28 de setembro de 2017

As Rosas Amo dos Jardins de Adônis - Ricardo Reis, in "Odes" (Heterónimo de Fernando Pessoa)

Adônis e Afrodite (desconheço o autor da pintura)

As Rosas amo dos jardins de Adônis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.

27 de setembro de 2017

Respostas para maturidade espiritual – Jalal ad-Din Muhammad Rumi


Perguntaram a Jalal ad-Din Muhammad Rumi, mestre espiritual persa do século XIII:

O que é veneno?
– Qualquer coisa além do que precisamos é veneno. Pode ser poder, preguiça, comida, ego, ambição, medo, raiva, ou o que for.

O que é o medo?
– Não aceitação da incerteza. Se aceitamos a incerteza, ela se torna aventura.

O que é a inveja?
– Não aceitação do bem no outro. Se aceitamos o bem, se torna inspiração.

O que é raiva?
– Não aceitação do que está além do nosso controle. Se aceitamos, se torna tolerância.

O que é ódio?
– Não aceitação das pessoas como elas são. Se aceitamos incondicionalmente, então se torna amor.

O que é maturidade espiritual?

1. É quando você para de tentar mudar os outros e se concentra em mudar a si mesmo.
2. É quando você aceita as pessoas como elas são.
3. É quando você entende que todos estão certos em sua própria perspectiva.
4. É quando você aprende a “deixar ir”.
5. É quando você é capaz de não ter “expectativas” em um relacionamento, e se doa pelo bem de se doar.
6. É quando você entende que o que você faz, você faz para a sua própria paz.
7. É quando você para de provar para o mundo, o quão inteligente você é.
8. É quando você não busca aprovação dos outros.
9. É quando você para de se comparar com os outros.
10. É quando você está em paz consigo mesmo.
11. Maturidade espiritual é quando você é capaz de distinguir entre ” precisar ” e “querer” e é capaz de deixar ir o seu querer.

E por último, mas mais significativo!
12. Você ganha maturidade espiritual quando você para de anexar “felicidade” em coisas materiais!”



“Não se aflija. Tudo o que você perde, volta para você em uma outra forma.”

Djalal ad-Din Rûmi

23 de setembro de 2017

A Leitora - António Ramos Rosa

The Art of Reading: The Garden Window by Daniel F. Gerhartz

A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e espanto da brancura.
Principia apaixonada de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva.
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.

21 de setembro de 2017

Viração - Helena Chiarello

Art by Vicente Romero
E se então a palavra
fosse apenas sopro
a vertigem tomaria conta
de tudo o que haveria para sorrir
e adormeceríamos aqueles dias

de áridas estações
e dos nossos olhos de contentamento
brotariam ternuras
delírios
outras borboletas
e pelas frestas [da insanidade] do tempo
ventariam outonos lilases...

20 de setembro de 2017

Ouço um passarinho cantar... Ana Jácomo


"Ouço um passarinho cantar perto da cozinha. Não posso vê-lo, mas, porque canta, ele me alcança e perfuma a textura do meu instante.
Como o pássaro é o coração que ama: canta o seu perfume sem imaginar onde ele chega. E, ao amar, imperceptivelmente, ajuda a amaciar a textura do mundo..."

19 de setembro de 2017

Ei, traição? Por que chegaste? (Viviene Kauf - Você pode. Você é a sua própria Luz)


- Ei, traição? Por que chegaste?
- Cheguei para fazer-te lembrar do teu Sol, o Sol de tua alma, que clama por tua atenção!
- Ei, traição? Por que machucaste-me assim? Por que dilaceraste-me tanto?
- Pois bem! Para fazer-te ter consciência do seguinte : a intensidade da tua dor, de como tu estás sentindo agora, é proporcional à intensidade da dor de tua alma, que senti a tua falta!
- Por que essa dor aumenta e não passa?
- Para que tu voltes e para que tu lembres em detalhes, com resiliência, a importância de viver somente para o teu mundo interior!
A dor educa, minha menina!
A dor desperta-te para a única verdade: tu apenas tens o amor de tua alma.
Quando tu estás assim com a sensação de solidão e um quê de saudade, é o calor intenso de tua alma, que ama-te intensamente, e pede-te a tua volta!
E a tua alma espera-te calma e serena, com todas estas riquezas: amor, carinho, companheirismo, apoio, cumplicidade, aconchego, amplitude, fidelidade ... absolutamente e exclusivamente para ti!
Todas estas riquezas que tu procuras desesperadamente, em vão, nas pessoas e no mundo ... lá fora!
O tempo é o melhor amigo da tua alma! O teu caminhar, o teu ritmo é respeitado, é amado por tua alma!
Repito: ela ama-te e respeita-te. Ela sabe que tudo está certo e tudo flui na inteligência divina!
Só a tua alma sabe amar-te e sabe fazer-te compreender a importância dela para ti!
Ela não vai atropelar o teu processo de cura!
O teu retorno é inevitável!
Tudo flui sabiamente!
E quando o dia chegar, o dia da tua total maturação dentro do teu processo de retorno, tu saberás e sentirás profundamente, que aquilo que tanto procuraste ansiosamente, tu já tinhas posse!
Ao retornar e sentir o teu bem-amor, tu sentirás livre, preenchida, amada e respeitada; sentirás independência afetiva, e enxergarás que o mais importante é amar e ser amada por ti mesma!
No teu centro interior e na posse do teu bem-amor, tu farás um bordado com linhas de paz e afeto, desenhando nos corações alheios, os laços verdadeiros, os laços de respeito e de irmandade.
Sem a prisão do orgulho!
Sem as amarras da vaidade!
No amar de verdade!
No amar espiritualidade!
No amar multiplicação !
No amar sem reservas, sem regras!
Só na entrega,
No encontro,
No gosto,
DE ESTAR com outro.
Só no deleite
No presente
de sentir
O TEU AUTO AMOR!

18 de setembro de 2017

SOLITUDE - Cláudia Barros


Às vezes ela cansava. Ficava exausta de fazer parte. Gostava, quase sempre mais, quando estava só. Tinha uns momentos de solidão estelar, aquela solidão do não pertencer, do não compreender, em que tudo ficava no lugar.

Gostava do mundo físico. Gostava das paisagens, intimistas ou imensidões... Gostava das cores ora suaves, vezes vibrantes, ternas, agitadas. Gostava em especial dos aromas. Gostava deles por serem assim voláteis, estarem aqui por um segundo e depois não serem mais percebidos e ainda assim permanecerem na memória para sempre. Adorava os clichês básicos: sol na pele, chuva no rosto, vento no cabelo, terra nos pés. E o aconchego do fogo.

Amava pessoas. Gostava de observar suas nuances, suas emoções em eterno movimento. Tinha especial apreço pelas histórias que construíam com seus passos. Sentia-se bem entre pessoas, mas cansava-a a humanidade. Esgotava-se em padrões e conceitos. Ficava claustrofóbica e muitas vezes chegava mesmo a ter medo. De ceder. De igualar. De participar.

Gostava de ser assim, à parte. Estrela sem constelação.

17 de setembro de 2017

E o Longe é um Lugar Estranho - Maripa

Tempestade dentro,
coração prestes a galgar o peito,
sonhos arrumados perto do inatingível.

Cansada de mim,
da concha donde me foi sugada tanta energia,
- lágrimas furtivas entranhadas na pele -
ajoelho no tempo.

Sobra-me o desejo.
O desejo de mergulhar no sono, de mergulhar no mar
onde voam felizes borboletas e onde o azul
me permanece tatuado na memória.
O desejo de partir para longe.

E o longe é um lugar estranho.