30 de abril de 2018

Deus é a Suprema Dança - by Osho, em "The Book of Wisdom"

A verdade não pode ser definida, embora ela certamente possa ser experienciada.
Mas experiência não é uma definição.
Uma definição é feita pela mente, a experiência vem através da participação.
Se alguém pergunta: o que é uma dança? Como você pode defini-la?
Mas você pode dançar e você pode conhecer a sensação interior dela.
Deus é a suprema dança.

28 de abril de 2018

A Alma dos Diferentes - Artur da Távola

Ah, o diferente, esse ser especial!
Diferente não é quem pretenda ser. Esse é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser diferente.
Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora, momento e lugar errados para os outros. Que riem de inveja de não serem assim. E de medo de não agüentar, caso um dia venham, a ser.
O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.
O diferente nunca é um chato. Mas é sempre confundido por pessoas menos sensíveis e avisadas. Supondo encontrar um chato onde está um diferente, talentos são rechaçados; vitórias, adiadas; esperanças, mortas. Um diferente medroso, este sim, acaba transformando-se num chato. Chato é um diferente que não vingou.
Os diferentes muito inteligentes percebem porque os outros não os entendem. Os diferentes raivosos acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro.
Diferente que se preza entende o porque de quem o agride. Se o diferente se mediocrizar, mergulhará no complexo de inferioridade.
O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer - alterando algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores.
O diferente suporta e digere a ira do irremediavelmente igual: a inveja do comum; o ódio do mediano. O verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que está sempre certo.
O diferente começa a sofrer cedo, já no primário, onde os demais de mãos dadas, e até mesmo alguns adultos por omissão, se unem para transformar o que é peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura. O que é percepção aguçada em: "Puxa, fulano, como você é complicado". O que é o embrião de um estilo próprio em : "Você não está vendo como todo mundo faz? "
O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações os quais acaba incorporando. Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram ( e se transformam) nos seus grandes modificadores.
Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo dos demais começarem a perceber. Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno agridem e gargalham. É o que engorda mais um pouco; chora onde outros xingam; estuda onde outros burram.
Quer onde outros cansam.Espera de onde já não vem. Sonha entre realistas. Concretiza entre sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados. Cria onde o hábito rotiniza. Sofre onde os outros ganham.
Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera. Aceita empregos que ninguém supõe. Perde horas em coisas que só ele sabe importantes. Engorda onde não deve. Diz sempre na hora de calar. Cala nas horas erradas. Não desiste de lutar pela harmonia. Fala de amor no meio da guerra. Deixa o adversário fazer o gol, porque gosta mais de jogar do que de ganhar. Ele aprendeu a superar riso, deboche, escárnio, e consciência dolorosa de que a média é má porque é igual.
Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, machucados, engordados, magros demais, inteligentes em excesso, bons demais para aquele cargo, excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande, de roupas erradas, cheios de espinhas, de mumunha, de malícia ou de baba. Aí estão, doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, sendo muito mais.
A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes.
Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suporta-lo depois.


27 de abril de 2018

Poema de Francisco José ~ Blog Santuário Negro (2009)


O amor acontece.
É um sentimento de encanto
que encanta o pensamento.

Uma vontade.
Um desejo em corpos
desalinhados.

Uma lágrima. Um sorriso.
Um olhar sob a claridade
suave e difusa que tinge
a alma de um poeta.

26 de abril de 2018

Cantares do Sem Nome e de Partida... por Hilda Hilst

Winged Angel  by streetX222 on DeviantArt

o nunca mais não é verdade.
há ilusões e assomos, há repentes.
de perpetuar a duração.
o nunca mais é só meia-verdade:
como se visses a ave entre a folhagem
e ao mesmo tempo não.
(e antevisses
contentamento e morte na paisagem.)

o nunca mais é planície e fendas.
é de abismos e arroios

é de perpetuidade no que pensas efêmero.
e breve e pequenino
no que pensas eterno.

nem é o corvo ou poema o nunca mais.

25 de abril de 2018

Os Filhos por Gibran Kahlil Gibran - Do Livro "O Profeta", Editora: Acigi - 1976

Maternity by Leon Bazile Perrault

Uma mulher que carregava o filho nos braços disse: "Fala-nos dos filhos."
E ele falou:


Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.

Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.

24 de abril de 2018

Pigmalião e Galathéa - Mitologia Grega

Jean-Leon Gerome Pygmalion and Galatea

Questionamentos:

1. O que é a paixão?
2. O que representa a mulher para um homem?

"No tempo em que o mundo era jovem e os deuses ainda andavam na Terra, reinava na ilha de Chipre um escultor rei e rei dos escultores. Seu nome era Pigmalião. Na linguagem de nossos dias poderíamos dizer dele que era "casado com sua arte" Ele via na mulher somente a ruína do homem. Acreditava que as mulheres desviavam os homens do caminho que lhes estava destinado.

Enquanto vivesse sozinho, era livre: não se tornava um "refém da fortuna". Sozinho, o homem podia viver para sua arte, podia combater todos os perigos que o assaltassem, podia escapar desimpedido de todas as armadilhas da vida.

A mulher constituía a hera que se agarrava ao carvalho e o sufocava inapelavelmente. Nenhuma, jurou Pigmalião, o prenderia jamais. Por fim, chegou a odiar a mulher e livre de coração e alma seu gênio criou obras tão grandiosas que se tornou o mais perfeito escultor. Só tinha uma paixão: sua arte; e era tudo quanto lhe bastava. De grandes blocos de mármore tosco ele moldava a mais perfeita cópia de homens e mulheres; e toda essa arte parecia-lhe a mais bela e a mais digna de ser preservada.

Certo dia, enquanto lavrava e esculpia, começou a surgir de suas mãos, como esboço de um formidável retrato, a imagem de uma mulher. Isso aconteceu a despeito de sua intenção. Apenas sentia que naquele bloco de pedra de puríssima brancura parecia estar aprisionada a forma primorosa de uma mulher a quem devesse tornar livre. Ela foi surgindo lenta e gradualmente e Pigmalião viu que era a mais bela obra que sua arte tinha engendrado. Tudo o que em sua concepção uma mulher devia ser estava ali. Sua forma e semblante eram os mais perfeitos; tão perfeitos que ele ficou convencido de que, se fosse uma mulher real, mais perfeita seria sua essência interior. Nela trabalhava como nunca antes.

E veio o dia em que, por fim, sentiu que outra cinzelada mais podia alterar a obra rara que tinha criado. Depositou seu cinzel e sentou-se para contemplar essa Mulher Perfeita. Ela parecia fitá-lo na alma, seus lábios entreabertos pareciam prontos para falar, prontos para sorrir; suas mãos pareciam se estender para encontrar as dele. Pigmalião cobriu os olhos. Ele, que odiava as mulheres, amava uma de mármore frio. As mulheres que ele tinha desprezado agora estavam vingadas.

Dia após dia sua paixão pela mulher que ele próprio criara aumentava. Suas mãos não puderam mais manejar o cinzel, tornaram-se inativas. Ficava sob os grandes pinheiros, fitava o mar azul safira e devaneava criando imagens de uma mulher de carne e ossos; tocava com os pés nus a areia branca, os raios do sol de Chipre roçavam seus cabelos de mármore, que se tornavam vivos e dourados. Ele corria apressado de volta à casa para constatar que esse milagre não se realizara. Beijava com paixão as pequenas mãos frias e depositava ao lado dos delicados pés de mármore os presentes que ele sabia eram cobiçados pelas mulheres jovens.
A essa divindade ele deu o nome de Galatéa; no silêncio da noite as inumeráveis estrelas prateadas pareciam sempre sussurrar: "Galatéa...". Ele adornou um leito para ela com tecidos de púrpura de Tiro e sobre almofadas macias deitou a linda cabeça da mulher de mármore que ele amava.

Assim o tempo transcorria, até que se aproximou a ocasião dos festivais de Afrodite. A fumaça subia ondulante dos altares, o odor do incenso misturava-se ao perfume dos pinheiros e as vítimas, adornadas de guirlandas, mugiam e baliam enquanto eram levadas para o sacrifício. Como rei, Pigmaleão realizou fielmente e com perfeição todos os atos que a ele incumbia praticar na solenidade e, por fim, foi deixado aos pés do altar para fazer sozinho suas preces. Nunca antes, quando depositava seus pedidos diante dos deuses, suas palavras tinham vacilado, mas nesse dia falou não como um escultor-rei, mas como uma criança temerosa do que ia pedir.

"Ó, Afrodite, que tudo pode", exclamou, "rogo-te que me envies uma mulher como Galatéa!" "Dê vida à minha Galatéa" não ousou dizer, mas Afrodite soube perfeitamente as palavras que ele desejou ter pronunciado e sorriu ao ver como Pigmaleão estava ajoelhado. Três vezes a deusa fez as chamas do altar levantarem-se impetuosamente como sinal de que a prece tinha sido ouvida e Pigmaleão voltou para casa, mal ousando esperar, sequer permitindo que sua alegria vencesse o medo.

As sombras da noite caíam quando ele entrou no aposento sagrado que tinha preparado para Galatéa. Sobre o leito coberto de púrpura ela repousava. Pareceu-lhe que os olhos dela fitavam os seus e que lhe sorria acolhedora. Correu para ela, ajoelhou-se a seu lado e tocou com seus lábios os dela, de mármore inerte. Muitas vezes ele tinha feito o mesmo e sempre aqueles lábios gelados e sem vida pareciam transmitir a sua frieza diretamente ao coração, mas agora estava seguro de que não estavam mais frios. Sentiu uma de suas delicadas mãos; também não estavam mais rígidas nem frias nem insensíveis ao toque, mas repousavam macias e cálidas entre as suas. Roçou suavemente os dedos nos cabelos de mármore, e sentiu o cabelo dourado, macio e ondulante de seus desejos. Novamente, com a reverência com que tinha depositado as oferendas no altar de Afrodite, beijou seus lábios Galatéa correspondeu com as faces rosadas e quentes; os olhos, como dois lagos transparentes iluminados ao sol, fitavam-no com uma alegria tímida.

Silencia depois disso, a história de Pigmaleão e Galatéa. Sabemos apenas que suas vidas foram afortunadas e que tiveram um filho, Pafo, de quem a cidade sagrada de Afrodite recebeu o nome. Talvez Afrodite tenha rido muitas vezes ao ver Pigmaleão, que outrora tinha desprezado as mulheres, transformar-se em um servo devoto da mulher modelada originalmente por suas próprias mãos."

Pigmalião e Galateia by Jean-Leon Gerome

Questionamentos e Reflexões

1) O que é a paixão?
É a expressão de nosso lado criativo.

2) O que representa a mulher para um homem?
Seu lado feminino que possibilita dar um sentido em sua vida.

Comentário:

Esse mito nos mostra que quanto mais resistimos aos aspectos inerentes ao nosso ser, mais esses aspectos ganham força. É inevitável que tenhamos que entrar em contato com tudo isso, através da consciência ou da inconsciência. Se trilharmos o caminho do autoconhecimento que significa consciência realizaremos o que queremos. Através da inconsciência criaremos somatizações.

23 de abril de 2018

“Do que vem de dentro e pulsa aqui fora.” - Nara Sales


“(…) A verdade é que tenho sido mesmo é pra quem aguenta uma mulher que não se contém e explode em sentimentos e se acaba em silêncios. Uma mulher que tem na palavra a excitação para a alma, que tem na poesia a voluptuosidade da vida e que sempre carrega no peito um verso cru, nu e tão sutil que às vezes chega a doer; mas é a isso que chamo vida.
Tenho sido para quem chega de pés e coração descalços; para quem não liga se já é tarde ou se a conversa se estendeu num silêncio mútuo, que às vezes fala e outras vezes não quer dizer nada; para quem só quer ser companhia e não desvia o olhar nem esconde o sentir. Chega mais perto, posso ler-te um poema. Drummond, quiçá? Posso ler-te aquele verso que grifei no livro que estou lendo. Aquele verso me marcou tanto, sabe? Estou adorando compartilhar sorrisos e posso ser generosa e audaciosa em abraços, dos apertados, daqueles que abraçam por dentro. Senta aqui do meu lado, conte-me dos lugares onde estivestes, dos sorrisos que brotaram dos teus lábios… Conta mais dos abraços que encontraram braços, afáveis, quentes, doloridos, que seja, mas que encontraram braços dispostos. Ou então, não diga nada. Só vive esse momento que agora já é tão nosso.”

21 de abril de 2018

Visão de Clarice Lispector - (Poema escrito por Carlos Drummond de Andrade)

Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia… saberemos amar Clarice.

20 de abril de 2018

Citação do livro "As Ondas", Virginia Woolf. Tradução de Lya Luft. Editora Nova Fronteira(1980)


"O nó na minha garganta vai diminuindo. Palavras juntam-se, grudam-se, atropelam-se umas por cima das outras. Não importa quais sejam. Empurram-se e trepam uma nos ombros das outras. As isoladas, as solitárias acasalam-se, cambaleiam, multiplicam-se. Não importa o que digo. Como um pássaro a esvoaçar, uma frase cruza o espaço vazio entre nós. Pousa nos lábios dele." (p.78)

19 de abril de 2018

Tempo Viver ~ Clarice Lispector, in "Um Sopro de Vida" ~ (Pulsações foi o último romance de Clarice Lispector. Escrito entre 1974 e 1977, foi publicado após a morte da autora em 1978)

Nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é o futuro. Tempo para mim significa a desagregação da matéria. O apodrecimento do que é orgânico como se o tempo tivesse como um verme dentro de um fruto e fosse roubando a este fruto toda a sua polpa. O tempo não existe. O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em si não existe. Ou existe imutável e nele nos transladamos. O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto. Quero me multiplicar para poder abranger até áreas desérticas que dão a ideia de imobilidade eterna. Na eternidade não existe o tempo. Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide. De agora em diante o tempo vai ser sempre atual. Hoje é hoje. Espanto-me ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado. E amanhã eu vou ter de novo um hoje. Há algo de dor e pungência em viver o hoje. O paroxismo da mais fina e extrema nota de violino insistente. Mas há o hábito e o hábito anestesia.

10 de abril de 2018

6 de abril de 2018

pés por Lenívia Mendes


Meus pés agora procuram o recomeço. Um novo ponto de onde eu possa partir. Partida. Tenho a ânsia de regar a felicidade e sei que flores são capazes de brotar até dos sentimentos mais áridos, que dirá da minha fértil insegurança. Flores que o sol não é capaz de desbotar.

Meus pés buscam agora novos passos. Passado. Minha história inteira tatuada em mim, provando que a vida acontece dentro e não fora de nós. E só nos pertence aquilo que podemos carregar enquanto as mãos continuam livres.

O que nos move são aquelas coisas que não descansam na alma. Eterna inquietude que nos empurra e às vezes nos faz tropeçar. Mas se a gente pensar bem, cada tropeço nos leva um pouquinho mais pra frente.

4 de abril de 2018

Poema de Francisco José de Aradia ~ Blog Diário de Sombras ~ (Posted by: Francisco José / sexta-feira, novembro 28, 2003)


Noite solene e escarnada (Lâmpada mágica acessa).
Entre os murmúrios da noite e o germinar da semente,

olho para ti (deusa das sombras)
com um grito de prazer,
e encontro a razão mais sublime
da parte que me completa
e que me faz sentir a liberdade de um sonho
de um sonho profundo,
que me eleva para além
de um poente sem aurora.

Oh, delicado aroma que navega revolto sob os meus instintos
e exalta a arte de uma magia cerimonial,
transferindo-nos do nosso mundo fisico
para uma ilha longínqua,
onde o crepúsculo da Deusa,
abençoará eternamente este nosso desejo.

3 de abril de 2018

Caio Fernando Abreu - Fragmento


Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?

2 de abril de 2018

Elegias de Duíno (Trecho) – Rainer Maria Rilke (Elegias de Duíno e Os Sonetos a Orfeu de Rainer Maria Rilke - tradução de Vasco Graça Moura)


Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face – a quem furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos – talvez pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.

Sim, as primaveras precisavam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janela aberta,
uma viola d’amore se abandonava. Tudo isto era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, à espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vem
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta as amantes;
ainda não é bastante imortal sua celebrada ternura.
(…)

Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fosses,
nas igrejas de Roma e Nápoles, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa…
O que pede essa voz? A ansiada libertação
da aparência de injustiça que às vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
à rosas e a outras coisas singularmente promissoras
não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medroas,
não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. – Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

&


1 de abril de 2018

Fernando Pessoa – Poema XLVIII (Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa)


Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvores, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.