28 de maio de 2018

Intervalo.... por Vera Muniz

Às vezes,
Todas as dores de uma vida inteira
Gritam...

Às vezes,
Nas mãos, os gestos de perdão
Petrificam...

Às vezes,
As canções dos anjos
Emudecem...

Às vezes,
Os silêncios, numa praia derradeira
Desaguam...

Às vezes...
Só às vezes...

27 de maio de 2018

Preciso de Alguém by Charlie Chaplin


Preciso de Alguém...
Que me olhe nos olhos quando falo. Que ouça as minhas tristezas e neuroses com paciência. Preciso de alguém, que venha brigar ao meu lado sem precisar ser convocado; alguém Amigo o suficiente para dizer-me as verdades que não quero ouvir, mesmo sabendo que posso odia-lo por isso. Neste mundo de céticos, preciso de alguém que creia, nesta coisa misteriosa, desacreditada, quase impossível de encontrar: A Amizade. Que teime em ser leal, simples e justo, que não vá embora se algum dia eu perder o meu ouro e não for mais a sensação da festa. Preciso de um Amigo que receba com gratidão o meu auxílio, a minha mão estendida. Mesmo que isto seja pouco para as suas necessidades. Preciso de um Amigo que também seja companheiro, nas farras e pescarias, nas guerras e alegrias, e que no meio da tempestade, grite em coro comigo: "Nós ainda vamos rir muito disso tudo" Não pude escolher aqueles que me trouxeram ao mundo, mas posso escolher o meu Amigo. E nessa busca empenho a minha própria alma, pois com uma Amizade Verdadeira, a vida se torna mais simples, mais rica e mais bela...



“A vida me ensinou a dizer adeus às pessoas que amo, sem tirá-las do meu coração.”
Charlie Chaplin

25 de maio de 2018

Peter Gabriel & Paula Cole... "Don't Give Up"

'Cause I believe there's a place
In this proud land we grew up strong
We were wanted all along
I was taught to fight
Taught to win
I never thought I could fail

No fight left or so it seems
I am a man whose dreams have all deserted
I've changed my face
I've changed my name
But no one wants you when you lose

Don't give up
'Cause you have friends
Don't give up
You're not beaten yet
Don't give up
I know you can make it good

Though I saw it all around
Never thought that I could be affected
Thought that we'd be the last to go
It is so strange the way things turn

Drove the night toward my home
The place that I was born, on the lakeside
As daylight broke, I saw the earth
The trees had burned down to the ground

Don't give up
You still have us
Don't give up
We don't need much of anything
Don't give up
'Cause somewhere there's a place where we belong

Rest your head
You worry too much
It's going to be alright
When times get rough
You can fall back on us
Don't give up
Please don't give up

Got to walk out of here
I can't take anymore
Going to stand on that bridge
Keep my eyes down below
Whatever may come
And whatever may go
That river's flowing
That river's flowing

Moved on to another town
Tried hard to settle down
For every job, so many men
So many men no-one needs

Don't give up
'Cause you have friends
Don't give up
You're not the only one
Don't give up
No reason to be ashamed
Don't give up
You still have us
Don't give up now
We're proud of who you are
Don't give up
You know it's never been easy
Don't give up
There's a place where we belong



24 de maio de 2018

Toca-me por José Rui Teixeira

conjuga um verbo que conheças
no presente do indicativo,
soletra-o na segunda pessoa
do singular ao meu ouvido,
dá-me qualquer coisa
para que me pareça eterno.

21 de maio de 2018

Espera... Florbela Espanca

"Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços..."

20 de maio de 2018

“Onde mora o amor” - Rubem Alves, em “Tempus Fugit”.

Couple, c1930. Photo - Francois Kollar.

Amor é isto: a dialética entre a alegria do encontro e a dor da separação. E neste espaço o amor só sobrevive graças a algo que se chama fidelidade: a espera do regresso. De alguma forma a gota da chuva aparecerá de novo, o vento permitirá que velejemos de novo, mar afora. Morte e ressurreição. Na dialética do amor, a própria dialética divina. Quem não pode suportar a dor da separação não está preparado para o amor. Porque amor é algo que não se tem nunca. É o vento de graça. Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera. E quando ele volta, a alegria volta com ele. E sentimos então que valeu a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro.

18 de maio de 2018

Aos que vierem depois de nós Bertolt Brecht (Tradução Manuel Bandeira)

I
Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranquilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
(...)

III
(...)
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

17 de maio de 2018

Caio Fernando Abreu - Fragmentos, em “Os Dragões não conhecem o paraíso”, 1988. "Ovelhas Negras", 1995. "Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu", 2012.

"Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada."

“A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso.”

"Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que fica em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro."

"Provisoriamente, guardei minha alegria. Mas sou bonito assim: quase nascendo. Quem canta, custa a morrer, e eu não sabia."

"Descobre, desvenda. Há sempre mais por trás. Que não te baste nunca uma aparência do real."

&&&

Caio foi um escritor capaz de não apenas conciliar influências do mundo pop e literário em seus textos, mas também foi um dos poucos que conseguiu suscitar admiração nestes dois universos. 

16 de maio de 2018

A Minha Vida Eu a Vivo em Círculos Crescentes – Rainer Maria Rilke (Tradução de José Paulo Paes)

Art by Remedios Varos

A minha vida eu a vivo em círculos crescentes
sobre as coisas, alto no ar.
Não completarei o último, provavelmente,
mesmo assim irei tentar.

Giro à volta de Deus, a torre das idades,
e giro há milênios, tantos…
Não sei ainda o que sou: falcão, tempestade
ou um grande, um grande canto.

&&&

Ich lebe mein Leben in wachsenden Ringen,
die sich über die Dinge ziehn.
Ich werde den letzten vielleicht nicht vollbringen,
aber versuchen will ich ihn.

Ich kreise um Gott, um den uralten Turm,
und ich kreise jahrtausendelang;
und ich weiss noch nicht: bin ich ein Falke, ein Sturm
oder ein grosser Gesang..

15 de maio de 2018

Arthur Rimbaud - Ofélia (Tradução de Jorge Wanderley)

Ophelia by John Everett Millais (1829–1896)

I.
Na onda calma e negra, entre os astros e os céus,
A branca Ofélia, como um grande lírio, passa;
Flutua lentamente e dorme em longos véus…
– Longe, no bosque, o caçador chamando a caça…

Mais de mil anos faz que a triste Ofélia abraça,
Fantasma branco, o rio negro em que perdura.
Mais de mil anos: toda noite ela repassa
À brisa a romança que em delírio murmura.

Beija-lhe o seio o vento e liberta em corola
Os grandes véus nas águas acalentadoras;
Sobre os seus ombros o salgueiro se desola,
Reclina-se o caniço à fronte sonhadora.

Nenúfares feridos suspiram por perto;
Às vezes ela acorda, em vidoeiro ocioso
Um ninho de onde vem tremor de um vôo incerto…
– De astros dourados desce um canto misterioso…

II.
Morreste sim, menina que um rio carrega,
Ó pálida Ofélia, tão bela como a neve!
– É que algum vento montanhês da Noruega
Contou que a liberdade é rude, mas é leve;

– É que um sopro, liberta a cabeleira presa,
Em teu espírito estranhos sons fez nascer
E em teu coração logo ouviste a Natureza
No queixume da árvore e do anoitecer.

– É que a voz do mar furioso, tumulto impávido,
Rasgou teu seio de menina, humano e doce;
– E em manhã de abril, certo cavalheiro pálido,
Um belo e pobre louco, aos teus pés ajoelhou-se.

E aí o céu, o amor: – que sonho, pobre louca!
Ante ele eras a neve, desmaiando à luz;
Visões estrangulavam-te a fala na boca,
O Infinito aterrava os teus olhos azuis!

III.
– E o Poeta diz que sob os raios das estrelas
Procuras toda noite as flores em delírio
E diz que viu na água, entre véus, a colhê-las
Vogar a branca Ofélia como um grande lírio.


&&&

Ofélia, por John W. Waterhouse

I.
Sur l’onde calme et noire où dorment les étoiles
La blanche Ophélia flotte comme un grand lys,
Flotte très lentement, couchée en ses longs voiles…
– On entend dans les bois lointains des hallalis.

Voici plus de mille ans que la triste Ophélie
Passe, fantôme blanc, sur le long fleuve noir
Voici plus de mille ans que sa douce folie
Murmure sa romance à la brise du soir

Le vent baise ses seins et déploie en corolle
Ses grands voiles bercés mollement par les eaux ;
Les saules frissonnants pleurent sur son épaule,
Sur son grand front rêveur s’inclinent les roseaux.

Les nénuphars froissés soupirent autour d’elle ;
Elle éveille parfois, dans un aune qui dort,
Quelque nid, d’où s’échappe un petit frisson d’aile :
– Un chant mystérieux tombe des astres d’or

II

O pâle Ophélia ! belle comme la neige !
Oui tu mourus, enfant, par un fleuve emporté !
C’est que les vents tombant des grand monts de Norwège
T’avaient parlé tout bas de l’âpre liberté ;

C’est qu’un souffle, tordant ta grande chevelure,
À ton esprit rêveur portait d’étranges bruits,
Que ton coeur écoutait le chant de la Nature
Dans les plaintes de l’arbre et les soupirs des nuits ;

C’est que la voix des mers folles, immense râle,
Brisait ton sein d’enfant, trop humain et trop doux ;
C’est qu’un matin d’avril, un beau cavalier pâle,
Un pauvre fou, s’assit muet à tes genoux !

Ciel ! Amour ! Liberté ! Quel rêve, ô pauvre Folle !
Tu te fondais à lui comme une neige au feu :
Tes grandes visions étranglaient ta parole
– Et l’Infini terrible éffara ton oeil bleu !

III

– Et le Poète dit qu’aux rayons des étoiles
Tu viens chercher, la nuit, les fleurs que tu cueillis ;
Et qu’il a vu sur l’eau, couchée en ses longs voiles,
La blanche Ophélia flotter, comme un grand lys

14 de maio de 2018

Nunca lhe falei da minha paixão... por Ana Jácomo

Nunca lhe falei da minha paixão, mas ele deve ter ouvido alguns segredos que os meus olhos, traiçoeiros, deixaram escapar nas raras vezes que permiti tocarem os dele. Deve ter percebido a palidez que vestia meu rosto ao encontrá-lo. Depois, o rubor. As palavras trôpegas, desconexas, tentando achar o caminho da lógica. Aquele texto inadequado para o contexto que a gente diz e depois, ao relembrar, faz um muxoxo, balança a cabeça aborrecidamente, e diz pra si mesmo: “Ai, meu Deus!…”

Deve ter ouvido o meu riso desafinado, que em algumas circunstâncias era motivado apenas pelo nervosismo. O outro falando de uma coisa que não tem graça nenhuma e a gente rindo, sem poder explicar a aparente esquisitice. Deve ter ouvido a mão gelada que apertava a dele levemente para não ser desmascarada. E aquele ar meio patético que as pessoas costumam ter quando se apaixonam. A boca é o que menos fala no corpo. Imagino que deve ter ouvido algumas dessas vozes que falavam em mim sem que eu pudesse contê-las.

Mas, ainda que tenha ouvido, não ouviu tudo. Não soube que eu inventava os pretextos menos criativos para vê-lo. Que planejava a maioria dos encontros que eu chamava de coincidências. Que antes de ir até onde ele estava, passava mais perfume que de costume. Mudava, várias vezes, a roupa, o batom, o humor. Enchia a boca com balas de hortelã. Ficava incontáveis minutos em frente do espelho, procurando o melhor ângulo, o melhor sorriso, a melhor expressão de surpresa. Ensaiava, em vão, como agiria quando o encontrasse: o cumprimento, os gestos, as palavras. Todo um roteiro meticulosamente estudado para ser traído, em poucos segundos, pela inabilidade que me dominava ao me flagrar diante dele. Aquele esforço sobre-humano para aparentar serenidade com uma escola de samba desfilando no coração.

Nunca soube que, depois de encontrá-lo, relembrava cada detalhe durante todas as horas que antecediam o próximo encontro. A rota que seus olhos percorreram, cada movimento, cada vírgula da sua fala, cada nuance de entonação. Era como se eu quisesse descobrir alguma possibilidade de correspondência. Ainda que pequena. Ainda que remota. Relembrar também era uma forma de senti-lo perto de mim de novo e de poder olhar para ele sem reserva, sem cautela, debruçada na janela da minha imaginação.

Mesmo que tenha suspeitado de que eu sentia algo, não descobriu tudo. Não descobriu que seu riso era a canção de que eu mais gostava. Que sussurrava seu nome repetidas vezes, e com tanta delicadeza, que ele bailava nos meus ouvidos como um poema. Um mantra. Uma música. Que eu queria conhecer o lugar onde os seus sonhos moravam para poder acordá-los, vez ou outra, quando adormecessem. Que em alguns momentos, no auge da minha ilusão, senti vontade de pedir que jogássemos as armas no chão para que nossas mãos pudessem se encontrar.

Nunca descobriu que escrevi versos que não lhe mostrei e cartas que jamais entregaria. Que muitas vezes, a pedido do meu coração, liguei apenas para ouvir sua voz dizer alô e desliguei sem uma única palavra. Que fantasiei delícias. Que cantei todas as músicas de amor que eu sabia lembrando dele. Que lembrava ao acordar. Que adormecia lembrando. Que lembrava tanto que achava ter enlouquecido, ô troço obsessor essa tal de paixão! E que, às vezes, lembrar doía, uma dor fina e morna crescendo no peito, como doem os sonhos que não acontecem e que a gente desconfia que não vão mais acontecer.

13 de maio de 2018

Escuta-me piedosamente - Fernando Pessoa (1917) --- Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa. Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990.


Escuta-me piedosamente.
Não vale a pena amar-me não,
Mas o que o meu coração sente -
Ah, quero que te passe rente
À ideia do teu coração…

Quero que julgues que podias
Se quisesses, amar-me. Só
Saber isso consolaria
Minha alma erma de alegria…
Ter a certeza do teu dó!…

Teu dó, o teu quase carinho…
Qualquer sentimento por mim…
Que não me deixasse sozinho…
Eu posso construir um ninho,
Com o pouco que me vem de ti…
Eu tenho de mim tanta pena
Queria ao menos que tu também
Viesses ter pena serena
Não de mim mas da minha pena,
Essa pena que ninguém tem.


11 de maio de 2018

"Retorna à raiz de ti mesmo" ~ (poema árabe- desconheço a autoria)


Não te afastes

Chega bem perto
Cria. Não sejas infiel
Encontra o antídoto no veneno
Vem. Retorna à raiz da raiz de ti mesmo

Moldado em barro, misturado porém a substância da certeza
Tu, guardião do tesouro da luz sagrada
Vem. Retorna à raiz da raiz de ti mesmo

Ao vislumbrares a dissolução
Serás arrancado de ti mesmo
E libertado de tantas amarras
Vem. Retorna à raiz da raiz de ti mesmo

Nasceste dos filhos, dos filhos de Deus
Mas fixaste muito abaixo a tua mira
Como pode ser feliz assim?
Vem. Retorna à raiz da raiz de ti mesmo

És o talismã que protege o tesouro
E também a mina onde se encontra
Abre teus olhos. Vê o que está oculto
Vem. Retorna à raiz da raiz de ti mesmo

Nasceste de um raio da majestade de Deus
E carregas a bênção de uma estrela generosa
Por que sofrer nas mãos do que não existe?
Vem. Retorna à raiz da raiz de ti mesmo

Aqui chegaste embriagado e dócil
Da presença daquele doce amigo
Que com o olhar cheio de fogo, roubou nossos corações
Vem. Retorna à raiz da raiz de ti mesmo

Nosso mestre e anfitrião
Colocou a taça eterna diante de ti
Glória Deus, que vinho tão raro!
Vem. Retorna à raiz da raiz de teu ser.

10 de maio de 2018

Os olhos dos poetas ~ Rubem Alves


“As cores estão lá, no poente. Mas quem só vê as cores não vê nada. A beleza nostálgica do sol que se põe é uma dádiva dos olhos de quem a vê como quem vê pela última vez. Os olhos dos poetas são sempre olhos que se despedem.”

9 de maio de 2018

Simone de Beauvoir ~ Frases, Pensamentos, Biografia e Principais Obras.

Frases:

-“Por vezes a palavra representa um modo mais hábil de se calar do que o silêncio.”

-“É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta.”

-“O homem é definido como ser humano e a mulher é definida como fêmea. Quando ela comporta-se como um ser humano ela é acusada de imitar o macho.”

-"A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo.”

-“Entre as que se vendem pela prostituição e as que se vendem pelo casamento a única diferença consiste no preço e na duração do contrato.”

-“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.”

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Pensamentos:

Sem dúvida, sua grande contribuição foi no campo dos estudos sobre o feminismo e na luta da igualdade de gênero. Aliado a isso, Beauvoir foi adepta da teoria existencialista, onde a liberdade é a principal característica.

Em sua obra “O segundo sexo” Simone aborda sobre o papel da mulher na sociedade e a opressão feminina num mundo dominado pelo homem. O livro foi considerado agressivo e incluído na lista de negra do Vaticano.

No romance existencialista “Os Mandarins” Simone retrata a sociedade francesa no pós-guerra onde temas políticos, morais e intelectuais são discutidos pela autora. Com essa obra, Beauvoir recebeu o Prêmio Goncourt.

De suas autobiografias merece destaque a obra “Memórias de uma moça bem-comportada” onde Simone apresenta relatos reais de sua vida com foco nos dogmas da igreja e nos comportamentos da sua família burguesa. Nessa obra, também podemos notar o feminismo de Beauvoir.

Uma de suas ideias mais polêmicas está relacionada com o casamento e a maternidade. Para ela, o casamento é uma instituição problemática e falida da sociedade moderna.

E a maternidade, é uma espécie de escravidão, onde a mulher abdica de sua vida tendo a obrigação de casar, procriar e cuidar da casa. Sendo assim, para Simone a mulher deve ter autonomia. Nas palavras da autora:

“Casamento é o destino tradicionalmente oferecido às mulheres pela sociedade. Também é verdade que a maioria delas é casada, ou já foi, ou planeja ser, ou sofre por não ser.”

“Não são as pessoas que são responsáveis pelo falhanço do casamento, é a própria instituição que é pervertida desde a origem.”

“A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele: ela não é considerada um ser autônomo.”

Cheia de ideias polêmicas, Beauvoir conquistou muitos admiradores e por outro lado, pessoas que abominam suas ideias.

A grande questão é que ela teve um papel preponderante nas ideologias feministas do século XX. Seus estudos estiveram baseados em teorias políticas, filosóficas, históricas e psicológicas.

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Biografia:

Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir nasceu em Paris, França, no dia 9 de janeiro de 1908.

Na infância e juventude esteve num colégio católico e mais tarde, estudou matemática no Instituto Católico de Paris. Ainda que tenha sido criada numa família Católica, Simone optou pelo ateísmo. Segundo ela:

“Era-me mais fácil imaginar um mundo sem criador do que um criador carregado com todas as contradições do mundo.”

Foi também estudante de filosofia na Universidade de Sorbonne. Ali, conheceu Jean Paul-Sartre, parceiro intelectual e com quem teve um relacionamento aberto toda a vida (cerca de 50 anos).

Ou seja, ambos não eram adeptos da monogamia e, portanto, tiveram outros parceiros sexuais ao longo da vida. Assim, nenhum deles chegou a casar ou ter filhos.

Simone lecionou em diversas escolas nas décadas de 30 e 40. Com a ocupação nazista na França, Beauvoir fugiu do país, retornando no final de guerra.

Frequentadora de encontros filosóficos, em 1945, ela, Sartre, Merleau-Ponty e Raymnond Aron fundam a revista “Os Tempos Modernos” (Les Temps Modernes). Com periodicidade mensal, esse veículo foi muito importante para propagação de suas ideias.

Sua paixão pelos livros foi notória desde a juventude. Escreveu diversas obras da qual se destaca um dos maiores clássicos do movimento feminista “O segundo sexo”, publicada em 1949.

Vítima de pneumonia, Simone faleceu com 78 anos no dia 14 de abril de 1986 em sua cidade natal. Ela foi enterrada no Cemitério de Montparnasse, em Paris, ao lado de seu companheiro Jean-Paul Sartre.

Simone de Beauvoir foi escritora, filósofa, intelectual, ativista e professora. Uma de suas frases mais célebres é “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”.

Integrante do movimento existencialista francês, Beauvoir foi considerada uma das maiores teóricas do feminismo moderno.

Dona de um espírito inquieto e revolucionário para sua época, Beauvoir rejeitou modelos, hierarquias e valores. Segundo ela:

“Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado, que qualificam de feminino.”

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Principais Obras:

Simone produziu diversas obras relacionados com filosofia, política e sociologia. Escreveu romances, novelas, peças de teatro, ensaios e autobiografias:

A Convidada (1943)

O Sangue dos Outros (1945)

O Segundo Sexo (1949)

Os Mandarins (1954)

Memórias de uma moça bem-comportada (1958)

Uma Morte Suave (1964)

A Mulher Desiludida (1967)

A Velhice (1970)

Tudo Dito e Feito (1972)

A Cerimônia do Adeus (1981)

8 de maio de 2018

quando a ternura for a única regra da manhã ~ José Luís Peixoto, in 'A Criança em Ruínas'

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.

7 de maio de 2018

Clarice Lispector: Solidão? O que acontece é que a gente..., in Clarice Lispector: Esboço para Um Possível Retrato, de Olga Borelli. Editora Nova Fronteira

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Solidão? O que acontece é que a gente procura os outros para se livrar de si mesma. A intolerável companhia que eu me faço. Preciso dos outros para não chegar àquele ponto altamente intolerável do encontro comigo. Eu sou exatamente: zero. E tanto se me dá. Conselho: fique de vez em quando sozinho, senão você será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa.

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"Um retrato não é apenas um documento de identidade, é sobretudo a curva de uma emoção". James Joyce

6 de maio de 2018

Poeta ~ Maria Giulia Pinheiro

Quando chegar,
não vou saber que você é você.
Deixarei entrar,
aos poucos,
cedendo à poesia de viver ao seu lado.

Colocarei avisos e barreiras:
“Favor no caminho não alimentar minhas obsessões”.
Direi:
“Sei amar.
Às vezes, demais”.
Você rirá e entenderei silenciosa que
meu amor é meu.

Vamos ensinar a respirar longamente,
a não esperar,
a ver,
a analisar:
Sujeito-Sujeito.

Você vai me arrancar a pele
(vai doer).
Vou lhe jogar meus ácidos
(vai doer).
Nós vamos fazer Amor da nossa carne viva.

Sem sangue.
Putrificação –
– Pure-fazer –
– Purificados.

As novas camadas que vão nos cobrir
(nosso amor será destruição-construção, nunca reformahábito)
serão sublimações ético-afetivas.

Você vai me dar impressão de analfabetismo ficcional,
por fazer da realidade mais bonita do que as minhas criações.

Um dia,
só um dia –
não hoje do nosso futuro criado -,
vamos dizer:
“Agora é fim”.

Cada um para o lado,
desconjuntados,
solo
próprio.
Marcas de raízes profundas que já não capturam nutrientes,
mas existem enquanto resquício de caminho.
Então, novas buscas de novas poéticas.
Sozinhos e tatuados por versos concretos.

&&&

Maria Giulia Pinheiro é autora de "Da Poeta ao Inevitável", pela Editora patuá (2013), "Alteridade", pelo Selo do Burro (2016), e dramaturga dos espetáculos "Mais um Hamlet", "Alteridade e Bruta Flor do Querer". É fundadora do grupo Companhia e Fúria, em que atua, dirige e escreve. Formou-se jornalista pela Fundação Cásper Líbero e atriz pelo Teatro Escola Célia Helena, especializou-se em Roteiro para TV na Academia Internacional de Cinema e é pós-graduanda no curso “Arte na Educação: teoria e prática” – ECA/USP. Nasceu em São Paulo, SP, em 28 de maio de 1990. 
[Biografia retirada e revista do livro Alteridade.]

5 de maio de 2018

Poemas Reunidos ~ Ana Martins Marques

Sempre gostei dos livros
chamados poemas reunidos
pela ideia de festa ou de quermesse
como se os poemas se encontrassem
como parentes distantes
um pouco entediados
em volta de uma mesa
como ex-colegas de colégio
como amigas antigas para jogar cartas
como combatentes
numa arena
galos de briga
cavalos de corrida ou
boxeadores num ringue
como ministros de estado
numa cúpula
ou escolares em excursão
como amantes secretos
num quarto de hotel
às seis da tarde
enquanto sem alegria apagam-se as flores do papel de parede

&&


Ana Martins Marques nasceu em Belo Horizonte, é graduada em Letras na UFMG e tem doutorado em literatura comparada pela mesma universidade. É autora dos livros de poesia A vida submarina (Editora Scriptum, 2009), Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011), O livro das semelhanças (Companhia das Letras, 2015) e Duas janelas, escrito em dupla com Marcos Siscar (Luna Parque, 2016).

3 de maio de 2018

dentro de mim faz Sul - dois poemas de Ondjaki

que língua falam os pássaros
de madrugada
que não a do amor?

escuto a madrugada
– lento manancial de céus.

os pássaros
são mais sabedores.

&

quero reaprender o amor na respiração das tuas mãos

quero-me sentado nas pálpebras quietas do teu olhar. quero me goiabar em ti, caroço e casca, verme e moço, seiva e corpo

tu – minha noite redonda

minha madrugada mulata.

2 de maio de 2018

"Seios e anseios", de Mia Couto, In Tradutor de chuvas, 2011

As vezes que morri
boca derramada entre os teus seios,
todas essas vezes
não me deram luto
porque, de mim, eu em ti nascia.

Todos esses abismos,
meu amor,
não me deram regresso.

Depois de ti,
não há caminhos.

Porque eu nasci
antes de haver vida,
depois de tu chegares.

1 de maio de 2018

"Eros e a Civilização" - Livro de Herbert Marcuse (1955) - Resenha Crítica por Rafael Trindade

Marcuse foi um filósofo alemão do séc. XX; fez parte do Instituto de Pesquisas Sociais, instituição que ficou conhecida como a Escola de Frankfurt, junto com outros importantes teóricos da época como Adorno e Horkheimer. Seus trabalhos tiveram grande impacto no campo político e foram responsáveis por influenciar movimentos como, por exemplo, a greve de maio de 68. Em 1955 lançou a obra “Eros e a Civilização” onde, dialogando com conceitos marxistas e freudianos, faz uma análise da sociedade da época.

Na primeira parte do livro, já usando conceitos de Freud, Marcuse expõe o que entende ser a sociedade atual e o impacto que esta tem na formação do princípio de realidade do indivíduo. Para o autor, assim como para Freud, a civilização se forma a partir da repressão dos instintos, ou seja, o princípio de prazer é limitado por determinadas condições necessárias à constituição da sociedade. Estes impulsos devem ser recalcados ou sublimados, e neste processo, forma-se o princípio de realidade de nossa civilização. Contudo, Marcuse afirma, agora usando um conceito de Marx, que além da repressão postulada por Freud, a atual sociedade industrial, a partir do princípio de desempenho, impõe também a mais-repressão, exigindo, assim, mais de Eros, princípio de vida, para a manutenção da forma vigente de constituição social. Seguindo essa lógica, o princípio de realidade do indivíduo moderno é completamente moldado pelo princípio de desempenho; as exigências do mundo, através da mais-repressão, seriam responsáveis pela constituição da subjetividade alienada e patológica criando, então, sujeitos voltados para a lógica de mercado, consumidores que se utilizando daquilo que os oprime, afirmam sua liberdade no próprio ato de comprar, “a produção e o consumo reproduzem e justificam a dominação”. Nesse contexto, diz Marcuse, a própria normalidade é problematizada e as patologias, como, por exemplo, a neurose, seriam o protesto do corpo contra sua reificação, sua transformação em apêndice da máquina, uma revolta contra os próprios alicerces que sustentam a civilização no intuito de dar um uso focado em si mesmo. O excesso de repressão seria mecanismo de manutenção da própria civilização que através do enfraquecimento de Eros, impossibilitaria a revolução e a procura da liberdade autêntica, ”a civilização tem que se defender contra o espectro de um mundo que possa ser livre”. Contudo, a dessexualização contínua daria vazão à pulsão de morte, impulso este que estaria levando a sociedade à sua própria destruição.

Na segunda parte do livro, o autor se propõe a ir “além do princípio de realidade”, se contrapondo a Freud e procurando mostrar que a mais-repressão é resultado de vários processos que, apesar de naturais e históricos, podem ser revertidos. Portanto, mesmo que a organização social tenha uma lógica interna, isso não a impede de ser rompida por outras formas de organização, de constituição de princípio de realidade; para Marcuse, a base para uma constituição social libertária estaria contida em sua própria organização atual repressiva. Contudo, isso não explica como uma sociedade pode gerar a liberdade sendo que a não-liberdade faz parte de suas próprias engrenagens. Marcuse afirma, então, que o próprio princípio de desempenho, este sustentado pela mais-repressão, constituirá uma sociedade cada vez mais tecnológica e avançada onde a necessidade de sublimação de pulsões para a atividade laborativa será cada vez menos necessária. Quanto mais a sociedade industrial empregar suas forças na produção, crescimento e desenvolvimento tecnológico, menos será necessário, no futuro, mobilização de energia instintiva em um trabalho alienante e desgastante. A diminuição do esforço na busca de gratificação terminaria por levar as estruturas de mais-repressão ao colapso. Este sistema depende do adiamento da gratificação e do enfraquecimento de Eros, que situa o indivíduo como meio e não como fim; contudo, uma organização que favorecesse Eros criaria “novas e duradouras relações de trabalho”. A diminuição da mais-repressão, em face do favorecimento da gratificação pelos meios tecnológicos, não elimina a necessidade de sublimação para o trabalho, mas a própria definição de trabalho ganharia um caráter de atividade lúdica, porque todo o princípio de realidade, que também modela e perpetua este sistema, se alteraria, criando novas formas de experienciar e relacionar-se com o mundo. Freud acreditava que a eliminação da repressão destruiria a sociedade, que a abdicação dos instintos é fator essencial para sua manutenção, mas o autor de “Eros e Civilização” se contrapõe afirmando que, na verdade, um excesso de repressão, nesse caso definido por ele como mais-repressão, foi imposto por uma sociedade industrial e que isto estaria causando o próprio sufocamento do homem e, como consequência, sua própria eliminação. Para Marcuse, a sociedade tem condições de sustentar-se através da eliminação dessas condições castradoras e transformar-se em outra completamente diferente, onde haveria espaço para o lúdico, onde “Eros, os instintos de vida, seriam libertados num grau sem precedentes”.

No epílogo, Marcuse conclui que a terapia psicanalítica seria uma das responsáveis pela atual constituição social; isto se daria pelo próprio caráter ideológico de sua aplicação. Enquanto a psicanálise fundamenta o homem como um indivíduo doente em função de uma sociedade também enferma, a terapia psicanalítica, escondendo-se atrás de uma “ciência neutra”, procura tratar o paciente para recolocá-lo nos mesmos meios sociais que propiciaram seu adoecimento. Entretanto, mesmo que a terapia psicanalítica trabalhe a favor do status quo, a teoria criada por Freud e apropriada posteriormente por Marcuse explicitaria as condições de libertação das formas repressoras vigentes na sociedade industrial atual. Sendo assim, podemos ver como o pensamento de Marcuse ainda é uma poderosa ferramenta de análise das contradições sociais, e se contrapondo a muitos dos críticos da escola de Frankfurt, vemos como o filósofo nos dá ferramentas conceituais para fundamentar nossa busca por mudanças. Não é à toa que foi considerado um dos teóricos da greve de maio de 68. E também não é sem motivo que nos apropriamos de sua teoria.

A importância deste trabalho pode ser sentida até hoje, tanto pelos meios acadêmicos, como grades curriculares das universidades e publicações de artigos e teses, quanto pela relevância das idéias que ainda se mostram atuais. A explosão de revoltas (tais como a primavera árabe), notícias de suicídios (foxcom e telecom), greves (na Europa, em geral), crises (pelo excesso de especulação e/ou produção), incentivo e compulsão consumista, todas estas características de nossa sociedade nos levam a pensar que alguma coisa está errada e o pensamento de Marcuse ainda é uma poderosa ferramenta de análise destas contradições.

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"A possibilidade de escolha do indivíduo não é o fator decisivo na determinação do seu grau de liberdade, mas sim o que pode ser escolhido e o que é escolhido pelo indivíduo.“
Herbert Marcuse (1898 – 1979)



Referência:
Marcuse, Hebert. Eros e a Civilização – uma crítica filosófica ao pensamento de Freud. Tradução. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro. Ed. Zahar, 1955.