31 de maio de 2016

SONG OF MYSELF, by Walt Whitman, in Leaves of Grass - (1819–1892)

Art by Samuel Hollyer (1826-1919)

I CELEBRATE myself;
And what I assume you shall assume;
For every atom belonging to me, as good belongs
       [ to you.

I loafe and invite my Soul;
I lean and loafe at my ease, observing a spear
      [ of summer grass.

Houses and rooms are full of perfumes—the
       [ shelves are crowded with perfumes;
I breathe the fragrance myself, and know it and
       [ like it;
The distillation would intoxicate me also, but I
       [ shall not let it.

The atmosphere is not a perfume—it has no taste
       [ of the distillation—it is odorless;
It is for my mouth forever—I am in love with it;
I will go to the bank by the wood, and become
       [ undisguised and naked;
I am mad for it to be in contact with me.

The smoke of my own breath;
Echoes, ripples, buzz’d whispers, love-root,
      [ silk-thread, crotch and vine;
My respiration and inspiration, the beating of my
      [ heart, the passing of blood and air through
      [ my lungs;
The sniff of green leaves and dry leaves, and of
      [ the shore, and dark-color’d sea-rocks,
      [ and of hay in the barn;
The sound of the belch’d words of my voice,
      [ words loos’d to the eddies of the wind;
A few light kisses, a few embraces, a reaching
      [ around of arms;
The play of shine and shade on the trees as the
      [ supple boughs wag;
The delight alone, or in the rush of the streets,
      [ or along the fields and hill-sides;
The feeling of health, the full-noon trill,
     [ the song of me rising from bed and
     [ meeting the sun.


A child said, What is the grass? fetching it to me
      [ with full hands;
How could I answer the child? I do not know
     [ what it is, any more than he.

I guess it must be the flag of my disposition,
      [ out of hopeful green stuff woven.

Or I guess it is the handkerchief of the Lord,
A scented gift and remembrancer, designedly
      [ dropt,
Bearing the owner’s name someway in the
      [ corners, that we may see and remark,
      [ and say,
           Whose?

  
The blab of the pave, the tires of carts, sluff of
    [ boot-soles, talk of the promenaders;
The heavy omnibus, the driver with his
    [ interrogating thumb, the clank of the shod
    [ horses on the granite floor;
The snow-sleighs, the clinking, shouted jokes,
    [ pelts of snowballs;
The hurrahs for popular favorites, the fury of
    [ rous’d mobs;
The flap of the curtain’d litter, a sick man
    [ inside, borne to the hospital;
The meeting of enemies, the sudden oath, the
    [ blows and fall;
The excited crowd, the policeman with his star,
    [ quickly working his passage to the centre of
    [ the crowd;
The impassive stones that receive and return so
    [ many echoes;
What groans of over-fed or half-starv’d who fall
    [ sun-struck, or in fits;
What exclamations of women taken suddenly,
    [ who hurry home and give birth to babes;
What living and buried speech is always vibrating
    [ here—what howls restrain’d by decorum;
Arrests of criminals, slights, adulterous offers
    [ made, acceptances, rejections with convex
    [ lips;
I mind them or the show or resonance of them —
    [ I come again and again.

 
I am the poet of the Body;
And I am the poet of the Soul.

The pleasures of heaven are with me, and the
     [ pains of hell are with me;
The first I graft and increase upon myself—the
     [ latter I translate into a new tongue.

I am the poet of the woman the same as the
     [ man;
And I say it is as great to be a woman as to be
     [ a man;
And I say there is nothing greater than the
      [ mother of men.


I tramp a perpetual journey,
My signs are a rain-proof coat, good shoes, and a
     [ staff cut from the woods; 1200
No friend of mine takes his ease in my chair;
I have no chair, no church, no philosophy;
I lead no man to a dinner-table, library, or
     [ exchange;
But each man and each woman of you I lead
     [ upon a knoll,
My left hand hooking you round the waist,
My right hand pointing to landscapes of
     [ continents, and a plain public road.

Not I—not any one else, can travel that road
     [ for you,
You must travel it for yourself.

It is not far—it is within reach;
Perhaps you have been on it since you were born,
     [ and did not know;
Perhaps it is every where on water and on land.

Shoulder your duds, dear son, and I will mine,
     [ and let us hasten forth,
Wonderful cities and free nations we shall fetch
     [ as we go.

If you tire, give me both burdens, and rest the
     [ chuff of your hand on my hip,
And in due time you shall repay the same service
     [ to me;
For after we start, we never lie by again. 

*************

CANÇÃO DE MIM MESMO (tradução de Rodrigo Garcia Lopes)

EU CELEBRO a mim mesmo,
E o que eu assumo você vai assumir,
Pois cada átomo que pertence a mim pertence a
                                    [ você.

Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade .... observando uma
                            [ lâmina de grama do verão.

Casas e quartos se enchem de perfumes .... as
        [ estantes estão entulhadas de perfumes,
Respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o
        [ reconheço,
Sua destilação poderia me intoxicar também,
        [ mas não deixo.

A atmosfera não é nenhum perfume .... não tem
        [ gosto de destilação .... é inodoro,
É pra minha boca apenas e pra sempre .... estou
        [ apaixonado por ela,
Vou até a margem junto à mata sem disfarces e
        [ pelado,
Louco pra que ela faça contato comigo.

A fumaça de minha própria respiração,
Ecos, ondulações, zunzuns e sussurros .... raiz
[ de amaranto, fio de seda, forquilha e videira,
Minha respiração minha inspiração .... a batida
    [ do meu coração .... passagem de sangue e
    [ ar por meus pulmões,
O aroma das folhas verdes e das folhas secas,
    [ da praia e das rochas marinhas de cores
    [ escuras, e do feno na tulha,
O som das palavras bafejadas por minha voz ....
    [ palavras disparadas nos redemoinhos do
    [ vento,
Uns beijos de leve .... alguns agarros .... o
    [ afago dos braços,
Jogo de luz e sombra nas árvores enquanto
    [ oscilam seus galhos sutis,
Delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos
    [ campos e encostas de colina,
Sensação de bem-estar .... apito do meio-dia
    [ .... a canção de mim mesmo se erguendo
    [ da cama e cruzando com o sol.

 
Uma criança disse, O que é a relva? trazendo um
     [ tufo em suas mãos;
O que dizer a ela ?.... sei tanto quanto ela o que
     [ é a relva.

Vai ver é a bandeira do meu estado de espírito,
  [ tecida de uma substância de esperança verde.
Vai ver é o lenço do Senhor,
Um presente perfumado e o lembrete derrubado
  [ por querer,
Com o nome do dono bordado num canto, pra que possamos ver e examinar, e dizer
      É seu ?

 
O blablablá das ruas .... rodas de carros e o
     [ baque das botas e papos dos pedestres,
O ônibus pesado, o cobrador de polegar
     [ interrogativo, o tinir das ferraduras dos
     [ cavalos no chão de granito.
O carnaval de trenós, o retinir de piadas
     [ berradas e guerras de bolas de neve ;
Os gritos de urra aos preferidos do povo ....
     [ o tumulto da multidão furiosa,
O ruflar das cortinas da liteira — dentro um
     [ doente a caminho do hospital,
O confronto de inimigos, súbito insulto,
     [ socos e quedas,
A multidão excitada — o policial e sua estrela
     [ apressado forçando passagem até o centro
     [ da multidão;
As pedras impassíveis levando e devolvendo
     [ tantos ecos,
As almas se movendo .... será que são invisíveis
     [ enquanto o mínimo átomo é visível ?
Que gemidos de glutões ou famintos que
     [ esmorecem e desmaiam de insolação
     [ ou de surtos,
Que gritos de grávidas pegas de surpresa,
     [ correndo pra casa pra parir,
Que fala sepulta e viva vibra sempre aqui....
     [ quantos uivos reprimidos pelo decoro, Prisões de criminosos, truques, propostas
     [ indecentes, consentimentos, rejeições de
     [ lábios convexos,
Estou atento a tudo e as suas ressonâncias ....
     [ estou sempre chegando.

 
 
Sou o poeta do corpo,
E sou o poeta da alma.

Os prazeres do céu estão comigo, os pesares do
     [ inferno estão comigo,
Aqueles, enxerto e faço crescer em mim mesmo
     [ .... estes, traduzo numa nova língua.

Sou o poeta da mulher tanto quanto do homem,
E digo que é tão bom ser mulher quanto ser
     [ homem,
E digo que não há nada maior que a mãe dos
     [ homens.


Vadio uma jornada perpétua,
Meus sinais são uma capa de chuva e sapatos
      [ confortáveis e um cajado arrancado
      [ do mato ;
Nenhum amigo fica confortável em minha
      [ cadeira,
Não tenho cátedra, igreja, nem filosofia;
Não conduzo ninguém à mesa de jantar ou à
      [ biblioteca ou à bolsa de valores,
Mas conduzo a uma colina cada homem e mulher
      [ entre vocês,
Minha mão esquerda enlaça sua cintura,
Minha mão direita aponta paisagens de
      [ continentes, e a estrada pública.

Nem eu nem ninguém vai percorrer essa estrada
      [ pra você,
Você tem que percorrê-la sozinho.

Não é tão longe assim .... está ao seu alcance,
Talvez você tenha andado nela a vida toda e não
      [ sabia,
Talvez a estrada esteja em toda parte sobre a
      [ água e sobre a terra.

Pegue sua bagagem, eu pego a minha, vamos em
      [ frente;
Toparemos com cidades maravilhosas e nações
      [ livres no caminho.

Se você se cansar, entrega os fardos, descansa a
      [ mão macia em meu quadril,
E quando for a hora você fará o mesmo por mim;
Pois depois de partir não vamos mais parar.

*************
Folhas de Relva ( Leaves of Grass)

Walt Whitman (1819–1892) é normalmente considerado o mais importante poeta americano do século XIX. Ele publicou a primeira edição de sua principal obra, Folhas de Relva, em 1855. Pelo restante de sua vida, Whitman produziu novas edições do livro, terminando com a nona edição, ou edição do "leito de morte", em 1891-1892. O que começou como um livro fino de 12 poemas, tornou-se, no final de sua vida, um compêndio grosso de quase 400 poemas. Whitman considerava cada versão como um livro próprio e distinto e alterava o conteúdo de forma contínua. Ele adicionou novos poemas, deu nome ou renomeou antigos e, até 1881, os reagrupou várias vezes. Ele desenvolveu a tipografia, adicionou anexos, reescreveu as frases e alterou a pontuação tornando cada edição única. Mostrada aqui é a primeira edição rara, que Whitman imprimiu sem o nome do autor na página de título. A publicação do livro foi anunciada por comentários anônimos impressos em jornais de Nova York, os quais foram claramente escritos pelo próprio Whitman. Eles descreviam com precisão a natureza revolucionária de sua obra "transcendente e nova". "Finalmente um trovador americano!", alardeava uma auto-avaliação. Whitman também recebeu um impulso generoso de publicidade da escritora best-seller Fanny Fern, que fez amizade com o poeta recém-publicado e defendeu o livro Folhas de Relva como ousado e novo em sua popular coluna no New York Ledger em 10 de maio de 1856.

30 de maio de 2016

As Ensinanças da Dúvida - - Thiago de Mello, em “Mormaço na floresta”. Rio de Janeiro/1981 - Editora: Civilização Brasileira


Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos.

Agora (o tempo é que fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas.

Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor.

28 de maio de 2016

“Despedida” de Cecília Meirelles (Extraído da obra Flor de poemas, 1972)


Por mim, e por vós, e por mais aquilo 
que está onde as outras coisas nunca estão
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo: 
quero solidão. 
Meu caminho é sem marcos nem paisagens. 
E como o conheces ? - me perguntarão. - 
Por não Ter palavras, por não ter imagem. 
Nenhum inimigo e nenhum irmão. 
Que procuras ? 
Tudo. 
Que desejas ? 
Nada. 
Viajo sozinha com o meu coração. 
Não ando perdida, mas desencontrada. 
Levo o meu rumo na minha mão. 
A memória voou da minha fronte. 
Voou meu amor, minha imaginação ... 
Talvez eu morra antes do horizonte. 
Memória, amor e o resto onde estarão? 
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra. 
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão ! 
Estandarte triste de uma estranha guerra ... )
Quero solidão. 

27 de maio de 2016

Manoel de Barros, Eu não vou perturbar a paz (1942)


De tarde um homem tem esperanças.
Está sozinho, possui um banco.
De tarde um homem sorri.
Se eu me sentasse a seu lado
Saberia de seus mistérios
Ouviria até sua respiração leve.
Se eu me sentasse a seu lado
Descobriria o sinistro
Ou doce alento de vida
Que move suas pernas e braços.

Mas, ah! eu não vou perturbar a paz que ele depôs na praça, quieto.

26 de maio de 2016

Fernando Pessoa, "A criança que ri na rua"

foto de Luciano Andrade 
A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo —
Tudo isso excede este rigor

Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer coisa de amor,
Ainda que o amor seja mudo.

25 de maio de 2016

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os Troncos das Árvores", in Antologia


Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.

24 de maio de 2016

VOU TENTAR - Fabrício Carpinejar, (Publicado no jornal Zero Hora - Coluna semanal, 22/05/2016


"Vou tentar ser fiel.
Vou tentar não mentir.
Vou tentar melhorar.
Vou tentar mudar.
Vou tentar me entregar para a relação.
Vou tentar não me omitir.
Vou tentar cumprir os prazos.
Vou tentar não ser ansioso.
Vou tentar não ficar pressionando os filhos.
Vou tentar obedecer às leis.
Vou tentar não me indispor no trabalho.
Vou tentar vencer.
Vou tentar perdoar.
Vou tentar não reeditar os erros do passado.
Vou tentar atingir as metas.
Vou tentar assumir os meus compromissos.
Vou tentar parar de fumar.
Vou tentar parar de beber.
Vou tentar parar de incomodar.
Vou tentar parar de gritar.
Vou tentar parar de correr.
Vou tentar não discutir.
Vou tentar não brigar.
Vou tentar não ofender.
Vou tentar não magoar.
Vou tentar reclamar menos.
Vou tentar respeitar os meus limites.
Vou tentar não decepcionar.
Vou tentar dar um maior tempo para a família.
Vou tentar me organizar.
Vou tentar arrumar o armário.
Vou tentar ser feliz.
Vou tentar cuidar dos meus pais.
Vou tentar ser mais amoroso.
Vou tentar não cancelar encontros.
Vou tentar não me atrasar.
Vou tentar juntar dinheiro.
Vou tentar não gastar demais no cartão.
Vou tentar não desmarcar a terapia.
Vou tentar revisar a saúde.
Vou tentar estudar para concurso.
Vou tentar me concentrar.
Vou tentar voltar para academia.
Vou tentar telefonar para os amigos.
Vou tentar não me estender de noite.
Vou tentar acordar cedo.
Vou tentar emagrecer.
Vou tentar retornar com as caminhadas.
Vou tentar. Juro que vou tentar."

Mas tentar são as aspas da preguiça. 
Tentar é faltar com a verdade.
Tentar é um falso começo.
Tentar é justificar o fim com o esforço.
Tentar é falar pelas expectativas do outro.
Tentar é fingir que é uma promessa quando é apenas uma confissão de culpa.
Tentar é deixar a vida passar.
Tentar é repetir os medos.
Tentar não é esperança, e sim uma ilusão para ganhar tempo para continuar do mesmo jeito.
Tentar é se desculpar por antecedência.
Tentar é um permanente adiamento.
Tentar é uma fantasia onipotente de criança, de quem não aceita o não.
Tentar é se ocupar com o que nunca será feito.
Tentar é não ajudar a si mesmo.
Tentar é evitar provisoriamente as cobranças.
Tentar é trocar as atitudes por lamentos.
Tentar é não dar o exemplo.
Tenta é não estar certo disso.
Tentar é não fazer.
Tentar é sempre fracassar.

23 de maio de 2016

Além do Cinza - texto de Nelly Beatriz M. P. Penteado


Era uma vez um reino em que tudo era cinzento e cercado de espinhos. As casas eram pintadas de cinza, as pessoas se vestiam de cinza, o céu era cinza.

Ao invés de plantas, grama, flores, lá só havia espinhos. As pessoas plantavam espinhos nos vasos, enviavam ramalhetes de espinhos umas às outras, até os noivos, quando iam se casar, colocavam um espinho na lapela - e as noivas carregavam um buquê de espinhos, obviamente, vestidas de cinza...

Freqüentemente os espinhos acabavam ferindo as pessoas. Assim, havia especialistas em curar estes ferimentos de acordo com o tipo de espinho e com a área espetada. E era motivo de grande alegria e comemoração quando se conseguia curar um ferimento. Aliás, essa era a única forma de alegria que havia naquele reino, de maneira que algumas pessoas até gostavam de se ferir um pouquinho só para poderem experimentar essa alegria.
Até mesmo a religião praticada naquele reino dizia que o sofrimento causado pelos espinhos purificava a alma. Por este motivo, as pessoas feridas se conformavam e se alegravam acreditando que seriam um dia recompensadas por este sofrimento.

E aconteceu que um dia apareceram naquele reino alguns cientistas que decidiram estudar aquele estranho fenômeno. Eles não se conformavam com a predominância do cinza e com a abundância de espinhos. Aliás, eles não conseguiam convencer o rei, bem como todas as demais pessoas, de que havia lugares diferentes daquele. Como explicar a alguém que só conhece o cinza e os espinhos a beleza das cores, a maciez de uma flor? Por mais que eles tentassem falar de como o mundo, além das fronteiras daquele reino, era diferente e belo, as pessoas não compreendiam, ou não acreditavam.

Os cientistas trouxeram equipamentos, microscópios, e montaram um laboratório para analisar tudo aquilo que ocorria no reino. Passaram-se dias e noites, meses e anos, até que descobriram que todas aquelas pessoas estavam sob um encantamento de uma bruxa que um dia fez com que todas ficassem cegas para as cores e insensíveis para tudo o que fosse belo e prazeroso. A partir deste dia, como todas elas esperavam que o mundo fosse cinzento e sem graça, começaram a nascer espinhos por toda a parte, e tudo começou a ficar cinza, como se a expectativa delas houvesse se materializado.

Todavia, os cientistas sabiam que entender e explicar o fenômeno não era suficiente para desfazer o encanto e resolver o problema que eles estavam estudando. Mas sabiam também que na vida, assim como na ciência, sempre existem caminhos, por mais que as vezes eles não sejam tão óbvios quanto se gostaria que eles fossem. E que quando se está caminhando, e se quer encontrar um caminho novo, uma boa maneira é subir num ponto bem alto e olhar tudo à distância.

Sabendo disso, os cientistas fecharam o laboratório e se retiraram para o alto de uma montanha para meditar e tentar encontrar uma maneira de desfazer o encanto da bruxa, uma maneira criativa e interessante. Eles não queriam desfazer o encanto usando uma outra bruxaria qualquer, como um ungüento malcheiroso ou uma poção estranha. Afinal, isso não era nem elegante e nem científico. E também, eles não queriam curar o mal com um mal maior, com mais espinhos e sofrimentos.

Foi lá que eles tiveram uma idéia muito boa. Resolveram criar uns óculos especiais que, quando usados por aquelas pessoas, permitiriam que elas enxergassem além do cinza e vissem tudo colorido como era antes da bruxa aparecer.

Eles fabricaram milhares de óculos e os ofereceram àquelas pessoas dizendo que seriam como um tratamento para os olhos delas, que então seriam treinados a enxergar novamente como antes.

E qual não foi a surpresa dos cientistas ao constatar que os efeitos do tratamento tinham sido surpreendentes, aliás, foram além do que eles esperavam. As pessoas não só agora enxergavam as cores, como também voltaram a ser sensíveis aos sabores, odores, texturas, sons, e principalmente, à beleza. Como que por um novo encanto, o reino começou a ficar colorido, no lugar dos espinhos nasceram flores, coloridas, macias, perfumadas. Os pássaros, agora coloridos, voltaram a cantar, o céu voltou a ser azul e as pessoas não se feriam mais com os espinhos.

Passaram-se muitos dias de alegria e contentamento no reino. Todos festejavam o fim do encanto da bruxa. Já nem precisavam mais dos óculos.

Os cientistas, acreditando que já haviam terminado sua tarefa, preparavam-se para ir embora quando o rei os procurou e disse-lhes:

- Por favor, façam com que tudo volte a ser cinza imediatamente. Façam nascer novamente os espinhos. Já não suporto mais esse mundo colorido e alegre. Porque antes nós podíamos ter certeza de que os espinhos estariam sempre lá e o que fazer para curar o ferimento que eles produziam. Mas agora corremos sempre o risco de nos apegarmos hoje a uma flor que amanhã já terá murchado, ou a um pássaro que hoje canta alegremente em nossa casa mas que amanhã poderá voar para bem longe, e o que mais nos apavora é que nós não sabemos o que fazer para curar este sofrimento. Devolvam-nos os espinhos, dêem-nos óculos que nos façam enxergar tudo cinza novamente. Preferimos a certeza da dor dos espinhos do que a incerteza dessa alegria fugaz.

A partir deste dia, por serem muito democráticos e respeitarem o livre arbítrio de cada ser humano, os cientistas distribuíram dois tipos de óculos: uns de lentes cinzas e outros que permitiam enxergar colorido. Cabia a cada pessoa decidir qual deles usar.

19 de maio de 2016

A busca da sentido - por Hellen Reis Mourão

by ~Blekotakra

Joseph Campbell em sua obra O Poder do Mito, afirma que a experiência que o ser humano mais procura é a de se sentir vivo. Essa seria a base do sentido da vida.
Infelizmente hoje uma profusão de doenças psíquicas como a depressão - que vem se tornando o mal do século - ocorre devido a um embotamento do homem em relação a si próprio e a vida.
A maioria de nós não sabe qual o sentido de estarmos nessa vida e apenas sobrevive. Trabalha, come, dorme, passeia, mas por dentro não se sente vivo.
O avanço tecnológico e intelectual nos trouxe muitos benefícios em termos intelectuais, de saúde e culturais, entretanto com ele tivemos uma perda substancial de contato com o inconsciente.
Nossa cultura ocidental voltada para ”o fazer”, “o acontecer” e para a atitude extrovertida nos anestesiou e denegriu tudo o que é voltado para o subjetivo, para o interior. Perdemos a paciência em esperar que as coisas aconteçam no tempo certo.
Observamos essa atitude ocidental na forma como lidamos com a literatura do “espírito” como a mitologia e os contos de fadas.
Hoje nos interessamos mais em nos anestesiarmos com as noticias do dia e os acontecimentos do momento, deixando assim de valorizar o encontro com algo que irá falar a nossa alma.
Antigamente os contos eram formas de entretenimento do adulto. Atualmente são vistos como entretenimento infantil. Conforme Von Franz (2010), isso ocorreu devido a uma tendência do homem moderno em infantilizar os conteúdos do inconsciente.
Além disso, atualmente não possuímos uma mitologia sagrada que norteie a consciência. O mito cristão foi durante muito tempo uma fonte de vida espiritual para o homem, no entanto, como tudo na vida, hoje ele se tornou um sistema petrificado.
Von Franz (2011) explica que os símbolos coletivos do Self se desgastam. As religiões, as convicções e as verdades, tudo envelhece e precisa ser renovado. Tudo o que dirigiu uma sociedade por determinado tempo é deficiente, no sentido que envelhece. A consciência humana costuma desinteressar-se ao longo do tempo.
Por essa razão e pelo fato de não possuirmos algo que venha substituir esse sistema já desgastado, o homem ocidental se volta cada vez mais para a busca de uma anestesia contra a falta de sentido de sua vida.
Vicio de todas as formas como jogos, bebidas, sexo, computador, fanatismo religioso, trabalho e até o vício em pensar, são formas de anestesia e também de busca de transcendência da vida cotidiana.
Entretanto, essa busca tem sido externa o que a torna efêmera. Vemos nos contos de fadas o tema da busca do tesouro difícil de encontrar, como uma jóia preciosa, uma fonte de água da vida ou um animal sagrado, que irá trazer a solução para a situação desgastada da consciência coletiva.
Esse tesouro é algo difícil mesmo, pois requer o enfrentamento de forças sombrias da psique, contudo por mais difícil que seja esse enfrentamento o resultado é mais sólido e permanente do que a busca efêmera de algo externo. O tesouro é interno e está no mais profundo de cada individuo.
Hoje vem acontecendo uma profusão de revisitações e adaptações dos contos de fadas para o cinema e televisão, trazendo de volta essas histórias ao mundo adulto. O que vejo de forma bastante positiva, pois eles mostram de maneira simbólica a iniciação do mundo infantil para o adulto; as mortes e as ressurreições simbólicas necessárias pelas quais precisamos passar.
Isso mostra também que a consciência coletiva está em busca de algo que está faltando nos ensinamentos cristãos.
Não temos mais ritos de passagem, que nos indique o momento das transições da vida, por isso a psique coletiva de forma compensatória nos traz no entretenimento os caminhos que indiquem como podemos seguir em nossa jornada rumo a individuação. É uma pena que hoje ainda seja somente um entretenimento.
A análise é uma das formas que mais beneficia o processo de individuação, contudo existem outros meios de despertar o sentido de nossa alma e dos símbolos, favorecendo assim a individuação.
Infelizmente para nós ocidentais que perdemos o contato com essa literatura do espírito, o mais indicado para o processo de individuação é a psicoterapia, pois assim é possível buscar seu mito pessoal e se preencher consigo mesmo.
A água da vida está no interior de cada um, mas é preciso ter coragem para empreender essa viagem até o mais recôndito da própria alma e assim conhecer seus desejos mais profundos.
Toda vez que alguém se depara com seus desejos mais profundos, surge o medo na mesma proporção, pois algo de numinoso e transformador vêm daí.
Medo e desejo caminham juntos, mas o mais importante é saber para qual face da mesma moeda você vai olhar: para o desejo com a fonte da vida ou o medo com seus aspectos aprisionantes?

17 de maio de 2016

Testamento lírico - Hilda Hilst


Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi
Na criança que fui, tão confundida.
À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.
O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras douradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.
Eu era uma criança delirante.
Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.
O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo,
Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil.
Querer deixar um testamento lírico
E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)
A criança que foi. Tão confundida.

*************


Hilda Hilst - Enigmática, estranha e instigante. Esses são alguns dos adjetivos que bem descrevem Hilda Hilst, um dos grandes nomes da Literatura brasileira e importante voz feminina em nossa poesia. Hilda foi poeta, dramaturga e ficcionista, nasceu na cidade de Jaú, interior do estado de São Paulo, no dia 21 de abril de 1930 e faleceu em Campinas no dia 04 de fevereiro de 2004.

Hilda Hilst dedicou boa parte de sua vida à Literatura, tendo deixado mais de quarenta livros publicados. Embora não tenha caído nas graças do grande público e da crítica, que considera ainda hoje seus textos herméticos, foi agraciada com os mais importantes prêmios literários do Brasil e admirada por grandes escritores, entre eles Caio Fernando Abreu e Lygia Fagundes Telles. A temática de sua poesia circundou as ações humanas, a inquietude do ser, a morte, o amor, o sexo, Deus e indagações metafísicas, tema que a levou a flertar com a Física e com a Filosofia. Entre suas experiências literárias, esteve aquilo que ela chamou de “Transcomunicação Instrumental”, quando deixava gravadores ligados por sua chácara (a Casa do Sol, hoje Instituto Hilda Hilst) com o intuito de gravar vozes de espíritos, demonstrando assim sua clara preocupação com a sobrevivência da alma.

Importante voz literária brasileira, Hilda Hilst foi admirada por vários escritores, embora ainda hoje seja incompreendida pela crítica e pouco conhecida do grande público.

13 de maio de 2016

Poema de Benjamin Prado - Eu e Anna Akhmátova (1891 - 1966) - (Tradução de Marília Garcia)


Este poema começa em uma manhã
de outubro.
...................Ainda faz sol.
..................................No jardim
dois gatos pretos bebem
a água da piscina
...........................e eu digo a mim mesmo:
“Brian Jones”. As piscinas vazias sempre me fazem
pensar em Brian Jones.
......................................Tenho na mão
um livro de Anna Akmátova que diz: No futuro
as coisas findas arderão lentamente.

Depois
............penso:
......................Eu sou minha última bala.
Mas não sei por quê.
.................................Depois escrevo:
Confia no que você acha que é verdade.

.........................................................Depois volto
outra vez aos gatos.

Anna Akmátova está nos anos 30.
Pelas manhãs sobe num ônibus — talvez
o ônibus seja vermelho — e em seguida caminha
devagar sobre o gelo,
................................até uma prisão
de Leningrado, onde está seu filho
— Lev Gumiliov — e volta a entrar na fila.

Penso em meu poema,
penso em algo que explique
seu coração que se move muito lentamente entre as árvores,
a noite que me espera no fundo dos rios.
Anna Akmátova atravessa as avenidas escuras,
sente o frio que cresce como um fruto em suas mãos,
a neve que se quebra sob cada pisada
como um pequeno esqueleto de pomba.

Ouço o entardecer cheio de homens cansados;
Lev Gumiliov, a noite lançada aos cães
Ela escuta ao longe um martelo
.........................................e diz:
— Golpes que têm a forma de uma cidade destruída.

Teve que ser assim:
...............................Afunda as mãos
em seu medo
..................e encontra uma palavra.
Depois, dá o primeiro passo que a leva
até onde estou: este jardim
e a tarde que vem
...........................e as folhas caídas
aonde o vento arrasta seu anjo despedaçado.

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Benjamín Prado nasceu em Madri, em 1961. Publicou diversos livros de poesia, reunidos nos volumes Ecuador (1986-2001), Iceberg (2002) e Marea Humana (2006), e alguns romances, dentre os quais Raro (1995), que obteve grande êxito dentro e fora da Espanha, e Nunca le des la mano a un pistolero zurdo (1996). Escreveu também ensaios e retratos de autores como Ingeborg Bachmann, Anna Akmátova e Bob Dylan. Além disso, é jornalista do El país e letrista de música popular. Foi incluído na antologia Generacion del 99 e ganhou alguns prêmios literários, tanto por sua poesia quanto pelos romances. Ao ser indagado sobre a estrutura narrativa dos seus poemas e sobre a presença da poesia em seus romances, Benjamín Prado diz que os verbos mais importantes em sua escrita são contar e sugerir. Seu último romance, Mala gente que camina, ambientando na Espanha franquista, tem tido ampla repercussão em seu país.

4 de maio de 2016

Os Degraus - Mario Quintana

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos – onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo…

1 de maio de 2016

permaneço semente... Cáh Morandi


perdoe por meu amor
não dar frutos, por não
florescer meus ramos
em delicadas carícias
por não respirar o sol
em minhas folhas de
existência e vida

não pense que não
conheci as primaveras
que algum dia não
exalei beleza e perfume
que não tive cores

me tornei profunda
envolta em mim
sob o peso estéril agora
permaneço semente,
somente e agradeço