27 de setembro de 2015

Saudades - Mia Couto, em "Raiz de orvalho e outros poemas". Lisboa: Editorial Caminho, 1999.

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trêmula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

2 comentários:

Anônimo disse...

Que surpresa boa! De vez em quando passo por aqui e hoje quando vi esse lindo poema não pude deixar de comentar, adoro a escrita de Mia Couto! Teu blog é bem bacana, parabéns pelo bom gosto nas publicações, músicas e imagens! Boa Semana! Sofia Boechat :)

Elaine Faria disse...

Olá Sofia,
Obrigada pelo comentário e por apreciar meu blog!
Grande abraço! :)