19 de agosto de 2018

Federico Garcia Lorca (‎5 de junho de 1898 ~~18 de agosto de 1936 (38 anos) ~~ Três poemas de Garcia Lorca extraídos de “Romancero Gitano” ~~ em "Obra poética completa" ~~(tradução de William Agel de Melo)

“Solo el misterio nos hace vivir. Solo el misterio”

Cantos novos (Agosto de 1920)

Diz a tarde: “Tenho sede de sombra!”
Diz a lua: “Eu, sede de luzeiros.”
A fonte cristalina pede lábios
e suspira o vento.

Eu tenho sede de aromas e de sorrisos,
sede de cantares novos
sem luas e sem lírios,
e sem amores mortos.

Um cantar de manhã que estremeça
os remansos quietos
do porvir. E encha de esperança
suas ondas e seus lodaçais.

Um cantar luminoso e repousado
cheio de pensamento,
virginal de tristezas e de angústias
e virginal de sonhos.

Cantar sem carne lírica que encha
de risos o silêncio
(um bando de pombas cegas
lançadas ao mistério).

Cantar que vá à alma das coisas
e à alma dos ventos
e que descanse por fim na alegria
do coração eterno.

&

Cantos nuevos (Agosto de 1920)

Dice la tarde: “¡Tengo sed de sombra!”
Dice la luna: “¡Yo, sed de luceros!”
La fuente cristalina pide labios
y suspira el viento.

Yo tengo sed de aromas y de risas,
sed de cantares nuevos
sin lunas y sin lirios,
y sin amores muertos.

Un cantar de mañana que estremezca
a los remansos quietos
del porvenir. Y llene de esperanza
sus ondas y sus cienos.

Un cantar luminoso y reposado
pleno de pensamiento,
virginal de tristezas y de angustias
y virginal de ensueños.

Cantar sin carne lírica que llene
de risas el silencio
(una bandada de palomas ciegas
lanzadas al misterio).

Cantar que vaya al alma de las cosas
y al alma de los vientos
y que descanse al fin en la alegría
del corazón eterno.

&

Chagas de amor

Esta luz, este fogo que devora.
Esta paisagem gris que me rodeia.
Esta dor por uma só ideia
Esta angústia de céu, mundo e hora.

Este pranto de sangue que decora
lira já sem pulso, lúbrica teia.
Este peso do mar que me golpeia
Esta lacraia que em meu peito mora.

São grinaldas de amor, cama de ferido,
onde sem sono, sonho tua presença
entre as ruínas de meu peito oprimido.

E ainda que busque o cume da prudência,
me dá teu coração vale estendido
com cicuta e paixão de amarga ciência.

&

Llagas de amor

Esta luz, este fuego que devora.
Este paisaje gris que me rodea.
Este dolor por una sola idea.
Esta angustia de cielo, mundo y hora.

Este llanto de sangre que decora
lira sin pulso ya, lúbrica tea.
Este peso del mar que me golpea.
Este alacrán que por mi pecho mora.

Son guirnalda de amor, cama de herido,
donde sin sueño, sueño tu presencia
entre las ruinas de mi pecho hundido.

Y aunque busco la cumbre de prudencia,
me da tu corazón valle tendido
con cicuta y pasión de amarga ciencia.

&

E depois

Os labirintos
que cria o tempo
se desvanecem.

(Só fica
o deserto.)

O coração,
fonte do desejo,
se desvanece.

(Só fica
o deserto)

A ilusão da aurora
e os beijos
se desvanecem.

Só fica
o deserto.
Um ondulado
deserto.

&

Y despues

Los laberintos
que crea el tiempo
se desvanecen.

(Solo queda
el desierto.)

El corazón,
fuente del deseo,
se desvanece.

(Solo queda
el desierto.)

La ilusión de la aurora
y los besos
se desvanecen.

Solo queda
el desierto.
Un ondulado
desierto.

&&&&&&&

Deixaria neste livro/ toda a minha alma./ Este livro que viu/ as paisagens comigo/ e viveu horas santas./ Que pena dos livros/ que nos enchem as mãos/ de rosas e de estrelas/ e lentamente passam! (...)"

Federico García Lorca foi um dos maiores poetas espanhóis do século XX, mas foi também um incansável pesquisador da cultura de seu povo e um divulgador do teatro popular e um ativista por demais interessante. Inteiramente avesso a qualquer tipo de violência física, Lorca dedicou seu fervor republicano a um ativismo cultural itinerante. Uma parte considerável de seus poemas e obras teatrais dialoga diretamente com as tradições de crítica e contestação populares e desnuda uma Espanha violenta, ignorante e fratricida, permeada por uma religiosidade opressora e uma classe dominante despótica.

Em agosto de 1936, logo depois do início da Guerra Civil Espanhola, o poeta foi arrestado, a partir de uma ordem escrita das autoridades franquistas e foi fuzilado na madrugada de 18 para 19 do mesmo mês. As circunstâncias do assassinato de Lorca permaneceram obscuras durante décadas, seu corpo nunca foi encontrado e, somente recentemente, documentos provando a autoria e a procedência das ordens superiores para sua morte vieram a luz. As circunstâncias do encobrimento desse assassinato foram exaustivamente pesquisadas por Ian Gibson, autor de farto material sobre Lorca.

Afinal, o aspecto mais monstruoso do assassinato de Lorca é exatamente seu caráter clandestino e criminoso. Os franquistas não tiveram a coragem e nem decência de prendê-lo abertamente como fizeram com outros tantos intelectuais. Ele foi arrestado para a prisão em surdina e depois de assassinado foi jogado em alguma vala comum ou sepultado em local desconhecido para impedir que sua memória fosse respeitada.

O fato de Federico ser homossexual era considerado inadmissível no mundo católico franquista e esse foi um dos fatores que precipitou sua eliminação. A covardia das autoridades espanholas, que durante décadas se recusaram a assumir qualquer responsabilidade nesse crime e nada fizeram para localizar seus restos mortais e devolvê-los à família, figura na galeria da infâmia da humanidade. Bem como a recusa de admitir que o poeta não representava qualquer perigo físico aos falangistas e foi assassinado por motivos torpes ligados ao machismo patriarcal.

Fonte: COMPARTILHANDOHISTORIAS

18 de agosto de 2018

16 de agosto de 2018

Cristal ~~ por Maria Laura Guevara (Tradução: Vanda Lúcia da Costa Salles)

by MarinaCoric
"La imagen del espejo no me pertenece,
Hay uma primavera latente todavía.
El otoño se asoma por mis ojos
Relatando uma disimulada melancolia.
Los brillos rojizos del cabello
Como um ocaso ocultan las nueves del
inverno
Em todo mi ser late la vida,
Esa imagen del espejo, no es la mia”

&&&

Espelho

"A imagem do espelho não me pertence,
Ainda há uma fonte oculta.
O outono se assoma em meus olhos
Relatando uma dissimulada melancolia.
Os brilhos avermelhados do cabelo
Como um ocaso oculta as neves
Do inverno
Em todo o meu ser a vida bate,
Essa imagem do espelho, não é a minha"

15 de agosto de 2018

No Silêncio dos Olhos... por José Saramago, em Os Poemas Possíveis/Lisboa, 1985

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

14 de agosto de 2018

Como é o amor para as pessoas inteligentes? (publicado em A Soma de Todos Afetos ~~ Blog oficial da escritora Fabíola Simões) - (Fonte indicada: A Mente é Maravilhosa)

Como é o amor para as pessoas inteligentes? A ciência, sempre interessada nesta dimensão, mostrou que, em média, ter esse perfil não aumenta a probabilidade de encontrar um parceiro afetivo. São mais analíticos, independentes, exigentes… Quando encontram alguém próximo de suas expectativas, o vínculo que podem criar é muito forte e satisfatório.

Para quem procura um livro sobre esse assunto, não há proposta mais esclarecedora, e por sua vez mais divertida, do que “O Tao dos Namoros” (tradução livre), do professor de filosofia de Harvard, Alex Benzer.

Ele explica, a partir de um ponto de vista irônico, por que as pessoas inteligentes tendem a ter relacionamentos menos duradouros. Tal como o próprio autor revela, nem tudo o que reluz é ouro, e ser brilhante do ponto de vista intelectual não se traduz necessariamente em sucesso, especialmente em alguns planos.

“A inteligência e o bom senso abrem caminho com poucos artifícios.”
-Johann Wolfgang von Goethe-

Pessoas inteligentes ficam entediadas facilmente e às vezes até entediam os outros com seus interesses e paixões únicas. São esquecidos, procrastinadores, difíceis de entender, altamente exigentes (e autoexigentes) divagam facilmente, sofrem de constantes crises existenciais e, por último mas não menos importante, possuem um termômetro emocional que oscila desde a sensibilidade mais requintada ao mau humor mais explosivo.

Não são exatamente fáceis, não há dúvidas. No entanto, todos nós, sem levar em conta o nosso QI, também apresentamos nossos cantos, cavidades e bordas singulares. Em questões do coração, nem tudo é harmonia e flechas à primeira vista. Nós sabemos disso. No entanto, do ponto de vista científico, o que as pessoas inteligentes têm em comum quando se trata de viver o amor tem sido tradicionalmente objeto de atenção.

Assim, temos vários estudos sobre como funciona o amor para as pessoas inteligentes. Vamos vê-los.

Como é o amor para as pessoas inteligentes?:

A maioria assume que é muito difícil ser brilhante do ponto de vista intelectual e desfrutar, ao mesmo tempo, de relacionamentos afetivos felizes, estáveis ​​e satisfatórios.

Não é fácil encontrar alguém igual, uma pessoa com o mesmo potencial intelectual, as mesmas paixões e singularidades cognitivas. No entanto, às vezes nos deixamos levar por estereótipos e suposições sem nos permitir perguntar um pouco mais, sem consultar o lado científico.

Em primeiro lugar, há pessoas com um alto QI que estabelecem compromissos satisfatórios. Além disso, algumas pessoas não precisam de um parceiro afetivo com uma mente excepcional para se apaixonar e participar de um relacionamento sólido.

A conexão emocional é suficiente. Em muitos casos, para que o amor nasça, é suficiente contar com alguém capaz de enriquecer pontos de vista, com facilidade de se complementar e que, de uma forma ou de outra, estimule seu crescimento. Para entender como é o amor para as pessoas inteligentes, podemos nos referir a um trabalho realizado pelo psicólogo holandês Pieternel Dijkstra e sua equipe em 2017.

Buscam pessoas que vejam o mundo da mesma maneira:

Perfis com alto QI têm uma concepção muito clara do mundo. Seus ideais, sua filosofia e seu gosto pelo transcendental são às vezes muito altos, de modo que não toleram certas abordagens, comentários banais ou desconsideração por certas áreas do saber e do conhecimento. Gostam das pessoas envolvidas, personalidades com as quais se desviam por interesses comuns, por objetivos semelhantes.

Portanto, não é nada fácil encontrar pessoas que, sem precisarem ser muito inteligentes, sejam brilhantes em termos de ideais, sensibilidades. Por isso, às vezes é tão comum que esse perfil seja frustrado em questões emocionais. Tantas decepções e tentativas fracassadas os levam a preferir sua solidão e independência. Seu desejo seria encontrar um parceiro para ter afinidades mais profundas e transcendentais, aquelas que vão além do intelecto.

As pessoas inteligentes e o apego inseguro:

O professor Pieternel Dijkstra descobriu algo interessante neste estudo. Entre todas as pessoas com alto QI que entrevistaram e analisaram ao longo de vários anos, uma boa parte delas tinham um apego inseguro. O que isso significa e que implicação tem a um nível afetivo?

São pessoas que, em alguns momentos, se mostram próximas e carinhosas e depois mostram frieza emocional.
Também apresentam uma grande insegurança nessa questão de relacionamentos. Temem que, no fundo, sejam abandonados ou traídos, por isso, às vezes, ficam obcecados com certas nuances, analisam qualquer gesto, tom de voz, contradição, etc.

Temem o abandono, mas, ao mesmo tempo, quando a outra pessoa precisa deles, podem mostrar rejeição ou distância. Este é um aspecto complexo que uma parte (não toda) da população com altas capacidades intelectuais apresenta.
Quando o intelecto é combinado com a inteligência emocional: sucesso nos relacionamentos

Apontamos para isso no início: o amor às vezes pode ser tão satisfatório quanto estável para as pessoas inteligentes. Isso acontece em pessoas que combinam um alto potencial intelectual com uma boa inteligência emocional. Podemos acrescentar outra condição: encontrar alguém com as mesmas perspectivas, com aquelas afinidades com as quais harmonizar vidas e projetos.

O amor não é suficiente nestes casos; em primeiro lugar vem esta correspondência em objetivos, em filosofias pessoais, em metas, em valores, em uma implicação com a qual se permitir crescer juntos em uma aspiração comum. Quando isso acontece, o casal é altamente eficaz. São bons em administrar seus conflitos e discrepâncias. Lidam muito bem com o respeito, a comunicação e, ao mesmo tempo, são casais que desfrutam de um alto senso de humor.

Como vemos, o amor não é impossível nesses perfis de alta capacidade: não estão condenados a relacionamentos infelizes e efêmeros. Há sempre uma pessoa adequada, alguém capaz de enriquecer igualmente seu intelecto e seu coração.

13 de agosto de 2018

Saudades por Clarice Lispector

Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades...

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro...

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências...

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que...
não sei onde...
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês...
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados...
para contar dinheiro... fazer amor...
declarar sentimentos fortes...
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
"I miss you"
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência...

&

* “Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.”

11 de agosto de 2018

Verso da música "Benvinda" ~~ de Chico Buarque (Francisco Buarque de Hollanda)

(...) Certo de estar perto da alegria
Comunico finalmente
Que há lugar na poesia
Pode ser que você tenha
Um carinho para dar
Ou venha pra se consolar
Mesmo assim pode entrar
Que é tempo ainda, ai
Benvinda

6 de agosto de 2018

Serpente (Snake) ~~David Herbert Lawrence (1885 – 1930) ~~ in "Birds, Beasts and Flowers (1923) ~~ Tradução de Lucas Haas Cordeiro (2012)

Art by Delph Ambi

Uma serpente surgiu em minha tina d’água,
Em um dia muito, muito quente, e eu com pijamas de verão,
Para ali s’embevecer.

Na sombra profunda, o singular aroma, de uma gigantesca árvore de alfarrobas,
Eu descia os degraus, e comigo a ânfora,
E precisei esperar, em pé esperando, porque ali estava ela na tina à minha frente.
Ela descendeu de uma fissura no muro-da-terra na obscuridade
E trilhou a sua indolência marrom-amarelada de ventre-sutil na direção das profundezas, através do limiar da pedra, que era a tina,
E descansou a sua garganta por sobre o leito da pedra,
E onde a água gotejava da torneira, em ínfima clareza,
Ela bebeu com sua boca linear,
Suavemente bebeu através das gengivas, para dentro de seu corpo comprido e vagaroso,

Silenciosamente.

Havia alguém em minha frente na minha tina d’água,
E eu, como um outro, à espera.

Ela alçou a cabeça do embevecimento, como faz o gado,
E olhou para mim vagamente, como faz o gado que embevece,
E tremeluziu a língua bifurcada em seus lábios, e meditou por um momento.
E inclinou-se e embeveceu-se ainda mais,
Suas cores do marrom da terra, do dourado da terra das vísceras flamejantes da terra
Em um dia siciliano de julho, quando Etna fumava.

A voz da minha educação enunciou que
Eu precisava matá-la,
Porquanto na Sicília as cobras negras negras são inocentes, e as douradas venenosas.

E as vozes em mim disseram, Se tu fosses um homem
Tomarias para ti um graveto e quebranta-la-ia, e acabaria com isto.

Mas deveria eu confessar que me afeiçoeei a ela,
Que exultei a sua tão tranquila presença, a embevecer-se em minha tina d’água
E a ir-se embora em paz, pacificada, sem jamais agradecer-me,
Para dentro das vísceras flamejantes da terra?

Foi covardia, o não ousar matá-la?
Foi perversão, o desejo de comunicar-me?
Foi por humildade a honradez?
Eu realmente me senti honrado.

E ainda assim aquelas vozes:
Se não estivesses com medo, mata-la-ia!

E eu verdadeiramente temia, eu estava incrivelmente assutado,
E por isso mesmo, ainda mais honrado
Por ela desejar a minha hospitalidade
De através da porta sombria dos segredos da terra.

Ela embeveceu-se o bastante
E soergueu a cabeça, oniricamente, como um bêbedo,
E tremeluziu a língua como uma noite bifurcada pelos ares, tão negra,
Parecendo lamber-se os lábios,
E olhou ao redor como um deus, invisível no ar,
E vagarosamente virou a cabeça,
E vagarosa, vagarosamente, três vezes onírica
Evocou o traçado de seu lento comprimento a curvar-se em rodopios
A escalar a margem esfacelada das faces do muro.

E à medida em que ela instigava as faces para dentro do buraco mais terrível,
E à medida em que ela lentamente ascendia, abreviando viboramente os ombros, imiscuindo-se nas profundezas,
Uma espécie de horror, uma espécie de protesto contra a sua retirada para dentro do nefasto buraco negro,
Deliberadamente avançando em direção à escuridão, e vagarosamente levando a si mesma consigo,
Dominou-me, agora que encarava-me pela superfície oposta.

Eu olhei ao redor, livrei-me da ânfora,
Peguei uma tora grosseira
E arremessei-a dentro da tina d’água com um estrondo.

Pensei que não a tivesse acertado;
Mas de repente aquela parte da serpente que ficara para trás convulsionou com indigna prontidão,
Estorcendo-se como um raio, e esvaeceu
Dentro do buraco negro, a fissura labial da terra na fronte do muro,
O qual, na intensidade do meio-dia, eu fiquei a contemplar.

E imediatamente arrependi-me.
Pensei em quão insignificante, quão vulgar, um ato tão mesquinho!
Desprezei a mim mesmo e às vozes de minha maldita educação humana.

E pensei no albatroz,
E desejei que ela retornasse, a minha serpente.

Porque ela era como um rei, aos meus olhos,
Como um rei no exílio, destronado no submundo,
Prestes a ser coroado novamente.

E então, eu perdi a minha chance com um dos soberanos
Da vida.
E eu tinha algo a expiar:
A minha mesquinhez.


&&&&&&&&

Snake

A snake came to my water-trough
On a hot, hot day, and I in pyjamas for the heat,
To drink there.

In the deep, strange-scented shade of the great dark carob tree
I came down the steps with my pitcher
And must wait, must stand and wait, for there he was at the trough before me.
He reached down from a fissure in the earth-wall in the gloom
And trailed his yellow-brown slackness soft-bellied down, over the edge of the stone trough
And rested his throat upon the stone bottom,
And where the water had dripped from the tap, in a small clearness,
He sipped with his straight mouth,
Softly drank through his straight gums, into his slack long body,
Silently.

Someone was before me at my water-trough,
And I, like a second-comer, waiting.

He lifted his head from his drinking, as cattle do,
And looked at me vaguely, as drinking cattle do,
And flickered his two-forked tongue from his lips, and mused a moment,
And stooped and drank a little more,
Being earth-brown, earth-golden from the burning bowels of the earth
On the day of Sicilian July, with Etna smoking.

The voice of my education said to me
He must be killed,
For in Sicily the black, black snakes are innocent, the gold are venomous.

And voices in me said, if you were a man
You would take a stick and break him now, and finish him off.

But must I confess how I liked him,
How glad I was he had come like a guest in quiet, to drink at my water-trough
And depart peaceful, pacified, and thankless,
Into the burning bowels of this earth ?

Was it cowardice, that I dared not kill him ?
Was it perversity, that I longed to talk to him ?
Was it humility, to feel so honoured ?
I felt so honoured.

And yet those voices :
If you were not afraid, you would kill him !

And truly I was afraid, I was most afraid,
But even so, honoured still more
That he should seek my hospitality
From out the dark door of the secret earth.

He drank enough
And lifted his head, dreamily, as one who has drunken,
And flickered his tongue like a forked night on the air, so black,
Seeming to lick his lips,
And looked around like a god, unseeing, into the air,
And slowly turned his head,
And slowly, very slowly, as if thrice adream,
Proceeded to draw his slow length curving round
And climb again the broken bank of my wall-face.

And as he put his head into that dreadful hole,
And as he slowly drew up, snake-easing his shoulders, and entered farther,
A sort of horror, a sort of protest against his withdrawing into that horrid black hole,
Deliberately going into the blackness, and slowly drawing himself after,
Overcame me now his back was turned.

I looked round, I put down my pitcher,
I picked up a clumsy log
And threw it at the water-trough with a clatter.

I think it did not hit him,
But suddenly that part of him that was left behind convulsed in undignified haste,
Writhed like lightning, and was gone
Into the black hole, the earth-lipped fissure in the wall-front,
At which, in the intense still noon, I stared with fascination.

And immediately I regretted it.
I thought how paltry, how vulgar, what a mean act !
I despised myself and the voices of my accursed human education.

And I thought of the albatross,
And I wished he would come back, my snake.

For he seemed to me again like a king,
Like a king in exile, uncrowned in the underworld,
Now due to be crowned again.

And so, I missed my chance with one of the lords
Of life.
And I have something to expiate :
A pettiness.


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David Herbert Lawrence (1885 – 1930), ou D. H. Lawrence, como é mais conhecido, foi um importante romancista, dramaturgo, poeta e crítico literário do modernismo inglês. Apesar de mais conhecido por seus romances, como O Amante de Lady Chatterley ou A Virgem e o Cigano, Lawrence foi autor de cerca de 800 poemas, organizados em 12 volumes, fora as antologias. Até o seu segundo volume, Amores (1916), ele escrevia com metro e rima, mas passa a adotar o verso livre whitmaniano a partir do terceiro livro, Look! We have come through! (1917).

4 de agosto de 2018

Quem me quiser... ~~ por Rosa Lobato de Faria

Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.
Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.

&


Rosa Lobato de Faria, nasceu em Lisboa em abril de 1932, e faleceu a 2 de fevereiro de 2010, aos 77 anos, tendo sido uma das mais importantes atrizes, poetisas e romancistas portuguesas. Para além de ter sido autora de diversos livros infantis, publicou vários títulos desde o seu primeiro romance (1995), O Pranto de Lúcifer, ao qual se seguiram outros como Os Pássaros de Seda(1996), Os Três Casamentos de Camillas. (1997), Romance de Cordélia (1998), O Prenúncio das Águas (1999), A Trança de Inês (2001), O Sétimo Véu (2003), Os Linhos da Avó (2004), A Flor do Sal (2005), A Alma Trocada (2007), A Estrela de Gonçalo Enes (2007) e As Esquinas do Tempo (2008). A sua obra encontra-se traduzida em Espanha, França e Alemanha e representada em várias coletâneas de contos, em Portugal e no estrangeiro. Foi também conhecida do grande público como atriz de televisão e cinema. No ano de 2000 recebeu o Prêmio Máxima de Literatura.

2 de agosto de 2018

Você só pode compartilhar aquilo que você é... ~~ by OSHO

"Você só pode compartilhar aquilo que você é, e, quando o compartilha, repercute em você. Essa é a lei. A vida reflete e ecoa tudo o que você lança na vida — vem de volta, mil vezes mais vem de volta. Sorria, e a existência inteira sorri para você. Grite e insulte, e a existência inteira grita e o insulta. E você é a causa de tudo isso; você cria o processo inteiro."

31 de julho de 2018

Dá-me a tua mão... ~~ por Clarice Lispector

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio

30 de julho de 2018

O último discurso do filme “O Grande Ditador” de Charlie Chaplin


Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus,  gentio... negros... brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

(By Charlie Chaplin)


22 de julho de 2018

Grandes São os Desertos, e Tudo é Deserto ~~ Álvaro de Campos (Heterónimo de Fernando Pessoa) in "Poemas" - Portugal, 15 Out 1890

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

21 de julho de 2018

20 de julho de 2018

Fruindo ~~~ Sueli Maia

naqueles dias precisei desaprender quase tudo

o céu era velho
a voz era gasta

e eram feitos de véspera os tons tardios do meu sol

[quis renascer]

fechei os olhos
respirei lentamente e
[pela fresta dos lábios
foi como se o céu entrasse

eu quis aquela luz

inteira
em mim

19 de julho de 2018

Experimente me amar ~~ por Martha Medeiros

Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor, mas permita que eu escove os dentes primeiro. Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo cultivando este tipo de herança de seus pais. Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar, mas não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada (então fique comigo quando eu estiver chorando). Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem… Gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra. Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes. Me enlouqueça uma vez por mês, mas me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca. Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora. Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos, me faça massagem nas costas. Me rapte! Mas se nada disso funcionar, experimente me amar.

14 de julho de 2018

A busca da sentido ~ por Hellen Reis Mourão

Art by ~Blekotakra

Joseph Campbell em sua obra O Poder do Mito, afirma que a experiência que o ser humano mais procura é a de se sentir vivo. Essa seria a base do sentido da vida.
Infelizmente hoje uma profusão de doenças psíquicas como a depressão - que vem se tornando o mal do século - ocorre devido a um embotamento do homem em relação a si próprio e a vida.
A maioria de nós não sabe qual o sentido de estarmos nessa vida e apenas sobrevive. Trabalha, come, dorme, passeia, mas por dentro não se sente vivo.
O avanço tecnológico e intelectual nos trouxe muitos benefícios em termos intelectuais, de saúde e culturais, entretanto com ele tivemos uma perda substancial de contato com o inconsciente.
Nossa cultura ocidental voltada para ”o fazer”, “o acontecer” e para a atitude extrovertida nos anestesiou e denegriu tudo o que é voltado para o subjetivo, para o interior. Perdemos a paciência em esperar que as coisas aconteçam no tempo certo.
Observamos essa atitude ocidental na forma como lidamos com a literatura do “espírito” como a mitologia e os contos de fadas.
Hoje nos interessamos mais em nos anestesiarmos com as noticias do dia e os acontecimentos do momento, deixando assim de valorizar o encontro com algo que irá falar a nossa alma.
Antigamente os contos eram formas de entretenimento do adulto. Atualmente são vistos como entretenimento infantil. Conforme Von Franz (2010), isso ocorreu devido a uma tendência do homem moderno em infantilizar os conteúdos do inconsciente.
Além disso, atualmente não possuímos uma mitologia sagrada que norteie a consciência. O mito cristão foi durante muito tempo uma fonte de vida espiritual para o homem, no entanto, como tudo na vida, hoje ele se tornou um sistema petrificado.
Von Franz (2011) explica que os símbolos coletivos do Self se desgastam. As religiões, as convicções e as verdades, tudo envelhece e precisa ser renovado. Tudo o que dirigiu uma sociedade por determinado tempo é deficiente, no sentido que envelhece. A consciência humana costuma desinteressar-se ao longo do tempo.
Por essa razão e pelo fato de não possuirmos algo que venha substituir esse sistema já desgastado, o homem ocidental se volta cada vez mais para a busca de uma anestesia contra a falta de sentido de sua vida.
Vicio de todas as formas como jogos, bebidas, sexo, computador, fanatismo religioso, trabalho e até o vício em pensar, são formas de anestesia e também de busca de transcendência da vida cotidiana.
Entretanto, essa busca tem sido externa o que a torna efêmera. Vemos nos contos de fadas o tema da busca do tesouro difícil de encontrar, como uma jóia preciosa, uma fonte de água da vida ou um animal sagrado, que irá trazer a solução para a situação desgastada da consciência coletiva.
Esse tesouro é algo difícil mesmo, pois requer o enfrentamento de forças sombrias da psique, contudo por mais difícil que seja esse enfrentamento o resultado é mais sólido e permanente do que a busca efêmera de algo externo. O tesouro é interno e está no mais profundo de cada individuo.
Hoje vem acontecendo uma profusão de revisitações e adaptações dos contos de fadas para o cinema e televisão, trazendo de volta essas histórias ao mundo adulto. O que vejo de forma bastante positiva, pois eles mostram de maneira simbólica a iniciação do mundo infantil para o adulto; as mortes e as ressurreições simbólicas necessárias pelas quais precisamos passar.
Isso mostra também que a consciência coletiva está em busca de algo que está faltando nos ensinamentos cristãos.
Não temos mais ritos de passagem, que nos indique o momento das transições da vida, por isso a psique coletiva de forma compensatória nos traz no entretenimento os caminhos que indiquem como podemos seguir em nossa jornada rumo a individuação. É uma pena que hoje ainda seja somente um entretenimento.
A análise é uma das formas que mais beneficia o processo de individuação, contudo existem outros meios de despertar o sentido de nossa alma e dos símbolos, favorecendo assim a individuação.
Infelizmente para nós ocidentais que perdemos o contato com essa literatura do espírito, o mais indicado para o processo de individuação é a psicoterapia, pois assim é possível buscar seu mito pessoal e se preencher consigo mesmo.
A água da vida está no interior de cada um, mas é preciso ter coragem para empreender essa viagem até o mais recôndito da própria alma e assim conhecer seus desejos mais profundos.
Toda vez que alguém se depara com seus desejos mais profundos, surge o medo na mesma proporção, pois algo de numinoso e transformador vêm daí.
Medo e desejo caminham juntos, mas o mais importante é saber para qual face da mesma moeda você vai olhar: para o desejo com a fonte da vida ou o medo com seus aspectos aprisionantes?

13 de julho de 2018

"O REI E O LOBO" Extraído de 'O Sufismo no Ocidente', Edições Dervish 1988

The Lupine Stare by Jonny Lancaster.

Certo rei decidiu domesticar um lobo e transformá-lo em um cão dócil. Seu desejo baseava-se na ignorância e na ânsia de que os outros aprovassem e admirassem sua atitude, o que é causa freqüente de muitos problemas neste mundo. Fez com que tirassem de uma loba um dos seus filhotes recém-nascidos, e que fosse criado entre cães domésticos.
Quando o filhote de lobo cresceu, foi levado diante do rei e durante vários dias se comportou exatamente como um cão.
As pessoas que viam esse fato assombroso ficavam maravilhadas e pensavam que o rei era extraordinário.
Agindo de acordo com essa crença, fizeram do rei seu conselheiro em todas as coisas e lhe atribuíam grandes poderes. O próprio rei acreditou que o que acontecera era quase um milagre. Um dia, quando estava caçando, o rei ouviu uma matilha de lobos que se aproximava. Quando os animais chegaram perto, o lobo doméstico deu um salto, mostrou as presas e correu para lhes dar as boas vindas.
Em poucos segundos desapareceu, de volta aos seus companheiros naturais.

*Esta é a origem do provérbio: "Um filhote de lobo será sempre lobo, ainda que criado entre os filhos do homem".

Durante milhares de anos, as pessoas acreditaram que se podia mudar os homens impondo-lhes padrões por meio de hábitos e exortações, convencidas de que isto produziria neles uma diferença ou uma mudança verdadeira. No entanto, quando certos fatos ocorrem, o "lobismo" se reafirma. 
As únicas pessoas nas quais isto não acontecerá são aquelas que são tão débeis que podem ser treinadas e aquelas nas quais uma mudança fundamental se realizou.

12 de julho de 2018

"Freud e o mal-estar inerente à condição humana" - texto de Fátima Caropreso (publicado no Site Ciência e Vida)

De acordo com o pensamento freudiano, os homens estão fadados a serem infelizes ou, ao menos, a não gozar de uma felicidade plena.

"O propósito de que o homem seja `feliz` não está contido no plano da Criação". Esta afirmação de Freud sintetiza bem a ideia geral do seu texto Mal-estar na cultura, publicado em 1930. Nesse texto, Freud envereda por uma longa reflexão sobre a origem da cultura e as condições de sua possibilidade, tendo em vista esclarecer os motivos que fazem que certo "mal-estar" seja inevitavelmente inerente à vida humana na civilização.
No texto "O futuro de uma Ilusão" (1927) Freud define "cultura" ou "civilização" como tudo aquilo no qual a vida humana se elevou acima de suas condições animais e se distingue da vida animal. Por um lado, diz ele, a cultura abarca todo o saber e o poder-fazer que os homens têm adquirido para governar as forças da natureza e lhes arrancar bens que satisfaçam suas necessidades. Por outro lado, compreende todos os meios usados para regular os vínculos entre os homens e para regular a distribuição dos bens entre eles. Este último aspecto da cultura (a regulação dos vínculos entre os homens), como veremos, seria a fonte principal do mal-estar inerente à vida humana, mas seria, ao mesmo tempo, a condição de sua existência.

"A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz" (Freud)

Essas duas orientações da cultura não são independentes, argumenta Freud. Primeiro, porque os vínculos recíprocos entre os seres humanos são profundamente influenciados pela medida de satisfação das necessidades pulsionais que os bens existentes tornam possível. Segundo, porque o ser humano individual pode se relacionar com seu semelhante como se fosse ele mesmo um bem, por exemplo, quando explora a sua força de trabalho. E, em terceiro lugar, porque todo indivíduo é virtualmente um inimigo da cultura, a qual, contudo, está destinada a ser um interesse humano universal.

No texto Mal-estar na cultura, Freud se pergunta o que os seres humanos querem alcançar na vida e responde que seu objetivo é atingir a felicidade e mantê-la. No entanto, o máximo que conseguem é gozar de uma felicidade momentânea, resultante, na verdade, da satisfação de necessidades retidas com alto grau de estase. Só podemos gozar o "contraste", diz ele, e nunca o estado.

Por exemplo, sentimo-nos felizes quando encontramos alguém amado que há tempo não víamos, mas o estado de felicidade que vivenciamos nos primeiros momentos do encontro, logo se dissipa, dando lugar a um sentimento menos intenso. Mas se os momentos de felicidade são raros, os de infelicidade são bem mais frequentes, discorre o autor.

O sofrimento nos ameaça de três lados:

1) a partir do corpo, que destinado à ruína, não pode evitar a dor e a angústia;
2) a partir do mundo externo, que nos ameaça com suas forças hiper potentes;
3) a partir dos vínculos com os outros seres humanos.

As duas primeiras fontes de sofrimento nos parecem facilmente compreensíveis e inevitáveis, embora, é claro, possamos fazer muito para amenizar o sofrimento por elas provocado. Já a terceira nos causa certa estranheza, dado que aparentemente parece ser supérflua. No entanto, ao julgarmos essa terceira fonte de sofrimento como algo que poderia ser evitado, nos enganamos.

Tendo em vista a gênese e as condições de manutenção da civilização, a relação entre os homens seria fonte inevitável de sofrimento, segundo o pensamento freudiano.

Os vínculos entre os seres humanos são influenciados pela medida de satisfação das necessidades pulsionais que os bens existentes tornam possível

Segundo Freud, o passo cultural decisivo, no âmbito das relações entre os homens, teria sido a substituição do poder do indivíduo pelo da comunidade. Antes disso, os vínculos entre os homens teriam estado submetidos à arbitrariedade de alguns indivíduos: aqueles de maior força física dominariam os demais de acordo com seus próprios interesses e necessidades.

A partir de certo momento, o poder do indivíduo passa a ser condenado como "violência bruta" e o poder da comunidade se contrapõe como "direito" àquele do indivíduo. Como consequência, surge uma limitação das possibilidades de satisfação (dos impulsos agressivos e sexuais) que os membros da comunidade até então desconheciam. Nesse momento, portanto, a maior parte dos homens troca parte de sua liberdade por uma maior segurança.

A gênese da Cultura

O próximo requisito cultural que se torna necessário é a justiça, ou seja, encontrar meios para garantir que a ordem jurídica estabelecida não seja quebrada para favorecer a um indivíduo ou grupo.

O desenvolvimento cultural passa, então, a buscar evitar que as leis que regem os homens sejam expressão da vontade de uma comunidade restrita (de um extrato da população, de uma etnia...), que pudesse voltar a se comportar a respeito do restante da população como o faria um indivíduo violento.

O resultado desse processo seria, então, alcançar certa regulação para os vínculos entre os homens, à qual requereria destes certa renúncia de suas satisfações pulsionais, mas lhes garantiria, em compensação, que ninguém fosse vítima da violência bruta. Tendo isso em vista, conclui Freud: "a liberdade individual não é um patrimônio da cultura", pois o desenvolvimento cultural impôs aos homens certa limitação de sua liberdade; e boa parte da luta da humanidade gira em torno da tarefa de encontrar um equilíbrio entre as demandas individuais e as exigências culturais das massas.

Mas será que é possível, a partir de certa configuração cultural, alcançarmos esse equilíbrio, ou o conflito é inevitável? - pergunta-se Freud. Para tentar encontrar uma resposta a esta questão, é preciso aprofundar um pouco mais a reflexão sobre as limitações das satisfações pulsionais exigida pela Cultura.

Repressão sexual

Uma das bases sobre a qual se edifica a cultura é a repressão da sexualidade, pois ela retira parte da energia psíquica necessária para a sua manutenção da limitação da satisfação sexual direta, ou seja, ela exige que os homens usem parte de sua energia sexual para o trabalho e para outras atividades culturais.

Assim, diz Freud, a cultura se comporta em relação à sexualidade como um povo que submete outro para explorá- lo. Essa limitação da sexualidade, contudo, não é algo facilmente alcançado.

É necessário um trabalho de domesticação das pulsões sexuais desde o início do desenvolvimento psíquico do indivíduo, o que faz que seu primeiro passo consista na proibição das exteriorizações da vida sexual infantil.

"É quase impossível conciliar as exigências do instinto sexual com as da civilização" (Freud)

A cultura acaba, então, impondo a reivindicação de uma vida sexual uniforme para todos os seus membros: a escolha de objeto do sujeito sexualmente maduro é circunscrita ao sexo contrário; a maioria das satisfações não genitais é proibida como perversão; além da exigência de monogamia e legitimidade das relações. Em outras palavras, a cultura só permite relações sexuais sobre a base de uma ligação definitiva e indissolúvel entre um homem e uma mulher.

O máximo que os homens conseguem é gozar de uma felicidade momentânea, resultante, na verdade, da satisfação de necessidades retidas com alto grau de estase

No entanto, esta exigência de vida sexual uniforme imposta aos indivíduos, argumenta Freud, não leva em conta as desigualdades na constituição sexual inata e adquirida dos seres humanos, o que acaba por distanciar grande parte deles do gozo sexual.Muitas pessoas não conseguem satisfizer-se sexualmente a partir das atividades sexuais consideradas legítimas e, dado que a sexualidade consiste em uma necessidade humana - assim como a de alimentação, respiração e tantas outras -, a impossibilidade de obter satisfação sexual acaba levando muitos homens a adoecer psiquicamente.

As pulsões sexuais insatisfeitas buscam uma forma de satisfação substitutiva por meio dos sintomas neuróticos. Dessa maneira, a repressão da sexualidade converte-se em uma das fontes de sofrimento impostas pela cultura aos homens. Freud conclui, então, que "a vida sexual do homem culto recebeu grave dano (...) podemos supor que experimentou um sensível retrocesso quanto ao seu valor como fonte de felicidade". (Freud, 1930, p.103).