8 de junho de 2017

Nel mezzo del camin… – Olavo Bilac

Nel mezzo del camin…

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha…
E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.
Hoje segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.
E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo

4 de junho de 2017

Amar era tão infinitamente melhor - Lya Luft

“Às vezes é preciso recolher-se. O coração não quer obedecer, mas alguma vez aquieta; a ansiedade tem pés ligeiros, mas alguma vez resolve sentar-se à beira dessas águas. Ficamos sem falar, sem pensar, sem agir. É um começo de sabedoria, e dói. Dói controlar o pensamento, dói abafar o sentimento, além de ser doloroso parece pobre, triste e sem sentido. Amar era tão infinitamente melhor; curtir quem hoje se ausenta era tão imensamente mais rico. Não queremos escutar essa lição da vida, amadurecer parece algo sombrio, definitivo e assustador. Mas às vezes aquietar-se e esperar que o amor do outro nos descubra nesta praia isolada é só o que nos resta. Entramos no casulo fabricado com tanta dificuldade, e ficamos quase sem sonhar. Quem nos vê nos julga alheados, quem já não nos escuta pensa que emudecemos para sempre, e a gente mesmo às vezes desconfia de que nunca mais será capaz de nada claro, alegre, feliz. Mas quem nos amou, se talvez nos amar ainda há de saber que se nossa essência é ambigüidade e mutação, este silencio é tanto uma máscara quanto foram, quem sabe, um dia os seus acenos.”

1 de junho de 2017

Então, não perca seu tempo comigo... - Caio Fernando Abreu

Então, não perca seu tempo comigo. Eu não sou um corpo que você achou na noite. Eu não sou uma boca que precisa ser beijada por outra qualquer. Eu não preciso do seu dinheiro. Muito menos do seu carro. Mas, talvez, eu precise dos seus braços fortes. Das suas mãos quentes. Do seu colo pra eu me deitar. Do seu conselho quando meu lado menina não souber o que fazer do meu futuro. Eu não vou te pedir nada. Não vou te cobrar aquilo que você não pode me dar. Mas uma coisa, eu exijo. Quando estiver comigo, seja todo você. Corpo e alma. Às vezes, mais alma. Às vezes, mais corpo. Mas, por favor, não me apareça pela metade. Não me venha com falsas promessas. Eu não me iludo com presentes caros. Não, eu não estou à venda. Eu não quero saber onde você mora. Desde que você saiba o caminho da minha casa. Eu não quero saber quanto você ganha. Quero saber se ganha o dia quando está comigo.

29 de maio de 2017

Stand By Me - John Lennon

When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we'll see
No, I won't be afraid, no, I won't be afraid
Just as long as you stand, stand by me
And, darling, darling stand by me, oh now now
Stand by me
Stand by me, stand by me

If the sky that we look upon
Should tumble and fall
And the mountains should crumble to the sea

I won't cry, I won't cry, no, I won't shed a tear
Just as long as you stand, stand by me

And, darlin', darlin', stand by me, oh stand by me
Stand by me, stand by me, stand by me-e, yeah
Whenever you're in trouble won't you stand by me?
Oh, now, now, stand by me
Oh, stand by me, stand by me, stand by me
Darlin', darlin', stand by me-e, stand by me
Oh, stand by me, stand by me, stand by me


26 de maio de 2017

Fragmentos do Livro do Desassossego - Fernando Pessoa (Publicado em 1982, quarenta e sete anos após a morte de Fernando Pessoa)


“O coração, se pudesse pensar, pararia.”

“...não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram.”

“É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de se estar enclausurado na cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?”

“A solidão desola-me. A companhia oprime-me. A presença de outra pessoa desencaminha-me os pensamentos.”

“Há momentos em que tudo cansa, até o que nos repousaria.”

“Mais terrível do que qualquer muro, pus grades altíssimas a demarcar o jardim do meu ser, de modo que, vendo perfeitamente os outros, perfeitissimamente eu os excluo e mantenho outros.”

“Dá-se em mim uma suspensão da vontade, da emoção, do pensamento, e esta suspensão dura magnos dias. (...) Nesses períodos de sombra, sou incapaz de pensar, de sentir, de querer. (...) Não posso; é como se dormisse e os meus gestos, as minhas palavras, os meus atos certos, não fossem mais que uma respiração periférica, instinto rítmico de um organismo qualquer.”

“O oráculo que disse “Conhece-te” propôs uma tarefa maior que as de Hércules e um enigma mais negro que o da Esfinge.”

“Da nascença à morte, o homem vive servo da mesma exterioridade de si mesmo que têm os animais.”

“Quem sou eu para mim? Só uma sensação minha."

“Escrevo embalando-me, como uma mãe louca a um filho morto.”

“Não sei de prazer maior, em toda a minha vida, que poder dormir. O apagamento integral da vida e da alma, o afastamento completo de tudo quanto é seres e gente, a noite sem memória nem ilusão, o não ter passado nem futuro.”

“O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. (...) Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias.”

“Eu mesmo, que sufoco onde estou e porque estou, onde respiraria melhor, se a doença é dos meus pulmões e não das coisas que me cercam?”

“Sou qualquer coisa que fui. Não me encontro onde me sinto e se me procuro, não sei quem é que me procura. Um tédio a tudo amolece-me. Sinto-me expulso da minha alma.”

“Sou uma prateleira de frascos vazios.”

“Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido. Não tenho sentido, não sei do meu valor, não tenho a quem me compare para que me encontre, não tenho a que sirva para que me conheça.”

“Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo.”

“Meu coração dói-me como um corpo estranho. Meu cérebro dorme tudo quanto sinto.”

“Minhas pálpebras dormem, mas não eu.”

“Parece-me que sonho cada vez mais longe, que cada vez mais sonho o vago, o impreciso, o invisionável.”

“A alma humana é um abismo escuro e viscoso, um poço que se não usa na superfície do mundo”

“No baile de máscaras que vivemos, basta-nos o agrado do traje, que no baile é tudo. Somos servos das luzes e das cores, vamos na dança como na verdade...”

“Sou os arredores de uma vila que não há. (...) Sou uma figura de romance por escrever.”

“A liberdade é a possibilidade de isolamento. (...) Se te é impossível viver só, nasceste escravo.”

“...certas personagens de romance tomam para nós um relevo que nunca poderiam alcançar os que são nossos conhecidos e amigos, os que falam conosco e nos ouvem na vida real.”

“...como tudo dói se o pensamos como conscientes de pensar, como seres espirituais em que se deu aquele desdobramento da consciência pelo qual sabemos que sabemos!”

“A condição essencial para ser um homem prático é a ausência de sensibilidade (...). A arte serve de fuga para a sensibilidade que a ação teve que esquecer.”

“O poema que eu sonho não tem falhas senão quando tento realizá-lo.”

“Dói-me o universo porque a cabeça me dói.”

“A memória, afinal é a sensação do passado... e toda sensação é uma ilusão.”

“Fechos subitamente portas dentro de mim, por onde certas sensações iam passar para se realizarem.”

“A vida é a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, há um ponto final.”

“Há qualquer coisa de longínquo em mim neste momento. Estou de fato à varanda da vida, mas não é bem desta vida. (...) Sou todo eu uma vaga saudade, nem do passado, nem do futuro: sou uma saudade do presente, anônima, prolixa e incompreendida.”

“Errei sempre os gestos que ninguém erra; o que os outros nasceram para fazer, esforcei-me sempre para não deixar de fazer. Desejei sempre conseguir o que os outros conseguiram quase sem o desejar. Entre mim e a vida houve sempre vidros foscos: não soube deles pela vista, nem pelo tato; nem a vivi essa vida ou esse plano, fui o devaneio do que quis ser, o meu sonho começou na minha vontade...”

“Mas nem a dor humana é infinita, pois nada há humano de infinito, nem a nossa dor vale mais do que ser uma dor que nós temos.”

“O maior domínio de si próprio é a indiferença por si próprio.”

“A humanidade, que é pouco sensível, não se angustia com o tempo, porque sempre faz tempo; não sente a chuva senão quando lhe cai em cima.”

“Amanhã também eu – a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim – sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas (...) E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.”

24 de maio de 2017

The Times They Are A-Changin' by Bob Dylan - 1964 - (Os Tempos Estão Mudando)

Come gather 'round people, wherever you roam
And admit that the waters around you have grown
And accept it that soon you'll be drenched to the bone
If your time to you is worth savin'

Then you better start swimmin' or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'

Come writers and critics who prophesize with your pen
And keep your eyes wide, the chance won't come again
And don't speak too soon for the wheel's still in spin
And there's no tellin' who that it's namin'

For the loser now will be later to win
For the times they are a-changin'

Come senators, congressmen, please heed the call
Don't stand in the doorway, don't block up the hall
For he that gets hurt will be he who has stalled
There's a battle outside, and it is ragin'

It'll soon shake your windows and rattle your walls
For the times they are a-changin'

Come mothers and fathers throughout the land
And don't criticize what you can't understand
Your sons and your daughters are beyond your command
Your old road is rapidly agin'

Please get out of the new one if you can't lend your hand
For the times they are a-changin'

The line, it is drawn, and the curse, it is cast
The slow one now will later be fast
As the present now will later be past
The order is rapidly fadin'

And the first one now will later be last
For the times they are a-changin'

&

Os Tempos Estão Mudando (tradução livre)

Juntem-se, pessoas, onde quer que estejam
E admitam que as águas à sua volta estão subindo
E aceitem que logo vocês estarão cobertos até os ossos
Se para vocês, seu tempo vale a pena ser poupado

Então é melhor que comecem a nadar ou afundarão como pedras
Pois os tempos estão mudando

Venham escritores e críticos, que profetizam com suas canetas
E mantenham seus olhos abertos, a chance não virá novamente
E não falem sem pensar pois a roda ainda está girando
E não há como dizer quem será nomeado

Pois o perdedor de agora mais tarde vencerá
Pois os tempos estão mudando

Venham senadores, deputados, por favor escutem o chamado
Não fiquem parados no vão da porta, não congestionem o corredor
Pois aquele que se machuca será aquele que nos impediu
Há uma batalha lá fora, e ela não vai parar

E logo ela irá balançar suas janelas e fazer ruir suas paredes
Pois os tempos estão mudando

Venham mães e pais de todos os lugares
E não critiquem o que vocês não conseguem entender
Seus filhos e filhas estão além de seu comando
Seu velho caminho está rapidamente envelhecendo

Por favor saiam da frente se não puderem ajudar
Pois os tempos estão mudando

A linha está traçada e a maldição está lançada
E o mais lento agora será o rápido mais tarde
Assim como o presente de agora será mais tarde o passado
A ordem está rapidamente se esvaindo

E o primeiro agora será o último depois
Pois os tempos estão mudando



* Tão atual (emf)

22 de maio de 2017

Falar de ti é falar de tudo o que passa ... Francisco Alvim, in Exemplar Proceder, 1974

 
Falar de ti
é falar de tudo o que passa
no alto dos ventos
na luz das acácias
é esquecer os caminhos
apagar o enredo
é pensar as formas do branco
como teu corpo numa praia
branda e azul
tua pele não retém as horas
escorres, liquida
sonora

&

Francisco Soares Alvim Neto (Araxá MG 1938). Poeta e diplomata. Filho do advogado Fausto Figueira Soares Alvim e de Mercedes Costa Cruz Alvim, começa a escrever poemas ainda na adolescência, por influência da irmã, também poeta, Maria Ângela Alvim (1926 - 1959). Na juventude, vive períodos no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, e, em 1953, acaba por se fixar no Rio. Ingressa na Faculdade de Direito da Universidade do Distrito Federal, atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), mas interrompe o curso em 1963, quando entra para o Instituto Rio Branco, e se forma no ano seguinte. Inicia a carreira diplomática em 1965, e três anos depois estreia em livro, com Sol dos Cegos, em 1968. Entre 1969 e 1971 atua como secretário da representação do Brasil na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em Paris, cidade onde escreve parte dos poemas de Passatempo, de 1974. De volta ao Brasil, integra-se ao grupo Frenesi, que constitui a primeira leva dos chamados "poetas marginais": Roberto Schwarz (1938), Cacaso (1944 - 1987), Chacal (1951) e Geraldo Carneiro (1952). Seus livros saem em edições artesanais até 1981, quando a editora Brasiliense lança a reunião deles em Passatempo e Outros Poemas. Pelo Itamaraty, atua como cônsul-geral do Brasil em Barcelona, Espanha, e em Roterdã, Holanda, e ainda como embaixador na Costa Rica. Sua obra O Elefante, publicada em 2000, é bem recebida pela crítica especializada.

20 de maio de 2017

Correio do tempo – Mario Benedetti, no livro “Correio do tempo”. tradução Rubia Prates Goldoni. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

No correio do tempo se acumulam
a paixão desolada/ o gozo trêmulo
e lá fica esperando seu destino
a paz involuntária da infância/
há um enigma no correio do tempo
uma aldrava de queixas e candores
um dossiê de angústia/ promissória
com todos os valores declarados

No correio do tempo há alegrias
que ninguém vai exigir/ que ninguém nunca
retirará/ e acabarão murchas
suspirando o sabor da intempérie
e no entanto/ do correio do tempo
sairão logo cartas voadoras
dispostas a fincar-se em algum sonho
onde aguardem os sustos do acaso.

&

Mario Benedetti (Paso de los Toros, 14 de setembro de 1920 — Montevidéu, 17 de maio de 2009) foi um poeta, escritor e ensaísta uruguaio. Integrante da Geração de 45, a qual pertencem também Idea Vilariño e Juan Carlos Onetti, entre outros. Considerado um dos principais autores uruguaios, ele iniciou a carreira literária em 1949 e ficou famoso em 1956, ao publicar "Poemas de Oficina", uma de suas obras mais conhecidas. Benedetti escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema.

Dentre as diversas honrarias que recebeu destacam-se o Prêmio do Ministerio de Instrução Pública (1949) conquistado em função de sua primeira compilação de contos, Esta Mañana; Prêmio Jristo Botev da Bulgaria (1986) pelo conjunto de sua obra; o Prêmio Ibero-americano José Martí (2001); e o Prêmio Internacional Menéndez Pelayo (2005) que é dado em reconhecimento ao esforço de personalidades em âmbito artístico e científico em prol dos idiomas ibéricos.

16 de maio de 2017

Ausência by John Donne, in Poemas Divinos,1607

Arte digital de Irakli Nadar 
“(...) Ausência, escuta o meu protesto
Contra a tua força,
Distância e duração;
Para os corações constantes
Ausência é presença;
O tempo espera.
Meus sentidos querem seu movimento para fora,
Os quais, agora dentro,
A razão vence,
Redobrada pela secreta imagem dela;
Tal como os ricos que sentem prazer
Mais em esconder que em manipular tesouros.
Pela ausência este bom recurso ganhei:
Que posso alcançá-la
Onde ninguém a pode ver,
Em algum recanto fechado do meu cérebro:
Ali a abraço e a beijo;
E assim apreciá-la, e ninguém sente falta dela."

&

Present in Absence - John Donne (1573–1631)

Absence, hear thou my protestation
Against thy strength,
Distance and length;
To hearts that cannot vary
Absence is presence;
Time doth tarry.
My senses want their outward motion,
Which now within
Reason doth win,
Redoubled by her secret notion;
Like rich men take pleasure
In hiding more than handling treasure.
By absence this good means I gain,
That I can catch her
Where none can watch her,
In some close comer of my brain:
There I embrace and kiss her,
And so I both enjoy and miss her.

&


Retrato de Donne em sua juventude (1595). Artista desconhecido. Parte da coleção da National Portrait Gallery, Londres


John Mayra Donne (1572 – 31 de março de 1631) foi um poeta jacobita inglês, pregador e o maior representante dos poetas metafísicos da época. Sua obra é notável por seu estilo sensual e realista, incluindo-se sonetos, poesia amorosa, poemas religiosos, traduções do latim, epigramas, elegias, canções, sátiras e sermões. Sua poesia é célebre por sua linguagem vibrante e metáfora engenhosa, especialmente quando comparada à poesia de seus contemporâneos.

Apesar de sua boa educação e seu talento para a poesia, viveu na pobreza por muitos anos, contando demasiadamente com amigos mais ricos. Em 1615, tornou-se um pastor anglicano e, em 1621, foi nomeado decano da St. Paul Cathedral, em Londres. Alguns estudiosos acreditam que as obras literárias de Donne refletem as seguintes tendências: poesia amorosa e sátiras quando era mais jovem e sermões religiosos em sua velhice. Outros estudiosos, tais como Helen Gardner, questiona a validade desta periodização, pois muitos de seus poemas foram publicados postumamente (1633). Exceção feita a Anniversaries, que foi publicado em 1612 e Devotions upon Emergent Occasions, publicado em 1623. Seus sermãos também são datados, algumas vezes de forma específica, informando dia, mês e ano.

15 de maio de 2017

É assim que te quero, amor... Pablo Neruda

É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita de luz e pão e sombra,
eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.

11 de maio de 2017

vou te dar meu último verão por Adriana Godoy (http://driaguida.blogspot.com.br)

vou te dar meu último verão
todo o outono amarelo
e quando me alcançar
vai ver que sou o mais puro inverno
não dos trópicos
mas dos lugares mais frios da terra
terras da sibéria
não adianta me dizer para abrir as janelas
o sol me é estrangeiro
tenho em mim geleiras ancestrais
meu coração não bate
vacila descompassado
selvas do universo me rondam
e mesmo assim você vai me recriar
e me amar com tudo que sou
porque você
precisa de uma criatura só sua
mesmo inventada
mesmo com essas sombras geladas

8 de maio de 2017

Ver-te. Tocar-se - ©Hilda Hilst - In Do Desejo, 1992

Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.

7 de maio de 2017

Octavio Paz - in O arco e a lira, pg 141

''[...] O amor nos suspende, nos arranca de nós mesmos e nos joga no estranho por excelência: outro corpo, outros olhos, outro ser. E é só nesse corpo que não é nosso e nessa vida irremediavelmente alheia que podemos ser nós mesmos. Não há mais outro, não há mais dois. [...] ''

6 de maio de 2017

O calor das coisas - Nélida Pinõn, (RJ: Nova Fronteira,1980)

“Não sabes então que me amas, amas-me muito mais que podes saber. Mas mesmo sem o socorro da tua consciência. E se não me amas com a paixão do meu amor, te ensinarei novamente a amar-me. Não te peço tempo, dias, horas. Sou mulher das longas estações. Serei verão quando exigires calor.”

1 de maio de 2017

28 de abril de 2017

— Nietzsche Cywisnki, O menino dos olhos poentes


Paralelo às estrondosas rupturas humanas, contemplo o silêncio do desabrochar das flores, da germinação das sementes, do despertar da aurora intrínseca à essência de toda e qualquer natureza – consequente a isso, em face dos vales e dos horizontes que se rompem na infinitude do meu espírito eterno, também nasce em mim uma ditosa alvorada; sua luz e seu brilho adentra sorrateiramente os meus recantos obscuros, alumbrando-me, de modo apraz, os caminhos condutores ao cerne do meu corpo e ao imo da minha alma.

22 de março de 2017

Lya Luft, no livro “Perdas e ganhos”. Rio de Janeiro: Record, 2006 - Fragmentos


"O mundo não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui forma, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem. É uma ideia assustadora: vivemos segundo o nosso ponto de vista, com ele sobrevivemos ou naufragamos. Explodimos ou congelamos conforme nossa abertura ou exclusão em relação ao mundo. E o que configura essa perspectiva nossa? Ela se inaugura na infância, com suas carências nem sempre explicáveis. Mesmo se fomos amados, sofremos de uma insegurança elementar. Ainda que protegidos, seremos expostos a fatalidades e imprevistos contra os quais nada nos defende. Temos de criar barreiras e ao mesmo tempo lançar pontes com o que nos rodeia e o que ainda nos espera. Toda essa trama de encontro e separação, terror e êxtase encadeados, matéria da nossa existência, começa antes de nascermos."

“(...) A vida não tece apenas uma teia de perdas, mas nos proporciona uma sucessão de ganhos. O equilíbrio da balança depende muito do que soubermos e quisermos enxergar. (...) O fluxo de dias e anos, décadas, serve para crescer e acumular, não só perder e limitar. Dessa perspectiva nos tornamos senhores, não servos. Pessoas, não pequenos animais atordoados que correm sem saber ao certo por quê.”

“Caminho entre as minhas perdas – que são insetos escuros – e os meus ganhos, douradas borboletas. A luz de uma paixão, o dedo da morte, o lento pincel da solidão desenharam meus contornos, firmaram meu chão.”

16 de março de 2017

Harmonia - Marla de Queiroz

São delicados e sutis os fios da harmonia. Ao contrário da alegria, do entusiasmo, ela é uma das sensações mais discretas. Sua voz é quase imperceptível, feito outra qualidade de silêncio. Ela não é uma gargalhada, é aquele sorriso por dentro, uma sensação gostosa de estar no lugar certo, na hora adequada. Feito um arco-íris depois da tempestade, sua beleza é adornada pelo equilíbrio dentro do derramamento. É um adestramento dos fantasmas internos. A possibilidade de aprimorar os pensamentos. É quase como não pensar. Simplesmente, sentimos uma ligação profunda com tudo, um denso bem-estar. Como se tivéssemos uma secreta intimidade com o mundo, certa cumplicidade com o tempo. É como se observássemos descompromissados, ela é uma descontração. Como se o coração batesse pelo corpo todo, mas sem extremada euforia. Uma tranqüilidade dilatada no peito, o olhar satisfeito, a mente entendendo que já nem precisa entender o que é prosa ou poesia. E o mundo inteiro cabendo num abraço. E uma firmeza na carícia, a maturidade que perdeu o cansaço, uma confiança que preenche a existência. A harmonia é um contato profundo com a experiência. E o tempo do dia não é mais composto por esperas, ele é vivido. E já não se fala, palavras passeiam pela boca. E já não se escreve, as frases coreografam as paisagens. E já não se ama, o amor vigora em nós. A harmonia tem fios muito delicados e sua trama faz a ligação mais suave entre todas as urgências já sentidas. E o chão do sonho é macio, e tudo parece estar alinhavado, numa ligação sem sufocamentos. E a poesia não deseja mais ser nada, vira o afago de um momento. E nas letras a textura de um veludo, como se ao correr pela página, os olhos pudessem ser acariciados. E você tem todas as coisas sem precisar tomar posse delas. Você ama o amor, não o delírio de estar apaixonado. Sinto a harmonia como uma espécie de fascínio pela vida. É quase uma perda de outros apetites, porque se está tão nutrido pela própria companhia. E a gente tem aquela vontade súbita de andar pela noite: não apenas para olhar as estrelas, mas também para por elas sermos vistos.

Harmonia é como se fôssemos inundados pelo mar onde antes só havia um precipício.

13 de março de 2017

Mar Absoluto - de Cecília Meireles (do livro "Mar Absoluto e Outros Poemas" - Editora Globo/1945)

Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
“Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! – Disciplina humana para a empresa da vida!”
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-nos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado,
cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.

6 de março de 2017

Carta anônima - Caio Fernando Abreu

Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos, e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas são sempre bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra. Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, agora não, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés delas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.) E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você—seria, seriam? Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam uma nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito poder de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos mesmo meio tudo isso, não tem jeito, e tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olivia Byington cantando Villa- Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Wim Wenders, mais Cecília Meireles que Nélson Rodrigues. Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca na minha mão, eu toco na sua. Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão Cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas Contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente mas penso tanto em você que na hora de dormirvezenquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo.

3 de março de 2017

Distopia ou Antiutopia

Distopia ou Antiutopia é o pensamento, a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utópica ou promove a vivência em uma “utopia negativa”. São geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo bem como um opressivo controle da sociedade. Nelas, caem-se as cortinas, e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. Assim, a tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, de instituições ou mesmo de corporações.

A principal função da distopia é nos deixar desconfortáveis. Os mundos distópicos estão aprofundados na crítica à sociedade atual e aos seus problemas. Podemos ver mundos no futuro, vivendo em Distritos, Facções, em ruínas de cidades, lutando para sobreviver, fugindo de canibais, lutando contra vírus mortais ou contra máquinas com consciência. Mas todos eles apenas pegaram nossos problemas atuais e os extrapolaram ao máximo. Este exagero serve para nos fazer enxergar o óbvio que, justamente, por ser tão óbvio às vezes passa despercebido para nós no agitado dia a dia.

Em maior ou menor grau, toda distopia tem certas características:

* Violência banalizada e/ou generalizada
* Visão e discurso pessimista sobre o mundo
* Poder opressor vindo de uma elite e/ou governo
* Exploram a estupidez e/ou ignorância coletiva

Na era das mídias sociais, o caminho está aberto para distopias tecnológicas como Black Mirror. A ideia jamais perde o apelo: afinal, como o próprio título da série indica, distopias são espelhos negros, versões corrompidas de futuros que batem na nossa porta. Difícil é não se identificar.

Uma distopia, portanto, é, uma história com uma lição. Em geral, envolve a denúncia de regimes ditatoriais, tirânicos e autocráticos. Mas, mais do que isso, é uma janela escancarada para as consequências de qualquer tentativa de moldar e dar direção a algo tão plural quanto a civilização.

Mesmo que pareça um fenômeno recente, temos distopias pululando pela história desde o fim da Primeira Guerra Mundial, quando o mundo encarou de frente os horrores de uma guerra de proporções globais, que acabou com uma era de luzes e esperanças de um mundo perfeito. Admirável Mundo Novo e 1984 vieram nesta esteira e a coisa se intensificou com a Segunda Guerra e com a Guerra Fria. A visão destes mundos extremos e totalitários reflete um desejo do público juvenil e adulto jovem de ler sobre mundos que eles próprios desconhecem, um mundo de ditaduras e da ausência das liberdades individuais.

13 de fevereiro de 2017

Leãozinho - Caetano Veloso (Para minha linda filha 💕 Gabriela 💕)

Gosto muito de te ver, leãozinho
Caminhando sob o sol
Gosto muito de você, leãozinho
Para desentristecer, leãozinho
O meu coração tão só
Basta eu encontrar você no caminho

♪ ♫ ♩ ♫

Um filhote de leão, raio da manhã
Arrastando o meu olhar, como um imã
O meu coração é o sol, pai de toda cor
Quando ele lhe doura a pele ao léu

♪ ♫ ♩ ♫

Gosto de te ver ao sol, leãozinho
De te ver entrar no mar
Tua pele, tua luz, tua juba
Gosto de ficar ao sol, leãozinho
De molhar minha juba
De estar perto de você,
E entrar no mar

♪ ♫ ♩ ♫

Um filhote de leão, raio da manhã
Arrastando o meu olhar, como um imã
O meu coração é o sol, pai de toda cor
Quando ele lhe doura a pele ao léu

♪ ♫ ♩ ♫

Gosto de te ver ao sol, leãozinho
De te ver entrar no mar
Tua pele, tua luz, tua juba
Gosto de ficar ao sol, leãozinho
De molhar minha juba
De estar perto de você,
E entrar no mar

♪ ♫ ♩ ♫



♪ ♫ ♩ ♫


8 de fevereiro de 2017

Sawabona Shikoba - Flávio Gikovate - Médico Psicoterapeuta


Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor.
O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.
A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século.
O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos.
Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela abandona suas características, para se amalgamar ao projeto masculino.
A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma idéia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal.
A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo.
Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.
Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas, e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.
O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo.
O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.
A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado.
Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades.
E ela só é possível para aqueles que conseguem trabalhar sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.
A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa.
As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.
Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado.
Cada cérebro é único.
Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém.
Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.
Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro. Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.
O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável.
Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado.
&
P.S. - Caso tenha ficado curioso (a) em saber o significado de SAWABONA, é um cumprimento usado no sul da África quer dizer: "EU TE RESPEITO, EU TE VALORIZO, VOCÊ É IMPORTANTE PRA MIM".
Em resposta as pessoas dizem SHIKOBA que é "ENTÃO EU EXISTO PRA VOCÊ".

1 de fevereiro de 2017

XXIII - O Meu Olhar Azul Como o Céu - Em "O Guardador de Rebanhos". Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa, 1946.


O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta…

Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer coisa no sol de modo a ele ficar mais belo…
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol…
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso…)


Fernando Pessoa - Casa / House - Lisboa (Portugal)

FERNANDO PESSOA (1888-1935) - Nasce a 13 de junho de 1888, em Lisboa, no número 4 do Largo de São Carlos, em frente ao Teatro de São Carlos. Foi poeta, filósofo e escritor. Aos cinco anos o pai morre. A mãe casa-se, pela segunda vez, em 1895, e vai viver com o marido para a África do Sul. Fernando Pessoa viaja com a mãe para Durban, onde passa a maior parte da juventude e recebe educação inglesa, e onde viria a demonstrar, desde cedo, talento para a literatura.
É em inglês que ele escreve poesia e prosa desde a adolescência. Das quatro obras que publicou em vida, três são em língua inglesa. É considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa. Como poeta, desdobrou-se em múltiplas personalidades conhecidas como heterónimos e autodenominou-se um “drama em gente”.
A sua última frase foi escrita na cama do hospital, em inglês, com a data de 29 de novembro de 1935: “I know not what tomorrow will bring” (“Não sei o que o amanhã trará”). Fernando Pessoa interessava-se pelo ocultismo e pelo misticismo. Tinha o hábito de fazer consultas astrológicas para si mesmo. Realizou mais de mil horóscopos. Morre a 30 de novembro de 1935.
Fonte: youtube.com

8 de janeiro de 2017

The Beatles - The Long And Winding Road (John Lennon/Paul McCartney- 26 de janeiro de 1969)

The Long and Winding Road
That leads to your door
Will never disappear
I've seen that road before
It always leads me here
Lead me to your door

The wild and windy night
That the rain washed away
Has left a pool of tears
Crying for the day
Why leave me standing here
Let me know the way

Many times I've been alone
And many times I've cried
Anyway you'll never know
The many ways I've tried

But still they lead me back
to the Long Winding Road
You left me standing here
A long long time ago
Don't leave me waiting here
Lead me to your door

But still they lead me back
To the long winding road
You left me standing here
A long time ago
Don't keep me waiting here
Lead me to your door



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A longa e sinuosa estrada

A longa e sinuosa estrada
que leva até sua porta
Jamais desaparecerá
Eu já vi esta estrada antes
Ela sempre me traz até aqui
Me leve até a sua porta

Na noite selvagem e tempestuosa
que a chuva eliminou
Deixou uma piscina de lágrimas
Chorando pelo dia
Por que me deixar aqui sozinho?
Mostre-me o caminho

Muitas vezes eu fiquei sozinho
e muitas vezes eu chorei
De qualquer forma você nunca saberá
de quantas formas tentei

Mas ainda assim elas me trazem de volta
à longa e sinuosa estrada
Você me deixou esperando aqui
há muito tempo atrás
Não me deixe aqui esperando
Me leve até a sua porta

Mas ainda assim elas me trazem de volta
à longa e sinuosa estrada
Você me deixou esperando aqui
há muito tempo atrás
Não me deixe aqui esperando
Me leve até a sua porta

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Os Beatles nos anos 60 era uma gangue; Uma gangue que todo mundo queria se juntar. Os meninos queriam ser eles, as meninas queriam estar com eles. Mas o mundo privado que eles compartilhavam permanecia sedutoramente impenetrável. Em algum lugar entre os intestinos mofados da Caverna de Liverpool e as sórdidas carcaças de Hamburgo, desenvolveram um entendimento que circundava a telepatia, uma harmonia intuitiva que se manifestava na criação do pop perfeito.

Os quatro Beatles desfrutavam de um nível de celebridade sem precedentes. Ubicais, universalmente adorados, John, Paul, George e Ringo foram as quatro faces mais famosas do planeta. (emf)

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(Esta postagem é dedicada ao meu querido e especial amigo, Antônio Carlos Porto Bernardes)