15 de julho de 2016

Caio Fernando Abreu - Fragmentos

“Parem o mundo que eu quero descer. Só um pouquinho. Não vai atrapalhar ninguém. Deixa eu descer do mundo, que tá duro demais. Ou pelo menos descer do Brasil, que, se o mundo está duro assim, este país então está insuportável... Senhores comandantes desta coisa pobre, louca, doente e suja que nem sei mais se posso chamar ‘Brasil’. Vossas excelências sabem o que está acontecendo nesta terra? Parece que não. Os senhores nunca andam nas ruas? Não veem a cara das pessoas? Estou cobrando meus direitos; porque não está dando nem para comer, nem para vestir, nem para morar, e muito menos para sonhar. Aí fica mais grave, porque os senhores não têm o direito de matar sonhos. E não venham nos pedir mais paciência. Estamos muito machucados, explorados e enganados para ter essa coisa mansa chamada paciência.”

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"Não se concentre tanto nas minhas variações de humor, apenas insista em mim. Se eu calar, me encha de palavras, me faça querer dizer outra e outra vez sobre você, sobre nós, e todo esse amor. Se eu chorar, não me faça muitas perguntas, não precisa nem secar minhas lágrimas. Só me diz que você continuará comigo pra tudo, que tenho teu colo e teu carinho. E ainda que te doa me ver assim, me envolva nos teus braços e diga que eu posso chorar, mas que você não sairá dali enquanto eu não sorrir. Porque é isso que nos importa, não é? O sorriso um do outro."

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"Mas tantas memórias. A gente tem tantas memórias. Eu fico pensando se o mais difícil no tempo que passa não será exatamente isso. O acúmulo de memórias, a montanha de lembranças que você vai juntando por dentro. De repente o presente, qualquer coisa presente. Uma rua, por exemplo. Há pouco, quando você passou perto de Pinheiros eu olhei e pensei, eu já morei ali com o Beto. E a rua não é mais a mesma, demoliram o edifício. As ruas vão mudando, os edifícios vão sendo destruídos. Mas continuam inteiros dentro de você. Chega um tempo, eu acho, que você vai olhar em volta sem conseguir reconhecer nada."

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Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul em 12 de setembro de 1948.
Mudou-se para Porto Alegre, em 1963, no mesmo ano, publicou seu primeiro conto, "O Príncipe Sapo", na revista Cláudia. No ano de 1964 começou a cursar Letras e Arte Dramática na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mas abadonou os cursos e decidiu se dedicar ao jornalismo. Em 1968 mudou-se para São Paulo após ser selecionado, em concurso nacional, para compor a primeira redação da revista Veja.
No ano seguinte, perseguido pela ditadura militar, refugia-se na chácara da escritora Hilda Hilst,em Campinas, São Paulo. A partir daí passa a levar uma vida errante no Brasil e no exterior. Viaja pela Europa de mochila nas costas e até considera a possibilidade de viver do artesanato em Ipanema.
Em 1974 Caio Fernando Abreu retornou a Porto Alegre, para no ano de 1983 mudar-se para o Rio de Janeiro e em 1985 para São Paulo.
Voltando de uma viagem que havia feito à França no ano de 1994 a pedido da casa dos Escritores Estrangeiros, o escritor descobre que é portador do vírus HIV.
Dois anos depois, precisamente em 25 de fevereiro de 1996, Caio Fernando Abreu faleceu em Porto Alegre, onde voltara a viver com os pais.
Caio Fernando Abreu é considerado um expoente da Literatura moderna, com um estilo peculiar que apresenta angustiantes temas como a solidão, o medo e a morte. Consagrou-se como um perfeito contista. O Livro "Morangos Mofados" apresenta alguns dos melhores contos da Literatura brasileira, como "Aqueles Dois", por exemplo. Ele é considerado o primeiro escritor brasileiro a tratar da AIDS em seus livros, além de trabalhar o homossexualismo na maioria dos contos do livro "Morangos Mofados".
Hoje, Caio Fernando Abreu é aplaudido pela crítica, estando os contos "Aqueles dois" e "Além do ponto" entre os melhores da Literatura brasileira.

Algumas das suas principais obras são:

Inventário do Irremediável, contos.
Limite Branco, romance.
O Ovo Apunhalado, contos.
Pedras de Calcutá, contos.
Morangos Mofados, contos.
Triângulo das Águas, novelas.
As Frangas, novela infanto-juvenil.
Os Dragões não conhecem o Paraíso, contos
A Maldição do Vale Negro, peça teatral.
Onde andará Dulce Veiga?romance.
Ovelhas Negras, contos.
Mel & Girassóis, antologia.
Estranhos Estrangeiros, contos.
Pequenas Epifanias, crônicas.