26 de julho de 2016

Porque te escolho ... - por Inês Pedrosa, no livro "Fazes-me falta", São Paulo: Planeta, 2006.


Porque te escolho, neste sussurro sem retorno?
Porque te quero no meu sono, se iluminaste sobretudo o que não fui?

Morreste-me antes que eu morresse – e não consigo morrer sem ti.
Nunca consegui.
Todos os dias da minha vida estive contigo – como se todas as amizades anteriores fossem só o caminho para chegar a ti, como se todas as amizades posteriores fossem apenas a ausência de ti.

Mais delicadas, mais ritmadas, mais claras – menos tu.

Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los.
Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações.
Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma – porque se esfuma?

Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?

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