31 de maio de 2016

SONG OF MYSELF, by Walt Whitman, in Leaves of Grass - (1819–1892)

Art by Samuel Hollyer (1826-1919)

I CELEBRATE myself;
And what I assume you shall assume;
For every atom belonging to me, as good belongs
       [ to you.

I loafe and invite my Soul;
I lean and loafe at my ease, observing a spear
      [ of summer grass.

Houses and rooms are full of perfumes—the
       [ shelves are crowded with perfumes;
I breathe the fragrance myself, and know it and
       [ like it;
The distillation would intoxicate me also, but I
       [ shall not let it.

The atmosphere is not a perfume—it has no taste
       [ of the distillation—it is odorless;
It is for my mouth forever—I am in love with it;
I will go to the bank by the wood, and become
       [ undisguised and naked;
I am mad for it to be in contact with me.

The smoke of my own breath;
Echoes, ripples, buzz’d whispers, love-root,
      [ silk-thread, crotch and vine;
My respiration and inspiration, the beating of my
      [ heart, the passing of blood and air through
      [ my lungs;
The sniff of green leaves and dry leaves, and of
      [ the shore, and dark-color’d sea-rocks,
      [ and of hay in the barn;
The sound of the belch’d words of my voice,
      [ words loos’d to the eddies of the wind;
A few light kisses, a few embraces, a reaching
      [ around of arms;
The play of shine and shade on the trees as the
      [ supple boughs wag;
The delight alone, or in the rush of the streets,
      [ or along the fields and hill-sides;
The feeling of health, the full-noon trill,
     [ the song of me rising from bed and
     [ meeting the sun.


A child said, What is the grass? fetching it to me
      [ with full hands;
How could I answer the child? I do not know
     [ what it is, any more than he.

I guess it must be the flag of my disposition,
      [ out of hopeful green stuff woven.

Or I guess it is the handkerchief of the Lord,
A scented gift and remembrancer, designedly
      [ dropt,
Bearing the owner’s name someway in the
      [ corners, that we may see and remark,
      [ and say,
           Whose?

  
The blab of the pave, the tires of carts, sluff of
    [ boot-soles, talk of the promenaders;
The heavy omnibus, the driver with his
    [ interrogating thumb, the clank of the shod
    [ horses on the granite floor;
The snow-sleighs, the clinking, shouted jokes,
    [ pelts of snowballs;
The hurrahs for popular favorites, the fury of
    [ rous’d mobs;
The flap of the curtain’d litter, a sick man
    [ inside, borne to the hospital;
The meeting of enemies, the sudden oath, the
    [ blows and fall;
The excited crowd, the policeman with his star,
    [ quickly working his passage to the centre of
    [ the crowd;
The impassive stones that receive and return so
    [ many echoes;
What groans of over-fed or half-starv’d who fall
    [ sun-struck, or in fits;
What exclamations of women taken suddenly,
    [ who hurry home and give birth to babes;
What living and buried speech is always vibrating
    [ here—what howls restrain’d by decorum;
Arrests of criminals, slights, adulterous offers
    [ made, acceptances, rejections with convex
    [ lips;
I mind them or the show or resonance of them —
    [ I come again and again.

 
I am the poet of the Body;
And I am the poet of the Soul.

The pleasures of heaven are with me, and the
     [ pains of hell are with me;
The first I graft and increase upon myself—the
     [ latter I translate into a new tongue.

I am the poet of the woman the same as the
     [ man;
And I say it is as great to be a woman as to be
     [ a man;
And I say there is nothing greater than the
      [ mother of men.


I tramp a perpetual journey,
My signs are a rain-proof coat, good shoes, and a
     [ staff cut from the woods; 1200
No friend of mine takes his ease in my chair;
I have no chair, no church, no philosophy;
I lead no man to a dinner-table, library, or
     [ exchange;
But each man and each woman of you I lead
     [ upon a knoll,
My left hand hooking you round the waist,
My right hand pointing to landscapes of
     [ continents, and a plain public road.

Not I—not any one else, can travel that road
     [ for you,
You must travel it for yourself.

It is not far—it is within reach;
Perhaps you have been on it since you were born,
     [ and did not know;
Perhaps it is every where on water and on land.

Shoulder your duds, dear son, and I will mine,
     [ and let us hasten forth,
Wonderful cities and free nations we shall fetch
     [ as we go.

If you tire, give me both burdens, and rest the
     [ chuff of your hand on my hip,
And in due time you shall repay the same service
     [ to me;
For after we start, we never lie by again. 

*************

CANÇÃO DE MIM MESMO (tradução de Rodrigo Garcia Lopes)

EU CELEBRO a mim mesmo,
E o que eu assumo você vai assumir,
Pois cada átomo que pertence a mim pertence a
                                    [ você.

Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade .... observando uma
                            [ lâmina de grama do verão.

Casas e quartos se enchem de perfumes .... as
        [ estantes estão entulhadas de perfumes,
Respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o
        [ reconheço,
Sua destilação poderia me intoxicar também,
        [ mas não deixo.

A atmosfera não é nenhum perfume .... não tem
        [ gosto de destilação .... é inodoro,
É pra minha boca apenas e pra sempre .... estou
        [ apaixonado por ela,
Vou até a margem junto à mata sem disfarces e
        [ pelado,
Louco pra que ela faça contato comigo.

A fumaça de minha própria respiração,
Ecos, ondulações, zunzuns e sussurros .... raiz
[ de amaranto, fio de seda, forquilha e videira,
Minha respiração minha inspiração .... a batida
    [ do meu coração .... passagem de sangue e
    [ ar por meus pulmões,
O aroma das folhas verdes e das folhas secas,
    [ da praia e das rochas marinhas de cores
    [ escuras, e do feno na tulha,
O som das palavras bafejadas por minha voz ....
    [ palavras disparadas nos redemoinhos do
    [ vento,
Uns beijos de leve .... alguns agarros .... o
    [ afago dos braços,
Jogo de luz e sombra nas árvores enquanto
    [ oscilam seus galhos sutis,
Delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos
    [ campos e encostas de colina,
Sensação de bem-estar .... apito do meio-dia
    [ .... a canção de mim mesmo se erguendo
    [ da cama e cruzando com o sol.

 
Uma criança disse, O que é a relva? trazendo um
     [ tufo em suas mãos;
O que dizer a ela ?.... sei tanto quanto ela o que
     [ é a relva.

Vai ver é a bandeira do meu estado de espírito,
  [ tecida de uma substância de esperança verde.
Vai ver é o lenço do Senhor,
Um presente perfumado e o lembrete derrubado
  [ por querer,
Com o nome do dono bordado num canto, pra que possamos ver e examinar, e dizer
      É seu ?

 
O blablablá das ruas .... rodas de carros e o
     [ baque das botas e papos dos pedestres,
O ônibus pesado, o cobrador de polegar
     [ interrogativo, o tinir das ferraduras dos
     [ cavalos no chão de granito.
O carnaval de trenós, o retinir de piadas
     [ berradas e guerras de bolas de neve ;
Os gritos de urra aos preferidos do povo ....
     [ o tumulto da multidão furiosa,
O ruflar das cortinas da liteira — dentro um
     [ doente a caminho do hospital,
O confronto de inimigos, súbito insulto,
     [ socos e quedas,
A multidão excitada — o policial e sua estrela
     [ apressado forçando passagem até o centro
     [ da multidão;
As pedras impassíveis levando e devolvendo
     [ tantos ecos,
As almas se movendo .... será que são invisíveis
     [ enquanto o mínimo átomo é visível ?
Que gemidos de glutões ou famintos que
     [ esmorecem e desmaiam de insolação
     [ ou de surtos,
Que gritos de grávidas pegas de surpresa,
     [ correndo pra casa pra parir,
Que fala sepulta e viva vibra sempre aqui....
     [ quantos uivos reprimidos pelo decoro, Prisões de criminosos, truques, propostas
     [ indecentes, consentimentos, rejeições de
     [ lábios convexos,
Estou atento a tudo e as suas ressonâncias ....
     [ estou sempre chegando.

 
 
Sou o poeta do corpo,
E sou o poeta da alma.

Os prazeres do céu estão comigo, os pesares do
     [ inferno estão comigo,
Aqueles, enxerto e faço crescer em mim mesmo
     [ .... estes, traduzo numa nova língua.

Sou o poeta da mulher tanto quanto do homem,
E digo que é tão bom ser mulher quanto ser
     [ homem,
E digo que não há nada maior que a mãe dos
     [ homens.


Vadio uma jornada perpétua,
Meus sinais são uma capa de chuva e sapatos
      [ confortáveis e um cajado arrancado
      [ do mato ;
Nenhum amigo fica confortável em minha
      [ cadeira,
Não tenho cátedra, igreja, nem filosofia;
Não conduzo ninguém à mesa de jantar ou à
      [ biblioteca ou à bolsa de valores,
Mas conduzo a uma colina cada homem e mulher
      [ entre vocês,
Minha mão esquerda enlaça sua cintura,
Minha mão direita aponta paisagens de
      [ continentes, e a estrada pública.

Nem eu nem ninguém vai percorrer essa estrada
      [ pra você,
Você tem que percorrê-la sozinho.

Não é tão longe assim .... está ao seu alcance,
Talvez você tenha andado nela a vida toda e não
      [ sabia,
Talvez a estrada esteja em toda parte sobre a
      [ água e sobre a terra.

Pegue sua bagagem, eu pego a minha, vamos em
      [ frente;
Toparemos com cidades maravilhosas e nações
      [ livres no caminho.

Se você se cansar, entrega os fardos, descansa a
      [ mão macia em meu quadril,
E quando for a hora você fará o mesmo por mim;
Pois depois de partir não vamos mais parar.

*************
Folhas de Relva ( Leaves of Grass)

Walt Whitman (1819–1892) é normalmente considerado o mais importante poeta americano do século XIX. Ele publicou a primeira edição de sua principal obra, Folhas de Relva, em 1855. Pelo restante de sua vida, Whitman produziu novas edições do livro, terminando com a nona edição, ou edição do "leito de morte", em 1891-1892. O que começou como um livro fino de 12 poemas, tornou-se, no final de sua vida, um compêndio grosso de quase 400 poemas. Whitman considerava cada versão como um livro próprio e distinto e alterava o conteúdo de forma contínua. Ele adicionou novos poemas, deu nome ou renomeou antigos e, até 1881, os reagrupou várias vezes. Ele desenvolveu a tipografia, adicionou anexos, reescreveu as frases e alterou a pontuação tornando cada edição única. Mostrada aqui é a primeira edição rara, que Whitman imprimiu sem o nome do autor na página de título. A publicação do livro foi anunciada por comentários anônimos impressos em jornais de Nova York, os quais foram claramente escritos pelo próprio Whitman. Eles descreviam com precisão a natureza revolucionária de sua obra "transcendente e nova". "Finalmente um trovador americano!", alardeava uma auto-avaliação. Whitman também recebeu um impulso generoso de publicidade da escritora best-seller Fanny Fern, que fez amizade com o poeta recém-publicado e defendeu o livro Folhas de Relva como ousado e novo em sua popular coluna no New York Ledger em 10 de maio de 1856.

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