rosto, desse momento, e de nós mesmos nesse momento -, tudo assume uma extraordinária importância. Não é coisa para sentirmos constantemente, mas nas horas em que a alma se expande saímos do fútil para o singular - e vemos como somos especiais."

"Aprendemos eventualmente a gostar de nós. Gente demais se subestima, se desvaloriza, aceita qualquer vida, qualquer pessoa, qualquer roteiro.
Conseguimos até ficar sozinhos nessa pequena liberdade: a de que o tempo é um fato natural, é crescimento e mudança permanente. Que ele não só nega e rouba com uma das mãos, mas, com a outra mão, oferece."

"Todo encontro especial é uma primeira vez."

"Presenças amorosas a gente procura ou nos encontram. Ainda que os afetos perdidos sejam insubstituíveis, existe espaço na alma para novos acolhimentos, desde que a gente queira. Ou possa, me diz alguém, pois algumas pessoas são, por educação e bagagem psíquica, irremediavelmente estreitas e secas."

"- E o sentido da vida?
Cada um tem de inventar o seu com seus talentos e sua própria inevitável incompetência."

"A vida é uma casa que construímos com as próprias mãos, criando calos, esfolando joelhos, respirando poeira. Levantamos alicerces, paredes, abertura e telhado. Podem ser janelas amplas pra enxergar o mundo, ou estreitas para nos isolarmos dele. Pode haver jardins, pátio, por pequenos que sejam, com flores, com balanços, para a alegria, ou só com lajes frias, para melancolia."

"A realidade não existe: cada um de nós inventa a sua."

"A cada dia, mesmo sem saber, e sem querer, estamos nos criando. Ninguém pode nos dizer que será fácil. O fácil pode ser desinteressante, e merecemos ao menos alguma vez fazer, querer, ser, o interessante, o audacioso, apesar dessa incrível sensação de fragilidade que nos acompanha."

"Cada um de nós deve inventar o seu próprio jeito de sobreviver: para alguns isso será deixar as pálpebras bem fechadas, apertar os olhos com os punhos e andar feito cegos como a gente brincava em criança - sempre acabávamos batendo em algum móvel: lágrimas e hematomas."

"Em lugar de reclamar, podemos dialogar; em vez de nos matar, podemos outra vez tentar a vida e desenrolar a alma; em vez de ressecar podemos animar essa criatura singular que somos, com riso, com gemidos de dor, com sussurros no escuro. É preciso enfrentar isso que não controlamos, mas que não precisa nos destruir: a vida inevitavelmente fluindo. Pois nós também somos isso."

"As águas não interrompem seu curso quando dormimos ou comemos, quando amamos ou nos frustamos, quando executamos projetos ou achamos que nossa força acabou. Não param quando comemos o hambúrguer, usamos o computador, tomamos vinho, choramos no escruto, pensamos em nos matar, pagamos dívidas com mais dívidas, traímos ou somos traídos, ou rimos sem motivos porque nos sentimos bem."

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Biografia de Lya Luft

Lya Luft (1938) é uma escritora brasileira. Sua produção literária reúne poesias, ensaios, contos, literatura infantil, crônicas e romances. É colunista da Revista Veja. Foi tradutora e professora universitária.

Lya Fett Luft (1938) nasceu em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, no dia 15 de setembro de 1938. Filha de descendentes germânicos aprendeu o alemão e desde cedo gostava de ler. Com onze anos decorava poemas de Goethe e Schiller. Estudou em Porto Alegre, onde se formou em Pedagogia e Letras Anglo-Germânicas pela Pontifícia Universidade Católica. Trabalhou para editores traduzindo autores de língua inglesa e alemã, entre eles, Virgínia Woolf, Herman Hesse e Thomas Mann. Lya Luft foi colunista do Correio do Povo.

Em 1963, casou-se com Celso Pedro Luft, de quem adotou o nome. O casal teve quatro filhos. Seus primeiros poemas, escritos nessa época, foram reunidos no livro “Canções do Limiar” (1964). “Fruta Doce”, seu segundo livro de poemas, foi lançado em 1972. Entre 1970 e 1982, trabalhou como professora de Linguística na Faculdade Porto-Alegrense. Em 1975 obteve o grau de mestre em Linguística pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e em 1978 em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Nesse mesmo ano, lança sua primeira coletânea de contos “Matéria do Cotidiano”. Em 1980 publica seu primeiro romance “As Parceiras”. O romance “Reunião de Família” (1982) foi lançado nos Estados Unidos com o título “The Island of teh Dead”. Em 1985, separada do marido passa a viver no Rio de Janeiro, com o escritor Hélio Peregrino. Em 1992, quatro anos após a morte de Hélio, Lya voltou a viver com Celso Luft, de quem ficou viúva em 1995.

Em 1996, seu livro de ensaios “O Rio do Meio” foi considerado a melhor obra de ficção do ano, recebendo o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte. Em 2001, recebeu o Prêmio União Latina de Melhor Tradução Técnica e Científica, pela obra “Lete: Arte e Crítica do Esquecimento” de Harald Weinrich. Desde 2004, Lia Luft é colunista da Revista Veja. Em 2013, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, com a obra “O Tigre na Sombra” (2012), eleita a melhor obra de ficção de 2012 na categoria romance.

Obras de Lya Luft

Canções de Limiar, poesia, 1964
Flauta Doce, poesia, 1972
Matéria do Cotidiano, contos, 1978
As Parceiras, romance, 1980
A Asa Esquerda do Anjo, romance, 1981
Reunião de Família, romance, 1982
O Quarto Fechado, romance, 1984
Mulher no Palco, poesia, 1984
Exílio, romance, 1987
O Lado Fatal, poesia, 1989
O Sentinela, romance, 1994
O Rio do Meio, ensaio, 1996
Secreta Miranda, poesia, 1997
O Ponto Cego, romance, 1999
Histórias do Tempo, contos, 2000
Mar de Dentro, memórias, 2000
Perdas & Ganhos, ensaio, 2003
História de Bruxa Boa, literatura infantil, 2004
Pensar é Transgredir, ensaio, 2004
Para Não Dizer Adeus, poesias, 2005
Em Outras Palavra, ensaio, 2006
A Volta da Bruxa Boa, literatura infantil, 2007
O Silêncio dos Amantes, contos 2008
Criança Pensa, literatura infantil, 2009
Múltipla Escolha, ensaio, 2010
A Riqueza do Mundo, crônicas, 2011
O Tigre na Sombra, romance, 2012
O tempo é um rio que corre, 2014

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