30 de julho de 2016

A Europa segundo Filipa Leal (Poema de Filipa Leal integrado no poema em cadeia, *"Renshi.eu - um diálogo europeu em versos“, do Festival de Poesia de Berlim)

Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno
E disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?
É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.
Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.
Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,
Nem sequer contra o insólito, contra o desespero.
Tu disparas contra a luz.
Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas.
Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.
Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz.
Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.
Há tantos meses que não chove – reparaste?
A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.
Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.
Quem deve. Quem empresta. Quem paga.
Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.
Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer.
Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.
Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto,
Nós não queremos disparar.

*Renshi.eu - é um poema em cadeia escrito por 28 poetas de 28 países europeus, que abordam de forma literária as questões do presente e futuro da Europa. Cada poeta começa a escrever a partir do último verso do poema anterior, dando origem a a uma obra gigantesca que espelha uma miríade de olhares e referências culturais. Este poema foi lido pela autora em português, na sessão de apresentação da obra conjunta, na Akademie der Künste de Berlim.

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Filipa Leal (1979 Porto, Portugal) formou-se em Jornalismo em Londres e concluiu o mestrado em Estudos Portugueses e Brasileiros no Porto. É jornalista cultural e integra a equipa da Câmara Clara, na RTP2. Tem feito leituras de poesia em diversos locais em Portugal (Centro Cultural de Belém, Fundação Eugénio de Andrade, Biblioteca Almeida Garrett, Casa Fernando Pessoa, Palácio de Belém, entre outros), e participado em vários encontros internacionais de escritores, nomeadamente na Galiza, em Pisa, Zagreb e Bristol. Alguns dos seus poemas foram já traduzidos para espanhol, croata, turco e búlgaro. Está representada em diversas antologias, em Portugal e no estrangeiro. Integra, desde 2004, os Seminários de Tradução Colectiva de Poesia Viva da Fundação da Casa de Mateus. 

(Fonte: Wikipedia)

Um comentário:

ppaiva disse...

A poesia é uma arma. E este poema vai ao fundo das questões, mesmo sem as referir em pormenor.
Depois de ler, a minha sensibilidade ficou mais apurada e enriquecida.