17 de maio de 2016

Testamento lírico - Hilda Hilst


Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi
Na criança que fui, tão confundida.
À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.
O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras douradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.
Eu era uma criança delirante.
Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.
O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo,
Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil.
Querer deixar um testamento lírico
E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)
A criança que foi. Tão confundida.

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Hilda Hilst - Enigmática, estranha e instigante. Esses são alguns dos adjetivos que bem descrevem Hilda Hilst, um dos grandes nomes da Literatura brasileira e importante voz feminina em nossa poesia. Hilda foi poeta, dramaturga e ficcionista, nasceu na cidade de Jaú, interior do estado de São Paulo, no dia 21 de abril de 1930 e faleceu em Campinas no dia 04 de fevereiro de 2004.

Hilda Hilst dedicou boa parte de sua vida à Literatura, tendo deixado mais de quarenta livros publicados. Embora não tenha caído nas graças do grande público e da crítica, que considera ainda hoje seus textos herméticos, foi agraciada com os mais importantes prêmios literários do Brasil e admirada por grandes escritores, entre eles Caio Fernando Abreu e Lygia Fagundes Telles. A temática de sua poesia circundou as ações humanas, a inquietude do ser, a morte, o amor, o sexo, Deus e indagações metafísicas, tema que a levou a flertar com a Física e com a Filosofia. Entre suas experiências literárias, esteve aquilo que ela chamou de “Transcomunicação Instrumental”, quando deixava gravadores ligados por sua chácara (a Casa do Sol, hoje Instituto Hilda Hilst) com o intuito de gravar vozes de espíritos, demonstrando assim sua clara preocupação com a sobrevivência da alma.

Importante voz literária brasileira, Hilda Hilst foi admirada por vários escritores, embora ainda hoje seja incompreendida pela crítica e pouco conhecida do grande público.

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