22 de março de 2017

Lya Luft, no livro “Perdas e ganhos”. Rio de Janeiro: Record, 2006 - Fragmentos


"O mundo não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui forma, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. É uma ideia assustadora: vivemos segundo o nosso ponto de vista, com ele sobrevivemos ou naufragamos. Explodimos ou congelamos conforme nossa abertura ou exclusão em relação ao mundo. E o que configura essa perspectiva nossa? Ela se inaugura na infância, com suas carências nem sempre explicáveis. Mesmo se fomos amados, sofremos de uma insegurança elementar. Ainda que protegidos, seremos expostos a fatalidades e imprevistos contra os quais nada nos defende. Temos de criar barreiras e ao mesmo tempo lançar pontes com o que nos rodeia e o que ainda nos espera. Toda essa trama de encontro e separação, terror e êxtase encadeados, matéria da nossa existência, começa antes de nascermos."

“(...) A vida não tece apenas uma teia de perdas, mas nos proporciona uma sucessão de ganhos. O equilíbrio da balança depende muito do que soubermos e quisermos enxergar. (...) O fluxo de dias e anos, décadas, serve para crescer e acumular, não só perder e limitar. Dessa perspectiva nos tornamos senhores, não servos. Pessoas, não pequenos animais atordoados que correm sem saber ao certo por quê.”

“Caminho entre as minhas perdas – que são insetos escuros – e os meus ganhos, douradas borboletas. A luz de uma paixão, o dedo da morte, o lento pincel da solidão desenharam meus contornos, firmaram meu chão.”

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