30 de novembro de 2015

Rota de Colisão por Marina Colasanti - In: COLASANTI, Marina. Rota de colisão. Rio de Janeiro: Rocco, 1993


De quem é essa pele
que cobre a minha mão
como uma luva?
Que vento é este
que sopra sem soprar
encrespando a sensível superfície?
Por fora a alheia casca
dentro a polpa
e a distância entre as duas
que me atropela.
Pensei entrar na velhice
por inteiro
como um barco
ou um cavalo.
Mas me surpreendo
jovem velha e madura
ao mesmo tempo.
E ainda aprendo a viver
enquanto avanço
na rota em cujo fim
a vida
colide com a morte.

25 de novembro de 2015

Mia Couto - poemas


A demora

O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

(Mia Couto, em "Idades cidades divindades". Lisboa: Editorial Caminho, 2007)
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Amei-te sem saberes

No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu imperceptível crescer
como carne da lua
nos nocturnos lábios entreabertos

E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas

a espera do silêncio

(Mia Couto, em "Raiz de Orvalho e outros poemas". Lisboa: Editorial Caminho, 1999)
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As ruas

No tempo
em que havia ruas,
ao fim da tarde
minha mãe nos convocava:
era a hora do regresso.
E a rua entrava
connosco em casa.
Tanto o Tempo
morava em nós
que dispensávamos futuro.
Recolhida em meu quarto,
a cidade adormecia
no mesmo embalo da nossa mãe.
À entrada da cama,
eu sacudia a areia dos sonhos
e despertava vidas além.
Entre casa e mundo
nenhuma porta cabia:
que fechadura encerra
os dois lados do infinito?

(Mia Couto, em “Tradutor de chuvas”. Lisboa: Editorial Caminho, 2011)
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Autobiografia

Onde eu nasci
há mais terra que céu.

Tanto leito é uma bênção
para mortos e sonhadores.

E de tão pouco ser o céu
nasce o sol
em gretas nos nossos pés
e os corações se apertam
quando remoinhos de poeira
se elevam nos telhados.

As mães
espanam o teto
e poeiras de astros
cobrem o soalho.

De tão raso o firmamento,
a chuva tropeça nas copas
enquanto nuvens
se engravidam de rios.

Com tanta escassez de céu
não há encosto
nem para a mais minguante lua
e os meninos,
na ponta dos dedos,
ascendem estrelas.

Pois,
nessa terra
que é tanta para tão pouco céu,
calhou-me a mim ser ave.

Pequenas que são,
as minhas asas parecem-me enormes.

Envergando,
escondo-as dos olhares vizinhos.

Nas minhas costas
pesam
versos e plumas.

Voarei,
um dia,
sem saber
se é de terra ou de céu
a pegada do voo que sonhei.

(Mia Couto, em "Vagas e lumes". Lisboa: Editorial Caminho, 2014)
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Beber toda a ternura

Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces

(Mia Couto, em "Raiz de orvalho e outros poemas". Lisboa: Editorial Caminho, 1999)
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Beijo

Não quero o primeiro beijo:
basta-me
o instante antes do beijo.

Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.

O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.

Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.

(Mia Couto, em “Tradutor de chuvas”. Lisboa: Editorial Caminho, 2011)
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“Sou escritor e cientista. Vejo as duas actividades, a escrita e a ciência, como sendo vizinhas e complementares. A ciência vive da inquietação, do desejo de conhecer para além dos limites. A escrita é uma falsa quietude, a capacidade de sentir sem limites. Ambas resultam da recusa das fronteiras, ambas são um passo sonhado para lá do horizonte. A Biologia para mim não é apenas uma disciplina científica mas uma história de encantar, a história da mais antiga epopeia que é a Vida. É isso que eu peço à Ciência: que me faça apaixonar. É o mesmo que eu peço à literatura.”

“[...] a escrita não é uma técnica e não se constrói um poema ou um conto como se faz uma operação aritmética. A escrita exige sempre a poesia. E a poesia é um outro modo de pensar que está para além da lógica que a escola e o mundo moderno nos ensinam. Sem a arrogância de as tentarmos entender. Apenas com a ilusória tentativa de nos tornarmos irmãos do universo.”

“O segredo do escritor é anterior à escrita. Está na vida, na forma como ele está disponível a deixar-se tomar pelos pequenos detalhes do cotidiano.”

"Na ciência (como em outras actividades) o mais importante não é o que chamamos científico. É o lado humano. Criou-se a ideia de que o cientista é isento de erro, uma espécie de ser privilegiado que apenas trilha pelos atalhos do rigor e da exactidão. Essa aversão pelo erro é o mais grave dos erros. È tão vital errarmos como acertarmos. Devemos afastar o medo de errar. Devemos o gosto por experimentar, mesmo cometendo falhas. A natureza foi evoluindo graças ao erro básico que é a mutação. Se os genes nunca falhassem não haveria a diversidade necessária para a continuidade da Vida. Os processos vitais exigem, ao mesmo tempo, o rigor e o erro. Não podemos ter medo de não saber. O que devemos recear é o não termos inquietação para passarmos a saber.”

“O que pode suscitar uma pequena história é quanto por trás do cientista reside um homem, com suas ignorâncias, suas incertezas e suas crenças tantas vezes muito pouco científicas.”

“Só se escreve com intensidade se vivermos intensamente. Não se trata apenas de viver sentimentos mas de ser vivido por sentimentos.”

“Há quem acredite que a ciência é um instrumento para governarmos o mundo. Mas eu periferia ver no conhecimento científico um meio para alcançarmos não domínios mas harmonias. Criarmos linguagens de partilhas com os outros, incluindo os seres que acreditamos não terem linguagem. Entendermos e partilharmos a língua das árvores, os silenciosos códigos das pedras e dos astros.
Conhecermos não para sermos donos. Mas para sermos mais companheiros das criaturas vivas e não vivas com quem partilhamos este universo. Para escutarmos histórias que nos são, em todo momento, contadas por essas criaturas.”

15 de novembro de 2015

Liberdade, Evasão e Consciência na Virtualidade... Por Hercilia Fernandes


“A Internet facilita a informação, minimiza fronteiras, permite a troca de experiências, saberes, poéticas”...

A frase acima, tanto quanto panfletária, parece estabelecer um consenso sobre o meio de comunicação virtual. Isso porque, grosso modo, a possibilidade de acesso, interação e aprendizado, sem dúvida, é uma das maiores conquistas da humanidade, na chamada Era Virtual, com a Rede Mundial de Comunicações.

Até bem pouco tempo, coisas que imaginávamos apenas através das páginas dos livros e sequer pensávamos possíveis de concretude, hoje são passíveis de realização: viajar além-mar, conhecer lugares e pessoas; interagir com diversas línguas e dialetos; obter informações e confrontar, sadia e sabiamente, diferentes pontos de vista... Enfim, ter e oferecer acessibilidade, partilhar e transitar entre linguagens e culturas.

Bem... eu poderia passar horas destacando as maravilhas da Rede, assim como apontar uma dúzia e meia de prejuízos... Porém, uma das coisas que acho incrível na Internet é a possibilidade de tornar o impossível crível; ou seja, a natureza lúdica que envolve a linguagem virtual, a produção, a circulação e aquisição de saberes.

Segundo Huizinga, o homem é um ser ludens. A linguagem, as artes, a poesia, os ensinamentos, os diversos produtos culturais criados, historicamente, pelos homens, bem como os diferentes papéis sociais, são jogos produzidos na cultura. Todavia, há jogos que arrebatam a alma, pois elevam a ludicidade contida na essência humana, envolvendo os sujeitos numa atmosfera de prazer, extravasamento e plenitude.

Por isso, o jogo, apesar de ser considerado uma “coisa não-séria”, é uma atividade encarada com muita seriedade pelo participante; tendo em vista que uma das características formais do jogo é exatamente a consciência. O jogador tem clareza que essa atividade se distingue das “coisas sérias” da vida “real”; muito embora, vivencie com “liberdade”, “seriedade” e “ordem” essas experiências.

Creio que os princípios apresentados por Huizinga no livro Homo Ludens (2000), são apropriados para refletir o fenômeno de sedução que paira na virtualidade; já que - na Internet - as imagens, metáforas, jogos lingüísticos, máscaras, personas, etc., contribuem para envolver o internauta num misto de magia, fantasia e encantamento, tal qual a sensação produzida no ser do leitor ao apreciar e buscar decifrar a linguagem poética.

Para Huizinga toda expressão abstrata se constitui uma metáfora que é, sobretudo, jogo de palavras. O Homem ao brincar com as palavras distingue, define, constata a natureza das coisas, elevando-as ao domínio do espírito que dá expressão à vida. E, “[...] ao dar expressão à vida, o homem cria um mundo poético, ao lado do da natureza”

A linguagem na Internet também se realiza por um sistema verbal e comporta jogos entre palavras, imagens, sentidos. Pode-se entender que ela seduz e remete o homem ao seu plano espiritual, agindo sob a esfera lúdica de sua constituição.

Particularmente, a linguagem virtual age em minha subjetividade como perdição e achado. "Perdição" porque me sinto atraída pelas palavras, cores, sons, imagens... em um ambiente de fartura estética, de liberdade, evasão e intersubjetividade. "Achado" porque, mesmo em meio a toda essa sedução, estou constantemente renascendo, ampliando conhecimentos e também abrindo portas para outrem. Estou consciente de que as sensações de prazer, extravasamento e reencontro com a minha “infância adormecida” também repercutem simbolicamente sob a minha vida cotidiana, tornando-me um ser humano intelectual, moral e espiritualmente melhor. E isso se deve ao aprendizado onírico, simbólico, estético.

Ler um texto, realizar pesquisas, localizar lugares, interagir com pessoas, etc., tudo isso serve para ampliar a minha visão de mundo e também delimitar modos de ação. Muitas das coisas que consegui realizar ultimamente só foram plausíveis graças à existência da Internet; como, por exemplo, adquirir obras raras de Cecília Meireles no gênero Literatura Infantil.

A minha escrita também tem se aprimorado a partir da boa convivência com poetas, escritores e pesquisadores de vários recantos do Brasil e de Portugal e, com essa interação, o compartilhamento de textos e múltiplas linguagens. O recebimento de e-mails, comentários nos blogs, tópicos nas comunidades ou até mesmo de um scrap no Orkut também contribui para a minha contínua formação. E o melhor de tudo isso é que essa aprendizagem se reveste de um sentido especial, já que acontece em um ambiente de alegria, liberdade e beleza.

Creio que aquilo que estudamos com maior vontade e interesse opera maiores modificações em nosso ser; muitos filósofos acenaram para essa realidade. Por esse motivo, lamento profundamente que alguns internautas usem o meio para prejudicar outros, e, com isso, minimizem as próprias oportunidades de crescimento. A linguagem na virtualidade, para mim, significa ampliação da competência imaginativa; e, a imaginação significa a faculdade de prever possibilidades.

Quando estou realizando uma atividade na Internet, seja pesquisando, escrevendo, comentando textos ou contemplando alguma paisagem difusa de algum artista... sinto-me “perdida-mente-achada” nas linhas [...]



Busco me achar
Nas imagens deformadas.
Busco me perder
Nas tuas veredas perfeitas.

Busco apenas enxergar
A tua face morta na margem.
Posto, sei, é muito tarde
Para qualquer enquadro na trave.

Busco viajar
Entre esferas e esquadros.
Busco suprimir
O que há em nós de extrato.

Busco entrever
Qualquer possibilidade de diálogo.
Busco renascer
Em meio aos perdidos e achados.

Busco qualquer discurso
Seja: quimérico, ilusório, abstrato.

Busco um pôr-do-sol
Que aja em nós
Como punhada de anzol.

Busco trafegar
Entre colunas além-mar.
Busco contemplar
A luz que faz questão de se esconder.

Busco vivificar
Um poema fácil de se ler.
Busco reconhecer
Um idioma para me atar.

Busco uma racionalidade
Fácil de sistematizar.
Busco uma animalidade
Difícil de se desenhar.

Busco um país
Que me pareça sólido, ora triz
Busco um neo-idílico feliz
Com a quimera, as trevas
E a luz néon de um antigo Paris.

Busco simplesmente...
O essencial em Portugal
Compreender o porquê
De nascermos simplesmente
Tão animal e tão desigual
E entender por quê:
- O Bem, às vezes, reveste-se de Mal.

12 de novembro de 2015

Sétima elegia de Fabricio Carpinejar


(...) Cumprias distâncias em mim.
Madrugando não alcançaria.
Venho de tua lonjura, os braços eram remos
no barco e aço da âncora.
Acostumado à extensão das raízes, não sobrevivo no vaso dos pés.
Passei a vida aprendendo a respeitar teu espaço.
Como povoá-lo
após tua partida?

9 de novembro de 2015

"Canção a caminho do Céu" poema de Cecília Meireles - Cantado por Amália Rodrigues com música de Alain Oulman


Foram montanhas? foram mares?

foram os números...? - não sei.
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei

E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? maré brava?
E era por ti!

As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
meu coração.

Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.

Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho, alto e perdido,
- e o encantamento arrependido
do meu amor.

6 de novembro de 2015

Eu sei tudo de você? - por Jorge Forbes


Eu sei tudo de você. Assim resume-se a nova febre que acomete casais desconfiados, craques nas novas tecnologias.

Eu sei tudo de você: olho seu whatsapp, baixo seus e-mails, fuxico seu instagram, bisbilhoto seu facebook. E se der, gravo suas conversas e filmo os seus momentos. Aliás, não controlo só você, mas também seus parceiros, seus filhos, seus pais e seus amigos mais próximos.

Eu sei tudo de você e só sabendo tudo de você é que eu posso confiar e declarar meu amor. Chamo isto de transparência, posso aceitar descompassos, mas quero uma relação transparente, na qual tudo que você souber de você mesmo, eu também sei.

Eu sei tudo de você. Oh, quimera pós-moderna, ilusão dos inseguros. Nada disto pessoinhas antenadas, nada de pensar que sua bisbilhotice vai lhes trazer maior conhecimento a respeito de quem quer que seja. Bons tempos aqueles nos quais as pessoas se envergonhavam de abrir uma gaveta alheia e quando bolsa de mulher e paletó de homem eram intocáveis. Agora, com a desculpa rala de ver uma foto ou de que seu celular estava tocando, os sherloquinhos conectados se permitem a incursões invasivas e indecentes.

Pensam que se a tecnologia está aí então é para ser usada, quando a ética reza o contrário: a existência da possibilidade não autoriza o seu uso.

Ademais, há um erro básico em imaginar que se conhece uma pessoa por colher informações supostamente secretas. Nenhum ser humano é traduzível em palavras, o mais essencial de nós mesmos não tem palavras, nem nunca terá. Nem mesmo a própria pessoa sabe de si, é o que todos os dias verifico nos analisandos. A psicanálise melhora esse conhecimento, mas não tem intenção de extenuá-lo. Aliás, se uma parte do tratamento visa o se conhecer melhor, outra, talvez a mais importante, visa dar condições à pessoa decidir sobre o que não conhece e que nunca conhecerá de si e dos outros.

Espera uma revisão, em nossos tempos, o conceito de traição e de fidelidade. Não nos basta mais nos aferrarmos à velha divisão simplista e maniqueísta, do branco e do preto, do fiel e do infiel. O amor, especialmente na pós-modernidade, não se expressa em nenhuma moral de costumes. Amar é bem mais complexo do que o claro ou escuro. São as nuances que melhor rimam com os romances.

Alguém poderia perguntar por que nestes tempos pós-modernos, continuamos a presenciar crises de ciúmes apaixonadas. Embora pareça contraditório, não é. Exatamente porque vivemos uma época múltipla e flexível é que os ciúmes se acerbam como uma tentativa - falsa, sem dúvida - de acalmar a angústia da escolha.

Voltando, pesquisa recente afirma que 40% dos casos de traição na Itália foram provocados pelo whatsapp. Conclusão: jogar o celular pela janela? É claro que não. Só beneficiaria os fabricantes dos ditos cujos. Melhor jogar pela janela aquela pequeneza humana que não sabe diferenciar o que é da cena, com o que é da obscenidade. Explico: as pessoas acham que além da cena está escondida uma verdade maior, A Verdade maiúscula. Ledo engano, um dos sentidos da palavra “obsceno” é exatamente “além da cena”. Assim, ir além da cena, do que está ali, visível, querer escarafunchar além, para ter mais segurança – como dizem – não trás nenhuma nova verdade. É simplesmente obsceno.