23 de maio de 2016

Além do Cinza - texto de Nelly Beatriz M. P. Penteado


Era uma vez um reino em que tudo era cinzento e cercado de espinhos. As casas eram pintadas de cinza, as pessoas se vestiam de cinza, o céu era cinza.

Ao invés de plantas, grama, flores, lá só havia espinhos. As pessoas plantavam espinhos nos vasos, enviavam ramalhetes de espinhos umas às outras, até os noivos, quando iam se casar, colocavam um espinho na lapela - e as noivas carregavam um buquê de espinhos, obviamente, vestidas de cinza...

Freqüentemente os espinhos acabavam ferindo as pessoas. Assim, havia especialistas em curar estes ferimentos de acordo com o tipo de espinho e com a área espetada. E era motivo de grande alegria e comemoração quando se conseguia curar um ferimento. Aliás, essa era a única forma de alegria que havia naquele reino, de maneira que algumas pessoas até gostavam de se ferir um pouquinho só para poderem experimentar essa alegria.
Até mesmo a religião praticada naquele reino dizia que o sofrimento causado pelos espinhos purificava a alma. Por este motivo, as pessoas feridas se conformavam e se alegravam acreditando que seriam um dia recompensadas por este sofrimento.

E aconteceu que um dia apareceram naquele reino alguns cientistas que decidiram estudar aquele estranho fenômeno. Eles não se conformavam com a predominância do cinza e com a abundância de espinhos. Aliás, eles não conseguiam convencer o rei, bem como todas as demais pessoas, de que havia lugares diferentes daquele. Como explicar a alguém que só conhece o cinza e os espinhos a beleza das cores, a maciez de uma flor? Por mais que eles tentassem falar de como o mundo, além das fronteiras daquele reino, era diferente e belo, as pessoas não compreendiam, ou não acreditavam.

Os cientistas trouxeram equipamentos, microscópios, e montaram um laboratório para analisar tudo aquilo que ocorria no reino. Passaram-se dias e noites, meses e anos, até que descobriram que todas aquelas pessoas estavam sob um encantamento de uma bruxa que um dia fez com que todas ficassem cegas para as cores e insensíveis para tudo o que fosse belo e prazeroso. A partir deste dia, como todas elas esperavam que o mundo fosse cinzento e sem graça, começaram a nascer espinhos por toda a parte, e tudo começou a ficar cinza, como se a expectativa delas houvesse se materializado.

Todavia, os cientistas sabiam que entender e explicar o fenômeno não era suficiente para desfazer o encanto e resolver o problema que eles estavam estudando. Mas sabiam também que na vida, assim como na ciência, sempre existem caminhos, por mais que as vezes eles não sejam tão óbvios quanto se gostaria que eles fossem. E que quando se está caminhando, e se quer encontrar um caminho novo, uma boa maneira é subir num ponto bem alto e olhar tudo à distância.

Sabendo disso, os cientistas fecharam o laboratório e se retiraram para o alto de uma montanha para meditar e tentar encontrar uma maneira de desfazer o encanto da bruxa, uma maneira criativa e interessante. Eles não queriam desfazer o encanto usando uma outra bruxaria qualquer, como um ungüento malcheiroso ou uma poção estranha. Afinal, isso não era nem elegante e nem científico. E também, eles não queriam curar o mal com um mal maior, com mais espinhos e sofrimentos.

Foi lá que eles tiveram uma idéia muito boa. Resolveram criar uns óculos especiais que, quando usados por aquelas pessoas, permitiriam que elas enxergassem além do cinza e vissem tudo colorido como era antes da bruxa aparecer.

Eles fabricaram milhares de óculos e os ofereceram àquelas pessoas dizendo que seriam como um tratamento para os olhos delas, que então seriam treinados a enxergar novamente como antes.

E qual não foi a surpresa dos cientistas ao constatar que os efeitos do tratamento tinham sido surpreendentes, aliás, foram além do que eles esperavam. As pessoas não só agora enxergavam as cores, como também voltaram a ser sensíveis aos sabores, odores, texturas, sons, e principalmente, à beleza. Como que por um novo encanto, o reino começou a ficar colorido, no lugar dos espinhos nasceram flores, coloridas, macias, perfumadas. Os pássaros, agora coloridos, voltaram a cantar, o céu voltou a ser azul e as pessoas não se feriam mais com os espinhos.

Passaram-se muitos dias de alegria e contentamento no reino. Todos festejavam o fim do encanto da bruxa. Já nem precisavam mais dos óculos.

Os cientistas, acreditando que já haviam terminado sua tarefa, preparavam-se para ir embora quando o rei os procurou e disse-lhes:

- Por favor, façam com que tudo volte a ser cinza imediatamente. Façam nascer novamente os espinhos. Já não suporto mais esse mundo colorido e alegre. Porque antes nós podíamos ter certeza de que os espinhos estariam sempre lá e o que fazer para curar o ferimento que eles produziam. Mas agora corremos sempre o risco de nos apegarmos hoje a uma flor que amanhã já terá murchado, ou a um pássaro que hoje canta alegremente em nossa casa mas que amanhã poderá voar para bem longe, e o que mais nos apavora é que nós não sabemos o que fazer para curar este sofrimento. Devolvam-nos os espinhos, dêem-nos óculos que nos façam enxergar tudo cinza novamente. Preferimos a certeza da dor dos espinhos do que a incerteza dessa alegria fugaz.

A partir deste dia, por serem muito democráticos e respeitarem o livre arbítrio de cada ser humano, os cientistas distribuíram dois tipos de óculos: uns de lentes cinzas e outros que permitiam enxergar colorido. Cabia a cada pessoa decidir qual deles usar.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom post, Elaine! As metáforas e as figuras de linguagem estão no texto. O medo de ver e crer, amar e perder. Muito bom mesmo! Bj T.