16 de novembro de 2017

José Saramago - Momento, Trecho do livro "A Caverna".

O momento das carícias
insinuara-se entre eles,
metera-se entre os lençóis,
não sabia dizer explicitamente
o que queria, mas fizeram-lhe a vontade.

12 de novembro de 2017

Eugénio de Andrade, "To a Green God" - in "As Mãos e os Frutos" (1945-1948)

Trazia consigo a graça
das fontes, quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens, quando desce.

Andava como quem passa,
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.


8 de novembro de 2017

Madrugada - Torquato da Luz

Elizabeth-Gadd-Photography
Cola os ouvidos ao silêncio, quando os pássaros
voltearem na casa abandonada.
Só então conhecerás o rumor dos passos
que precedem a madrugada.

Toda a vida é um quadro em que os tons claros
dão por vezes lugar aos mais escuros.
Mas não é raro
florescerem manhãs por trás de velhos muros.

Deixa portanto à solta o coração
e acolhe a luz que espreita além da escuridão.

6 de novembro de 2017

Dois Cânticos e uma Canção - Cecília Meireles (Os cânticos e a canção foram extraídos da "Antologia Poética", Editora Record - Rio de Janeiro, 1963, págs.25, 32 e 45)



Cântico II

Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu


Canção Mínima

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta


Cântico VI

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acaba todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

2 de novembro de 2017

Amanhã - Helena Chiarello


Pode ser que o tempo passe
e não me guarde o sorriso pronto,
o olhar aceso , a palavra mansa.

É que às vezes é tudo tão longe
que até a persistência da ilusão se cansa.