12 de novembro de 2017

Eugénio de Andrade, "To a Green God" - in "As Mãos e os Frutos" (1945-1948)

Trazia consigo a graça
das fontes, quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens, quando desce.

Andava como quem passa,
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.