20 de abril de 2016

Aguns textos de Ana Cristina Cesar (1952-1983)


Ciúmes (Abril/68)

Tenho ciúmes deste cigarro que você fuma

Tão distraidamente.
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Tenho uma folha branca (5.2.69)

e limpa à minha espera:

mudo convite


tenho uma cama branca

e limpa à minha espera:

mudo convite


tenho uma vida branca

e limpa à minha espera.

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O nome do gato assegura minha vigília (2.10.72)

e morde meu pulso distraído

finjo escrever gato, digo: pupilas, focinhos

e patas emergentes. Mas onde repousa


o nome, ataque e fingimento,

estou ameaçada e repetida

e antecipada pela espreita meio adormecida

do gato que riscaste por te preceder e


perder em traços a visão contígua

de coisa que surge aos saltos

no tempo, ameaçando de morte

a própria forma ameaçada do desenho

e o gato transcrito que antes era

marca do meu rosto, garra no meu seio.
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E penso

a face fraca do poema/ a metade na página

partida

Mas calo a face dura

flor apagada no sonho

Eu penso

A dor visível do poema/ a luz prévia

Dividida

Mas calo a superfície negra

pânico iminente do nada.
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“Nestas circunstâncias o beija-flor vem sempre aos milhares”


Este é o quarto Augusto. Avisou que vinha. Lavei os sovacos e os

pezinhos. Preparei o chá. Caso ele me cheirasse... Ai que

enjôo me dá o açúcar do desejo.
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é aqui

por enquanto

ainda não tem

cortina

tapete luz indireta

amenizando a noite

quadro nas paredes
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Noite carioca


Diálogo de surdos, não: amistoso no frio

Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento

a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum

segredo.
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Mocidade independente


Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem

medir as conseqüências. Por que recusamos ser proféticas? E

que dialeto é esse para a pequena audiência de serão? Voei pra

cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma

graça atravessando o estado de São Paulo, de madrugada, por

você, e furiosa: é agora, nesta contramão.
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Nada disfarça o apuro do amor.


Um carro em ré. Memória da água em movimento. Beijo.

Gosto particular da tua boca. Último trem subindo ao

céu.

Aguço o ouvido.

Os aparelhos que só fazem som ocupam o lugar

clandestino da felicidade.

Preciso me atar ao velame com as próprias mãos.

Sirgar.

Daqui ao fundo do horto florestal ouço coisas que

nunca ouvi, pássaros que gemem.
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A ponto de

partir, já sei

que nossos olhos

sorriam para sempre

na distância.

Parece pouco?

Chão de sal grosso e ouro que se racha.

A ponto de partir, já sei que

nossos olhos sorriem na distância.

Lentes escuríssimas sob os pilotis.
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Esqueceria outros

pelo menos três ou quatro rostos que amei

Num delírio de arquivística

organizei a memória em alfabetos

como quem conta carneiros e amansa

no entanto flanco aberto não esqueço

e amo em ti os outros rostos
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O Homem Público N. 1


Tarde aprendi

bom mesmo

é dar a alma como lavada.

Não há razão

para conservar

este fiapo de noite velha.

Que significa isso?

Há uma fita

que vai sendo cortada

deixando uma sombra

no papel.

Discursos detonam.

Não sou eu que estou ali

de roupa escura

sorrindo ou fingindo

ouvir.

No entanto

também escrevi coisas assim,

para pessoas que nem sei mais

quem são,

de uma doçura

venenosa

de tão funda.
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Nasceu no Rio de Janeiro. Viveu um ano em Londres, em 1968. Escreveu para revistas e jornais alternativos, saiu na antologia 26 Poetas Hoje, de Heloísa Buarque. publicou, pela Funarte, Mestrado em comunicação, lançou livros em edições independentes: Cenas de Abril e Correspondência Completa. Dez anos depois, outra vez a Inglaterra, onde, às voltas com um M.A. em tradução literária, escreveu muitas cartas e editou Luvas de Pelica. Ao retornar, descobriu São Paulo e fixou residência no Rio. Trabalhou em jornalismo, televisão e escreveu A Teus Pés. Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983.

Biografia constante do livro A Teus Pés, Quarta Edição, da série Cantadas Literárias da Editora Brasiliense.


"A poesia de Ana Cristina Cesar caracteriza-se por ser predominantemente confessional, mas o tom de intimidade, não nos deve enganar, pois é apenas um lance de sedução estética. A correspondência, realmente, como apontou Armando Freitas Filho, teve bastante influência sobre a sua dicção poética. Ela cria um verdadeiro jogo de linguagem: textos curtos, poemas fragmentados, cartas, páginas de diário. A poesia torna-se, desta forma, uma inquietante reflexão sobre o próprio fazer literário". (p. 22)

"Assim percebemos que o texto-colagem da poeta instaura um sujeito estilhaçado, uma memória construída através da subjetividade fincada no corpo coletivo da linguagem. Seu método de composição baseia-se na apropriação incessante de versos e trechos de outros escritores que ela distorce, desloca, alude, readapta, reescreve, parafraseia e parodia. É uma obra que faz uma reflexão constante sobre a natureza do literário". (p. 27)

"Os poemas de Ana Cristina Cesar, inserida no clima da geração 70, revelam, entre as muitas características que marcaram a produção poética daquela época, as seguintes: atração pelo insólito do cotidiano; ênfase na experiência existencial num momento especialmente difícil da história e da política brasileira; volta à primeira pessoa, à escrita da paixão e do medo como caminho eficaz no sentido de romper o silêncio e a perplexidade que tomaram de assalto a produção cultural no início da década; o sentido de asfixia, experimentado no cotidiano, mas trabalhado com humor; valorização do coloquialismo; culto do instante, eixo fundamental da nova poesia e do binômio arte e vida. / O binômio arte e vida era a consolidação de uma visão de mundo que valorizava o aqui e o agora: a ideia do presente, eliminando a ideia de futuro." (p. 55)

Textos extraídos da excelente obra de Arminda Silva de Serpa "Lições sobre asas e abismos; uma leitura da poesia de Ana Cristina Cesar", a partir de uma tese de doutorado. Fortaleza> Imprece, 2009. Metadados: Poesia da geração 70; Poesia e comportamento; Poesia brasileira anos 1970. Crítica de Poesia.

Fonte: http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/ana_cristina_cesar.html