8 de abril de 2015

Pássara - por Sergio Napp

O que se leva na alma é o que se carrega pela vida afora. A luz de cada manhã é outra a cada manhã.

É o que sinto ao olhar o azul deste dia aqui em Passa Passa Quatro.

Em algum lugar do mundo descobriram que há um dia mais triste que todos os outros. E se pudéssemos transformá-lo em um dia tão alegre que pareça inverdade?

Minhas divagações se interrompem quando meu sobrinho avisa: Estou grávido!

E desde quando ainda se fazem filhos neste mundo louco?

Depois reflito: cada criança é uma ponte para o amanhã. É quem pode transformar os dias. É a esperança de que nossas cascas se desprendam e possamos ser pessoas melhores.

Abraço meu sobrinho com afeto: Sinto-me feliz, muito feliz.

Esta que se anuncia há de chegar com uma lua tão cheia que não haverá diferença entre a noite e o dia. E a música há de soar pelo horizonte numa cascata de sons.

Esta que chega encontrará tempos confusos. Ásperos. Amargos. Mas ela saberá o que se deve ou não carregar na sacola para se precaver dos perigos.

Saberá o caminho verdadeiro para ensiná-lo aos que se defrontam com o imponderável. Esta que se anuncia deixará um rastro pelo qual a vida se justificará.

Quando ela me visitar em Passa Passa Quatro eu lhe ensinarei a lerdeza das tardes, a maciez das águas do arroio, o majestoso na sombra da figueira. Eu mostrarei a ela a suavidade do espreguiçamento do Dom Luís, o trote maneiroso do Mancha e o vôo descompromissado dos pássaros em busca da noite. Tudo ela guardará em seus olhos de curiosidades e levará em seu coração de encantamentos.

É que os velhos são assim: resguardam as esperanças e as delicadezas. Prezam as lembranças e o futuro. Criam expectativas e carinhos.

Velhos são cacimbas de água fresca aonde as crianças vêm matar a sede nas tardes quentes de verão. Ela virá também, não tenho dúvidas. Eu a tomarei nos braços e hei de contar-lhe histórias. De uma pássara, penas de seda, olhos de luz, trinados de festa. Uma pássara que se fez menina, linda, linda, e veio fazer ninho em nós.

Biografia

Sergio Napp nasceu em Giruá (RS) em 1939. Além de professor e engenheiro, é escritor e compositor, com publicações em Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e Buenos Aires. Também é produtor de shows e discos, com inúmeras premiações como letrista. Premiado em festivais de música no Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro, tem mais de 100 trabalhos gravados por artistas locais, nacionais e internacionais, sendo autor de um dos clássicos do regionalismo gaúcho, Desgarrados, em parceria com Mário Bárbara. Foi editor responsável da Tchê! Editores de Livros. Diretor da Casa de Cultura de 1997 a 1999, voltou à direção da instituição de 2003 a 2007.

Site – www.sergionapp.com

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