13 de maio de 2016

Poema de Benjamin Prado - Eu e Anna Akhmátova (1891 - 1966) - (Tradução de Marília Garcia)


Este poema começa em uma manhã
de outubro.
...................Ainda faz sol.
..................................No jardim
dois gatos pretos bebem
a água da piscina
...........................e eu digo a mim mesmo:
“Brian Jones”. As piscinas vazias sempre me fazem
pensar em Brian Jones.
......................................Tenho na mão
um livro de Anna Akmátova que diz: No futuro
as coisas findas arderão lentamente.

Depois
............penso:
......................Eu sou minha última bala.
Mas não sei por quê.
.................................Depois escrevo:
Confia no que você acha que é verdade.

.........................................................Depois volto
outra vez aos gatos.

Anna Akmátova está nos anos 30.
Pelas manhãs sobe num ônibus — talvez
o ônibus seja vermelho — e em seguida caminha
devagar sobre o gelo,
................................até uma prisão
de Leningrado, onde está seu filho
— Lev Gumiliov — e volta a entrar na fila.

Penso em meu poema,
penso em algo que explique
seu coração que se move muito lentamente entre as árvores,
a noite que me espera no fundo dos rios.
Anna Akmátova atravessa as avenidas escuras,
sente o frio que cresce como um fruto em suas mãos,
a neve que se quebra sob cada pisada
como um pequeno esqueleto de pomba.

Ouço o entardecer cheio de homens cansados;
Lev Gumiliov, a noite lançada aos cães
Ela escuta ao longe um martelo
.........................................e diz:
— Golpes que têm a forma de uma cidade destruída.

Teve que ser assim:
...............................Afunda as mãos
em seu medo
..................e encontra uma palavra.
Depois, dá o primeiro passo que a leva
até onde estou: este jardim
e a tarde que vem
...........................e as folhas caídas
aonde o vento arrasta seu anjo despedaçado.

*************

Benjamín Prado nasceu em Madri, em 1961. Publicou diversos livros de poesia, reunidos nos volumes Ecuador (1986-2001), Iceberg (2002) e Marea Humana (2006), e alguns romances, dentre os quais Raro (1995), que obteve grande êxito dentro e fora da Espanha, e Nunca le des la mano a un pistolero zurdo (1996). Escreveu também ensaios e retratos de autores como Ingeborg Bachmann, Anna Akmátova e Bob Dylan. Além disso, é jornalista do El país e letrista de música popular. Foi incluído na antologia Generacion del 99 e ganhou alguns prêmios literários, tanto por sua poesia quanto pelos romances. Ao ser indagado sobre a estrutura narrativa dos seus poemas e sobre a presença da poesia em seus romances, Benjamín Prado diz que os verbos mais importantes em sua escrita são contar e sugerir. Seu último romance, Mala gente que camina, ambientando na Espanha franquista, tem tido ampla repercussão em seu país.