28 de março de 2018

poema de Francisco Jose - Blog Santuário Negro


Outras noites por inventar
num céu tão claro de boémio.
Caminhos por desvendar
até ao infinito de ti.
A minha fome e a tua boca.
Os meus olhos sob o teu corpo.

27 de março de 2018

A arte de ser feliz por Cecília Meireles


Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crinças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

&

Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro, em 7 de Novembro de 1901, mesma cidade em que morreu, a 9 de Novembro de 1964. Diplomada pela Escola Normal do Rio de Janeiro, estreou-se em literatura, muito jovem, como o livro de sonetos “Espectros”, após o que seguiu a carreira de magistério. Em 1934, fundou a primeira biblioteca infantil do Brasil e, nesse mesmo ano, visitou Portugal. Ensinou na Universidade do Distrito Federal, de 1936 a 1938 e, em 1940, na Universidade do Texas. Muito viajada, colaborou na imprensa, foi uma autoridade em questões de folclore e tem publicados vários volumes de prosa, bem como antologias. Porém, é a sua obra poética que faz dela a maior figura da poesia feminina brasileira e a leva a ser hoje considerada por muitos críticos a maior da Língua portuguesa. Inicialmente parnasiana com “Espectros” os livros seguintes são já de tom simbolista e a partir de “Viagem” de 1939, Cecília Meireles é uma poetisa “moderna” que não passou pela ruptura do Modernismo, entre 1922 a 1930. Verdadeiro “caso de poesia absoluta”, tem como disse David Mourão-Ferreira, uma obra surpreendente pela rigorosa fidelidade a um número muito restrito de temas e pela grande diversidade de formas e motivos. Admirável é a sua linguagem poética, extremamente plástica, fluida, disponível. Além de poetisa, foi professora, pedagoga e jornalista. Nessas três profissões desenvolveu trabalhos de grande valor. Na poesia, escreveu algumas das melhores de toda nossa literatura; como jornalista atuou com seriedade em frente a uma imprensa dominada pela repressão e censura do governo Vargas, apesar disso soube defender os seus ideais; como professora e pedagoga sempre lutou por uma educação democrática e igualitária. Desde cedo aprendeu a conviver com a solidão e com a morte, por isso mesmo defendeu em seus temas algumas das suas melhores poesias. A paixão pelos livros e a leitura norteiam o caminho da jovem Cecília. Aos 16 anos, ela se diploma professora. A vontade e o fascínio pelo "saber" a conduzem, então, para o estudo de outros idiomas e para o Conservatório Nacional de Música, onde tem aulas de canto e violino. Ainda que "fizesse versos" e compusesse cantigas para os seus brinquedos desde a escola primária, é na adolescência que Cecília Meireles começa a "escrever poesias", segundo sua própria definição. Em 1919, aos 18 anos, ela publica seu primeiro livro de poemas: Espectros, iniciando um período de grande produção. Sua obra marcada didaticamente pelo Modernismo, não deixou de ter a influência do Simbolismo e de técnicas encontradas no classicismo, gongorismo, romantismo, parnasianismo, realismo e surrealismo. Como se vê, Cecília não tinha uma estética específica, pois sua obra sofre influência dos mais diferentes estilos de época. Mas se existe algo que ela soube trabalhar com muito domínio e sensibilidade foi o lirismo, não qualquer lirismo, mas um profundo lirismo de fazer-nos ler e reler sua obra. Seu pai, Carlos Alberto de Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil, morreu aos 26 anos de idade, três meses antes de a filha nascer. Sua mãe, a professora municipal Matilde Benevides, morreu quando ela tinha 3 anos. Sozinha no mundo com a única remanescente da família, sua avó materna Jacinta Garcia Benevides, Cecília foi obrigada a manter "uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efémero e o Eterno que, para outros, constituem aprendizagem dolorosa e, por vezes, cheia de violência". No entanto, lembrava sua infância de menina sozinha, que aprendia a cultivar como dons o silêncio e a solidão, como uma época maravilhosa – um fecundo tempo de aprendizado da realidade, o armazenamento de memórias, impressões e sensações que perdurariam, dando-lhe o material de sua imensa obra ("Grande aula, a do silêncio"). A avó Jacinta, açoriana – "que me cantava rimances e me ensinava parlendas" –, foi ao mesmo tempo seu esteio afetivo e a transmissora de uma riquíssima tradição cultural que transportava para o Rio de Janeiro do início do século 20, revivescida e "impregnada do mar da ilha de São Miguel, nos Açores", a poesia lírica galaico-portuguesa.

Sua Obra:
Criança, meu amor, 1923; Nunca mais..., 1923; Poema dos Poemas, 1923; Baladas para El-Rei, 1925; O Espírito Vitorioso, 1935; Viagem, 1939; Vaga Música, 1942; Poetas Novos de Portugal, 1944; Mar Absoluto, 1945; Rute e Alberto, 1945; Rui — Pequena História de uma Grande Vida, 1948; Retrato Natural, 1949; Problemas de Literatura Infantil, 1950; Amor em Leonoreta, 1952; 12 Noturnos de Holanda e o Aeronauta, 1952; Romanceiro da Inconfidência, 1953; Poemas Escritos na Índia, 1953; Batuque, 1953; Pequeno Oratório de Santa Clara, 1955; Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro, 1955; Panorama Folclórico de Açores, 1955; Canções, 1956; Giroflê, Giroflá, 1956; Romance de Santa Cecília, 1957; A Bíblia na Literatura Brasileira, 1957; A Rosa, 1957; Obra Poética,1958; Metal Rosicler, 1960; Antologia Poética, 1963; Solombra, 1963; Ou Isto ou Aquilo, 1964; Escolha o Seu Sonho, 1964; Crônica Trovada da Cidade de San Sebastian do Rio de Janeiro, 1965; O Menino Atrasado, 1966; Poésie (versão francesa), 1967; Obra em Prosa - 6 Volumes - Rio de Janeiro, 1998; Inscrição na areia.


"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.
(...) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade".
(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano”.

&

Giroflê-Giroflá

Tempo do Giroflê A vida vai sendo levada para longe, como um livro, que tristes querubins contemplam, resignados. (...) Ah, mas as pálidas imagens ainda resistem: saem dos seus primitivos lugares, aparecem onde não as esperávamos, desdobram-se de outras figuras que nos apresentam, acordam as primeiras experiências, as indeléveis curiosidades do nosso amanhecer no mundo. (...) A bondade está ali - detrás daquela porta que se abre em silêncio, na sala onde a mesa está sempre posta - Inutilmente o relógio marca o dia e a noite, pois a vida é sem fim. Ninguém estremece. Ninguém pensa nas horas muito a sério. Todos se sucedem, todos se lembram uns dos outros. Todos estão ali à espera dos que chegam.(...)

26 de março de 2018

provérbio japonese


“O sol não sabe dos bons, o sol não sabe dos maus. O sol ilumina e aquece a todos igualmente. Quem encontra a si mesmo é como o sol”.

20 de março de 2018

Ode ao Outono – John Keats

Josephine Wall Art

Estação de neblinas, doce e fecunda!
Companheira íntima do sol, com ele vais,
Quando ele abençoa e inunda
De frutos as videiras junto dos beirais;
Pra vergar de maçãs a musgosa macieira
E a fruta por inteiro tornar madura
Pra inchar as cabaças, prá avelã ficar gorda
Com uma doce amêndoa; há flores com fartura
Pra que a abelha as tenha sempre que queira
E pense haver dias quentes a vida inteira,
Pois o verão seus favos pegajosos transborda.
Quem não te viu já de fartura rodeada?
Às vezes, quem te procura sob outros céus,
No chão dum celeiro encontra-te descuidada,
O vento da limpeza ergue-te os cabelos.
Ou num rego meio-ceifado, em fundo torpor,
Tonta do perfume das papoulas, parada
A foice, junto da ceara a ceifar te demoras;
Às vezes, tens direita, qual rebuscador,
A pesada cabeça, ao passar a ribeira;
Ou, junto de a prensa, observas tranquila
A cidra a gotejar no fluir das horas.

Que é das canções da Primavera? Onde hão-de estar?
Esquece-as, tua música também tem valor –
Nuvens orlam o dia morrendo devagar
Tingem os restolhos de sua rósea cor;
De os mosquitos a dorida serrazina,
Crescente, entre os salgueiros do rio se ouvia,
Diminuindo, se o vento fica mais brando;
Os cordeiros balem na próxima colina;
Cantam grilos, alto, mas cheios de harmonia,
Num quintal, pisco vermelho assobia,
E as andorinhas chilreiam nos céus em bando.

John Keats
Traducao de António Simões

Josephine Wall Art

Poema original, em inglês: “Ode to Autumn”

Season of mists and mellow fruitfulness
Close bosom-friend of the maturing sun
Conspiring with him how to load and bless
With fruit the vines that round the thatch-eves run;
To bend with apples the moss’d cottage-trees,
And fill all fruit with ripeness to the core;
To swell the gourd, and plump the hazel shells
With a sweet kernel; to set budding more,
And still more, later flowers for the bees,
Until they think warm days will never cease,
For Summer has o’er-brimm’d their clammy cells.

Who hath not seen thee oft amid thy store?
Sometimes whoever seeks abroad may find
Thee sitting careless on a granary floor,
Thy hair soft-lifted by the winnowing wind;
Or on a half-reap’d furrow sound asleep,
Drows’d with the fume of poppies, while thy hook
Spares the next swath and all its twined flowers:
And sometimes like a gleaner thou dost keep
Steady thy laden head across a brook;
Or by a cider-press, with patient look,
Thou watchest the last oozings hours by hours.

Where are the songs of Spring? Ay, where are they?
Think not of them, thou hast thy music too,-
While barred clouds bloom the soft-dying day,
And touch the stubble-plains with rosy hue;
Then in a wailful choir the small gnats mourn
Among the river sallows, borne aloft
Or sinking as the light wind lives or dies;
And full-grown lambs loud bleat from hilly bourn;
Hedge-crickets sing; and now with treble soft
The red-breast whistles from a garden-croft;
And gathering swallows twitter in the skies.

19 de março de 2018

Casas amáveis - Cecília Meirelles

Vocês me dirão que casas antigas têm ratos, goteiras, portas e janelas empenadas, trincos que não correm, encanamentos que não funcionam. Mas não acontece o mesmo com tantos apartamentos novinhos em folha?

Agora, o que nenhum arranha-céu poderá ter, e as casas antigas tinham, é esse ar humano, esse modo comunicativo, essa expressão de gentileza que enchiam de mensagens amáveis as ruas de outrora.

Havia o feitio da casa: os chalés, com aquelas rendas de madeira pelo telhado, pelas varandas, eram uma festa, uma alegria, um vestido de noiva, uma árvore de Natal.

As casas de platibanda expunham todos os seus disparates felizes: jarros e compoteiras lá no alto, moças recostadas em brasões, pássaros de asas abertas, painéis com datas e monogramas em relevos de ouro.
Tudo isso queria dizer alguma coisa: as fachadas esforçavam-se por falar. E ouvia-se a sua linguagem com enternecimento.
Mas, hoje, quem se detém a olhar para rosas esculpidas, acentos, estrelas, cupidos, esfinges, cariátides?
Eram recordações mediterrâneas, orientais: mitologia, paganismo, saudade. (Que quer dizer saudade? E para que e o que recordar?)

Os jardins tinham suas deusas, seus anões possuíam mesmo bosques, onde morariam ecos e oráculos; e pequenas cascatas, pequenas grutas com um pouco d'água para os peixinhos. Possuíam canteiros de flores obscuras - violetas, amores-perfeitos - para serem vistas só de perto, carinhosamente, uma por uma, de cor em cor. (Hoje, estes ventos grandiosos apagam tudo.)
E, lá dentro, as casas tinham corredores crepusculares, porões úmidos, habitados por certos fantasmas domésticos, que de vez em quando se faziam lembrar, com seus pálidos sopros, seus transparentes calcanhares, suas algemas de escravidão.
As famílias abrigavam cortejos de mortos. E havia as clarabóias. Luz como aquela? Nem a do luar! - uma suavidade de cinza e marfim, a maciez da seda, o fulgor da opala.

As casas eram o retrato de seus proprietários. Sabia-se logo de suas virtudes e defeitos. Retratos expostos ao público: nem sempre simpáticos, mas geralmente fiéis. Agora, os andaimes sobem, para os arranha-céus vitoriosos, frios e monótonos, tão seguros de sua utilidade que não podem suspeitar da sua ausência de gentileza.

Qualquer dia, também desaparecerão essas últimas casas coloridas que exibem a todos os passantes suas ingênuas alegrias íntimas - flores de papel, abajures encarnados, colchas de franjas - e cujas risonhas proprietárias têm sempre um Y no nome, Yara, Nancy, Jeny...

Ah! Não veremos mais essas palavras, em diagonal, por cima das janelas, de cortininhas arregaçadas, com um gatinho dormindo no peitoril. Afinal, tudo serão arranha-céus. (Ninguém mais quer ser como é: todos querem ser como os outros são.)

E eis que as ruas ficarão profundamente tristes, sem a graça, o encanto, a surpresa das casas que vão sendo derrubadas. Casas suntuosas ou modestas, mas expressivas, comunicantes.
Casas amáveis.

16 de março de 2018

Profecia do Fracasso por Fabrício Carpinejar


Pensar demais é exigir demais de si e dos outros.
Pensar demais é analisar todas as hipóteses para não correr riscos.
Pensar é bom, desde que não vire angústia, sofrimento, deserção do mundo.

O excesso de pensamento tende a virar imobilidade.
Todo o pessimista é prepotente. Não se repete porque ele já sabe de tudo. Saber de tudo é morrer para a experiência.
Ele critica antes de enxergar, critica antes de ouvir, critica antes de provar.

Quem pensa demais procura ter somente benefícios sem a contrapartida dos sacrifícios.
Quem pensa demais encontra mais problemas do que soluções. É mais prevenido do que real, é mais cauteloso do que verdadeiro.

Não vai, não quer, não deseja, pois já conhece os resultados. Não arrisca. Não ousa. É um profeta do fracasso.

Arruma sempre uma desculpa para não comparecer. Afinal, quem pensa demais não quer perder tempo e assim perde a esperança de mudar de ideia e de vida e de participar de qualquer coisa.

O intelecto não pode apagar o prazer da simplicidade. É saudável ser idiota um pouco por dia.

Não há motivo para jogar futebol entre os amigos a não ser o hábito de reviver a infância.
Não há motivo para dedicar uma tarde inteira de churrasco e ouvir as piadas antológicas a não ser o hábito de rir em família.

Felicidade não é racional. Felicidade é continuar acreditando mesmo depois de ter sido infeliz uma vez.

3 de março de 2018

poema de Francisco Jose - Blog Santuário Negro

Amanheces no meu corpo
poesia de mulher
cântico de amor
audaz e suave
entregue à leitura de um dogma
que faz de ti a minha fé.