30 de abril de 2015

Não aceito metades e não me entrego em pedaços - texto de Karen Curi, em Colunistas

De hoje em diante será dessa forma. Sob as minhas leis e as minhas regras fica decretado que de mim receberão exatamente o que me derem. Na mesma ordem e proporção, com o exato tamanho e ênfase. Aqueles que me presenteiam com amor serão cobertos pelos meus melhores sentimentos. Quem me dedicar o seu tempo e a sua atenção, esteja certo de que ganhará de volta a minha honrada dedicação e disposição. A palavra de ordem agora é: reciprocidade.

Você já reparou como anda esse mundo? A amabilidade perdeu o sentido, virou absolutamente desnecessária e inusual. As gentilezas se tornaram piegas, os favores são nada mais que obrigação de alguém que deve atender prontamente os interesses alheios. A cordialidade sumiu no agito insano da rotina esmagadora da cidade. A gratidão é mecânica, apressada e esquecida assim que vira a esquina. Querem para si sem dar em troca, e assim vão surrupiando um pouco aqui e acolá nas suas ansiosas vontades.

Não, eu não quero isso para mim. Eu quero uma vida inteira com os meus semelhantes, pessoas que me agreguem e não que me roubem de mim. Não faço questão de muito. A quantidade não me preenche. A qualidade me basta. É isso. Eu quero pessoas que somem com suas modestas atitudes sinceras, com a singeleza dos gestos legítimos, a confiança da mão estendida e do olhar afável. Eu busco a humildade dos aprendizes e a experiência dos sábios. Quem tenha tempo para me ouvir e também para me aconselhar. Alguém que se preocupe realmente comigo e com os meus, que esteja ao meu lado nas vitórias e nas derrotas, e quando nada puder fazer para me tirar do abismo, que se sente ao meu lado, me abrace e me faça companhia.

Talvez a simplicidade do que eu busco e admiro seja complexa demais aos olhos da superficialidade. Enquanto para mim esse é o maior tesouro, para os outros não faz o menor sentido. O mundo está cheio de pessoas querendo para si sem dar nada em troca, impondo que as suas vontades sejam feitas, que os outros sirvam prontamente e que eles próprios se sirvam quando queiram.

Não, não me faça perder o meu tempo, que já é pouco, com pessoas que só querem sugar o que eu tenho de luminoso e bonito, extorquindo sorrateiramente da minha prateleira tudo o que sou e que me pertence. Não roube nada de mim, por favor. Me peça. Seja honesto comigo e eu te darei o meu mundo. Não me engane. Não me ludibrie. Não me faça de tonta. Se quer um bocado do meu amor, me regale um pedaço do seu. Ou a gente troca, ou nada feito.

Pronto. Assim seremos verdadeiros e confiantes uns com os outros. Coloquemos sobre a mesa o que podemos dar, o que buscamos para nos complementar, e que a reciprocidade reja a ordem — ou desordem da vida.

Quem aceita o pouco passivamente se afilia à mediocridade, se acostuma a receber menos ou absolutamente nada em troca. E as relações são feitas disso, de intercâmbio, de uma via de mão dupla entre ações e reações, entregas e recompensas. Aquele que não queira doar, que se recolha à sua suposta suficiência e não exija do outro o que não se dá.

Atenção aos ladrões de utilidades, que nos roubam quando somos de alguma serventia. De hoje em diante permanece o amor, a amizade e a dedicação como moeda de troca. Aqui, nesta casa, só entra quem for convidado.

25 de abril de 2015

O homem que contempla - poema de Rainer Maria Rilke [1875-1926], in “O Livro das Imagens”, (tradução de Maria João Costa Pereira)


Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.
E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.
Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.
Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.
Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta,
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Nascido em Praga, que então fazia parte do império austro-húngaro, Rilke teve uma infância difícil e traumática, marcada pela separação dos pais e pelo suicídio de um irmão.

Estudou Literatura e História da Arte nas Universidades de Praga, Munique e Berlim. Em 1894, aos 19 anos, publicou poemas de amor intitulados "Vida e Canções".

Em 1897, Rilke conheceu Lou Andreas-Salomé, escritora russa que depois se tornaria psicanalista. Com Lou Salomé, conhecida como uma mulher sedutora e bem relacionada, em 1899, viajou pela Rússia, impressionando-se com suas paisagens. No ano seguinte, escreveu "Histórias do Bom Deus".

No começo do século 20, Rilke afastou-se do simbolismo francês e passou a escrever em um estilo mais realista. Publicou "O livro das Imagens" (1902) e a série de versos "O livro das Horas" (1905).

Em Paris, em 1901, Rilke se casou com Clara Westhoff, uma discípula do famoso escultor francês Rodin, com quem teve uma filha. O casamento durou apenas um ano. Entre 1905 e 1906 o escritor trabalhou como secretário de Rodin, que exerceu grande influência sobre os seus poemas.

"Os Cadernos de Malte Laurids Brigge" foram escritos em 1910 e são considerados pela crítica como sua obra em prosa mais importante.

De 1910 a 1912, Rilke viveu no castelo de Duíno, na região de Trieste, como convidado da princesa Maria Von Thurn und Taxis. Lá escreveu os poemas que formam "A Vida de Maria" (1913). Lá também começou a escrever "Elegias de Duíno", que foram publicadas em 1923.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Rilke permaneceu em Munique. Depois de realizar uma viagem pelos países mediterrâneos, estabeleceu-na Suíça, onde faleceu em 1926.

21 de abril de 2015

Ela canta, pobre ceifeira - Poema de Fernando Pessoa, in "Athena", n.º 3, Lisboa, Dezembro/1924

Pintura de Julien Dupre (1887)
Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões para cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

16 de abril de 2015

Espero um amor por Cáh Morandi


Não espero um amor que me complete. Sou inteira em mim. Espero um amor que me ajude a olhar para as coisas que não consegui por limitar a retina. Espero um amor que entre em minha casa, abra as cortinas, mude meus móveis e me faça habitar em minhas raízes produzindo outros frutos. Espero um amor que me apresse em minha demora em levantar aos domingos e que me desacelere para dormir durante a semana. Espero um amor que não mude minha crença, mas que aumente minha fé. Espero um amor que contradiga os ditados, a rotina, os limites. Espero um amor que não me compre livros, mas que escreva comigo, em vida, uma poesia sem ser decorada. Espero um amor que não me queira rasa e comum, mas que ajude a cavar em mim o que tenho receio de conhecer. Espero um amor que me traga perigo e frio na barriga, que me dê o nervosismo de quem ainda está se apaixonando. Espero um amor que não prometa envelhecer ao meu lado, mas de sermos jovens até o fim das nossas vidas. Espero um amor que não me prive da liberdade de ficar em silêncio. Espero um amor que me irrite, me torture, me tire do sério para que eu não seja sempre um mar sem ondas. Espero um amor que me admire por tudo que sou e por tudo que não escolhi ser. Espero um amor que não me ensine o caminho do destino, mas que me diga que é possível desaprender o que esperam de nós. Espero um amor que me ajude a construir a felicidade, mas que também me faça doar os ombros para as tristezas. Espero um amor que ame minha inutilidade, meu cansaço, meus desastres, meus fracassos, minhas angustias – alguém que respeite o que em mim não é bom, produtivo, admirável ou útil. Espero um amor que tenha gosto por viagens, mas que saiba voltar. Espero um amor que perde o horário, que demore para ler o cardápio, que respeite as pessoas não só pelos seus nomes. Espero um amor que tenha demora em me despir e memória para me vestir. Espero um amor que saiba meu tempo e não me diga para apressar ou demorar os passos. Espero um amor que saiba o valor dos filhos que teremos ou não. Espero um amor que honre seus pais, que sente falta dos seus avós. Espero um amor que conte suas diversas histórias com o entusiasmo de quem tem uma novidade escondida no bolso. Espero um amor que respeite o caminho que percorri, que não faça descaso da minha dor. Espero um amor que leia os jornais para mim e diga que será um dia de sol sem consultar a previsão. Espero um amor que deite ao meu lado, que envolva seus braços sobre mim e que saiba embalar até adormecer os medos que não conto. Espero um amor que me dê um novo sobrenome. Não espero um amor que me complete, mas que me estenda.

11 de abril de 2015

Mario Quintana - Fragmento


"O amor é isso. Não prende, não aperta, não sufoca. 
Porque quando vira nó, já deixou de ser laço." 

8 de abril de 2015

Pássara - por Sergio Napp

O que se leva na alma é o que se carrega pela vida afora. A luz de cada manhã é outra a cada manhã.

É o que sinto ao olhar o azul deste dia aqui em Passa Passa Quatro.

Em algum lugar do mundo descobriram que há um dia mais triste que todos os outros. E se pudéssemos transformá-lo em um dia tão alegre que pareça inverdade?

Minhas divagações se interrompem quando meu sobrinho avisa: Estou grávido!

E desde quando ainda se fazem filhos neste mundo louco?

Depois reflito: cada criança é uma ponte para o amanhã. É quem pode transformar os dias. É a esperança de que nossas cascas se desprendam e possamos ser pessoas melhores.

Abraço meu sobrinho com afeto: Sinto-me feliz, muito feliz.

Esta que se anuncia há de chegar com uma lua tão cheia que não haverá diferença entre a noite e o dia. E a música há de soar pelo horizonte numa cascata de sons.

Esta que chega encontrará tempos confusos. Ásperos. Amargos. Mas ela saberá o que se deve ou não carregar na sacola para se precaver dos perigos.

Saberá o caminho verdadeiro para ensiná-lo aos que se defrontam com o imponderável. Esta que se anuncia deixará um rastro pelo qual a vida se justificará.

Quando ela me visitar em Passa Passa Quatro eu lhe ensinarei a lerdeza das tardes, a maciez das águas do arroio, o majestoso na sombra da figueira. Eu mostrarei a ela a suavidade do espreguiçamento do Dom Luís, o trote maneiroso do Mancha e o vôo descompromissado dos pássaros em busca da noite. Tudo ela guardará em seus olhos de curiosidades e levará em seu coração de encantamentos.

É que os velhos são assim: resguardam as esperanças e as delicadezas. Prezam as lembranças e o futuro. Criam expectativas e carinhos.

Velhos são cacimbas de água fresca aonde as crianças vêm matar a sede nas tardes quentes de verão. Ela virá também, não tenho dúvidas. Eu a tomarei nos braços e hei de contar-lhe histórias. De uma pássara, penas de seda, olhos de luz, trinados de festa. Uma pássara que se fez menina, linda, linda, e veio fazer ninho em nós.

Biografia

Sergio Napp nasceu em Giruá (RS) em 1939. Além de professor e engenheiro, é escritor e compositor, com publicações em Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e Buenos Aires. Também é produtor de shows e discos, com inúmeras premiações como letrista. Premiado em festivais de música no Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro, tem mais de 100 trabalhos gravados por artistas locais, nacionais e internacionais, sendo autor de um dos clássicos do regionalismo gaúcho, Desgarrados, em parceria com Mário Bárbara. Foi editor responsável da Tchê! Editores de Livros. Diretor da Casa de Cultura de 1997 a 1999, voltou à direção da instituição de 2003 a 2007.

Site – www.sergionapp.com