27 de abril de 2016

Além-Tédio, poema de Mário de Sá-Carneiro (1890 - 1916 )


Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, emfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A propria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

Mário de Sá-Carneiro foi um dos maiores escritores portugueses do início do século XX, nascido em Lisboa a 19 de maio de 1890. Amigo de Fernando Pessoa, forma com ele e Almada Negreiros a tríade principal do Grupo d'Orpheu, a revista que, com apenas dois números em 1915, iniciou o Modernismo em Portugal.

Publicou, em prosa, os livros Princípio (1912) e A Confissão de Lúcio (1914), assim como o volume de poemas Dispersão (1914). Seus trabalhos mais importantes seriam publicados 20 anos após seu suicídio em Paris, aos 25 anos, no volume Indícios de Oiro (1937).