24 de setembro de 2015

Primavera - Cecília Meireles

"Sweet Dreams" by gluhm

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

**Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.

2 comentários:

Anônimo disse...

Querida Elaine, fazer uma postagem celebrando o início da Primavera é ter esperança e saber que os ciclos se cumprem; é o movimento da Natureza que se expande e se expressa, independentemente do que o homem "acha". Mesmo nos momentos de caos ou conflitos mundiais, a Natureza continua sendo e nós, apenas, "estando". Numa das cartas escritas por Rainer Maria Rilke em 23/12/1903, ele enfatiza "... Talvez justamente estes dias de transição sejam o tempo em que tudo no senhor trabalha n'Ele, como outrora, quando criança o senhor n"Ele trabalhou palpitante. Não seja impaciente e mal humorado. Lembre-se de que a menor coisa que podemos fazer consiste em lhe dificultar tão pouco o nascimento quanto a terra dificulta o advento da primavera, quando ela tem de vir." Bj. T (Agradeço por ter me feito refletir em um tempo de tanta inconsistência na web.)

Elaine Faria disse...

T., o texto de Cecília Meireles nos incentiva a sempre ter esperança de que algo é possível mesmo quando há indicações do contrário... e você quando cita a carta de Rainer Maria Rilke reforça a crença de que independente do querer humano a Natureza surpreende e cumpre o seu ciclo.
Obrigada, meu amigo querido!
Suas palavras são sempre um vento a favor!
Um domingo iluminado pra ti!
Grande beijo! : )