30 de julho de 2017

Ana Martins Marques, in "O livro das semelhanças", ed. Companhia das Letras


Viajo olhando pela janela do ônibus
em busca das linhas vermelhas das fronteiras
ou dos nomes luminosos das cidades
pairando sobre elas
como nos mapas
neles não ventava nem chovia
e nunca era noite
e eu passava horas estudando
todos os caminhos que me levariam até você
mas nos mapas eu nunca te encontrava
chego em duas ou três horas
o coração no peito como um pão
ainda quente na mochila
talvez você me espere na rodoviária
talvez eu te veja ainda antes de descer do ônibus
assim que descer vou te entregar nas suas mãos
emboladas num novelo
as linhas desfeitas das fronteiras e
como as contas luminosas de um colar
cada um dos nomes das cidades.

29 de julho de 2017

Jack London, in "O Lobo do Mar"

Photo Sebastião Salgado
Não vê que em matéria de oferta e procura a vida é a mercadoria mais barata que existe? Tudo tem limitações, menos a vida. Existe tanto de ar, tanto de água, tanto de terra. Quantidades limitadas. Mas a vida que procura brotar não tem limites. A natureza é infinitamente pródiga de vida.

Veja o peixe e seus milhões e milhões de ovos. Em nós dois, por exemplo. Há em nós dois, em nossas glândulas, possibilidades para milhões de vidas. Tivéssemos tempo, e meios de utilizar o que há de vida em nós dois, e seríamos progenitores de continentes inteiros.

Vida! Bah! Não tem valor. Entre as coisas baratas é a mais barata. Por toda parte vejo-a mendigando.
A natureza derrama vida com mão larga. Onde há lugar para uma vida a natureza faz brotar mil.
E a vida devora a vida para que sobreviva a mais forte."

Photo Sebastião Salgado

"O homem nasce bom e a sociedade o corrompe” (J.J. Rousseau)

27 de julho de 2017

Ternura - Caio Fernando Abreu


"Não sei como me defender dessa ternura que cresce escondida e, de repente, salta para fora de mim, querendo atingir todo mundo!”

26 de julho de 2017

24 de julho de 2017

Respeite a Você Mais do que aos Outros - Clarice Lispector in 'Carta a Tânia' [irmã de Clarice] (1947)


Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. (...) Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. (...) Pretendia apenas lhe contar o meu novo carácter, ou falta de carácter. (...) Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu... em que pese a dura comparação... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. (...) Uma amiga, um dia desses, encheu-se de coragem, como ela disse, e me perguntou: você era muito diferente, não era? Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou essa calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinquenta anos. (...) o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.

22 de julho de 2017

”Uma alegria para sempre”. Mario Quintana, In: Baú de Espantos, 1986


As coisas que não conseguem ser olvidadas
continuam acontecendo.
Sentimo-las como da primeira vez,
sentimo-las fora do tempo,
nesse mundo do sempre
onde as datas não datam.
Só no mundo do nunca existem lápides...

Que importa se - depois de tudo - tenha "ela" partido
ou que quer que te haja feito, em suma?
Tiveste uma parte da sua vida que foi só tua e, esta,
ela jamais a poderá passar de ti para ninguém.

Há bens inalienáveis, há certos momentos que,
ao contrário do que pensas,
fazem parte de tua vida presente
e não do teu passado.
E abrem-se no teu sorriso mesmo quando,
deslembrado deles,
estiveres sorrindo a outras coisas.

Ah, nem queiras saber o quanto deves à ingrata
criatura...
A thing of beauty is a joy for ever
- disse, há cento e muitos anos,
um poeta inglês que não conseguiu morrer.

(Esse poema Mario Quintana dedicou a Elena Quintana sua sobrinha neta)

19 de julho de 2017

A Disciplina da Felicidade - por FABRÍCIO CARPINEJAR

Art by Christian Schloe
Felicidade é disciplina.
Pode soar estranha a minha leitura.
Mas não é loucura, transgressão, exceção, fugir do óbvio.
É viver o normal potencializado pelas palavras e pelos rituais. É viver o normal em outra dimensão do sensível.
A felicidade vem de um estado quase militar, quase estoico, de dividir o sol e a lua em hábitos para se repartir melhor, de respirar controlando a respiração, de caminhar com o peso das unhas (pois as unhas pesam quando tudo está leve).
Não sonhar, mas ter disciplina para cumprir a fantasia. Não desejar, mas ter disciplina para elaborar a vontade.
O precário pode ser o essencial, a pobreza pode ser o fundamental. A riqueza surge da percepção, como recebo!; é o que importa.
Não é que a vida é pouca, é que estamos sendo poucos para a vida naquele momento.
Felicidade é estar dentro dos limites, e perceber cada um deles como proteção, em vez de censura e proibição.
Felicidade é intensidade. É se pôr inteiro no lugar que você está, não no minuto anterior, nem no próximo minuto. Inteiro: beber o tempo que a sua boca pode beber, não beber com os olhos ou com os ouvidos, que bebem o infinito e se afogam.
Não querer tudo, querer o que se necessita.
Porque a ansiedade não é esperança, é agredir o instante.
Contar com a consciência daquele ato: o motivo de estar ali, a necessidade de estar ali, a urgência de estar ali.
Não transar por transar: transar sabendo com quem está transando, sabendo a importância daquela história, o motivo daquela pessoa passar pelo seu corpo, o quanto ela lhe dá prazer, o significado de cada abraço, beijo, lambida, toque, sussurro.
Não agir pela carência, e sim pela escolha. Eleger a si todo o dia para o mundo.
Felicidade é consciência apurada.

18 de julho de 2017

Ya no se encantarán mis ojos en tus... Pablo Neruda

Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos,
ya no se endulzará junto a ti mi dolor.

Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
y hacia donde camines llevarás mi dolor.

Fui tuyo, fuiste mía. Qué más? Juntos hicimos
un recodo en la ruta donde el amor pasó.

Fui tuyo, fuiste mía. Tu serás del que te ame,
del que corte en tu huerto lo que he sembrado yo.

Yo me voy. Estoy triste: pero siempre estoy triste.
Vengo desde tus brazos. No sé hacia dónde voy.

...Desde tu corazón me dice adiós un niño.
Y yo le digo adiós.

17 de julho de 2017

Diálogo - Helena Kolody

Debruçados sobre a vida,
indagamos seus mistérios
e raramente alcançamos
suas respostas cifradas.

Ao calor do interrogar-se
nuvens ocultas esgarçam-se,
a luz em nós amanhece.

15 de julho de 2017

Você ... Clarissa Corrêa

Você é toda a beleza que existe em mim, onde quero chegar, para onde quero voltar. É o meu ponto de partida, o topo da montanha, meu lugar ao sol. É todos os clichês do mundo junto com palavras inventadas por quem já partiu ou chegou. É uma parte de mim e ao mesmo tempo tudo que me preenche, liberta, completa e renova a cada dia. É o frescor da vida, o sabor que fica na boca, a saudade do que ainda não surgiu. É a verdade que vive, a vontade que cresce, a certeza que amadurece. Por isso e por tudo quero estar sempre perto de você até que o dia vire noite e a vida se transforme em continuação."

7 de julho de 2017

José Luís Peixoto - Escuta, Amor, in 'Abraço'

Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.

Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.

Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.
Escuta,
ouve.
Amor.
Amor.

1 de julho de 2017

No teu rosto - Mia Couto, In Raiz de orvalho e outros poemas, 1999

No teu rosto
competem mil madrugadas

Nos teus lábios
a raiz do sangue
procura suas pétalas

A tua beleza
é essa luta de sombras
é o sobressalto da luz
num tremor de água
é a boca da paixão
mordendo o meu sossego