7 de junho de 2018

As Lágrimas de Diamantinha ~ Mia Couto, em "Na Berma de Nenhuma Estrada e Outros Contos" , Lisboa, Editorial Caminho (2001)


Diamantinha chorava tão bem que as pessoas vinham de longe e lhe pediam:

― Chore por mim, Diamantinha.

O visitante sentava na sombra do djambalau e divulgava suas mágoas. Às vezes, pareciam tristezas de bichos. O homem, para ser humano, tem que ser desumano? O que é certo: ninguém tem ombro para suportar sozinho o peso de existir. Afinal, a vida se confirma à força de rasgão: ela dilacera logo no acto de nascer, separando mais que a própria morte. E assim, também naquela aldeia não havia quem não tivessse motivos para sentar no banco de Diamantinha, requerendo lágrimas na sombra da grande árvore.

Diamantinha gastava o tempo nesse desfilar de desgraceira. Única condição: ela devia olhar de frente o contador de tristezas, olhos nos olhos, lágrima de um humedecendo a alma do outro. No final, ela baixava o rosto, sacudindo os braços por cima da cabeça. E chorava. Cada lágrima aliviava o confessor, faz conta a mão de um anjo suavizando feridas.

Diamantinha chorava belo e aprazível: nunca ela ranhava, nem carantonheava. Escorriam as lágrimas como simples transbordância, tresvassar de ondas sob as pálpebras, insuficientes diques. A tristeza mungia-lhe os olhos e lá vinha, abundoso e gordo, o rosário das lagrimonas.

O marido, calculista, viu nos serviços da esposa uma hipótese de negócio. E havia até urgência: Diamantinha se ia fatigando de brotar tanta água. Um dia, ela esgotaria as fontes. Antes que isso sucedesse, o marido decretou a seguinte ordem:

― Em diante, você só chora para quem paga.

― Mas, marido, isso nem se pode.

― Não se pode!? Quem é você para saber destrançar o possível do impossível?

― É que lágrima é coisa sagrada…

― Conversa, mulher. Sagrados são os tacos, sejam cifrões, sejam cifrinhos.

― Não é desrespeito, mas me diga, marido: se é tão importante o dinheiro por que é que você não trabalha para o ganhar?

― Eu? Não posso, estou muito ocupado. Agora, por um exemplo, ando a deixar crescer os bigode, um de cada lado.

― Você é quem sabe, marido.

Marido está sempre na mão de cima? Homem disfarça que comanda, mulher finge obediências. A ordem das coisas: mundo e vida são o inseparável casal.

E as gentes continuaram afluindo, agora vertidas em clientes. O marido armara mesa, à entrada da sombra, e cobrava consulta. E se contentava, empilhando as moedinhas enquanto a esposa se derramava, liquidesfeita. Aranha faz sua casa de quê? De lágrimas, aquilo parece seda mas não é senão o coração esfiapadinho. Disso sabia a lagrimeira Diamantinha.

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