29 de abril de 2016

Fragmentos - "Um Ourives das Palavras" - Amadeu de Almeida Prado (de Pascal Mercier, em "Trem Noturno para Lisboa")


" Se podemos viver
apenas uma pequena parte
do que há dentro de nós...
o que acontece com o resto?"

&


"Vivemos aqui e agora.
Tudo o que aconteceu antes
ou em outros lugares é passado,
em grande parte esquecido."

&


O que poderia...
O que deveria ser feito
Com todo o tempo que temos pela frente?
Em aberto e ainda sem forma
Leve como o ar em sua liberdade
e pesado como chumbo em sua incerteza.
É um desejo,
um simples e nostálgico sonho,
voltar a determinado ponto de nossa vida
e poder tomar um rumo completamente
diferente daquele que fez
de nós  quem somos."

&

28 de abril de 2016

Fields Of Gold - Sting


You'll remember me when the west wind moves
Upon the fields of barley
You'll forget the sun in his jealous sky
As we walk in the fields of gold

So she took her love
For to gaze awhile
Upon the fields of barley
In his arms she fell as her hair came down
Among the fields of gold

Will you stay with me, will you be my love
Among the fields of barley
We'll forget the sun in his jealous sky
As we lie in the fields of gold

See the west wind move like a lover so
Upon the fields of barley
Feel her body rise when you kiss her mouth
Among the fields of gold
I never made promises lightly
And there have been some that I've broken
But I swear in the days still left
We'll walk in the fields of gold
We'll walk in the fields of gold

Many years have passed since those summer days
Among the fields of barley
See the children run as the sun goes down
Among the fields of gold
You'll remember me when the west wind moves
Upon the fields of barley
You can tell the sun in his jealous sky
When we walked in the fields of gold
When we walked in the fields of gold
When we walked in the fields of gold

27 de abril de 2016

Além-Tédio, poema de Mário de Sá-Carneiro (1890 - 1916 )


Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, emfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A propria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

Mário de Sá-Carneiro foi um dos maiores escritores portugueses do início do século XX, nascido em Lisboa a 19 de maio de 1890. Amigo de Fernando Pessoa, forma com ele e Almada Negreiros a tríade principal do Grupo d'Orpheu, a revista que, com apenas dois números em 1915, iniciou o Modernismo em Portugal.

Publicou, em prosa, os livros Princípio (1912) e A Confissão de Lúcio (1914), assim como o volume de poemas Dispersão (1914). Seus trabalhos mais importantes seriam publicados 20 anos após seu suicídio em Paris, aos 25 anos, no volume Indícios de Oiro (1937).

26 de abril de 2016

Dois poemas líricos de Jacques Brel "Ne me quitte pas" e "Le dernier repas" - Jacques Brel (1929 - 1978)


Jacques Brel foi um trovador contemporâneo belga, nascido a 8 de abril de 1929 em Schaerbeek, nos arredores de Bruxelas. Viveu no entanto a maior parte de sua vida em Paris. Um performer vigoroso e autor de belos textos, dos quais muitos sustentam-se em sua textualidade e funcionam tanto na página como na voz, Jacques Brel é um dos trovadores modernos mais influentes da língua francesa. Suas canções foram traduzidas e gravadas por vários cantores na velha tradição occitana medieval dos joglars, os intérpretes dos poemas alheios. Entre estes, podemos mencionar David Bowie, John Denver, Marc Almond, Ray Charles, Nina Simone, Frank Sinatra e Kurt Cobain. O poeta-cantor morreu em Paris, de câncer pulmonar, em 1978.

*******



Não vá embora

Não vá embora
A gente apaga tudo
Tudo que passou
Pode se apagar
Apagar o tempo
O mal entendido
E o tempo perdido
E agora
Apagar as horas
Que matam
Numa salva de porquês
A felicidade
Não vá embora

Eu vou te dar
Uma chuva de pérolas
Vinda de países
Onde não há chuva
Vou cavar a terra
Até depois da morte
Para seu corpo cobrir
Com luz e com ouro
Vou criar um reino
Onde o amor será rei
Onde o amor será lei
E você a rainha
Não vá embora

Não vá embora
Eu vou criar para te dar
Palavras sem sentido
Que você compreenderá
E vou te contar
Daqueles amantes ali
Que duas vezes viram
Seus corações incendiar
E vou te contar
A história de um rei
Morto por não ter
Podido te encontrar
Não vá embora

Quantas vezes
Vulcão já velho
De onde nada
Mais podia sair
Se reacendeu
Há também terras gastas
Que dão mais trigo
Do que na colheita
E quando a tarde cai
Para que o céu vire fogo
Vermelho e negro
Nunca se juntam

Não vá embora
Eu não vou mais chorar
Eu não vou mais falar
Vou ficar parado vendo
Você dançar ali
E sorrir
E vou te ouvir
Cantar e depois rir
Deixa que eu me torne
A sombra da sua sombra
A sombra da sua mão
A sombra do seu cão

(tradução de Marília Garcia)

:

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s’oublier
Qui s’enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le cœur du bonheur
Ne me quitte pas

Moi je t’offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu’après ma mort
Pour couvrir ton corps
D’or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l’amour sera roi
Où l’amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je t’inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vu deux fois
Leurs cœurs s’embraser
Je te raconterai
L’histoire de ce roi
Mort de n’avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas

On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l’ancien volcan
Qu’on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu’un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu’un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s’épousent-ils pas
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je n’vais plus pleurer
Je n’vais plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et à t’écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L’ombre de ton ombre
L’ombre de ta main
L’ombre de ton chien.

*******


O último jantar

Em meu último jantar
Quero ver meus irmãos
Meus cachorros e gatos
E a beira do mar
No meu último jantar
Quero ver meus vizinhos
E os chineses vindo
Como se fossem primos
Também quero tomar
Da missa o vinho
Esse vinho divino
Que eu bebia em Arbois
E quero devorar
Depois da batina
Um frango faisão
Vindo de Perigord
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver as árvores que dormem
De braços cruzados
Depois quero ainda
Jogar pedras pra cima
E gritar Deus está morto
Pela última vez

No meu último jantar
Com meu burrinho quero estar
Com os frangos e gansos
Mulheres e vacas
No meu último jantar
Quero ver as meninas
Das quais fui o mestre
Ou que foram amantes
E quando de barriga cheia
Pronto para o enterro
Vou quebrar meu copo
Pedindo silêncio
Vou cantar aos brados
À morte que vem
Os amores que de tão devassos
Chegam a amedrontar
E quero ser levado
Para o alto da colina
Ver o sol que caminha
A se pôr lentamente
E ainda de pé
Vou insultar os burgueses
Sem remorso e sem medo
Pela última vez.

Após meu último jantar
Quero que a gente vá
Satisfeito e farto
Para algum outro lugar
Após meu último jantar
Quero me sentar
A sós como um rei
Recebendo as vestais
Em meu cachimbo vou queimar
Lembranças da infância
Sonhos inacabados
Restos de esperança
E vou guardar
Para vestir a alma
A ideia de roseira
E um nome de mulher
Depois vou olhar
Para o alto da colina
Que dança que pressente
Que acaba por afundar
E no cheiro das flores
Que em breve sumirá
Sei o medo que terei
Pela última vez

(tradução de Marília Garcia)

:

Le dernier repas

A mon dernier repas
Je veux voir mes frères
Et mes chiens et mes chats
Et le bord de la mer
A mon dernier repas
Je veux voir mes voisins
Et puis quelques Chinois
En guise de cousins
Et je veux qu'on y boive
En plus du vin de messe
De ce vin si joli
Qu'on buvait en Arbois
Je veux qu'on y dévore
Après quelques soutanes
Une poule faisane
Venue du Périgord
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir les arbres dormir
En refermant leurs bras
Et puis je veux encore
Lancer des pierres au ciel
En criant Dieu est mort
Une dernière fois

A mon dernier repas
Je veux voir mon âne
Mes poules et mes oies
Mes vaches et mes femmes
A mon dernier repas
Je veux voir ces drôlesses
Dont je fus maître et roi
Ou qui furent mes maîtresses
Quand j'aurai dans la panse
De quoi noyer la terre
Je briserai mon verre
Pour faire le silence
Et chanterai à tue-tête
A la mort qui s'avance
Les paillardes romances
Qui font peur aux nonnettes
Puis je veux qu'on m'emmène
En haut de ma colline
Voir le soir qui chemine
Lentement vers la plaine
Et là debout encore
J'insulterai les bourgeois
Sans crainte et sans remords
Une dernière fois

Après mon dernier repas
Je veux que l'on s'en aille
Qu'on finisse ripaille
Ailleurs que sous mon toit
Après mon dernier repas
Je veux que l'on m'installe
Assis seul comme un roi
Accueillant ses vestales
Dans ma pipe je brûlerai
Mes souvenirs d'enfance
Mes rêves inachevés

Mes restes d'espérance
Et je ne garderai
Pour habiller mon âme
Que l'idée d'un rosier
Et qu'un prénom de femme
Puis je regarderai
Le haut de ma colline
Qui danse qui se devine
Qui finit par sombrer
Et dans l'odeur des fleurs
Qui bientôt s'éteindra
Je sais que j'aurai peur
Une dernière fois.


25 de abril de 2016

Aviso - Olga Savary, Belém, maio 1953


Não te abandones um só momento
sou inconstante como a nuvem
sou mutável como o vento.

Não te dês inteiro um só momento
porque um dia te quererás de volta
e levarás somente um fragmento.

24 de abril de 2016

Sinfonia do Vento - Daniel Jorge da Silva, in "A Voz do Mar"


Vento que uiva,
Que corre
Veloz !
Que açoita a tarde
Que morre
Sem nós ...
Branca agonia,
Triste saudade;
Louca sinfonia
Diabólico bailado
Marmóreo,
Frio ...
Ilusão ... Verdade;
Fúria que varre
Meu Inverno gelado!

23 de abril de 2016

Maria de Lurdes Melo, in "Não gritaste por mim, meu Amor"

Quero uma tarde eterna de mar e navegar por entre a pele da tua alma sem rumo.
Acorda-me o sabor de água dos teus beijos arrancados à doçura da minha pele. 
Restos de Lua. 
Foram as palavras que não disseste e os olhos que como barcos ao longe me ofereceste. 
Escreveste contudo a vontade e eu sonhei-me tua ...
Deixei no mar a delicadeza dos meus sonhos quando apagaste da areia a grandeza dos nossos corpos amantes.

20 de abril de 2016

Aguns textos de Ana Cristina Cesar (1952-1983)


Ciúmes (Abril/68)

Tenho ciúmes deste cigarro que você fuma

Tão distraidamente.
*******

Tenho uma folha branca (5.2.69)

e limpa à minha espera:

mudo convite


tenho uma cama branca

e limpa à minha espera:

mudo convite


tenho uma vida branca

e limpa à minha espera.

*******

O nome do gato assegura minha vigília (2.10.72)

e morde meu pulso distraído

finjo escrever gato, digo: pupilas, focinhos

e patas emergentes. Mas onde repousa


o nome, ataque e fingimento,

estou ameaçada e repetida

e antecipada pela espreita meio adormecida

do gato que riscaste por te preceder e


perder em traços a visão contígua

de coisa que surge aos saltos

no tempo, ameaçando de morte

a própria forma ameaçada do desenho

e o gato transcrito que antes era

marca do meu rosto, garra no meu seio.
*******

E penso

a face fraca do poema/ a metade na página

partida

Mas calo a face dura

flor apagada no sonho

Eu penso

A dor visível do poema/ a luz prévia

Dividida

Mas calo a superfície negra

pânico iminente do nada.
*******

“Nestas circunstâncias o beija-flor vem sempre aos milhares”


Este é o quarto Augusto. Avisou que vinha. Lavei os sovacos e os

pezinhos. Preparei o chá. Caso ele me cheirasse... Ai que

enjôo me dá o açúcar do desejo.
*******

é aqui

por enquanto

ainda não tem

cortina

tapete luz indireta

amenizando a noite

quadro nas paredes
*******

Noite carioca


Diálogo de surdos, não: amistoso no frio

Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento

a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum

segredo.
*******

Mocidade independente


Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem

medir as conseqüências. Por que recusamos ser proféticas? E

que dialeto é esse para a pequena audiência de serão? Voei pra

cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma

graça atravessando o estado de São Paulo, de madrugada, por

você, e furiosa: é agora, nesta contramão.
*******

Nada disfarça o apuro do amor.


Um carro em ré. Memória da água em movimento. Beijo.

Gosto particular da tua boca. Último trem subindo ao

céu.

Aguço o ouvido.

Os aparelhos que só fazem som ocupam o lugar

clandestino da felicidade.

Preciso me atar ao velame com as próprias mãos.

Sirgar.

Daqui ao fundo do horto florestal ouço coisas que

nunca ouvi, pássaros que gemem.
*******

A ponto de

partir, já sei

que nossos olhos

sorriam para sempre

na distância.

Parece pouco?

Chão de sal grosso e ouro que se racha.

A ponto de partir, já sei que

nossos olhos sorriem na distância.

Lentes escuríssimas sob os pilotis.
********

Esqueceria outros

pelo menos três ou quatro rostos que amei

Num delírio de arquivística

organizei a memória em alfabetos

como quem conta carneiros e amansa

no entanto flanco aberto não esqueço

e amo em ti os outros rostos
*******


O Homem Público N. 1


Tarde aprendi

bom mesmo

é dar a alma como lavada.

Não há razão

para conservar

este fiapo de noite velha.

Que significa isso?

Há uma fita

que vai sendo cortada

deixando uma sombra

no papel.

Discursos detonam.

Não sou eu que estou ali

de roupa escura

sorrindo ou fingindo

ouvir.

No entanto

também escrevi coisas assim,

para pessoas que nem sei mais

quem são,

de uma doçura

venenosa

de tão funda.
*******


Nasceu no Rio de Janeiro. Viveu um ano em Londres, em 1968. Escreveu para revistas e jornais alternativos, saiu na antologia 26 Poetas Hoje, de Heloísa Buarque. publicou, pela Funarte, Mestrado em comunicação, lançou livros em edições independentes: Cenas de Abril e Correspondência Completa. Dez anos depois, outra vez a Inglaterra, onde, às voltas com um M.A. em tradução literária, escreveu muitas cartas e editou Luvas de Pelica. Ao retornar, descobriu São Paulo e fixou residência no Rio. Trabalhou em jornalismo, televisão e escreveu A Teus Pés. Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983.

Biografia constante do livro A Teus Pés, Quarta Edição, da série Cantadas Literárias da Editora Brasiliense.


"A poesia de Ana Cristina Cesar caracteriza-se por ser predominantemente confessional, mas o tom de intimidade, não nos deve enganar, pois é apenas um lance de sedução estética. A correspondência, realmente, como apontou Armando Freitas Filho, teve bastante influência sobre a sua dicção poética. Ela cria um verdadeiro jogo de linguagem: textos curtos, poemas fragmentados, cartas, páginas de diário. A poesia torna-se, desta forma, uma inquietante reflexão sobre o próprio fazer literário". (p. 22)

"Assim percebemos que o texto-colagem da poeta instaura um sujeito estilhaçado, uma memória construída através da subjetividade fincada no corpo coletivo da linguagem. Seu método de composição baseia-se na apropriação incessante de versos e trechos de outros escritores que ela distorce, desloca, alude, readapta, reescreve, parafraseia e parodia. É uma obra que faz uma reflexão constante sobre a natureza do literário". (p. 27)

"Os poemas de Ana Cristina Cesar, inserida no clima da geração 70, revelam, entre as muitas características que marcaram a produção poética daquela época, as seguintes: atração pelo insólito do cotidiano; ênfase na experiência existencial num momento especialmente difícil da história e da política brasileira; volta à primeira pessoa, à escrita da paixão e do medo como caminho eficaz no sentido de romper o silêncio e a perplexidade que tomaram de assalto a produção cultural no início da década; o sentido de asfixia, experimentado no cotidiano, mas trabalhado com humor; valorização do coloquialismo; culto do instante, eixo fundamental da nova poesia e do binômio arte e vida. / O binômio arte e vida era a consolidação de uma visão de mundo que valorizava o aqui e o agora: a ideia do presente, eliminando a ideia de futuro." (p. 55)

Textos extraídos da excelente obra de Arminda Silva de Serpa "Lições sobre asas e abismos; uma leitura da poesia de Ana Cristina Cesar", a partir de uma tese de doutorado. Fortaleza> Imprece, 2009. Metadados: Poesia da geração 70; Poesia e comportamento; Poesia brasileira anos 1970. Crítica de Poesia.

Fonte: http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/ana_cristina_cesar.html

19 de abril de 2016

Solidão - Mia Couto


Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

15 de abril de 2016

“Loreley”, de Heinrich Heine. (Düsseldorf, 13 de dezembro de 1797 — Paris, 17 de fevereiro de 1856) - Tradução de R. S. Kahlmeyer-Mertens

Art by Victor Nizovtzer, 1965

Ich weiss nicht, was soll es bedeuten,
Dass ich so traurig bin;
Ein Märchen aus alten Zeiten,
Das kommt mir nicht aus dem Sinn.

Die Luft ist kühl und es dunkelt,
Und ruhig fliesst der Rhein;
Der Gipfel des Berges funkelt
Im Abendsonnenschein.

Die schönste Jungfrau sitzet
Dort oben wunderbar,
Ihr goldnes Geschmeide blitzet,
Sie kämmt ihr goldenes Haar.

Sie kämmt es mit goldenem Kamme,
Und singt ein Lied dabei;
Das hat eine wundersame,
Gewaltige Melodei.

Den Schiffer im kleinen Schiffe
Ergreift es mit wildem Weh;
Er schaut nicht die Felsenriffe,
Er schaut nur hinauf in die Höh’.

Ich glaube, die Wellen verschlingen
Am Ende Schiffer und Kahn;
Und das hat mit ihrem Singen
Die Lore-Ley gethan.

(HEINE, Heinrich. Die Heimkehr. In: Buch der Lieder.
Berlin: S. Fischer Verlag, s/d. p.109)


************************

Eu não sei o sentido
De tristeza tão assaz
Por um conto de tempo ido
Que significado a mim não traz.

O ar fresco e profundo,
O Reno manso a fluir;
Das montanhas cintila o cimo;
Da tarde de sol, o luzir.

A mais bela moça sentada
Em maravilhoso lugar,
Seu cabelo dourado penteia,
Com o ouro dos adornos a lampejar.

Ela alisa louras cãs caídas aos ombros
E canta uma canção que alicia;
Há um assombro
Em sua poderosa melodia.

O navegante no pequeno navio,
Capturado por selvagem dor,
Não divisa o recife rochoso,
Só visa à face superior.

Creio, as ondas hão de arrastar
Ao fundo, navegante e barco
Eis o que, com seu cantar,
Loreley leva a ato.

Christian Johann Heinrich Heine (Düsseldorf, 13 de dezembro de 1797 — Paris, 17 de fevereiro de 1856) foi um poeta romântico alemão, conhecido como “o último dos românticos”. Boa parte de sua poesia lírica, especialmente a sua obra de juventude, foi musicada por vários compositores notáveis como Robert Schumann, Franz Schubert, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner e, já no século XX, por José Maria Rocha Fereira, Hans Werner Henze e Lord Berners.

Um dos maiores poetas alemães do século 19, Heine tornou-se célebre pela afirmação profética:

 "Onde livros são queimados, seres humanos estão destinados a serem queimados também".

Heinrich Heine viveu num período cujas mudanças sociais e políticas tiveram consequências em quase todo o mundo: a Revolução Francesa e as guerras napoleônicas.

Sua última residência foi em Paris, onde faleceu em 1856, conhecido como um dos principais representantes do cenário literário europeu.

Song written by Heinrich Heine

14 de abril de 2016

Ouse, ouse... ouse tudo!! - Lou Andreas-Salomé


"Ouse, ouse... ouse tudo!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!"

8 de abril de 2016

Antonio Vivaldi, gênio do clássico barroco italiano (Veneza, 4 de março de 1678 - Viena, 28 de julho de 1741)

Antonio Vivaldi (1678-1741) foi compositor e músico italiano. Seu concerto "As Quatro Estações", para violino e orquestra, é a mais popular de suas composições. Além de importante compositor de óperas, também atuou como regente, cenógrafo e empresário. Vivaldi faz parte da galeria dos mestre da música universal.

Antonio Vivaldi (1678-1741) nasceu em Veneza, Itália, no dia 4 de março. Filho de Giovanni Battista Vivaldi e Camilha Calicchio, ainda criança começou a estudar violino com seu pai, violinista da Capela de São Marcos, em Veneza. Com dez anos já era exímio violonista.


Em 1693 Vivaldi entra para o convento, ordenando-se sacerdote em março de 1703. Recebeu o apelido de "Il Prete Rosso", o padre vermelho, por ter uma vasta cabeleira ruiva. Em agosto desse mesmo ano, por recomendação dos nobres venezianos que mantinham a instituição, ingressa no "Ospedale della Pietà", orfanato famoso por seu conservatório musical, que mantinha um coral de vozes femininas, de cantoras que viviam reclusas na instituição.


Ao ingressar no Ospedale, inovou as formas musicais do concerto, originado na Itália, em meados do século XVII e chamado de concerto grosso, Vivaldi transformou em concerto para solista e orquestra e modificou os movimentos, dando maior vivacidade ao concerto, quebrando a monotonia de seus antecessores. O conjunto de "As Quatro Estações", para violino e orquestra é o mais popular de seus concertos. Através da música, descreve o verão, inverno, outono e primavera, explorando os instrumentos, em especial o violino, onde consegue imitar o canto dos pássaros, o trote dos cavalos e a tempestade.


Impedido de celebrar missa em decorrência de uma doença crônica, provavelmente asma, Vivaldi compôs a maior parte de suas obras para os grupos musicais da instituição e assim consolidou sua reputação como compositor e maestro do coral e da orquestra e por fim foi nomeado diretor do orfanato.


A partir de 1713, o diretor do coro do Ospedale deixou seu posto e a Vivaldi foi encomendada música vocal sacra. O compositor criou mais de trinta cantatas, oito motetes e um Stabat Mater. No mesmo ano, estando em Vicenza, produziu sua primeira ópera, "Ottone in villa". De 1718 a 1720, Vivaldi trabalhou na província de Mântua como diretor musical e compôs várias óperas. A música instrumental do barroco tardio deve a Vivaldi muitos de seus elementos característicos.


Novamente em Veneza, forneceu obras instrumentais para toda a Europa. Sua fama espalhava-se não só pela Itália, mas também pela França, Países-Baixos, Alemanha e Inglaterra. Nos teatros e nos salões, suas obras eram executadas com grande êxito. Em 1740, um ano antes de sua morte, Vivaldi saiu de Veneza e seu nome caiu no esquecimento. Dois séculos depois saiu do anonimato e passou a ser objeto de estudos e pesquisas e ao lado de outros compositores passou a fazer parte da galeria dos mestre da música universal.


Antônio Vivaldi compôs 454 concertos, 23 sinfonias, 75 sonatas e quase quarenta operetas. Dentre suas operetas destacam-se "Nero Fatto Cesare" (1715), "L'Arsilda Regina di Ponto" (1716), "La Constanza Trionfante delle'Amore" (1716) e "Orlando Finto Pazzo e Montezuma" (1733). A partir de 1729, parou de publicar suas obras, por perceber que era mais lucrativo vender os manuscritos a compradores particulares.


Antonio Lucio Vivaldi morreu em Viena no dia 28 de julho de 1741. Seus concertos foram tomados como modelos formais por vários compositores do barroco tardio, inclusive Bach, que transcreveu dez deles para teclados.


6 de abril de 2016

Ezra Pound – Canti Pisani (Canto 81) - Tradução conjunta Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari - fragmento do Testamento Espiritual de Ezra Pound

Ezra Pound

O que amas de verdade permanece, o resto é escória.
O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
Mundo de quem, meu ou deles
Ou não é de ninguém?
Veio o visível primeiro, depois o palpável
Elísio, ainda que fosse nas câmaras do inferno,
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
O que amas de verdade não te será arrancado

A formiga é um centauro em seu mundo de dragões.
Abaixo tua vaidade, nem coragem
Nem ordem, nem graça são obras do homem,
Abaixo tua vaidade, eu digo abaixo.
Aprende com o mundo verde o teu lugar
Na escala da invenção ou arte verdadeira,
Abaixo tua vaidade,
Paquim, abaixo!

O elmo verde superou tua elegância.
“Domina-te e os outros te suportarão”
Abaixo tua vaidade
Tu és um cão surrado e largado ao granizo,
Uma pega inchada sob um sol instável,
Metade branca, metade negra
E confundes a asa com a cauda
Abaixo tua vaidade
Que mesquinhos os teus ódios
Nutridos na mentira,
Abaixo tua vaidade
Ávido em destruir, avaro em caridade,
Abaixo tua vaidade,
Eu digo abaixo.

Mas ter feito em lugar de não fazer
isto não é vaidade
Ter, com decência, batido
Para que um Blunt abrisse
ter colhido no ar a tradição mais viva
Ou num belo olho antigo a flama inconquistada
Isto não é vaidade.
Aqui o erro todo consiste em não feito.
Todo: na timidez que vacilou.

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Quello che veramente ami rimane,
il resto è scorie
Quello che veramente ami non ti sarà strappato
Quello che veramente ami è la tua vera eredita’
Il mondo a chi appartiene, a me, a loro
o a nessuno?
Prima venne il visibile, quindi il palpabile
Elisio, sebbene fosse nelle dimore d’inferno,
Quello che veramente ami è la tua vera eredita’
La formica è un centauro nel suo mondo di draghi.
Strappa da te la vanità, non fu l’uomo
A creare il coraggio, o l’ordine, o la grazia,
Strappa da te la vanità, ti dico strappala
Impara dal mondo verde quale sia il tuo luogo
Nella misura dell’invenzione, o nella vera abilità dell’artefice,
Strappa da te la vanità,
Paquin strappala!
Il casco verde ha vinto la tua eleganza.
“Dominati, e gli altri ti sopporteranno”
Strappa da te la vanita’
Sei un cane bastonato sotto la grandine,
Una pica rigonfia in uno spasimo di sole,
Metà nero metà bianco
Né distingui un’ala da una coda
Strappa da te la vanita’
Come son meschini i tuoi rancori
Nutriti di falsità.
Strappa da te la vanità,
Avido di distruggere, avaro di carità,
Strappa da te la vanità,
Ti dico strappala.
Ma avere fatto in luogo di non avere fatto
questa non è vanità. Avere, con discrezione, bussato
Perché un Blunt aprisse
Aver raccolto dal vento una tradizione viva
o da un bell’occhio antico la fiamma inviolata
Questa non è vanità.
Qui l’errore è in ciò che non si è fatto, nella diffidenza che fece esitare.

Pier Paolo Pasolini e Ezra Pound
                             

5 de abril de 2016

In My Life - The Beatles (Álbum: Rubber Soul - 1965)

There are places I remember all my life
Though some have changed
Some forever, not for better
Some have gone and some remain

All these places had their moments
With lovers and friends I still can recall
Some are dead, and some are living
In my life, I've loved them all

But of all these friends and lovers
There is no one compares with you
And these memories lose their meaning
When I think of love as something new

Though I know I'll never lose affection
For people and things that went before
I know I'll often stop and think about them
In my life, I'll love you more

Though I know I'll never lose affection
For people and things that went before
I know I'll often stop and think about them
In my life, I'll love you more
In my life, I'll love you more

3 de abril de 2016

Cadê você - Chico Buarque de Holanda (Álbum: Francisco, 1987)

Me dê noticia de você
Eu gosto um pouco de chorar
A gente quase não se vê
Me deu vontade de lembrar

Me leve um pouco com você
Eu gosto de qualquer lugar
A gente pode se entender
E não saber o que falar

Seria um acontecimento
Mas lógico que você some
No dia em que o seu pensamento
Me chamou

Eu chamo o seu apartamento
Não mora ninguém com esse nome
Que linda a cantiga do vento
Já passou

A gente quase não se vê
Eu só queria me lembrar
Me dê noticia de você
Me deu vontade de voltar

2 de abril de 2016

session nostalgia - Duran Duran (Ordinary World - Composition: John Taylor, Nick Rhodes, Simon Le Bon e Warren Cuccurullo - 1993)

Came in from a rainy thursday
On the avenue
Thought I heard you talking softly

I turned on the lights, the tv
And the radio
Still I can't escape the ghost of you

What has happened to it all?
Crazy, some say
Where is the life that I recognize?
Gone away

But I won't cry for yesterday
There's an ordinary world
Somehow I have to find
And as I try to make my way
To the ordinary world
I will learn to survive

Passion or coincidence
Once prompted you to say
"pride will tear us both apart"
Well now pride's gone out the window
Cross the rooftops
Run away
Left me in the vacuum of my heart

What is happening to me?
Crazy, some say
Where is my friend when I need you most?
Gone away

But I won't cry for yesterday
There's an ordinary world
Somehow I have to find
And as I try to make my way
To the ordinary world
I will learn to survive

Papers in the roadside
Tell of suffering and greed
Fear today, forgot tomorrow
Ooh, here besides the news
Of holy war and holy need
Ours is just a little sorrowed talk

And I don't cry for yesterday
There's an ordinary world
Somehow I have to find
And as I try to make my way
To the ordinary world
I will learn to survive

Every one
Is my world, I will learn to survive
Any one
Is my world, I will learn to survive
Any one
Is my world
Every one
Is my world



Capa do single "Ordinary World", lançado em 1993 por Duran Duran

1 de abril de 2016

Pertencer - Clarice Lispector, em "A descoberta do mundo". Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.110-111. Crônica publicada em 15 de junho de 1968.

“Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano no berço mesmo já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso. Quem sabe se comecei a escrever tão cedo na vida porque, escrevendo, pelo menos eu pertencia um pouco a mim mesma. O que é um fac-símile triste.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de ‘solidão de não pertencer’ começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso o que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertencesse. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas mãos ― e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, então raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força ― eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Embora eu tenha uma alegria: pertenço, por exemplo, a meu país, e como milhões de outras pessoas sou a ele tão pertencente a ponto de ser brasileira. E eu que, muito sinceramente, jamais desejei ou desejaria a popularidade ― sou individualista demais para que eu pudesse suportar a invasão de que uma pessoa popular é vítima ―, eu, que não quero a popularidade, sinto-me no entanto feliz de pertencer à literatura brasileira. Não, não é por orgulho, nem por ambição. Sou feliz de pertencer à literatura brasileira por motivos que não têm a ver com literatura, pois nem ao menos sou uma literata ou uma intelectual. Feliz apenas por ‘fazer parte’.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.