31 de dezembro de 2016

Nina Benavídez - urgências


São as urgências, o imediato, porque o tempo escorrega. É a insegurança do finito que nos faz enxergar aquilo que importa. E tão pouca coisa realmente importa. O resto, meu bem, é tão mesquinho. Nada nos pertence, mas existem coisas escassas que merecem cuidado; e a gente cuida, torcendo pra que dure, pra que seja bonito. Quando é tão bonito, bonito que chega resplandecer, então esquecemos que tudo acaba, nos tornamos eternos em questão de segundos. Porque nesses momentos de alegria esplêndida, somos eternos, mesmo que seja um curto período. Existem sensações que valem uma vida.

29 de dezembro de 2016

― Albert Camus, Notebooks 1951-1959


“Encontre o significado. Distingua melancolia de tristeza. Vá para fora para uma caminhada. Isso não tem que ser um passeio romântico no parque, primavera em seus mais espetaculares momentos , flores e cheiros e excelente imaginário poético suavemente transferindo você para outro mundo. Não tem que ser um passeio, durante o qual você vai ter várias epifanias da vida e descobrir significados que nenhum outro cérebro nunca conseguiu encontrar. Não tenha medo de passar tempo de qualidade sozinho. Encontrar significado ou não encontrar um sentido, mas "roubar” algum tempo e dá-lo livremente e exclusivamente ao seu próprio eu. Opte por privacidade e solidão. Isso não faz de você anti-social ou causa-lhe rejeição pelo resto do mundo. Mas você precisa respirar. E você precisa ser. “

&

“Find meaning. Distinguish melancholy from sadness. Go out for a walk. It doesn’t have to be a romantic walk in the park, spring at its most spectacular moment, flowers and smells and outstanding poetical imagery smoothly transferring you into another world. It doesn’t have to be a walk during which you’ll have multiple life epiphanies and discover meanings no other brain ever managed to encounter. Do not be afraid of spending quality time by yourself. Find meaning or don’t find meaning but ‘steal’ some time and give it freely and exclusively to your own self. Opt for privacy and solitude. That doesn’t make you antisocial or cause you to reject the rest of the world. But you need to breathe. And you need to be.”



27 de dezembro de 2016

Affonso Romano de Sant’Anna - Vai, Ano Velho

Art by Christian Schloe

1

Vai, ano velho, vai de vez
vai com tuas dívidas
e dúvidas, vai, dobra a ex-
quina da sorte, e no trinta e um
à meia-noite, esgota o copo
e a culpa do que nem me lembro
e me cravou entre janeiro e dezembro.

Vai, leva tudo: destroços,
ossos, fotos de presidentes,
beijos de atrizes, enchentes,
secas, suspiros, jornais.
Vade retrum, pra trás,
leva pra escuridão
quem me assaltou o carro,
a casa e o coração.

Não quero te ver mais,
só daqui a anos, nos anais,
nas fotos do nunca-mais.

2

Vem Ano Novo, vem veloz
vem em quadrigas, aladas, antigas
ou jatos de luz, moderna, vem,
paira, desce, habita em nós,
vem com cavalhadas, folias, reisados,
fitas multicores, rebecas,
vem com uva e mel e desperta
em nosso corpo a alegria,
escancara a alma, a poesia,
e, por um instante, estanca
o verso real, perverso
e sacia em nós a fome
- de utopia.

Vem na areia da ampulheta como a
semente que contivesse outra se-
mente que contivesse ou-
tra semente ou pérola
na casca da ostra
como se

se
outra se-
mente pudesse
nascer do corpo e mente
ou do umbigo da gente como o ovo
o Sol da gema no Ano Novo que rompesse
a placenta da noite em viva flor luminescente.

3

Adeus, tristeza: a vida
é uma caixa chinesa
de onde brota a manhã.

Agora
é recomeçar.
A utopia é urgente.

Entre flores de urânio
é permitido sonhar.

21 de dezembro de 2016

Clarice Lispector, em “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998


"Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós.
Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento: a luz da aurora." 

17 de dezembro de 2016

Amigo... -- Ana Jácomo


"Amigo, obra-prima que conta o milagre que acontece toda vez que a vida arruma um modo para aproximar as almas irmãs. Buquê de risos desarmados, olhares que ouvem, abraços que dizem. Árvore frondosa e a sombra dela, onde podemos descansar um pouco, ouvir o canto bom de um passarinho e outro, sorrir para a folha que sabe dançar mesmo quando cai. Lugar de azul macio quando faz sol no coração da gente e quando as chuvas mais fortes alagam nossos olhos. Canção feita de acordes que acordam belezas que às vezes demoram à beça para cantar de novo. Uma ideia feliz do quanto o amor é pura arte."

16 de dezembro de 2016

Na Ampla Sala de Jantar das Tias Velhas (29-1-1933) , em Álvaro de Campos - Livro de Versos. Fernando Pessoa, 1993. Teresa Rita Lopes. Ed. Estampa, Lisboa


Na ampla sala de jantar das tias velhas
O relógio tictaqueava o tempo mais devagar.
Ah o horror da felicidade que se não conheceu
Por se ter conhecido sem se conhecer,
O horror do que foi porque o que está está aqui.
Chá com torradas na província de outrora
Em quantas cidades me tens sido memória e choro!
Eternamente criança,
Eternamente abandonado,
Desde que o chá e as torradas me faltaram no coração.

Aquece, meu coração!
Aquece ao passado,
Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu…



15 de dezembro de 2016

12 de dezembro de 2016

Wislawa Szymborska, Céu, in Antologia de 63 poetas eslavos. Tradução e organização Aleksandar Jovanovic. Editora Hucitec, São Paulo, 1996.


Era preciso começar daí: céu.
Janela sem encosto, sem moldura, sem vidraça.
Abertura e nada mais, porém muito bem aberta.
Não preciso aguardar a noite amena:
nem levantar a cabeça
para perscrutar o céu.
Tenho céu atrás de mim, sob as mãos
e debaixo das pálpebras.
Estou enredada de céu
e isto me exalta.
Nem as montanhas mais altas
Estão mais próximas do céu
que os vales mais profundos.
Não há mais céu num lugar
do que em outro.
A nuvem está atada ao céu
indiferente como o túmulo.
A toupeira é tão feliz
quanto a coruja que abre as asas.
O objeto que cai no precipício
cai do céu no céu.
Partes poeirentas, líquidas, montanhosas,
passageiras e queimadas do céu, migalhas do céu,
brisas de céu e montes.
O céu é onipresente
até nas trevas sob a pele.
Devoro o céu, rejeito o céu.
Estou com armadilhas na armadilha,
com o habitante instalado,
com o abraço abraçado,
com a pergunta presente na resposta.
A divisão entre céu e terra
não foi pensada de forma adequada
a respeito desta unidade.
Permite até que se sobreviva
no endereço mais exato,
que pode ser achado mais depressa
se me procurarem.
Os meus sinais característicos são
o arrebatamento e o desespero.

10 de dezembro de 2016

Gilka da Costa de Melo Machado (Rio de Janeiro, 1893/1980)



“Sonhei em ser útil à humanidade.
Não consegui, mas fiz versos.
Estou convicta de que a poesia é
tão indispensável à existência
como a água, o ar, a luz, a
crença, o pão e o amor."

*************

“O mundo necessita de poesia.
Cantemos, poetas, para a humanidade;
que nossa voz suba aos aranhas-céus,
e desça aos subterrâneos.”



Gilka da Costa de Melo Machado nasceu no Rio de Janeiro (RJ) no dia 12 de março de 1893. Casou-se com o poeta Rodolfo de Melo Machado em 1910. Teve dois filhos: Helio e Eros. O marido, Rodolfo, faleceu em 1923. Seu primeiro livro de poesia, “Cristais Partidos”, foi publicado em 1915. Em 1916 foi publicada sua conferência “A Revelação dos Perfumes", no Rio de Janeiro. Em 1917 publicou “Estados de Alma” e, em seguida, no ano de 1918, “Poesias, 1915/1917”, “Mulher Nua”, em 1922, “O Grande Amor”, “Meu Glorioso Pecado”, em 1928, e “Carne e Alma”, em 1931. Em 1932, foi publicada em Cochabamba, Bolívia, a antologia “Sonetos y Poemas de Gilka Machado”, com prefácio Antonio Capdeville. No ano seguinte, a escritora foi eleita "a maior poetisa do Brasil", por concurso da revista "O Malho", do Rio de Janeiro. “Sublimação” foi publicada em 1938, “Meu Rosto” em 1947, “Velha Poesia” em 1968 e suas “Poesias Completas” editadas em 1978. Em 1979, foi agraciada com o prêmio Machado de Assis pela Academia Brasileira de Letras. Nesse mesmo ano a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro prestou homenagem à mulher brasileira na pessoa da poeta. Escreveu versos, sendo simbolista, considerados escandalosos no começo do século XX, por seu marcante erotismo. Faleceu no Rio de Janeiro (RJ), no dia 11 de dezembro de 1980.

9 de dezembro de 2016

Rubem Alves, in Ostra Feliz Não Faz Pérola

Digital Paintings by Chineses artist Chen Wei

Ler rapidamente aquilo que o autor levou anos para pensar é um desrespeito. É certo que os pensamentos, por vezes, surgem rapidamente, como num relâmpago. Mas a gravidez é sempre longa. Há frases que resumem uma vida. Por isso é preciso ler vagarosamente, prestando atenção nas idéias que se escondem nos silêncios que há entre as palavras. Eu gostaria que me lessem assim. Quer eu escreva como um poeta, no esforço para mostrar a beleza, ou como palhaço, no esforço para mostrar o ridículo, é sempre a minha carne que se encontra nas minhas palavras.

8 de dezembro de 2016

Identificação - Helena Kolody, (in Paisagem Interior, 1941)


Eu me diluí na alma imprecisa das coisas.
Rolei com a Terra pela órbita do infinito,
Jorrei das nuvens com a torrente das chuvas
E percorri o espaço no sopro do vento;
Marulhei na corrente inquietadora dos rios,
Penetrei a mudez milenária das montanhas;
Desci ao vácuo silencioso dos abismos;
Circulei na seiva das plantas,
Ardi no olhar das feras,
Palpitei nas asas das pombas;
Fui sublime n’alma do homem bom
E desprezível no coração do mesquinho;
Inebriei-me da alegria do venturoso;
E deslizei dolorosamente na lágrima do infeliz.

Nada encontrei mais doloroso,
Mais eloquente,
Mais glorioso
Do que a tragédia cotidiana
Escrita em cada vida humana.

6 de dezembro de 2016

Amor de longo alcance -- Marina Colasanti, em Contos de amor rasgados - Rocco, Rio de Janeiro, 1986.


Durante anos, separados pelo destino, amaram-se a distância. Sem que um soubesse o paradeiro do outro, procuravam-se através dos continentes, cruzavam pontes e oceanos, vasculhavam vielas, indagavam. Bússola da longa busca, levavam a lembrança de um rosto sempre mutante, em que o desejo, incessantemente, redesenhava.
Já quase nada havia em comum entre aqueles rostos e a realidade, quando enfim, numa praça se encontraram. Juntos, podiam agora viver a vida com que sempre haviam sonhado.
Porém cedo descobriram que a força do seu passado amor era insuperável. Depois de tantos anos de afastamento, não podiam viver senão separados, apaixonadamente desejando-se. E, entre risos e lágrimas, despediram-se, indo morar em cidades distantes.