25 de agosto de 2017

O valor de um like - Stéphanie Waknin


Nossa sociedade se modernizou e com ela, a nossa comunicação. O impacto da era virtual nas nossas relações é, de fato, assunto que ainda precisa ser muito analisado. Só que as coisas acontecem muito rápido e precisamos aprendê-las por conta própria. Não há quem nos ensine como se relacionar virtualmente, pois a cada dia há mais uma novidade.

A verdade é que nossos relacionamentos se tornaram extremamente online. Existe uma nova linguagem e formas de interagir e, se não me engano, estamos todos muito confusos. A comunicação textual abre precedentes para diversas interpretações, as mensagens visualizadas e sem resposta são a nova forma de rejeição e o verbo "curtir" ganhou conotação bem diferente de sua raíz etimológica.
Em tempos de "likes" e "views", as pessoas passaram a interagir por botões, por um simples "touch" na tela. Ninguém mais troca telefone, trocam-se redes sociais. Precisamos ver a forma que o outro se apresenta e todo seu investimento em marketing pessoal, para de fato, curti-lo. Quem aqui nunca ficou feliz com a curtida de alguém, que se manifeste. Quem não interpretou as constantes visualizações como um interesse do outro? Só que alguém já parou para se perguntar qual é o valor do like na sua foto? Por que interpretamos essa interação como uma forma de atenção? Como uma forma de presença, só que uma presença tão ausente, que em nada nos nutre.

Acho muito importante olharmos para isso. Essa necessidade da validação do outro em relação a nós, essa popularidade virtual de gente que nem se conhece (as trocas de likes ainda me perturbam) e principalmente, achar que as curtidas de quem gostamos são o suficiente para nos fazer feliz. Desde quando passamos a nos contentar com tão pouco?

O nosso valor, aquilo que pensamos de nós, não pode ser pautado por uma ferramenta virtual. A interação com os outros precisa ser muito mais próxima do que temos feito. De nada adianta aparecer uma curtida em em cada uma das suas fotos e a pessoa não aparecer na sua vida. É básico, simples assim. Adaptando então o ditado: em terra de likes, quem vê o outro, é rei.

24 de agosto de 2017

Amigo de verdade deixa marcas - Fernanda Gaona


Pra mim, amizade tem mais a ver com o que o outro me faz sentir do que necessariamente com o que ele pode me dar. Não conto meus amigos pelos benefícios que me trouxeram, mas por como me fizeram sentir privilegiada pelo quanto me acrescentaram. As fases mudam, os amigos mudam, a gente muda. O passado não. A amiga da bagunça da infância será sempre a mesma, os conselhos do amigo confidente da adolescência já foram dados, a parceria nas farras da faculdade já aconteceram. Tempo nenhum será capaz de apagar. Distância nenhuma afasta as lembranças. Amigo de verdade deixa marcas. E uma marca ninguém pode tirar de você!

22 de agosto de 2017

A Claridade das Palavras - Ana Jácomo


De repente, um silêncio tão bem dito que não entendi mais nada. Ao contrário de outros, alguns silêncios apagam a luz.
Bendita seja a claridade das palavras também quando permitem que dúvidas sejam dissolvidas. Que equívocos não sejam alimentados. Que distâncias não cresçam. Que a confiança prevaleça. Que o afeto não se torne encabulado.
Bendita seja a claridade das palavras também quando ficamos no escuro da incompreensão, tateando as paredes deste cômodo pouco ventilado à procura de um interruptor qualquer que acenda o nosso entendimento.
Bendita seja a claridade das palavras também quando aproximam, em vez de afastar. Quando nos possibilitam o conforto da verdade, mesmo que ela desconforte. Quando simplesmente queremos saber o que está acontecendo com as pessoas que amamos simplesmente porque amamos.

Bendita seja a claridade das palavras quando ditas com o coração. Ele sabe como acender a luz.

21 de agosto de 2017

Você atrai o que você é! - por Eckhart Tolle


Quem nós pensamos que somos está intimamente ligado a como nos consideramos tratados pelos outros. Muitas pessoas se queixam de que não recebem um tratamento bom o bastante. “Não me tratam com respeito, atenção, reconhecimento, consideração. Tratam-me como se eu não tivesse valor”, elas dizem. Quando o tratamento é bondoso, elas suspeitam de motivos ocultos. “Os outros querem me manipular, levar vantagem sobre mim. Ninguém me ama.”

Quem elas pensam que são é isto: “Sou um pequeno eu’ carente cujas necessidades não estão sendo satisfeitas.” Esse erro básico de percepção de quem elas são cria um distúrbio em todos os seus relacionamentos. Esses indivíduos acreditam que não têm nada a dar e que o mundo ou os outros estão ocultando delas aquilo de que precisam. Toda a sua realidade se baseia num sentido ilusório de quem elas são. Isso sabota situações, prejudica todos os relacionamentos. Se o pensamento de falta – seja de dinheiro, reconhecimento ou amor – se tornou parte de quem pensamos que somos, sempre experimentaremos a falta.

Em vez de reconhecermos o que já há de bom na nossa vida, tudo o que vemos é carência. Detectarmos o que existe de positivo na nossa vida é a base de toda a abundância. O fato é o seguinte: seja o que for que nós pensemos que o mundo está nos tirando é isso que estamos tirando do mundo. Agimos assim porque no fundo acreditamos que somos pequenos e que não temos nada a dar.

Se esse for o seu caso, experimente fazer o seguinte por duas semanas e veja como sua realidade mudará: dê às pessoas qualquer coisa que você pense que elas estão lhe negando – elogios, apreço, ajuda, atenção, etc. Você não tem isso? Aja exatamente como se tivesse e tudo isso surgirá. Logo depois que você começar a dar, passará a receber. Ninguém pode ganhar o que não dá. O fluxo de entrada determina o fluxo de saída. Seja o que for que você acredite que o mundo não está lhe concedendo você já possui. Contudo, a menos que permita que isso flua para fora de você, nem mesmo saberá que tem. Isso inclui a abundância. A lei segundo a qual o fluxo de saída determina o fluxo de entrada é expressa por Jesus nesta imagem marcante:
“Dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada, sacudida e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também.” A fonte de toda a abundância não está fora de você. Ela é parte de quem você é. Entretanto, comece por admitir e reconhecê-la exteriormente. Veja a plenitude da vida ao seu redor.

O calor do sol sobre sua pele, a exibição de flores magníficas num quiosque de plantas, o sabor de uma fruta suculenta, a sensação no corpo de toda a força da chuva que cai do céu. A plenitude da vida está presente a cada passo. Seu reconhecimento desperta a abundância interior adormecida. Então permita que ela flua para fora. Só o fato de você sorrir para um estranho já promove uma mínima saída de energia. Você se torna um doador. Pergunte-se com frequência: “O que posso dar neste caso?

Como posso prestar um serviço a esta pessoa nesta situação? Você não precisa ser dono de nada para perceber que tem abundância. Porém, se sentir com frequência que a possui, é quase certo que as coisas comecem a acontecer na sua vida. Ela só chega para aqueles que já a têm. Parece um tanto injusto, mas é claro que não é. É uma lei universal. Tanto a fartura quanto a escassez são estados interiores que se manifestam como nossa realidade. Jesus fala sobre isso da seguinte maneira: “Pois, ao que tem, se lhe dará; e ao que não tem, se lhe tirará até o que não tem.

20 de agosto de 2017

A solidão não é viver só... por José Saramago


"A solidão não é viver só...
A solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós...
A solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja..
É a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz."

18 de agosto de 2017

Feliz e sem motivos... Ana Jácomo


"Uma das mais saborosas sensações de liberdade que eu conheço é flagrar MEU CORAÇÃO FELIZ sem precisar de nenhum motivo aparente. De vez em quando, a mente, que tantas vezes mente, me permite lembrar que essa felicidade essencial está o tempo todo disponível, preservada, por trás das nuvens que a negatividade infla. Rio e me sinto mar."

16 de agosto de 2017

O Amor é Muito Difícil - José Luís Peixoto, in 'Notícias Magazine (2003)`

Penso que o amor é muito difícil. Existem muitos obstáculos a que possa ser o absoluto que é. A palavra amor é uma palavra muito gasta, muito usada, e muitas vezes mal usada, e eu quando falo de amor faço-o no sentido absoluto... há uma série de outros sentimentos aos quais também se chama amor e que não o são. No amor é preciso que duas pessoas sejam uma e isso não é fácil de encontrar. E, uma vez encontrado, não é fácil de fazer permanecer.

15 de agosto de 2017

Saudades do Pai... por Rubens Colombo Lima

Art by Marciano Schmitz

Hoje levantei cedo demais
Senti saudade tua meu pai
Olhei pra cadeira onde mateava, estava vazia
E um silêncio tomou conta de mim
Quando na cabeceira da mesa
Tu também não estava

Então lembrei de minha infância
Não só do grande pai
Mas também do grande amigo
Do carinho que tu me dava
De teus ensinamentos
Que no momento nem tanto me importava
Mas era em ti que eu me espelhava

Agarradito em tuas bombacha foi que aprendi a ser homem
Aprendi a ser humilde pra não ser humilhado
Ser amigo dos amigos
Respeitar pra ser respeitado
Me ensinou a ter coragem para dominar meus próprios impulsos
E procurar estar sempre com a verdade do lado
Pois o mal só reponta os fracos
E esses por si já são derrotados

Não te preocupa com o que pensam de ti
Mas sim com tua consciência
O homem é o que é
E não aquilo que qualquer um pensa

Tenha capricho em tuas atitudes
Como um pingo* bem encilhado
E não tenha medo de pedir desculpa quando estiver errado
Sempre que puder perdoar, perdoe
Sem se sentir derrotado
Pois feliz o homem, que tal a grandeza, que cruzou por cima do pecado

Não tenha vergonha de ter terra nas unhas
Mas a alma limpa como a vertente de um lajeado
Tenha compromisso, seja honesto, trabalhador
Justo e agradecido
E quanto mais longe for
Mais se lembre de onde tenha saído
Por mais que tenha vencido
Nunca cruze por cima
De quem tivesse caído
Pois mais vale um homem desarmado
Do que uma arma sem homem
Mais vale um pobre coitado do que um coitado de alma pobre

Na fumaça de um fogo de chão
Do velho galpão onde nós mateava
Ficou curtido o que tu me passava
Como a rainha de minha lembrança
Pra curar esta ferida
Pois tenha certeza meu velho
Que teus ensinamentos que me ajudaram
A conquistar um espaço na vida

Hoje levantei cedo demais
Pra pelo menos em pensamento
Matear contigo meu pai.

13 de agosto de 2017

Somos o céu... por André Lima


"Os pensamentos e sentimentos acontecem dentro de um espaço, que é a nossa essência.
Alguns chamam esse espaço de consciência.
Pensamentos e sentimentos são como nuvens que vem e vão.
A consciência é como o céu azul que está sempre ali no fundo, mesmo que tenha sido temporariamente encoberto por pesadas nuvens.
Por mais que o dia esteja cinzento, sabemos que o céu azul está sempre ali por trás."

12 de agosto de 2017

“Teu riso”, poema de Pablo Neruda


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

10 de agosto de 2017

Mudança - Elisabeth Cavalcante


Todos os chamados iluminados, aqueles que alcançaram a Verdade, costumam irradiar uma aura de felicidade que intriga quem ainda vive na dimensão do ego. Como é possível, costumamos dizer, que alguém, neste mundo caótico, com tanta miséria e violência, possa sentir-se feliz?

Ocorre que a harmonia é o estado natural do ser, e se observarmos uma criança podemos perceber nela esta condição. É claro que há momentos em que o choro estará presente, mas apenas quando uma necessidade física estiver necessitando ser satisfeita.

Infelizmente, à medida que vamos nos desenvolvendo, a mente começa a ganhar cada vez mais espaço, até que torna-se dominante. A partir daí, além da satisfação de nossas necessidades básicas, passamos a desejar uma quantidade cada vez maior de quesitos para nos sentirmos felizes.

O primeiro passo para refazer o caminho de volta, é cultivar uma grande vontade de vivenciar este sentimento interior de felicidade, que independe de qualquer condição externa. Para isto é essencial abandonar a pretensão de querer reformar o mundo. Esta é uma das maiores ilusões a que nos apegamos ao longo de nossa existência.

Como a mudança do mundo depende, inexoravelmente, da transformação do ser humano, o melhor que temos a fazer é cuidar de nosso próprio caminho, e deixar que cada um de nossos semelhantes faça o mesmo por si.

De nada adianta nos esforçarmos para mudar alguém, se a própria pessoa não estiver consciente e ansiando por esta mudança. É claro que, na medida em que alcançamos pequenas vitórias em nossa trajetória, podemos sim, compartilhar esta experiência com os demais, como forma de encorajamento e apoio.

Mas apenas isto pode ser possível. As transformações são sempre individuais, pois somente o que se experiencia na própria pele, pode levar à autêntica metamorfose.
De qualquer modo, para saber se estamos ou não no caminho certo, o critério será sempre avaliar o nosso coeficiente de felicidade.

No dia em que a paz e a serenidade se tornarem nosso estado natural, e deixarmos de nos identificar com a insanidade existente à nossa volta, teremos finalmente retornado à Fonte.

..."Algo que você deveria sempre manter - e esta é a única obrigação - é ser feliz.
Faça com que o ser feliz se torne uma religião. Se você não estiver feliz, algo deve estar errado, e uma mudança drástica é necessária. Deixe que a felicidade decida.
E a felicidade é o único critério que a humanidade tem; não existe outro critério. A felicidade lhe dá o indício de que as coisas estão indo bem. E a infelicidade lhe dá a indicação de que as coisas estão indo mal e de que uma grande mudança é necessária em um ponto".(Osho)

9 de agosto de 2017

Respeite-se! - Luiz Gasparetto (M de mulher)


Você tem poder. É isso mesmo! Todos nós temos. E quando ganhamos a consciência desse poder, as forças do Universo trabalham a nosso favor e tudo caminha extraordinariamente bem. O grande porém é que geralmente nós nos encontramos divididos: uma parte de nós caminha e a outra fica, pois os medos e as inseguranças nos detêm.

Uma coisa que nos faz perder o poder é a maldita vaidade. Vaidade é a ilusão de que eu vivo com o que é do outro. É infantilidade, dependência, falta de foco em si mesmo. Quer ver? Você já deve ter ouvido esta frase: "Se você me amar, serei feliz". É uma mentira! Ninguém sente dentro de si o amor do outro. Outro exemplo: "Quando todo mundo me aceitar, me sentirei maravilhosa". Nada disso! Só quando você se aceitar é que realmente vai se sentir plena.

Você vive com aquilo que tem - suas emoções, seus sentimentos, sua cabeça -, não com o que é do outro. É um erro passar a maior parte da vida submetido à aprovação e ao apoio do outro. A gente incorpora um personagem qualquer e sacrifica o próprio espírito. E vou mais longe: quanto mais poder você dá à fofoca, mais ela vem. Quanto mais poder você dá às críticas ou às perdas, mais elas ocorrem. Se você dá poder aos outros, com certeza está se rebaixando. Preste atenção: ninguém é menor que ninguém. Pare com isso e mude já essa situação!

Quanto mais importância e poder você der a seus objetivos, seus sentimentos e sua verdade, mais fortes eles ficarão. Respeitar-se é fundamental. Não importa se as pessoas te criticam ou te elogiam. O que importa é você para você! Reconheça que você é capaz de tudo. Sem ter a consciência do próprio poder, você fica com medo da vida, de não dar conta, de sofrer. Para se realizar, é preciso reverter esse quadro.

Então, acorde! Recupere sua lucidez espiritual e liberte-se das imposições morais. Afinal, elas só nos mantêm pequenos e submissos. Jogue fora tudo que te deixa fraca, culpada, desprezada, resistindo ao seu verdadeiro anseio de vitória. É um grande trabalho, mas se você não investir em si mesma, quem o fará? Não há ninguém maior que você! Dê apoio integral a si mesma e sinta as mudanças acontecerem na sua vida. Quando você está no seu poder, você arrasa!

8 de agosto de 2017

O que realmente importa... por Rebeca Bedone


"O que realmente importa mora dentro de nós, o resto são expectativas alheias.
De um dia para o outro as coisas podem mudar. Vivemos entre o susto e a sorte. Voam-se minutos, horas, dias e, de repente, já se foi mais um fim de ano. O tempo passa tão rápido que muitas vezes nem conseguimos notá-lo. Deixamos para depois muitas coisas que podíamos fazer agora. Como perdoar alguém, escrever uma carta e pedir desculpas. Como, simplesmente, ouvir um desconhecido.
O tempo também passa inexorável às nossas dúvidas e receios. E a compreensão de que o tempo está passando nos traz o silêncio do vazio. Porque o silêncio nos fala o que não temos, ou o que perdemos.
O vazio é um poema que ainda não foi escrito. O vazio está naquela pessoa que ainda não amou alguém de verdade, ou que não conseguiu ter um filho, ou que perdeu os seus pais. Também está na pessoa que fica insegura por não encontrar algumas respostas enquanto se passam os melhores anos de sua vida. Como se os sonhos que a encorajam a declamar o alvorecer de cada dia, curiosamente, passassem a ter medo da escuridão, e da falta de inspiração.
Mas, enquanto a vida corre, é que descobrimos nossos erros e acertos, e, entre eles, aprendemos quem somos de verdade. Olhamos nosso avesso para não ficar procurando o sentido das coisas; então, aprendemos simplesmente a senti-las. Sentimos dor, amor e nossas próprias incertezas. Sentimos o peso do tempo se tornar mais leve.
Quero ser o luar da minha solitude, e a andorinha que voa em minha esperança. Para ampliar a solidão em cores e sons, quero amanhecer em mim. Manoel de Barros nos ensina a transver o mundo: “O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê”.
É preciso reinventar a vida, apesar das dificuldades. As guerras existem e a morte está por todo lado, como um sertão de tristezas. Mas, por mais difícil que possa parecer, ‘desaprisionar’ a alma é criar um lugar só nosso para preenchê-lo de vazios. Porque, como disse o poeta, o vazio é um espaço infinito, à espera de novas possibilidades e de uma imaginação livre.
Mesmo que nada dure para sempre, a vida continua para os que ficam. E a cada passagem da vida, não somos mais os mesmos. Estamos sempre nos reinventando. Queremos ficar sós e juntos. Somos momentos de fim e recomeço. Somos o que temos e o que não temos, mas, sobretudo, somos o que damos uns para os outros"

7 de agosto de 2017

Você maior... Martha Medeiros (Na sua coluna no jornal ZH do dia 20/07/2014)


As redes sociais alimentam, mas não são as únicas responsáveis pela egolatria que tomou conta do mundo. Vivendo numa bolha chamada sociedade de consumo, cada um de nós passou a ser encarado como um produto e, como tal, precisa se vender.

Para se colocar bem no mercado do amor e no mercado de trabalho, tornou-se obrigatório apresentar um perfil, e então tratamos de falar muito sobre nós, sobre nossos atributos e tudo o que possa fazer a gente avançar em relação à concorrência, que não é pequena. Somos os publicitários de nós mesmos, uns mais discretos, outros mais exibidos, mas todos procurando encantar o próximo, que propaganda nada mais é do que isso: a arte de seduzir.

Contraditoriamente, quando se torna necessário falarmos não de nossos atributos, mas de nossas dores, de nossas inseguranças e de nossos defeitos, fechamos a boca. Mesmo os que estão bem perto, aqueles que nos são íntimos, não escutam a nossa voz. Calamos por temer um julgamento sumário. Produtos precisam ser eficientes, não podem ter falhas.

A boa notícia é que tudo isso é um absurdo. Não somos um produto. Não precisamos de slogan, embalagem, jingle. Estamos aqui para conviver, e não para sermos consumidos. E, se quisermos que realmente nos conheçam, o ideal seria parar de nos anunciarmos como o último copo d’água do deserto.

O documentário Eu Maior, um dos trabalhos mais tocantes a que assisti nos últimos tempos, traz o depoimento de filósofos, artistas, cientistas e ambientalistas sobre quem verdadeiramente somos e como devemos nos relacionar com o universo. Entre várias colocações ponderadas, teve uma de Marina Silva que tomei como uma lição de comportamento: “Você descobre a qualidade de uma pessoa não quando ela fala de si, mas quando ela fala dos outros”.

Ou seja, o que revela sua verdadeira natureza são os comentários venenosos que costuma distribuir ou os elogios que faz sobre amigos e desconhecidos. São as fofocas que oculta para não menosprezar seus semelhantes ou que espalha por aí, acrescentando uma maldadezinha extra. Você é avaliado de forma mais precisa através da sua capacidade de enaltecer o positivo que há ao seu redor ou de propagar o negativismo que sobressai em tudo o que vê.

Você demonstra que é uma pessoa maior – ou menor – de acordo com sua necessidade de diminuir ou de valorizar aqueles que o rodeiam, de acordo com um olhar que deveria ser justo, mas que quase sempre é competitivo. É através das suas palavras amorosas ou das suas declarações injuriantes que os outros saberão exatamente quem é você – pouco importando o que você diga sobre si mesmo.

Sobre você mesmo, deixe que falemos nós.


Para assistir ao filme "Eu Maior" que Martha se refere...clique AQUI

5 de agosto de 2017

Agosto... de Miryan Lucy de Rezende


“Só quem vive bem os agostos é merecedor da primavera! Lembro-me bem. Foi quando julho se foi, que um vento mais gelado, mais destemperado, que arrastava ainda folhas deixadas pelo outono, me disse algumas verdades.
Convenceu-me de que o céu começaria a apresentar metamorfoses avermelhadas. Que a poeira levantada por ele daria lições de que as coisas nem sempre ficam no mesmo lugar e que é preciso aceitar que a poeira só assenta depois que os redemoinhos se vão. Foi quando julho se foi que a minha solidão me convidou para uma conversa. E me contou de tempo de esperas. E me disse que o barulho das árvores tinha algo a dizer sobre aceitação. E eu fiquei pensando com elas, as árvores, aceitam as estações que, se as estremecem, também lhes florescem os galhos. Mas tudo a seu tempo. Foi em agosto que descobri que os cachorros loucos são, na verdade, os uivos que não lançamos ao vento. São nossos estremecimentos particulares que a nossa rigidez de certezas não nos permite encarar.....
Agosto é quando Deus deixa a natureza traduzir visivelmente o tempo das mutações. Mude, diz agosto, em seu recado de sementes. Aceite, diz agosto, com seu jeito frio de vento que levanta poeira e a faz avermelhar o céu.
Compartilhe, diz agosto.... Distribua mais afetos, que inverno é acolhimento, é tempo de preparar setembro. E, de setembro, todos sabemos o que esperar. Esperamos a arrebentação das cores, que com seus mais variados nomes vêm em forma de flores. Vamos apreciar agosto, recebê-lo com espanto feliz de quem não desafia ventos. Que ele desarrume e espalhe suas folhas e levante suas poeiras. Aceite as esperas, mas coloque floreiras na janela. Só quem vive bem os agostos é merecedor da primavera.”


4 de agosto de 2017

O caminho da transformação - Ana Jácomo


A gente se acostuma muito fácil às circunstâncias difíceis que às vezes podem ser mudadas. A gente se adapta demais ao que faz nossos olhos brilharem menos. A gente camufla a exaustão. A gente inventa inúmeras maneiras para revestir o coração com isolamento acústico para evitar ouvi-lo. A gente faz de conta que a vida é assim mesmo e ponto. A gente arrasta bolas de ferro e faz de conta que carrega pétalas só pra não precisar fazer contato com as nossas insatisfações e agir para transformá-las. A gente carrega tanto peso, no sentimento, um bocado de vezes, porque resiste à mudança o máximo que consegue, até o dia em que a alma, cansada de não ser olhada, encontra o seu jeito de ser vista e de dizer quem é que manda.

Eu fiquei pensando no que esse peso todo, silenciosamente, faz com a alma. No que isso faz com os sonhos mais bonitos e charmosos e arejados. No que isso, capítulo a capítulo, dia-a-dia, faz com a nossa espontaneidade. No que isso faz, de forma lenta e disfarçada, com o desenhista lindo que mora na gente e traça os risos de dentro pra fora. E o entusiasmo. E o encanto. E a emoção de estarmos vivos.

Eu fiquei pensando no quanto é chato a gente se acostumar tanto. No quanto é chato a gente só se adaptar. No quanto é chato a gente camuflar a própria exaustão, a vida mais ou menos há milênios, que canta pouco, ri pequeno e quase não sai pra passear.

Eu fiquei pensando no quanto é chato a gente deixar o coração isolado para não lhe dar a chance de nos contar o que imagina pra nós e o que podemos desenhar juntos nessa estrada. Mas chega um momento em que me parece que, lá no fundo, a gente começa a desconfiar que algo não está bem e que, ainda que seja mais fácil culpar Deus e o mundo por isso, vai ver que os algozes moram em nós, dividindo espaço com o tal desenhista lindo que, temporariamente, está com a ponta do lápis quebrada.

Sem fazer alarde, a gente começa a perceber os tímidos indícios que vêm nos dizer que já não suportamos carregar tanto peso como antes e a viver só para aguentar. Devagarinho, a gente começa a sentir que algo precisa ser feito. Embora ainda não faça. Embora ainda insista em fazer ouvidos de mercador para a própria consciência. Embora ainda estresse toda a musculatura da alma, lesione a vida, enrijeça o riso, embace o brilho dos olhos, envenene os rios por onde corre o amor.

Por medo da mudança, quando não dá mais para carregar tanto peso, a gente aprende a empurrá-lo, desaprendendo um pouco mais a alegria. Quase nem consegue respirar de tanto esforço, mas aguenta ou pelo menos faz de conta, algumas vezes até com estranho orgulho. Até que chega a hora em que a resistência é vencida. A gente aceita encarar o casulo. A gente deixa a natureza tecer outra história. A gente permite que a borboleta aconteça.


Nascemos para aprender a amar, a dançar com a vida com mais leveza, a criar mais espaço de conforto dentro da gente, a ser mais felizes e bondosos, a respirar mais macio, essa é a proposta prioritária da alma, eu sinto assim.

Podemos ainda subestimar a nossa coragem para assumir esse aprendizado. Podemos nos acostumar a olhar o peso e o aperto, nossos e dos outros, tanto sofrimento por metro quadrado, como coisa que não pode nunca ser transformada. Podemos sentir um medo imenso e passar longas temporadas quase paralisados de tanto susto. Podemos esgotar vários calendários sem dar a menor importância para o material didático que, aqui e ali, a vida nos oferece.

Podemos ignorar as lições do livro-texto que é o tempo e guardar, bem escondido do nosso contato, esse caderno de exercícios que é o nosso relacionamento com nós mesmos e com os outros. Apesar disso tudo, a nossa semente, desde sempre, já inclui as asas. Já inclui o voo. Já inclui o riso. Já é feita para um dia fazer florir o amor que abriga. E, mais cedo ou mais tarde, ela floresce.”