25 de abril de 2015

O homem que contempla - poema de Rainer Maria Rilke [1875-1926], in “O Livro das Imagens”, (tradução de Maria João Costa Pereira)


Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.
E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.
Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.
Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.
Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta,
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Nascido em Praga, que então fazia parte do império austro-húngaro, Rilke teve uma infância difícil e traumática, marcada pela separação dos pais e pelo suicídio de um irmão.

Estudou Literatura e História da Arte nas Universidades de Praga, Munique e Berlim. Em 1894, aos 19 anos, publicou poemas de amor intitulados "Vida e Canções".

Em 1897, Rilke conheceu Lou Andreas-Salomé, escritora russa que depois se tornaria psicanalista. Com Lou Salomé, conhecida como uma mulher sedutora e bem relacionada, em 1899, viajou pela Rússia, impressionando-se com suas paisagens. No ano seguinte, escreveu "Histórias do Bom Deus".

No começo do século 20, Rilke afastou-se do simbolismo francês e passou a escrever em um estilo mais realista. Publicou "O livro das Imagens" (1902) e a série de versos "O livro das Horas" (1905).

Em Paris, em 1901, Rilke se casou com Clara Westhoff, uma discípula do famoso escultor francês Rodin, com quem teve uma filha. O casamento durou apenas um ano. Entre 1905 e 1906 o escritor trabalhou como secretário de Rodin, que exerceu grande influência sobre os seus poemas.

"Os Cadernos de Malte Laurids Brigge" foram escritos em 1910 e são considerados pela crítica como sua obra em prosa mais importante.

De 1910 a 1912, Rilke viveu no castelo de Duíno, na região de Trieste, como convidado da princesa Maria Von Thurn und Taxis. Lá escreveu os poemas que formam "A Vida de Maria" (1913). Lá também começou a escrever "Elegias de Duíno", que foram publicadas em 1923.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Rilke permaneceu em Munique. Depois de realizar uma viagem pelos países mediterrâneos, estabeleceu-na Suíça, onde faleceu em 1926.