31 de julho de 2016

Guardian - Alanis Morissette

Angel 3 by lordradi
You, you who has smiled when you’re in pain
You who has soldiered through the profane
They were distracted and shut down

So why, why would you talk to me at all
Such words were dishonorable and in vain
Their promise as solid as a fog

And where was your watchman then

I’ll be your keeper for life as your guardian
I’ll be your warrior of care your first warden
I’ll be your angel on call, I’ll be on demand
The greatest honor of all, as your guardian

You, you in the chaos feigning sane
You who has pushed beyond what’s humane
Them as the ghostly tumbleweed

And where was your watchman then

I’ll be your keeper for life as your guardian
I’ll be your warrior of care your first warden
I’ll be your angel on call, I’ll be on demand
The greatest honor of all, as your guardian

Now no more smiling mid crestfall
No more managing unmanageables
No more holding still in the hailstorm

Now enter your watchwoman

I’ll be your keeper for life as your guardian
I’ll be your warrior of care your first warden
I’ll be your angel on call, I’ll be on demand
The greatest honor of all, as your guardian

30 de julho de 2016

A Europa segundo Filipa Leal (Poema de Filipa Leal integrado no poema em cadeia, *"Renshi.eu - um diálogo europeu em versos“, do Festival de Poesia de Berlim)

Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno
E disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?
É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.
Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.
Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,
Nem sequer contra o insólito, contra o desespero.
Tu disparas contra a luz.
Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas.
Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.
Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz.
Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.
Há tantos meses que não chove – reparaste?
A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.
Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.
Quem deve. Quem empresta. Quem paga.
Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.
Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer.
Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.
Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto,
Nós não queremos disparar.

*Renshi.eu - é um poema em cadeia escrito por 28 poetas de 28 países europeus, que abordam de forma literária as questões do presente e futuro da Europa. Cada poeta começa a escrever a partir do último verso do poema anterior, dando origem a a uma obra gigantesca que espelha uma miríade de olhares e referências culturais. Este poema foi lido pela autora em português, na sessão de apresentação da obra conjunta, na Akademie der Künste de Berlim.

*******
Filipa Leal (1979 Porto, Portugal) formou-se em Jornalismo em Londres e concluiu o mestrado em Estudos Portugueses e Brasileiros no Porto. É jornalista cultural e integra a equipa da Câmara Clara, na RTP2. Tem feito leituras de poesia em diversos locais em Portugal (Centro Cultural de Belém, Fundação Eugénio de Andrade, Biblioteca Almeida Garrett, Casa Fernando Pessoa, Palácio de Belém, entre outros), e participado em vários encontros internacionais de escritores, nomeadamente na Galiza, em Pisa, Zagreb e Bristol. Alguns dos seus poemas foram já traduzidos para espanhol, croata, turco e búlgaro. Está representada em diversas antologias, em Portugal e no estrangeiro. Integra, desde 2004, os Seminários de Tradução Colectiva de Poesia Viva da Fundação da Casa de Mateus. 

(Fonte: Wikipedia)

29 de julho de 2016

Jesús López Pacheco - Canção dos que vivem das suas mãos

The Sower Prints by Johne Richardson


Não peço o de ninguém.
Apenas o meu pão,
meu ar.

Apenas a flor,
o fruto do que fazem minhas  mãos.


* Leia mais sobre o autor aqui: http://www.filosofia.org/ave/001/a044.htm

28 de julho de 2016

Mensagem à Poesia - Vinicius de Moraes - (do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pg 160)


Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso
reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.


27 de julho de 2016

26 de julho de 2016

Porque te escolho ... - por Inês Pedrosa, no livro "Fazes-me falta", São Paulo: Planeta, 2006.


Porque te escolho, neste sussurro sem retorno?
Porque te quero no meu sono, se iluminaste sobretudo o que não fui?

Morreste-me antes que eu morresse – e não consigo morrer sem ti.
Nunca consegui.
Todos os dias da minha vida estive contigo – como se todas as amizades anteriores fossem só o caminho para chegar a ti, como se todas as amizades posteriores fossem apenas a ausência de ti.

Mais delicadas, mais ritmadas, mais claras – menos tu.

Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los.
Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações.
Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma – porque se esfuma?

Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?

25 de julho de 2016

Saber Ler na Vida - Matilde Rosa Araújo


Saber ler na vida – folhear honestamente a vida
Apaixonadamente a vida
Nas arcas da noite, nas arenas do dia:
Risos, lágrimas, serenos rostos aparentes
Como se abríssemos cada dia a verde lima do espanto.
Chamarás ciência cultura vida dor espada
Ou espanto a tudo isto
Ou ilegível monotonia.
Nada. Mas lê.

18 de julho de 2016

Trechos do livro "Walden ou A Vida nos Bosques" (Walden; or, Life in the Woods (1854)) by Henry David Thoreau (1817-1862), (Tradução Astrid Cabral, ed. Global, 1984)

"Não se trata de uma ilusão minha
Para ornar o verso de uma linha:
Não posso estar de Deus do céu mais perto
Do que junto ao Walden, este céu aberto.
Eu sou a sua pedregosa praia
E a brisa que por aqui se espraia.
Suas águas e areias estão
Dentro da concha da minha mão.
E seu mais profundo recinto
Alto jaz no que penso e sinto."

"Dirige teu olhar para dentro de ti
E mil regiões encontrarás ali,
Ainda ignotas. Percorre tal via
E mestre serás em tua cosmografia"


"Se o dia e a noite são de tal natureza que vós os saudais com alegria, se a vida emite uma fragrância de flores e ervas aromáticas e se torna mais elástica, mais cintilante e mais imortal - eis aí vosso êxito. A natureza inteira é vossa congratulação e tendes motivos terrenos para bendizer-vos. (...) Constituem a realidade mais elevada. Talvez os fatos mais estarrecedores e verdadeiros nunca sejam comunicados de homem a homem. A verdadeira colheita do meu dia-a-dia é algo de tão intangível e indescritível como os matizes da aurora e do crepúsculo. O que tenho nas mãos é um pouco de poeira de estrelas e um fragmento do arco-íris".

&
"Considero saudável ficar só a maior parte do tempo. Estar em companhia, mesmo com a melhor delas, logo se torna enfadonho e dispersivo. Gosto de ficar sozinho. Nunca encontrei companhia que fosse tão companheira como a solidão. Na maioria das vezes somos mais solitários quando circulamos entre os homens do que quando permanecemos em nosso quarto. Um homem enquanto pensa e trabalha está sempre sozinho, onde quer que esteja. Não se mede a solidão pelas milhas de espaço que distam um homem de seus companheiros. O estudante realmente aplicado, em meio às superlotadas colméias da Universidade de Cambridge, é tão solitário como um dervixe em pleno deserto. O lavrador pode trabalhar sozinho no campo ou nos bosques o dia inteiro, cavoucando com a enxada ou cortando lenha, e não se sentir solitário, porque está ocupado; mas quando retorna ao lar à noite não pode se recolher no quarto só, à mercê de seus pensamentos, e tem que ir aonde pode "ver gente" e distrair-se, para, como julga, recompensar-se da solidão de seu dia; e assim ele se pergunta como pode o estudante ficar sozinho em casa a noite inteira, além de grande parte do dia, sem se entediar e sem crises de tristeza; mas ele nem de longe se dá conta de que o estudante, embora em casa, continua trabalhando em seu campo, cortando a lenha de seus bosques, tal e qual o lavrador, e que por sua vez procura a mesma distração e companhia que este, só que provavelmente de forma mais condensada."

&
"Tenho bastante companhia em minha casa, especialmente na parte da manhã, quando ninguém me procura. Deixai-me sugerir algumas comparações a fim de que se possa ter idéia da minha situação. Não sou mais solitário que o mergulhão a rir tão alto no lago, nem que o próprio Walden. Que companhia, pergunto eu, tem esse solitário lago? E todavia tem em si não demônios, porém anjos no tom azul de suas águas. O sol é só, salvo em tempo cerrado, quando às vezes parece ser dois, mas um deles é falso. Deus é só — porém o demônio está longe de ser só; ele é legião. Não sou mais solitário que um verbasco ou um dente-de-leão isolado no pasto, nem que uma folha de vagem, uma azeda, um moscardo ou uma vespa-de-rodeio. Não sou mais solitário que o Mill Brook (Arroio do Moinho), que o catavento, que a estrela do norte ou o vento sul, que uma pancada d'água em abril ou um degelo em janeiro, ou que a primeira aranha numa casa nova."

&
"Quão vasta e profunda é a influência dos sutis poderes do Céu e da Terra!
Procuramos percebê-los, e não os vemos; procuramos ouvi-los, e não os ouvimos: identificados com a substância das coisas, tais poderes não podem ser separados delas. Fazem com que em todo o universo os homens purifiquem e santifiquem os corações, e se vistam com trajes festivos para oferecer sacrifícios e oblações a seus ancestrais. É um oceano de sutis inteligências. Estão por toda parte — em cima de nós, à nossa esquerda e à nossa direita; cercam-nos de todos os lados."



"Fui para os bosques viver de livre vontade,
Para sugar todo o tutano da vida…
Para aniquilar tudo o que não era vida,
E para, quando morrer, não descobrir que não vivi."

***

Henry David Thoreau (Concord/Massachusetts, 12 de julho de 1817 — Concord/Massachusetts, 6 de maio de 1862 foi um autor estadunidense, poeta, naturalista, ativista anti-impostos, crítico da ideia de desenvolvimento, pesquisador, historiador, filósofo e transcendentalista. Ele é mais conhecido por seu livro Walden, uma reflexão sobre a vida simples cercada pela natureza, e por seu ensaio Desobediência Civil uma defesa da desobediência civil individual como forma de oposição legítima frente a um estado injusto.

Os livros, ensaios, artigos, jornais e poesias de Thoreau chegam a mais de 20 volumes. Entre suas contribuições mais influentes encontravam-se seus escritos sobre história natural e filosofia, onde ele antecipou os métodos e preocupações da ecologia e do ambientalismo. Seu estilo de escrita literária intercala observações naturais, experiência pessoal, retórica pontuada, sentidos simbolistas, e dados históricos; ao mesmo tempo em que evidencia grande sensibilidade poética, austeridade filosófica, e uma paixão "yankee" pelo detalhe prático.Ele também era profundamente interessado na ideia de sobrevivência face a contextos hostis, mudança histórica, e decadência natural; ao mesmo tempo em que buscava abandonar o desperdício e a ilusão de forma a descobrir as verdadeiras necessidades essenciais da vida.

Foi também um notório abolicionista, realizando leituras públicas nas quais atacava as leis contra as fugas de escravos evocando os escritos de Wendell Phillips e defendendo o abolicionista John Brown. A filosofia de Thoreau da desobediência civil influenciou o pensamento político e ações de personalidades notáveis que vieram depois dele, filósofos e ativistas como Liev Tolstói, Mohandas Karamchand Gandhi, e Martin Luther King, Jr.

Thoreau é por vezes citado como um anarquista individualista. Ainda que por vezes sua desobediência civil ambicione por melhorias no governo, mais do que sua abolição – "Não peço, imediatamente por nenhum governo, mas imediatamente desejo um governo melhor" – a direção desta melhoria é que ambiciona o anarquismo: "'O melhor governo é o que não governa. Quando os homens estiverem devidamente preparados, terão esse governo”
***

Henry David Thoreau em 1845 decidiu se isolar à beira do Lago Walden, entre a mata, onde construiu com as próprias mãos uma cabana. Lá viveu por cerca de dois anos, alimentando-se às próprias custas com a comida que plantava e as atividades solitárias que desenvolvia, entre elas a observação da natureza, contemplação e o estudo do ambiente e de si mesmo. Em "Walden" escreveu as suas memórias dessa experiência. Seus escritos interiorizados, moralizantes, críticos, com uso de elementos da natureza como analogias é absolutamente mordaz e impactante.

Numa sociedade de crescente consumo e capitalização, Thoreau se destacou pela rebeldia em escolher não participar, evitar a mercadorização do indivíduo, praticar o afastamento da valorização através do dinheiro da existência. Thoreau profetizou a monetarização da sociedade e não quis contribuir com ela. Amava a Natureza e por extensão o homem que se molda por si, o homem naturalmente humano.
***

"A luz que extingue nossos olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos despertos. O dia não cessa de amanhecer. O sol é apenas a estrela da manhã"
Henry David Thoreau

17 de julho de 2016

Vôo - Cecília Meireles (Melhores Poemas, Global Editora, 1984 - S.Paulo, Brasil)


Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores, as palavras voam
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Viam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.

Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós, em redor de nós as
palavras voam.
E às vezes pousam.

16 de julho de 2016

A Tempestade do Destino - Haruki Murakami, in 'Kafka à Beira-Mar'


(...) E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido."

15 de julho de 2016

Caio Fernando Abreu - Fragmentos

“Parem o mundo que eu quero descer. Só um pouquinho. Não vai atrapalhar ninguém. Deixa eu descer do mundo, que tá duro demais. Ou pelo menos descer do Brasil, que, se o mundo está duro assim, este país então está insuportável... Senhores comandantes desta coisa pobre, louca, doente e suja que nem sei mais se posso chamar ‘Brasil’. Vossas excelências sabem o que está acontecendo nesta terra? Parece que não. Os senhores nunca andam nas ruas? Não veem a cara das pessoas? Estou cobrando meus direitos; porque não está dando nem para comer, nem para vestir, nem para morar, e muito menos para sonhar. Aí fica mais grave, porque os senhores não têm o direito de matar sonhos. E não venham nos pedir mais paciência. Estamos muito machucados, explorados e enganados para ter essa coisa mansa chamada paciência.”

&
"Não se concentre tanto nas minhas variações de humor, apenas insista em mim. Se eu calar, me encha de palavras, me faça querer dizer outra e outra vez sobre você, sobre nós, e todo esse amor. Se eu chorar, não me faça muitas perguntas, não precisa nem secar minhas lágrimas. Só me diz que você continuará comigo pra tudo, que tenho teu colo e teu carinho. E ainda que te doa me ver assim, me envolva nos teus braços e diga que eu posso chorar, mas que você não sairá dali enquanto eu não sorrir. Porque é isso que nos importa, não é? O sorriso um do outro."

& 
"Mas tantas memórias. A gente tem tantas memórias. Eu fico pensando se o mais difícil no tempo que passa não será exatamente isso. O acúmulo de memórias, a montanha de lembranças que você vai juntando por dentro. De repente o presente, qualquer coisa presente. Uma rua, por exemplo. Há pouco, quando você passou perto de Pinheiros eu olhei e pensei, eu já morei ali com o Beto. E a rua não é mais a mesma, demoliram o edifício. As ruas vão mudando, os edifícios vão sendo destruídos. Mas continuam inteiros dentro de você. Chega um tempo, eu acho, que você vai olhar em volta sem conseguir reconhecer nada."

&

&
Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul em 12 de setembro de 1948.
Mudou-se para Porto Alegre, em 1963, no mesmo ano, publicou seu primeiro conto, "O Príncipe Sapo", na revista Cláudia. No ano de 1964 começou a cursar Letras e Arte Dramática na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mas abadonou os cursos e decidiu se dedicar ao jornalismo. Em 1968 mudou-se para São Paulo após ser selecionado, em concurso nacional, para compor a primeira redação da revista Veja.
No ano seguinte, perseguido pela ditadura militar, refugia-se na chácara da escritora Hilda Hilst,em Campinas, São Paulo. A partir daí passa a levar uma vida errante no Brasil e no exterior. Viaja pela Europa de mochila nas costas e até considera a possibilidade de viver do artesanato em Ipanema.
Em 1974 Caio Fernando Abreu retornou a Porto Alegre, para no ano de 1983 mudar-se para o Rio de Janeiro e em 1985 para São Paulo.
Voltando de uma viagem que havia feito à França no ano de 1994 a pedido da casa dos Escritores Estrangeiros, o escritor descobre que é portador do vírus HIV.
Dois anos depois, precisamente em 25 de fevereiro de 1996, Caio Fernando Abreu faleceu em Porto Alegre, onde voltara a viver com os pais.
Caio Fernando Abreu é considerado um expoente da Literatura moderna, com um estilo peculiar que apresenta angustiantes temas como a solidão, o medo e a morte. Consagrou-se como um perfeito contista. O Livro "Morangos Mofados" apresenta alguns dos melhores contos da Literatura brasileira, como "Aqueles Dois", por exemplo. Ele é considerado o primeiro escritor brasileiro a tratar da AIDS em seus livros, além de trabalhar o homossexualismo na maioria dos contos do livro "Morangos Mofados".
Hoje, Caio Fernando Abreu é aplaudido pela crítica, estando os contos "Aqueles dois" e "Além do ponto" entre os melhores da Literatura brasileira.

Algumas das suas principais obras são:

Inventário do Irremediável, contos.
Limite Branco, romance.
O Ovo Apunhalado, contos.
Pedras de Calcutá, contos.
Morangos Mofados, contos.
Triângulo das Águas, novelas.
As Frangas, novela infanto-juvenil.
Os Dragões não conhecem o Paraíso, contos
A Maldição do Vale Negro, peça teatral.
Onde andará Dulce Veiga?romance.
Ovelhas Negras, contos.
Mel & Girassóis, antologia.
Estranhos Estrangeiros, contos.
Pequenas Epifanias, crônicas.

14 de julho de 2016

Caio Fernando Abreu - Fragmento

“Deixe o tempo te ensinar que os tombos te fortalecem, que os ventos te levam e que a vida te molda da maneira que bem quer. Não tente entender, tente viver. Poucos conseguem.”

13 de julho de 2016

Mergulho - Helena Kolody, in "Sempre Palavra", 1985

Almejo mergulhar
na solidão e no silêncio,
para encontrar-me
e despojar-me de mim,
até que a Eterna Presença
seja a minha plenitude.

11 de julho de 2016

Poema escrito pela bhakta indiana Mirabai (aprox.1498-1550) dedicado ao Deus indiano ((bhakti) Krishna

Eu prenderei os guizos do Seu amor nos meus pés
e dançarei na frente de Girdhar [Krishna].
Dançando e dançando, agradarei aos seus olhos;

meu amor é muito antigo,
meu amor é a única verdade.
Não me importo com normas sociais
nem mantenho a honra de minha família.
Não consigo esquecer, mesmo por um momento,
a beleza de meu Amado.
Fui tingida pela cor de Hari [Krishna].




Krishna é um dos principais nomes de Deus e significa “o todo atraente”. Nos Vedas encontramos muitos e muitos nomes para Deus, pois para cada qualidade, podemos ter um nome. Como Deus tem qualidades ilimitadas, tecnicamente Ele tem ilimitados nomes. Porém, o nome Krishna tem uma conotação muito especial, pois refere-se ao aspecto mais atraente, íntimo e completo de Deus.

Krishna é a Suprema Personalidade de Deus, a Verdade Absoluta, a fonte de tudo e a causa de todas as causas. Nas escrituras, especialmente o Srimad Bhagavatam, existem explicações detalhadas de Sua morada, Sua aparência, Seus passatempos, Suas expansões, Suas energias, etc. Ele é dotado de seis opulências, todas ao grau infinito: beleza, força, sabedoria, riqueza, fama e renúncia. Ele sabe tudo que aconteceu, tudo que está acontecendo e tudo que vai acontecer. Ele é infinitamente misericordioso. Ele é o beneficiário de todos os sacrifícios e austeridades, o Senhor Supremo de todos os planetas e semideuses e o benfeitor e bem-querente de todas as entidades vivas.
Para conhecer Seus principais ensinamentos, leia o Bhagavad-gita*.
*Disponível aqui.

9 de julho de 2016

Sogyal Rinpoche - O Buraco - (texto extraído de "O Livro Tibetano do Viver e do Morrer", Ed. Talento/Palas Athena)

1.
Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio...
Estou perdido... Sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.

2.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

3.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está.
Ainda assim caio... É um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.

4.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.

5.
Ando por outra rua.

8 de julho de 2016

Para desenhar um pássaro - Jacques Prévert

art by Paulie Rollins
Primeiro pinte uma gaiola
com a porta aberta.
Depois pinte
algo gracioso
algo simples
algo bonito
algo útil
para o pássaro.
Então encoste a tela a uma árvore
em um jardim
em um bosque
ou em uma floresta.
Esconda-se atrás da árvore
sem falar
sem se mover…
Às vezes o pássaro aparece logo
mas ele pode demorar muitos anos
antes de se decidir.
Não desanime.
Espere.
Espere durante anos, se necessário.
A rapidez ou lentidão do pássaro
não influi no bom resultado
do quadro.
Quando o pássaro aparecer
se ele o fizer
observe no mais profundo silêncio
até ele entrar na gaiola
e quando ele assim agir
delicadamente feche a porta com o pincel.
Então
apague uma a uma todas as grades
tomando cuidado para não tocar na plumagem do pássaro.
Em seguida, pinte o retrato da árvore
escolhendo o mais bonito de seus galhos
para o pássaro.
Pinte também a folhagem verde e o frescor do vento
o dourado do sol
e a algazarra das criaturas, na relva, sob o calor do verão.
E então espere até que o pássaro decida cantar.
Se ele não cantar
é um mau sinal,
um sinal de que a pintura está ruim.
Mas se ele cantar é um bom sinal,
um sinal de que você pode assinar.
Então, com muita delicadeza, você arranca
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome em um canto do quadro.
************
Jacques Prévert (Neuilly-sur-Seine, 4 de fevereiro de 1900 — Omonville-la-Petite, 11 de abril de 1977) foi um poeta e roteirista francês.

Após o sucesso da sua primeira coletânea de poesias, Paroles (1946), Prévert tornou-se um grande poeta popular, graças à sua linguagem familiar, senso de humor, hinos à liberdade e jogo com as palavras. Como resultado de seu sucesso, seus poemas passaram a ser estudados em todas as escolas francesas do mundo, conquistando o reconhecimento internacional.

Poeta e roteirista, Jacques Prévert ironizou os usos e costumes, o clero, a igreja. Criou os roteiros e diálogos de grandes filmes franceses pertencentes à escola do realismo poético, realizados em sua maioria por Jean Renoir e Marcel Carné.

Como compositor, ele escreveu a música "Les Feuilles Mortes", que foi muito famosa em seu tempo, na voz de Ives Montand. Mais tarde, Serge Gainsbourg compôs uma música chamada "La chanson de Prevért" que faz referência à canção citada acima.

Mais informações aqui: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jacques_Pr%C3%A9vert

7 de julho de 2016

Verbo Ser - Carlos Drummond de Andrade

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.

6 de julho de 2016

O tempo - Olindo Santana (http://poesiaretratodaalma.blogspot.com.br)

E se de presente eu te entregasse o tempo,
para que não mais tivesses pressa.
E não mais pensasse no teu futuro
porque no meu passado é mais seguro.
E se eu o amarrasse a tua cintura
para que ele corresse
de acordo com os teus movimentos.
E o universo inteiro se fizesse em silêncio,
na hora em que você girasse,
e com tanto poder de consentimento,
no universo, só o teu tempo andasse.
E se o tempo te trouxesse as estrelas,
e as estrelas tivessem tempo só de vê-la.
E de servi-la, e de adorá-la.
E quando eu não mais tivesse tempo,
o teu tempo você me emprestasse,
para que os meus sonhos não voassem,
e nos meus sonhos você mandasse,
o tempo que desejasse.
Acreditarias no meu amor?
Ou apenas dirias que eu sou louco
e o meu tempo agora é pouco,
porque você já me acordou.
A verdade, é que não há tempo
que o meu tempo não te doou.

5 de julho de 2016

Não há nada que resista ao tempo - - Miguel Torga

Não há nada que resista ao tempo. Como uma grande duna que se vai formando grão a grão, o esquecimento cobre tudo. Ainda há dias pensava nisto a propósito de não sei que afeto. Nisto de duas pessoas julgarem que se amam tresloucadamente, de não terem mutuamente no corpo e no pensamento senão a imagem do outro, e daí a meia dúzia de anos não se lembrarem sequer de que tal amor existiu, cruzarem-se numa rua sem qualquer estremecimento, como dois desconhecidos. Essa certeza, hoje então, radicou-se ainda mais em mim. Fui ver a casa onde passei um dos anos cruciais da minha vida de menino. E nem as portas, nem as janelas, nem o panorama em frente me disseram nada. Tinha cá dentro, é certo, uma nebulosa sentimental de tudo aquilo. Mas o concreto, o real, o número de degraus da escada, a cara da senhoria, a significação terrena de tudo aquilo, desaparecera.

2 de julho de 2016

Você é maior do que você pensa - Fabíola Simões

Fui uma criança que se achava feia. Uma adolescente que se sentia inadequada. E agora, mais madura, tenho me esforçado para me ver com olhos generosos, que enxergam mais beleza e adequação do que eu poderia atribuir a mim mesma.

É difícil nos assumirmos por completo. E nessa incompletude, damos mais vazão aos defeitos do que às qualidades.
Você não é o cabelo escorrido que fica oleoso antes do fim do dia ou os cachos despenteados que só ganham contornos com uma porção de creme melado. Você é mais que as estrias que fizeram morada em suas coxas, e maior que as dobras que insistem em habitar sua cintura. Você é melhor que
as unhas quebradiças e as espinhas na pós adolescência. Você é maior que o pescoço flácido e as rugas desproporcionais que surgiram no último ano. Você não é o pé chato, cheio de calos e joanete, e muito menos a curvatura acentuada na sua coluna.

A beleza tem espaço dentro de nós tanto quanto o desencanto. E mesmo que haja um dia ou outro em que nossos espelhos revelam menos do que gostaríamos, não são eles os donos da verdade do que somos de fato, pois não estão lá quando nos apaixonamos, quando estamos em um momento de oração, quando deixamos as lágrimas virem à tona num momento de pura emoção. Eles não estão lá quando você sorri espontaneamente ou faz um carinho verdadeiro em alguém especial. Não estão lá quando você se entristece, ou fica com raiva por causa de uma injustiça qualquer.

Eu te proponho acariciar-se ao invés de criticar-se. Te proponho olhar-se com os mesmos olhos amorosos da pessoa que te ama e só por um instante deixar de se lamentar para dar espaço para se elogiar. Eu te proponho sair um pouco de seus espaços e imaginar estar vendo a si mesmo de fora. Que você encontre beleza no momento em que está de pijama de algodão e cara limpa, que se admire sob a luz do dia quando o sol fizer brilhar o seu cabelo, e que se alegre ao perceber seu perfil num momento de absoluta concentração. Te proponho olhar-se de uma maneira mais gentil, sendo tolerante com os defeitinhos que imagina ter. Que você tolere o fio de cabelo fora do lugar, a gordurinha na barriga querendo saltar, o ângulo do nariz saliente demais, o vinco em torno dos lábios que não te deixa em paz, os fios brancos surgindo do nada, as marcas de uma vida apaixonada.

Que você se presenteie com amorosidade, permitindo ser visto como os outros te enxergam quando recebem de você o melhor que você pode ser. Que você perceba que merece o mesmo tipo de amor que irradia, e com isso passe a irradiar o melhor que puder.

Eu te proponho ser mais gentil com a alma que habita o seu corpo, elogiando seu olhar, agradando seu paladar, acreditando que é belo e digno de se amar.

Que você experimente o amor que vem de si mesmo, independente do que te disseram ou fizeram acreditar. Que você encontre paz ao reconhecer suas novas marcas, cicatrizes de um tempo que foi vivido, e que se alegre se elas ainda não chegaram. Que você faça as pazes com seu cabelo e não omita sua natureza. Que você cuide de seus dentes, e preste atenção à sua saúde. Que descanse quando houver cansaço e dance quando houver música.

Que você descubra os filmes que lhe falam à alma, as melodias que lhe fazem dançar de olhos fechados, os sabores que lhe fazem suspirar. Que você descubra o que aquece seu coração e, acima de tudo, que você aprenda que, se não está nesse mundo sozinho, grande parte de você atrai as pessoas. Essa parte é sua essência, a porção de amorosidade que deve ser cultivada para que cresça e floresça. E, se posso dar-lhe um conselho, acredite: você é maior do que todas essas coisinhas que lhe fazem tropeçar de vez em quando. Você é maior do que todas elas, e maior do que você pensa…

1 de julho de 2016

Marina Martinez, em "Casa de Vó é sempre domingo" (1987, pg. 15)

Escolho uma pilha de livros bem
grande. Minha vó é contadeira de
histórias. De histórias de livro e
histórias de boca, que ela vai
inventando na hora.
Quando ela começa, falando baixinho:
– Era uma vez… Desfilam pelo quarto
reizinhos mandões, heróis e princesas,
fadas e bruxas, anões e gigantes…
Meus olhos vão fechando,
devagarinho. Os livros ficam pela
metade, mas as histórias continuam
nos meus sonhos…