18 de julho de 2016

Trechos do livro "Walden ou A Vida nos Bosques" (Walden; or, Life in the Woods (1854)) by Henry David Thoreau (1817-1862), (Tradução Astrid Cabral, ed. Global, 1984)

"Não se trata de uma ilusão minha
Para ornar o verso de uma linha:
Não posso estar de Deus do céu mais perto
Do que junto ao Walden, este céu aberto.
Eu sou a sua pedregosa praia
E a brisa que por aqui se espraia.
Suas águas e areias estão
Dentro da concha da minha mão.
E seu mais profundo recinto
Alto jaz no que penso e sinto."

"Dirige teu olhar para dentro de ti
E mil regiões encontrarás ali,
Ainda ignotas. Percorre tal via
E mestre serás em tua cosmografia"


"Se o dia e a noite são de tal natureza que vós os saudais com alegria, se a vida emite uma fragrância de flores e ervas aromáticas e se torna mais elástica, mais cintilante e mais imortal - eis aí vosso êxito. A natureza inteira é vossa congratulação e tendes motivos terrenos para bendizer-vos. (...) Constituem a realidade mais elevada. Talvez os fatos mais estarrecedores e verdadeiros nunca sejam comunicados de homem a homem. A verdadeira colheita do meu dia-a-dia é algo de tão intangível e indescritível como os matizes da aurora e do crepúsculo. O que tenho nas mãos é um pouco de poeira de estrelas e um fragmento do arco-íris".

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"Considero saudável ficar só a maior parte do tempo. Estar em companhia, mesmo com a melhor delas, logo se torna enfadonho e dispersivo. Gosto de ficar sozinho. Nunca encontrei companhia que fosse tão companheira como a solidão. Na maioria das vezes somos mais solitários quando circulamos entre os homens do que quando permanecemos em nosso quarto. Um homem enquanto pensa e trabalha está sempre sozinho, onde quer que esteja. Não se mede a solidão pelas milhas de espaço que distam um homem de seus companheiros. O estudante realmente aplicado, em meio às superlotadas colméias da Universidade de Cambridge, é tão solitário como um dervixe em pleno deserto. O lavrador pode trabalhar sozinho no campo ou nos bosques o dia inteiro, cavoucando com a enxada ou cortando lenha, e não se sentir solitário, porque está ocupado; mas quando retorna ao lar à noite não pode se recolher no quarto só, à mercê de seus pensamentos, e tem que ir aonde pode "ver gente" e distrair-se, para, como julga, recompensar-se da solidão de seu dia; e assim ele se pergunta como pode o estudante ficar sozinho em casa a noite inteira, além de grande parte do dia, sem se entediar e sem crises de tristeza; mas ele nem de longe se dá conta de que o estudante, embora em casa, continua trabalhando em seu campo, cortando a lenha de seus bosques, tal e qual o lavrador, e que por sua vez procura a mesma distração e companhia que este, só que provavelmente de forma mais condensada."

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"Tenho bastante companhia em minha casa, especialmente na parte da manhã, quando ninguém me procura. Deixai-me sugerir algumas comparações a fim de que se possa ter idéia da minha situação. Não sou mais solitário que o mergulhão a rir tão alto no lago, nem que o próprio Walden. Que companhia, pergunto eu, tem esse solitário lago? E todavia tem em si não demônios, porém anjos no tom azul de suas águas. O sol é só, salvo em tempo cerrado, quando às vezes parece ser dois, mas um deles é falso. Deus é só — porém o demônio está longe de ser só; ele é legião. Não sou mais solitário que um verbasco ou um dente-de-leão isolado no pasto, nem que uma folha de vagem, uma azeda, um moscardo ou uma vespa-de-rodeio. Não sou mais solitário que o Mill Brook (Arroio do Moinho), que o catavento, que a estrela do norte ou o vento sul, que uma pancada d'água em abril ou um degelo em janeiro, ou que a primeira aranha numa casa nova."

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"Quão vasta e profunda é a influência dos sutis poderes do Céu e da Terra!
Procuramos percebê-los, e não os vemos; procuramos ouvi-los, e não os ouvimos: identificados com a substância das coisas, tais poderes não podem ser separados delas. Fazem com que em todo o universo os homens purifiquem e santifiquem os corações, e se vistam com trajes festivos para oferecer sacrifícios e oblações a seus ancestrais. É um oceano de sutis inteligências. Estão por toda parte — em cima de nós, à nossa esquerda e à nossa direita; cercam-nos de todos os lados."



"Fui para os bosques viver de livre vontade,
Para sugar todo o tutano da vida…
Para aniquilar tudo o que não era vida,
E para, quando morrer, não descobrir que não vivi."

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Henry David Thoreau (Concord/Massachusetts, 12 de julho de 1817 — Concord/Massachusetts, 6 de maio de 1862 foi um autor estadunidense, poeta, naturalista, ativista anti-impostos, crítico da ideia de desenvolvimento, pesquisador, historiador, filósofo e transcendentalista. Ele é mais conhecido por seu livro Walden, uma reflexão sobre a vida simples cercada pela natureza, e por seu ensaio Desobediência Civil uma defesa da desobediência civil individual como forma de oposição legítima frente a um estado injusto.

Os livros, ensaios, artigos, jornais e poesias de Thoreau chegam a mais de 20 volumes. Entre suas contribuições mais influentes encontravam-se seus escritos sobre história natural e filosofia, onde ele antecipou os métodos e preocupações da ecologia e do ambientalismo. Seu estilo de escrita literária intercala observações naturais, experiência pessoal, retórica pontuada, sentidos simbolistas, e dados históricos; ao mesmo tempo em que evidencia grande sensibilidade poética, austeridade filosófica, e uma paixão "yankee" pelo detalhe prático.Ele também era profundamente interessado na ideia de sobrevivência face a contextos hostis, mudança histórica, e decadência natural; ao mesmo tempo em que buscava abandonar o desperdício e a ilusão de forma a descobrir as verdadeiras necessidades essenciais da vida.

Foi também um notório abolicionista, realizando leituras públicas nas quais atacava as leis contra as fugas de escravos evocando os escritos de Wendell Phillips e defendendo o abolicionista John Brown. A filosofia de Thoreau da desobediência civil influenciou o pensamento político e ações de personalidades notáveis que vieram depois dele, filósofos e ativistas como Liev Tolstói, Mohandas Karamchand Gandhi, e Martin Luther King, Jr.

Thoreau é por vezes citado como um anarquista individualista. Ainda que por vezes sua desobediência civil ambicione por melhorias no governo, mais do que sua abolição – "Não peço, imediatamente por nenhum governo, mas imediatamente desejo um governo melhor" – a direção desta melhoria é que ambiciona o anarquismo: "'O melhor governo é o que não governa. Quando os homens estiverem devidamente preparados, terão esse governo”
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Henry David Thoreau em 1845 decidiu se isolar à beira do Lago Walden, entre a mata, onde construiu com as próprias mãos uma cabana. Lá viveu por cerca de dois anos, alimentando-se às próprias custas com a comida que plantava e as atividades solitárias que desenvolvia, entre elas a observação da natureza, contemplação e o estudo do ambiente e de si mesmo. Em "Walden" escreveu as suas memórias dessa experiência. Seus escritos interiorizados, moralizantes, críticos, com uso de elementos da natureza como analogias é absolutamente mordaz e impactante.

Numa sociedade de crescente consumo e capitalização, Thoreau se destacou pela rebeldia em escolher não participar, evitar a mercadorização do indivíduo, praticar o afastamento da valorização através do dinheiro da existência. Thoreau profetizou a monetarização da sociedade e não quis contribuir com ela. Amava a Natureza e por extensão o homem que se molda por si, o homem naturalmente humano.
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"A luz que extingue nossos olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos despertos. O dia não cessa de amanhecer. O sol é apenas a estrela da manhã"
Henry David Thoreau