20 de junho de 2018

Espero por ti... ~ João Araújo

Mais do que um pensar, mais que um corpo
O que fomos nós noutra vida
O que fomos antes da alma renascida
Antes de te ter assim perdida

Fomos os amantes eternos
Ou apenas os que sorriem
E passam...

Fomos a chama que arde
Ou apenas duas luzes
Que se apagam...

Fomos tudo
E tudo nos pareceu pouco
Por isso renascemos...
Por isso vivemos...

Fomos amor imortal
O sorriso mais belo
A chama mais intensa
A luz que ilumina os que desejam

Não importa quantas vidas
Espero por ti
Quando vens?
Não demores...

18 de junho de 2018

Para sempre... ~ Vergilio Ferreira

Uma vontade enorme de te tocar,
fechar-te de novo na palma da
minha mão para seres real,
integrar a tua realidade na certeza
da minha carne.

15 de junho de 2018

Love Is A Verb by John Mayer

Love is a verb
It ain't a thing
It's not something you hold
It's not something you scream
When you show me love,
I don't need your words
Yeah, love ain't a thing
Love is a verb
Love ain't a thing
Love is a verb

Love ain't a crutch
It ain't an excuse
No, you can't get through love
On just a pile of I.O.U.s
Love ain't a drug
Despite what you've heard
Yeah, love ain't a thing
Love is a verb
Love ain't a thing
Love is a verb

So you gotta show show show me
(show show show me)
Show show show me
That love is a verb
Yeah, you gotta show show show me
(show show show me)
Show show show me
That Love is a verb

Love ain't a thing
Love is a verb




14 de junho de 2018

Santa Maria (Del Buen Ayre) - Gotan Project

O Gotan Project é um grupo musical formado em Paris, constituído pelos músicos: Philippe Cohen Solal (francês), Eduardo Makaroff (argentino) e Christoph H. Müller (suíço).

O grupo juntou-se em 1999. O primeiro single a ser lançado foi Vuelvo Al Sur/El Capitalismo Foraneo em 2000, seguido do álbum La Revancha del Tango em 2001. A sua música insere-se no estilo do Tango, mas com elementos eletrônicos que dão ao seu estilo uma nova forma de fazer tango: o tango eletrônico.

O nome deste trio vem da inversão das sílabas da palavra tango, seguindo o costume do lunfardo, a gíria argentina, de pronunciar as palavras "al revés", ou seja, de trás para a frente.

Hay milonga de amor
hay temblor de gotán
este tango es para vos
Hay milonga de amor
hay temblor de gotán
Hay milonga de amor
Este tango es para vos
Hay milonga de amor
hay temblor de gotán
este tango es para vos


Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.


13 de junho de 2018

Dias meus... Eliana Alcântara

Tem dias que brinco comigo
e busco um sorriso em algum fundo de traço,
talvez um caminho em que me encontre
ou algum outro no qual me perca.

Tem dias que dispo minha alma
e reviro-me criança fera de um não delírio.
Deixo a tristeza pintar um mar
e nuvens filmarem alegria.

Tem dias que cavalgo poesia
e planto palavras nos pés de meus anseios,
outros rasuro malícia e desmancho segredos
tatuados na ponta de alguns prazeres.

Nos dias escritos desencravo dores
destilo amores e afago torrentes.
Tem dias que saio de mim
olho de fora e queimo por dentro.

Tem dias nos dias férteis que viro semente
e de mim broto mulher alucinada
com minhas taras e meus frágeis medos.

Tem dias que esqueço de mim
e sem querer me acho, inteira.

12 de junho de 2018

The Rain Song... by Led Zeppelin




This is the springtime of my loving - the second season I am to know
You are the sunlight in my growing - so little warmth I've felt before.
It isn't hard to feel me glowing - I watched the fire that grew so low.

It is the summer of my smiles - flee from me Keepers of the Gloom.
Speak to me only with your eyes. It is to you I give this tune.
Ain't so hard to recognize - These things are clear to all from
Time to time.

Talk Talk - I've felt the coldness of my winter
I never thought it would ever go. I cursed the gloom that set upon us...
But I know that I love you so

These are the seasons of emotion and like the winds they rise and fall
This is the wonder of devotion - I see the torch we all must hold.
This is the mystery of the quotient - Upon us all a little rain must fal

10 de junho de 2018

Funeral Blues, de W.H. Auden, April 1936




Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.

&&&

Blues Fúnebre (Tradução de Humberto Kawai)

Parem todos os relógios, que os telefones emudeçam.
Para calar o cachorro, um bom osso lhe ofereçam.
Silenciem os pianos, e em surdina os tambores
Acompanhem o féretro. Venham os pranteadores.

Que aviões a sobrevoar em círculos lamurientos
Rabisquem no céu o Anúncio de Seu Falecimento.
Que nas praças as pombas usem coleiras de crepe, em luto,
E os guardas de trânsito calcem luvas negras em tributo.

Ele foi meu norte, meu sul, meu nascente, meu poente.
Foi o labor da minha semana, meu domingo indolente.
Foi meu dia, minha noite, meu falar e meu cantar.
Julguei ser o amor infindo. Como pude assim errar?

Já não me importam as estrelas: fique o céu todo apagado.
Empacotem e embrulhem a lua; seja o sol desmantelado.
Esvaziem os oceanos, do mundo sejam as florestas varridas.
Porque agora, para mim, nada resta de bom nesta vida.

&&&

W.H. Auden (1907-1973), poeta e crítico inglês, foi a grande voz dos jovens intelectuais de esquerda dos anos 30. Sua poesia é sempre perturbadora, seja quando aborda temas sociais e políticos, seja quando fala de assuntos espirituais e de impulsos homossexuais reprimidos. Quando T.S. Eliot, na época editor da Faber & Faber, publicou a primeira coletânea de Auden, Poemas (1930), ele foi imediatamente reconhecido como porta-voz de sua geração. Auden foi amigo de Stephen Spender e Christopher Isherwood, com quem escreveu peças teatrais.

As ideias de Auden mudaram radicalmente com o tempo. Ardente defensor do socialismo e da psicanálise na juventude, na sua fase mais tardia a sua preocupação central passou a ser o Cristianismo e a teologia dos protestantes modernos. Em 1939, Auden mudou-se com Isherwood para a América, onde conheceu seu companheiro Chester Kallman. Com ele, escreveu libretos de ópera, incluindo The rake's progress, para Stravinsky.

O poema Funeral Blues foi escrito por Auden em 1936, como a Canção 9 do livro Twelve songs, e costuma ser citado como expressão exemplar de um forte sentimento de perda e de luto, individual ou coletivo. Representativo do controle extraordinário do verso e da habilidade na manipulação da métrica do autor, o poema ganhou popularidade internacional no filme Quatro casamentos e um funeral, em uma  cena em que o personagem Matthew homenageia seu companheiro morto. Funeral Blues  também foi musicado por Benjamin Britten.

9 de junho de 2018

Rabisco na Areia ~ Hermann Hesse - in "Andares - Antologia Poética" - (Tradução de Geir Campos)

Que encantamento e beleza
sejam brisa e calafrio,
que o delicioso e bom
tenha escassa duração
- fogo de artifício, flor,
nuvem, bolha, olhar
de mulher no espelho, e tantas
outras coisas fabulosas
que, mal descobrem, somem -
disso, com pena, sabemos.
Ao que é permanente e fixo
não queremos tanto bem:
gemas de gélido fogo,
ouros de pesado brilho,
por não falar nas estrelas
que tão altas não parecem
transitórias como nós
e não calam fundo na alma.
Não parece que o melhor,
mais digno de amor, se inclina
para o fim, beirando a morte,
e o que mais encanta - notas
de música, que ao nascerem -
são brisas, são águas, caças
feridas de leve mágoa.
que nem pelo tempo de uma
batida do coração
deixam-se reter, prender.
Som após som, mal se tocam,
já se esvaem, vão-se embora.
Nosso coração assim
leal e fraternamente
se entrega ao fugaz , ao vivo,
não ao seguro e durável.
Cansa-nos o permanente
- rochas, mundo estelar, jóias -
a nós, transmutantes, almas
de ar e bolhas de sabão,
cingidos ao tempo, efêmeros
a quem o orvalho na rosa,
o idílio de um passarinho,
o fim de um painel de nuvens,
fulgor de neve, arco-íris,
borboleta que esvoaça,
eco de riso que só
de passagem nos alcança,
pode valer uma festa
ou razão de dor.Amamos
o que é semelhante a nós,
e entendemos os rabiscos
que o vento deixa na areia.

8 de junho de 2018

Trechos do livro "O tempo é um rio que corre" - por Lya Luft (2014)

AS FASES DA VIDA NA VISÃO DE UMA DAS MAIORES ESCRITORAS DO PAÍS ~ Lya Luft escreve um poderoso livro, que faz o leitor refletir sobre nosso mais precioso bem: o tempo. Logo no título a força e a beleza do texto se anunciam. O Tempo é um rio que corre ininterruptamente, afinal, da nascente até a foz, não há desembocadura que pare o rio e seu curso de água natural. Sempre caudaloso, torrencial, porém jamais imóvel. Se só o título já suscita tanta reflexão, é certo que essa leitura tem capacidade de mudar a vida e o pensamento de muita gente. Ao mesclar memória e reflexões sobre a passagem do tempo, Lya Luft cria um pungente ensaio sobre as relações humanas, a infância, a juventude, o amadurecimento e a morte, e o valor da vida, temas e inquietações que são sua especialidade. O Livro é divido em três partes — Águas mansas, Marés altas e A embocadura do rio, mostrando como é a passagem do tempo nas diferentes etapas da vida e buscando caminhos para usufruir o que há de melhor em cada uma delas. Em uma era marcada pela suposta falta de tempo, esta obra é uma importante reflexão sobre a cultura da futilidade e da eterna juventude em que vivemos.

&&&

"O tempo pode ser visto como um assassino em série: suas correntezas levam pessoas, esperanças, possibilidades. Mas também é um Papai Noel bondoso: quem vou encontrar naquela esquina, que horizonte depois daquela curva, que visões, que experiências, que esperanças? Indagar é um desafio permanente."

"Cada um de nós precisa (mas ninguém explica isso) escrever o roteiro de sua existência dando-lhe sentido nos espaços brancos e nas entrelinhas das fatalidades e dos acasos (nos quais eu não acredito)."

"Cúmplices de nós mesmos nesse solitário brinquedo de existir, alternamos trabalho duro com euforia cintilante, desejo de se ocultar atrás de fantasmas e o ímpeto de arrancar as máscaras e finalmente ser."

"Se tivéssemos consciência de que estamos em transformação, de que tudo é passageiro e pode acabar em alguns minutos - ou anos, ou décadas, que seja -, não suportaríamos a pressão, não haveria espaço emocional para viver com certa normalidade. (Ou, na ambiguidade que nos caracteriza, daríamos mais valor ao que temos?)

"(...) E ao nosso encalço corre o espectro traiçoeiro de acabarmos sensatos demais: temerosos, quando para viver é preciso uma dose de audácia e fervor. Em que medida? Ninguém tem a resposta."

"Porque somos perversos?
- Porque somos humanos.
Pensar dói."

"Um dia escrevi que com as perdas só há um jeito: perdê-las. Hoje digo que com o tempo só há um jeito: vivê-lo."

"O tempo faz florescer paixões que fenecem logo adiante, ou transfigura um amor intenso na generosa árvore de uma longa boa reflexão. Mais uma vez, as contrações do tempo são as nossas: ele mata, ou eterniza, e para sempre estará conosco aquele cheiro, aquele toque, aquele vazio, aquela plenitude, aquele segredo."

"- O tempo traz soluções que a gente nem imaginava - me disse alguém sábio.
E não é que ele tinha razão?"

"- Ninguém é capaz - me explicaram - a gente aprende na hora."

"Porque o tempo passa é que tudo se torna tão precioso. Porque estamos sempre nos despedindo - dessa luz, dessa paisagem, dessa rua, desse rosto, desse momento, e de nós mesmos nesse momento -, tudo assume uma extraordinária importância. Não é coisa para sentirmos constantemente, mas nas horas em que a alma se expande saímos do fútil para o singular - e vemos como somos especiais."

"Aprendemos eventualmente a gostar de nós. Gente demais se subestima, se desvaloriza, aceita qualquer vida, qualquer pessoa, qualquer roteiro.
Conseguimos até ficar sozinhos nessa pequena liberdade: a de que o tempo é um fato natural, é crescimento e mudança permanente. Que ele não só nega e rouba com uma das mãos, mas, com a outra mão, oferece."

"Todo encontro especial é uma primeira vez."

"Presenças amorosas a gente procura ou nos encontram. Ainda que os afetos perdidos sejam insubstituíveis, existe espaço na alma para novos acolhimentos, desde que a gente queira. Ou possa, me diz alguém, pois algumas pessoas são, por educação e bagagem psíquica, irremediavelmente estreitas e secas."

"- E o sentido da vida?
Cada um tem de inventar o seu com seus talentos e sua própria inevitável incompetência."

"A vida é uma casa que construímos com as próprias mãos, criando calos, esfolando joelhos, respirando poeira. Levantamos alicerces, paredes, abertura e telhado. Podem ser janelas amplas pra enxergar o mundo, ou estreitas para nos isolarmos dele. Pode haver jardins, pátio, por pequenos que sejam, com flores, com balanços, para a alegria, ou só com lajes frias, para melancolia."

"A realidade não existe: cada um de nós inventa a sua."

"A cada dia, mesmo sem saber, e sem querer, estamos nos criando. Ninguém pode nos dizer que será fácil. O fácil pode ser desinteressante, e merecemos ao menos alguma vez fazer, querer, ser, o interessante, o audacioso, apesar dessa incrível sensação de fragilidade que nos acompanha."

"Cada um de nós deve inventar o seu próprio jeito de sobreviver: para alguns isso será deixar as pálpebras bem fechadas, apertar os olhos com os punhos e andar feito cegos como a gente brincava em criança - sempre acabávamos batendo em algum móvel: lágrimas e hematomas."

"Em lugar de reclamar, podemos dialogar; em vez de nos matar, podemos outra vez tentar a vida e desenrolar a alma; em vez de ressecar podemos animar essa criatura singular que somos, com riso, com gemidos de dor, com sussurros no escuro. É preciso enfrentar isso que não controlamos, mas que não precisa nos destruir: a vida inevitavelmente fluindo. Pois nós também somos isso."

"As águas não interrompem seu curso quando dormimos ou comemos, quando amamos ou nos frustamos, quando executamos projetos ou achamos que nossa força acabou. Não param quando comemos o hambúrguer, usamos o computador, tomamos vinho, choramos no escruto, pensamos em nos matar, pagamos dívidas com mais dívidas, traímos ou somos traídos, ou rimos sem motivos porque nos sentimos bem."

&&&

Biografia de Lya Luft

Lya Luft (1938) é uma escritora brasileira. Sua produção literária reúne poesias, ensaios, contos, literatura infantil, crônicas e romances. É colunista da Revista Veja. Foi tradutora e professora universitária.

Lya Fett Luft (1938) nasceu em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, no dia 15 de setembro de 1938. Filha de descendentes germânicos aprendeu o alemão e desde cedo gostava de ler. Com onze anos decorava poemas de Goethe e Schiller. Estudou em Porto Alegre, onde se formou em Pedagogia e Letras Anglo-Germânicas pela Pontifícia Universidade Católica. Trabalhou para editores traduzindo autores de língua inglesa e alemã, entre eles, Virgínia Woolf, Herman Hesse e Thomas Mann. Lya Luft foi colunista do Correio do Povo.

Em 1963, casou-se com Celso Pedro Luft, de quem adotou o nome. O casal teve quatro filhos. Seus primeiros poemas, escritos nessa época, foram reunidos no livro “Canções do Limiar” (1964). “Fruta Doce”, seu segundo livro de poemas, foi lançado em 1972. Entre 1970 e 1982, trabalhou como professora de Linguística na Faculdade Porto-Alegrense. Em 1975 obteve o grau de mestre em Linguística pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e em 1978 em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Nesse mesmo ano, lança sua primeira coletânea de contos “Matéria do Cotidiano”. Em 1980 publica seu primeiro romance “As Parceiras”. O romance “Reunião de Família” (1982) foi lançado nos Estados Unidos com o título “The Island of teh Dead”. Em 1985, separada do marido passa a viver no Rio de Janeiro, com o escritor Hélio Peregrino. Em 1992, quatro anos após a morte de Hélio, Lya voltou a viver com Celso Luft, de quem ficou viúva em 1995.

Em 1996, seu livro de ensaios “O Rio do Meio” foi considerado a melhor obra de ficção do ano, recebendo o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte. Em 2001, recebeu o Prêmio União Latina de Melhor Tradução Técnica e Científica, pela obra “Lete: Arte e Crítica do Esquecimento” de Harald Weinrich. Desde 2004, Lia Luft é colunista da Revista Veja. Em 2013, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, com a obra “O Tigre na Sombra” (2012), eleita a melhor obra de ficção de 2012 na categoria romance.

Obras de Lya Luft

Canções de Limiar, poesia, 1964
Flauta Doce, poesia, 1972
Matéria do Cotidiano, contos, 1978
As Parceiras, romance, 1980
A Asa Esquerda do Anjo, romance, 1981
Reunião de Família, romance, 1982
O Quarto Fechado, romance, 1984
Mulher no Palco, poesia, 1984
Exílio, romance, 1987
O Lado Fatal, poesia, 1989
O Sentinela, romance, 1994
O Rio do Meio, ensaio, 1996
Secreta Miranda, poesia, 1997
O Ponto Cego, romance, 1999
Histórias do Tempo, contos, 2000
Mar de Dentro, memórias, 2000
Perdas & Ganhos, ensaio, 2003
História de Bruxa Boa, literatura infantil, 2004
Pensar é Transgredir, ensaio, 2004
Para Não Dizer Adeus, poesias, 2005
Em Outras Palavra, ensaio, 2006
A Volta da Bruxa Boa, literatura infantil, 2007
O Silêncio dos Amantes, contos 2008
Criança Pensa, literatura infantil, 2009
Múltipla Escolha, ensaio, 2010
A Riqueza do Mundo, crônicas, 2011
O Tigre na Sombra, romance, 2012
O tempo é um rio que corre, 2014

7 de junho de 2018

As Lágrimas de Diamantinha ~ Mia Couto, em "Na Berma de Nenhuma Estrada e Outros Contos" , Lisboa, Editorial Caminho (2001)


Diamantinha chorava tão bem que as pessoas vinham de longe e lhe pediam:

― Chore por mim, Diamantinha.

O visitante sentava na sombra do djambalau e divulgava suas mágoas. Às vezes, pareciam tristezas de bichos. O homem, para ser humano, tem que ser desumano? O que é certo: ninguém tem ombro para suportar sozinho o peso de existir. Afinal, a vida se confirma à força de rasgão: ela dilacera logo no acto de nascer, separando mais que a própria morte. E assim, também naquela aldeia não havia quem não tivessse motivos para sentar no banco de Diamantinha, requerendo lágrimas na sombra da grande árvore.

Diamantinha gastava o tempo nesse desfilar de desgraceira. Única condição: ela devia olhar de frente o contador de tristezas, olhos nos olhos, lágrima de um humedecendo a alma do outro. No final, ela baixava o rosto, sacudindo os braços por cima da cabeça. E chorava. Cada lágrima aliviava o confessor, faz conta a mão de um anjo suavizando feridas.

Diamantinha chorava belo e aprazível: nunca ela ranhava, nem carantonheava. Escorriam as lágrimas como simples transbordância, tresvassar de ondas sob as pálpebras, insuficientes diques. A tristeza mungia-lhe os olhos e lá vinha, abundoso e gordo, o rosário das lagrimonas.

O marido, calculista, viu nos serviços da esposa uma hipótese de negócio. E havia até urgência: Diamantinha se ia fatigando de brotar tanta água. Um dia, ela esgotaria as fontes. Antes que isso sucedesse, o marido decretou a seguinte ordem:

― Em diante, você só chora para quem paga.

― Mas, marido, isso nem se pode.

― Não se pode!? Quem é você para saber destrançar o possível do impossível?

― É que lágrima é coisa sagrada…

― Conversa, mulher. Sagrados são os tacos, sejam cifrões, sejam cifrinhos.

― Não é desrespeito, mas me diga, marido: se é tão importante o dinheiro por que é que você não trabalha para o ganhar?

― Eu? Não posso, estou muito ocupado. Agora, por um exemplo, ando a deixar crescer os bigode, um de cada lado.

― Você é quem sabe, marido.

Marido está sempre na mão de cima? Homem disfarça que comanda, mulher finge obediências. A ordem das coisas: mundo e vida são o inseparável casal.

E as gentes continuaram afluindo, agora vertidas em clientes. O marido armara mesa, à entrada da sombra, e cobrava consulta. E se contentava, empilhando as moedinhas enquanto a esposa se derramava, liquidesfeita. Aranha faz sua casa de quê? De lágrimas, aquilo parece seda mas não é senão o coração esfiapadinho. Disso sabia a lagrimeira Diamantinha.

6 de junho de 2018

carta a Cora Coralina ~ Carlos Drummond de Andrade

Seu primeiro livro, “Poemas dos Becos…”, caiu nas mãos de Carlos Drummond de Andrade e o poeta escreveu uma carta a Cora, carta esta que foi entregue pela editora.


“Cora Coralina

Não tendo o seu endereço, lanço estas palavras ao vento, na esperança de que ele as deposite em suas mãos.

Admiro e amo você como alguém que vive em estado de graça com a poesia. Seu livro é um encanto, seu verso é água corrente, seu lirismo tem a força e a delicadeza das coisas naturais.

Ah, você me dá saudades de Minas, tão irmã do teu Goiás! Dá alegria na gente saber que existe bem no coração do Brasil um ser chamado Cora Coralina.

Todo o carinho, toda a admiração do seu Carlos Drummond de Andrade”.

&&&

Cora Coralina nasceu em Goiânia, Centro-Sul do Brasil, no ano de 1889. Aos 75 anos de idade teve publicado seu primeiro livro, “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”, e se tornou uma das mais importantes poetisas e contistas brasileiras. Cora Coralina foi doceira de profissão e sempre se manteve alheia aos modismos literários. Mulher simples da roça, retratou em sua obra a vida cotidiana do interior do Brasil. Dois anos antes de deixar o mundo, em 1985, Cora Coralina recebeu o Prêmio de Intelectual do Ano pela União Brasileira de Escritores muito embora ela nunca tenha se preocupado em ser uma intelectual.

5 de junho de 2018

Hoje Tomei a Decisão de Ser Eu ~ Fernando Pessoa, in "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação"

Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabilizacão de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Génio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu carácter nato quer que eu seja; e meu Génio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser.

Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou.

Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste.

O último rasto de influência dos outros no meu carácter cessou com isto. Reconheci — ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de « lançar o Interseccionismo» — a tranquila posse de mim.

Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci.


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3 de junho de 2018

Aradia de Toscano - (Volterra, Itália, 1313)

ARADIA,
A RAINHA DAS BRUXAS Aradia de Toscano,
nasceu em 13 de agosto de 1313 em Volterra, Itália.
Diz a lenda que ela era filha de Deusa Lunar Diana,
e que foi responsável pela perpetuação de seu culto.
Alguns historiadores afirmam que seu pai
poderia ter sido Apolo, Lucifer ou Dianus.

Ela viveu nos montes de Alban e florestas perto do lago Nemi, na Itália, junto aos escravos que haviam se libertado de seus senhores.

Ali ela ensinou-lhes a Antiga Religião e pregava o amor pela liberdade. Sua forte presença e suas palavras cheias de amor, trouxe esperança para os camponeses que eram explorados pelos senhores feudais. Desta forma ela aumentou-lhes a auto-estima, deu-lhes o devido valor e ensinou-lhes a ter respeito por si próprios. Aradia colocou-os em harmonia com a natureza através de seus ritos sazonais e rituais da Lua Cheia.

A Igreja Católica a perseguiu como “Rainha das Bruxas” e colocou-a na prisão. Lá foi torturada e sentenciada à morte. No dia da execução, não foi encontrada em sua cela. Tinha escapado milagrosamente e voltou a ensinar sua religião ao povo. Quando presa novamente pelos soldados, falou ao padre:

–“Você só traz a punição para àqueles que se livraram da Igreja e da escravidão. Estes símbolos e roupa de autoridade que veste, só serve para esconder a nudez que nos faz iguais. Você diz que serve a um deus, mas você serve somente a seus próprios medos e limitações”.

Acabou presa desta vez, por heresia e traição. Setenciada novamente à morte, outra vez escapou, retornando às montanhas, junto aos seus, onde fez uma revisão em seus ensinamentos.

Um dia comunicou a todos que partiria para o Leste. Entregou-lhes uns escritos que tinham por título: “A Carga da Deusa”, onde descrevia minuciosamente todos os rituais. Antes de partir, instruiu seus seguidores para recordá-la compartilhando vinho e bolos nos cerimoniais sagrados. Prometeu, que todo aquele que clamasse por Diana, sua mãe, e por ela, receberiam muitas graças e seriam abençoados.

Após a partida de Aradia, os covens foram terrivelmente perseguidos e muitos deles disimados pelos inquisitores. Eram eles: Janarric (mistérios lunares), Fanarric (mistérios da terra) e Tanarric (mistérios estelares). Estes grupos são consultados ainda hoje como às Tradições da Tríade.

Em 1508, Bernardo Rategno, um inquisitor italiano, documentou um volumoso acréscimo no número de seitas de bruxaria começados no ano de 1350. Correspondia exatamente com o período que Aradia encontrava-se na Itália, ensinando a Antiga Religião.

Aradia era a doutrinadora da Antiga Religião da Deusa e também a protetora das bruxas. Era uma deusa intelectualizada com a chama de uma Amazona em seu interior. É uma deusa associada com a Lua Cheia, apresentando o espírito de uma “Donzela”, somada à habilidade e presteza herdada de sua mãe Diana e também a sabedoria de uma “Anciã”.

2 de junho de 2018

O Coração... por Elisabeth Cavalcante

Como transformar nosso agir habitual, baseado nos conceitos que predominam em nossa mente, em um novo modo de viver, onde o direcionamento é dado, acima de tudo, pela nossa percepção interior?

Para muitos, este conceito é absolutamente incompreensível, mas entendê-lo passa a ser fácil quando mudamos o foco da cabeça para o coração. Ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, o coração não é um mau conselheiro.

Esta idéia tem como fundamento a confusão entre o coração e as emoções. Estas, sim, podem nos fazer tomar atitudes equivocadas quando se encontram em desequilíbrio.

As emoções negativas sempre se relacionam às necessidades do ego, como aprovação, aceitação, e quando estas não são satisfeitas, geram as reações habituais de mágoa, ressentimento e o desejo de dar o troco.

O coração é a sede do espírito, a dimensão divina do ser, aquela porção de nós onde reside a sabedoria e a consciência mais elevada. Ouvi-lo exige, fundamentalmente, que entremos na dimensão do silêncio, algo somente possível quando a mente e o ego deixam de ser os diretores de nossa vida, para tornarem-se coadjuvantes, cuja participação depende de nossa permissão.

A alegria, a criatividade e, acima de tudo, um relaxamento interior que nos leva a abandonar qualquer ansiedade ou desespero para lidar com as situações que a vida nos apresenta, são o resultado natural desta mudança de enfoque.

Um dos mais surpreendentes mistérios da existência é que, quanto mais utilizamos nossa luz interior, mais ela cresce. Aos poucos, ouvir nosso coração vai se tornando algo tão natural que nenhum esforço grandioso é necessário. Basta que direcionemos nossa atenção para dentro, e a voz interior suavemente sussurra sua verdade.

28 de maio de 2018

Intervalo.... por Vera Muniz

Às vezes,
Todas as dores de uma vida inteira
Gritam...

Às vezes,
Nas mãos, os gestos de perdão
Petrificam...

Às vezes,
As canções dos anjos
Emudecem...

Às vezes,
Os silêncios, numa praia derradeira
Desaguam...

Às vezes...
Só às vezes...

27 de maio de 2018

Preciso de Alguém by Charlie Chaplin


Preciso de Alguém...
Que me olhe nos olhos quando falo. Que ouça as minhas tristezas e neuroses com paciência. Preciso de alguém, que venha brigar ao meu lado sem precisar ser convocado; alguém Amigo o suficiente para dizer-me as verdades que não quero ouvir, mesmo sabendo que posso odia-lo por isso. Neste mundo de céticos, preciso de alguém que creia, nesta coisa misteriosa, desacreditada, quase impossível de encontrar: A Amizade. Que teime em ser leal, simples e justo, que não vá embora se algum dia eu perder o meu ouro e não for mais a sensação da festa. Preciso de um Amigo que receba com gratidão o meu auxílio, a minha mão estendida. Mesmo que isto seja pouco para as suas necessidades. Preciso de um Amigo que também seja companheiro, nas farras e pescarias, nas guerras e alegrias, e que no meio da tempestade, grite em coro comigo: "Nós ainda vamos rir muito disso tudo" Não pude escolher aqueles que me trouxeram ao mundo, mas posso escolher o meu Amigo. E nessa busca empenho a minha própria alma, pois com uma Amizade Verdadeira, a vida se torna mais simples, mais rica e mais bela...



“A vida me ensinou a dizer adeus às pessoas que amo, sem tirá-las do meu coração.”
Charlie Chaplin

25 de maio de 2018

Peter Gabriel & Paula Cole... "Don't Give Up"

'Cause I believe there's a place
In this proud land we grew up strong
We were wanted all along
I was taught to fight
Taught to win
I never thought I could fail

No fight left or so it seems
I am a man whose dreams have all deserted
I've changed my face
I've changed my name
But no one wants you when you lose

Don't give up
'Cause you have friends
Don't give up
You're not beaten yet
Don't give up
I know you can make it good

Though I saw it all around
Never thought that I could be affected
Thought that we'd be the last to go
It is so strange the way things turn

Drove the night toward my home
The place that I was born, on the lakeside
As daylight broke, I saw the earth
The trees had burned down to the ground

Don't give up
You still have us
Don't give up
We don't need much of anything
Don't give up
'Cause somewhere there's a place where we belong

Rest your head
You worry too much
It's going to be alright
When times get rough
You can fall back on us
Don't give up
Please don't give up

Got to walk out of here
I can't take anymore
Going to stand on that bridge
Keep my eyes down below
Whatever may come
And whatever may go
That river's flowing
That river's flowing

Moved on to another town
Tried hard to settle down
For every job, so many men
So many men no-one needs

Don't give up
'Cause you have friends
Don't give up
You're not the only one
Don't give up
No reason to be ashamed
Don't give up
You still have us
Don't give up now
We're proud of who you are
Don't give up
You know it's never been easy
Don't give up
There's a place where we belong



24 de maio de 2018

Toca-me por José Rui Teixeira

conjuga um verbo que conheças
no presente do indicativo,
soletra-o na segunda pessoa
do singular ao meu ouvido,
dá-me qualquer coisa
para que me pareça eterno.

21 de maio de 2018

Espera... Florbela Espanca

"Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços..."

20 de maio de 2018

“Onde mora o amor” - Rubem Alves, em “Tempus Fugit”.

Couple, c1930. Photo - Francois Kollar.

Amor é isto: a dialética entre a alegria do encontro e a dor da separação. E neste espaço o amor só sobrevive graças a algo que se chama fidelidade: a espera do regresso. De alguma forma a gota da chuva aparecerá de novo, o vento permitirá que velejemos de novo, mar afora. Morte e ressurreição. Na dialética do amor, a própria dialética divina. Quem não pode suportar a dor da separação não está preparado para o amor. Porque amor é algo que não se tem nunca. É o vento de graça. Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera. E quando ele volta, a alegria volta com ele. E sentimos então que valeu a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro.

18 de maio de 2018

Aos que vierem depois de nós Bertolt Brecht (Tradução Manuel Bandeira)

I
Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranquilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
(...)

III
(...)
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

17 de maio de 2018

Caio Fernando Abreu - Fragmentos, em “Os Dragões não conhecem o paraíso”, 1988. "Ovelhas Negras", 1995. "Poesias nunca publicadas de Caio Fernando Abreu", 2012.

"Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada."

“A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso.”

"Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que fica em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro."

"Provisoriamente, guardei minha alegria. Mas sou bonito assim: quase nascendo. Quem canta, custa a morrer, e eu não sabia."

"Descobre, desvenda. Há sempre mais por trás. Que não te baste nunca uma aparência do real."

&&&

Caio foi um escritor capaz de não apenas conciliar influências do mundo pop e literário em seus textos, mas também foi um dos poucos que conseguiu suscitar admiração nestes dois universos. 

16 de maio de 2018

A Minha Vida Eu a Vivo em Círculos Crescentes – Rainer Maria Rilke (Tradução de José Paulo Paes)

Art by Remedios Varos

A minha vida eu a vivo em círculos crescentes
sobre as coisas, alto no ar.
Não completarei o último, provavelmente,
mesmo assim irei tentar.

Giro à volta de Deus, a torre das idades,
e giro há milênios, tantos…
Não sei ainda o que sou: falcão, tempestade
ou um grande, um grande canto.

&&&

Ich lebe mein Leben in wachsenden Ringen,
die sich über die Dinge ziehn.
Ich werde den letzten vielleicht nicht vollbringen,
aber versuchen will ich ihn.

Ich kreise um Gott, um den uralten Turm,
und ich kreise jahrtausendelang;
und ich weiss noch nicht: bin ich ein Falke, ein Sturm
oder ein grosser Gesang..

15 de maio de 2018

Arthur Rimbaud - Ofélia (Tradução de Jorge Wanderley)

Ophelia by John Everett Millais (1829–1896)

I.
Na onda calma e negra, entre os astros e os céus,
A branca Ofélia, como um grande lírio, passa;
Flutua lentamente e dorme em longos véus…
– Longe, no bosque, o caçador chamando a caça…

Mais de mil anos faz que a triste Ofélia abraça,
Fantasma branco, o rio negro em que perdura.
Mais de mil anos: toda noite ela repassa
À brisa a romança que em delírio murmura.

Beija-lhe o seio o vento e liberta em corola
Os grandes véus nas águas acalentadoras;
Sobre os seus ombros o salgueiro se desola,
Reclina-se o caniço à fronte sonhadora.

Nenúfares feridos suspiram por perto;
Às vezes ela acorda, em vidoeiro ocioso
Um ninho de onde vem tremor de um vôo incerto…
– De astros dourados desce um canto misterioso…

II.
Morreste sim, menina que um rio carrega,
Ó pálida Ofélia, tão bela como a neve!
– É que algum vento montanhês da Noruega
Contou que a liberdade é rude, mas é leve;

– É que um sopro, liberta a cabeleira presa,
Em teu espírito estranhos sons fez nascer
E em teu coração logo ouviste a Natureza
No queixume da árvore e do anoitecer.

– É que a voz do mar furioso, tumulto impávido,
Rasgou teu seio de menina, humano e doce;
– E em manhã de abril, certo cavalheiro pálido,
Um belo e pobre louco, aos teus pés ajoelhou-se.

E aí o céu, o amor: – que sonho, pobre louca!
Ante ele eras a neve, desmaiando à luz;
Visões estrangulavam-te a fala na boca,
O Infinito aterrava os teus olhos azuis!

III.
– E o Poeta diz que sob os raios das estrelas
Procuras toda noite as flores em delírio
E diz que viu na água, entre véus, a colhê-las
Vogar a branca Ofélia como um grande lírio.


&&&

Ofélia, por John W. Waterhouse

I.
Sur l’onde calme et noire où dorment les étoiles
La blanche Ophélia flotte comme un grand lys,
Flotte très lentement, couchée en ses longs voiles…
– On entend dans les bois lointains des hallalis.

Voici plus de mille ans que la triste Ophélie
Passe, fantôme blanc, sur le long fleuve noir
Voici plus de mille ans que sa douce folie
Murmure sa romance à la brise du soir

Le vent baise ses seins et déploie en corolle
Ses grands voiles bercés mollement par les eaux ;
Les saules frissonnants pleurent sur son épaule,
Sur son grand front rêveur s’inclinent les roseaux.

Les nénuphars froissés soupirent autour d’elle ;
Elle éveille parfois, dans un aune qui dort,
Quelque nid, d’où s’échappe un petit frisson d’aile :
– Un chant mystérieux tombe des astres d’or

II

O pâle Ophélia ! belle comme la neige !
Oui tu mourus, enfant, par un fleuve emporté !
C’est que les vents tombant des grand monts de Norwège
T’avaient parlé tout bas de l’âpre liberté ;

C’est qu’un souffle, tordant ta grande chevelure,
À ton esprit rêveur portait d’étranges bruits,
Que ton coeur écoutait le chant de la Nature
Dans les plaintes de l’arbre et les soupirs des nuits ;

C’est que la voix des mers folles, immense râle,
Brisait ton sein d’enfant, trop humain et trop doux ;
C’est qu’un matin d’avril, un beau cavalier pâle,
Un pauvre fou, s’assit muet à tes genoux !

Ciel ! Amour ! Liberté ! Quel rêve, ô pauvre Folle !
Tu te fondais à lui comme une neige au feu :
Tes grandes visions étranglaient ta parole
– Et l’Infini terrible éffara ton oeil bleu !

III

– Et le Poète dit qu’aux rayons des étoiles
Tu viens chercher, la nuit, les fleurs que tu cueillis ;
Et qu’il a vu sur l’eau, couchée en ses longs voiles,
La blanche Ophélia flotter, comme un grand lys

14 de maio de 2018

Nunca lhe falei da minha paixão... por Ana Jácomo

Nunca lhe falei da minha paixão, mas ele deve ter ouvido alguns segredos que os meus olhos, traiçoeiros, deixaram escapar nas raras vezes que permiti tocarem os dele. Deve ter percebido a palidez que vestia meu rosto ao encontrá-lo. Depois, o rubor. As palavras trôpegas, desconexas, tentando achar o caminho da lógica. Aquele texto inadequado para o contexto que a gente diz e depois, ao relembrar, faz um muxoxo, balança a cabeça aborrecidamente, e diz pra si mesmo: “Ai, meu Deus!…”

Deve ter ouvido o meu riso desafinado, que em algumas circunstâncias era motivado apenas pelo nervosismo. O outro falando de uma coisa que não tem graça nenhuma e a gente rindo, sem poder explicar a aparente esquisitice. Deve ter ouvido a mão gelada que apertava a dele levemente para não ser desmascarada. E aquele ar meio patético que as pessoas costumam ter quando se apaixonam. A boca é o que menos fala no corpo. Imagino que deve ter ouvido algumas dessas vozes que falavam em mim sem que eu pudesse contê-las.

Mas, ainda que tenha ouvido, não ouviu tudo. Não soube que eu inventava os pretextos menos criativos para vê-lo. Que planejava a maioria dos encontros que eu chamava de coincidências. Que antes de ir até onde ele estava, passava mais perfume que de costume. Mudava, várias vezes, a roupa, o batom, o humor. Enchia a boca com balas de hortelã. Ficava incontáveis minutos em frente do espelho, procurando o melhor ângulo, o melhor sorriso, a melhor expressão de surpresa. Ensaiava, em vão, como agiria quando o encontrasse: o cumprimento, os gestos, as palavras. Todo um roteiro meticulosamente estudado para ser traído, em poucos segundos, pela inabilidade que me dominava ao me flagrar diante dele. Aquele esforço sobre-humano para aparentar serenidade com uma escola de samba desfilando no coração.

Nunca soube que, depois de encontrá-lo, relembrava cada detalhe durante todas as horas que antecediam o próximo encontro. A rota que seus olhos percorreram, cada movimento, cada vírgula da sua fala, cada nuance de entonação. Era como se eu quisesse descobrir alguma possibilidade de correspondência. Ainda que pequena. Ainda que remota. Relembrar também era uma forma de senti-lo perto de mim de novo e de poder olhar para ele sem reserva, sem cautela, debruçada na janela da minha imaginação.

Mesmo que tenha suspeitado de que eu sentia algo, não descobriu tudo. Não descobriu que seu riso era a canção de que eu mais gostava. Que sussurrava seu nome repetidas vezes, e com tanta delicadeza, que ele bailava nos meus ouvidos como um poema. Um mantra. Uma música. Que eu queria conhecer o lugar onde os seus sonhos moravam para poder acordá-los, vez ou outra, quando adormecessem. Que em alguns momentos, no auge da minha ilusão, senti vontade de pedir que jogássemos as armas no chão para que nossas mãos pudessem se encontrar.

Nunca descobriu que escrevi versos que não lhe mostrei e cartas que jamais entregaria. Que muitas vezes, a pedido do meu coração, liguei apenas para ouvir sua voz dizer alô e desliguei sem uma única palavra. Que fantasiei delícias. Que cantei todas as músicas de amor que eu sabia lembrando dele. Que lembrava ao acordar. Que adormecia lembrando. Que lembrava tanto que achava ter enlouquecido, ô troço obsessor essa tal de paixão! E que, às vezes, lembrar doía, uma dor fina e morna crescendo no peito, como doem os sonhos que não acontecem e que a gente desconfia que não vão mais acontecer.