25 de novembro de 2016

Eu, eu mesmo…, Álvaro de Campos. Em ‘Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944


Eu, eu mesmo…

Eu, cheio de todos os cansaços

Quantos o mundo pode dar.—

Eu…

Afinal tudo, porque tudo é eu,

E até as estrelas, ao que parece,

Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças…

Que crianças não sei…

Eu…

Imperfeito? Incógnito? Divino?

Não sei…

Eu…

Tive um passado? Sem dúvida…

Tenho um presente? Sem dúvida…

Terei um futuro? Sem dúvida…

A vida que pare de aqui a pouco…

Mas eu, eu…

Eu sou eu,

Eu fico eu,

Eu…


(Álvaro de Campos, 4-1-1935)

Nenhum comentário: