1 de junho de 2016

Trecho do livro "Lavoura Arcaica" – de Raduan Nassar


"O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; o tempo está em tudo.

Rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é; pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas.

O tempo sabe ser bom, o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto é sempre abundante em suas entregas: amaina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, o ânimo aos indiferentes, o conforto aos que se lamentam, a alegria aos homens tristes, o consolo aos desamparados, o relaxamento aos que se contorcem, a serenidade aos inquietos, o repouso aos sem sossego, a paz aos intranqüilos, a umidade às almas secas; satisfaz os apetites moderados, sacia a sede aos sedentos, a fome aos famintos, dá a seiva aos que necessitam dela, é capaz ainda de distrair a todos com seus brinquedos; em tudo ele nos atende, mas as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei inexorável: a obediência absoluta à soberania incontestável do tempo, não se erguendo jamais o gesto neste culto raro; é através da paciência que nos purificamos, em águas mansas é que devemos nos banhar, encharcando nossos corpos de instantes apaziguados, fruindo religiosamente a embriaguez da espera no consumo sem descanso desse fruto universal, inesgotável, sorvendo até a exaustão o caldo contido em cada bago, pois só nesse exercício é que amadurecemos, construindo com disciplina a nossa própria imortalidade, forjando, se formos sábios, um paraíso de brandas fantasias onde teria sido um reino penoso de expectativas e suas dores (...)"*

*Livro e filme arrebatadores.





Biografia
Raduan Nassar (Pindorama SP 1935). Romancista e contista. Sétimo filho do casal de libaneses João Nassar e Chafika Cassis, inicia os estudos primários na cidade natal em 1943, e, no ano seguinte, passa a frequentar assiduamente a Igreja, tornando-se coroinha, em 1946. Cursa o ginásio no Colégio Estadual de Catanduva a partir de 1947, o que leva a família a mudar-se para essa cidade após dois anos. Embora tenha iniciado o curso científico, opta por formar-se no clássico, o que ocorre em 1953, no Instituto de Educação Fernão Dias Pais, já na capital paulista, onde os Nassar passam a morar. Ingressa, em 1955, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e no curso de letras, ambos na Universidade de São Paulo (USP). Sua formação, entretanto, é em filosofia, curso iniciado em 1957, na mesma universidade. Em 1961, viaja para o Canadá e os Estados Unidos, afastando-se temporariamente dos estudos e dos negócios da família - o Bazar 13, um armarinho tradicional na zona oeste da capital paulista. Data dessa época o conto Menina a Caminho. De volta ao Brasil, retoma o curso de filosofia e o conclui em 1963. Viaja para a Alemanha Ocidental, com o objetivo de aprender o idioma local, mas retorna ao Brasil após tomar conhecimento do golpe militar. Antes, porém, visita, no Líbano, a aldeia onde viveram seus pais. Em 1967 funda, com os irmãos, o Jornal do Bairro. No ano seguinte, inicia a leitura do Alcorão e esboça um romance, finalizado após seis anos e publicado em 1975, com o título Lavoura Arcaica, seu primeiro livro. Em 1970 escreve a primeira versão de Um Copo de Cólera e os contos O Ventre Seco e Hoje de Madrugada, publicados pela primeira vez em 1997. Lança a novela Um Copo de Cólera em 1978 e compra uma fazenda em Buri, São Paulo, dedicando-se à produção rural. Nos anos seguintes, lança apenas um texto inédito, o conto Mãozinhas de Seda, escrito em 1996 e editado na coletânea Menina a Caminho, de 1997.

Comentário crítico
Criador de um universo literário que retrata o peso da tradição cristã, do patriarcado, do trabalho e das interdições sobre o indivíduo, Raduan Nassar é autor de uma obra engajada, em sentido amplo. Interessa a essa produção não apenas retratar as circunstâncias imediatas do contexto histórico - desejo recorrente na literatura do período, com o objetivo de promover a consciência política contra o autoritarismo -, mas investigar como aspectos sociais determinam a constituição das relações afetivas.

Continue lendo aqui: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa255670/raduan-nassar

2 comentários:

Fabio Faria disse...

A obra literária de Nassar é pequena em quantidade, mas enorme em qualidade. Um texto denso e extremamente poético, filosófico e humano. Um justo reconhecimento o prêmio Camões conferido este a Raduan Nassar e oportunamente incluído no blog, pois a obra de Nassar é de fato atemporal.

Elaine Faria disse...

Olá Fabio,
Obrigrada pela visita e comentário.

Realmente super merecida a concessão do Prêmio Camões(2016) para Raduan Nassar. Um grande escritor brasileiro que traduz em seus romances uma extraordinária qualidade de liguagem e força poética.

Bom fim de semana! :)