26 de dezembro de 2015

Osho - Perigo Para Sociedade - Osho - Danger To Society

Nenhuma sociedade quer que você seja sábio
Isso vai contra todos os fundamentos de todas as sociedades
Se as pessoas se tornam sábias, não podem ser exploradas
Se elas são inteligentes, não podem ser subjugadas
Não podem ser forçadas a viver uma vida “mecânica”,
Vivendo como “robôs”.
Elas buscarão ...
Elas buscarão sua individualidade,
Elas terão a fragrância da rebelião ao seu redor...
Elas amarão viver em liberdade
Liberdade vem com conhecimento
E nenhuma sociedade quer que as pessoas seja livres.
A sociedade comunista,
A sociedade facista,
A sociedade capitalista,
A hindu,
A muçulmana,
A cristã,
Nenhuma sociedade.
Porque no momento que começarem a usar a inteligência,
Se tornam perigosos.
Perigosos para o “sistema”,
Perigosos para as pessoas que estão no poder,
Perigosos para os “especialistas”,
Perigosos para qualquer tipo de opressão, exploração e repressão.
Perigosos para as igrejas,
Perigosos para os “estados”,
Perigosos para as nações...
Na verdade, um homem com conhecimento é um fogo vivo
Uma chama.
Mas ele não pode “vender” sua vida,
Ele não pode servir a ninguém,
Ele prefere morrer, do que ser “escravizado”.
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No society wants you to be wise
This goes against all the fundamentals of all societies
If people become wise, can not be exploited
If they are smart, they can not be subdued
Can not be forced to live a "mechanical" life,
Living like "robots".
They seek ...
They seek their individuality,
They will have the scent of rebellion around ...
They will love to live in freedom
Freedom comes with knowledge
And no company wants people to be free.
Communist society,
The fascist society,
Capitalist society,
The Hindu
The Muslim
The Christian,
No society.
Because the moment you start using the intelligence,
Become dangerous.
Dangerous to the "system",
Dangerous for people who are in power,
Dangerous to the "experts",
Dangerous for any kind of oppression, exploitation and repression.
Dangerous to the churches,
Dangerous to the "states",
Dangerous to the nations ...
In fact, a man with knowledge is a living fire
A flame.
But he can not "sell" your life,
He can not serve anyone
He would rather die than be "enslaved".


“Sempre permaneça aventureiro.
Por nenhum momento se esqueça de que
a vida pertence aos que investigam.
Ela não pertence ao estático;
Ela pertence ao que flui.
Nunca se torne um reservatório,
sempre permaneça um rio.”
Osho

20 de dezembro de 2015

Bendito Seja O Mesmo Sol (12-03-1914) - por Alberto Caeiro (Heterónimo de Fernando Pessoa), em "O Guardador De Rebanhos"


Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu,
E nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o não adorava.
Porque isso é natural – mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E a arte e a moral...

16 de dezembro de 2015

Better Days by Eddie Vedder

I feel part of the universe open up to meet me
My emotion so submerged broken down to kneeling
What's listening?
Voices they care

Had to somehow greet myself
Greet myself
Heard vibrations within my cells
In my cells

Singin' laa

My love is saved for the universe
See me now I'm bursting
On one planet so many turns
Different worlds

Singin' laa

Fill my heart with discipline
Put there for the teaching
In my head see clouds of stairs
Help me as I'm reaching

The future's paved
With better days

Night runnin'
From something
I'm running towards the day
Wide awake

All whispered
Once quiet
Now rising to a scream
Right in me

I'm fallin'
Free fallin'
World's calling me
Up off my knees

Oh, I'm soaring
Yeah, and darling
You'll be the one that I can need
And still be free

Our future's paved with better days


1 de dezembro de 2015

Rilke on the Difficulty of Love - Rainer Maria Rilke, in Letters to a Young Poet (Roma, 14 de maio de 1904)


"To love is good, too: love being difficult. For one human being to love another: that is perhaps the most difficult of all our tasks, the ultimate, the last test and proof, the work for which all other work is but preparation. For this reason young people, who are beginners in everything, cannot yet know love: they have to learn it. With their whole being, with all their forces, gathered close about their lonely, timid, upward-beating heart, they must learn to love. But learning-time is always a long, secluded time, and so loving, for a long while ahead and far on into life, is-solitude, intensified and deepened loneness for him who loves. Love is at first not anything that means merging, giving over, and uniting with another (for what would a union be of something unclarified and unfinished, still subordinate-?), It is a high inducement to the individual to ripen, to become something in himself, to become world for himself for another's sake, it is a great exacting claim upon him, something that chooses him out and calls him to vast things. Only in this sense, as the task of working at themselves ("to hearken and to hammer day and night", might young people use the love that is given them. Merging and surrendering and every kind of communion is not for them (who must save and gather for a long, long time still), is the ultimate, is perhaps that for which human lives as yet scarcely suffice."

30 de novembro de 2015

Rota de Colisão por Marina Colasanti - In: COLASANTI, Marina. Rota de colisão. Rio de Janeiro: Rocco, 1993


De quem é essa pele
que cobre a minha mão
como uma luva?
Que vento é este
que sopra sem soprar
encrespando a sensível superfície?
Por fora a alheia casca
dentro a polpa
e a distância entre as duas
que me atropela.
Pensei entrar na velhice
por inteiro
como um barco
ou um cavalo.
Mas me surpreendo
jovem velha e madura
ao mesmo tempo.
E ainda aprendo a viver
enquanto avanço
na rota em cujo fim
a vida
colide com a morte.

25 de novembro de 2015

Mia Couto - poemas


A demora

O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

(Mia Couto, em "Idades cidades divindades". Lisboa: Editorial Caminho, 2007)
********

Amei-te sem saberes

No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu imperceptível crescer
como carne da lua
nos nocturnos lábios entreabertos

E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas

a espera do silêncio

(Mia Couto, em "Raiz de Orvalho e outros poemas". Lisboa: Editorial Caminho, 1999)
*******
As ruas

No tempo
em que havia ruas,
ao fim da tarde
minha mãe nos convocava:
era a hora do regresso.
E a rua entrava
connosco em casa.
Tanto o Tempo
morava em nós
que dispensávamos futuro.
Recolhida em meu quarto,
a cidade adormecia
no mesmo embalo da nossa mãe.
À entrada da cama,
eu sacudia a areia dos sonhos
e despertava vidas além.
Entre casa e mundo
nenhuma porta cabia:
que fechadura encerra
os dois lados do infinito?

(Mia Couto, em “Tradutor de chuvas”. Lisboa: Editorial Caminho, 2011)
*******

Autobiografia

Onde eu nasci
há mais terra que céu.

Tanto leito é uma bênção
para mortos e sonhadores.

E de tão pouco ser o céu
nasce o sol
em gretas nos nossos pés
e os corações se apertam
quando remoinhos de poeira
se elevam nos telhados.

As mães
espanam o teto
e poeiras de astros
cobrem o soalho.

De tão raso o firmamento,
a chuva tropeça nas copas
enquanto nuvens
se engravidam de rios.

Com tanta escassez de céu
não há encosto
nem para a mais minguante lua
e os meninos,
na ponta dos dedos,
ascendem estrelas.

Pois,
nessa terra
que é tanta para tão pouco céu,
calhou-me a mim ser ave.

Pequenas que são,
as minhas asas parecem-me enormes.

Envergando,
escondo-as dos olhares vizinhos.

Nas minhas costas
pesam
versos e plumas.

Voarei,
um dia,
sem saber
se é de terra ou de céu
a pegada do voo que sonhei.

(Mia Couto, em "Vagas e lumes". Lisboa: Editorial Caminho, 2014)
*******

Beber toda a ternura

Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces

(Mia Couto, em "Raiz de orvalho e outros poemas". Lisboa: Editorial Caminho, 1999)
*******

Beijo

Não quero o primeiro beijo:
basta-me
o instante antes do beijo.

Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.

O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.

Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.

(Mia Couto, em “Tradutor de chuvas”. Lisboa: Editorial Caminho, 2011)
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“Sou escritor e cientista. Vejo as duas actividades, a escrita e a ciência, como sendo vizinhas e complementares. A ciência vive da inquietação, do desejo de conhecer para além dos limites. A escrita é uma falsa quietude, a capacidade de sentir sem limites. Ambas resultam da recusa das fronteiras, ambas são um passo sonhado para lá do horizonte. A Biologia para mim não é apenas uma disciplina científica mas uma história de encantar, a história da mais antiga epopeia que é a Vida. É isso que eu peço à Ciência: que me faça apaixonar. É o mesmo que eu peço à literatura.”

“[...] a escrita não é uma técnica e não se constrói um poema ou um conto como se faz uma operação aritmética. A escrita exige sempre a poesia. E a poesia é um outro modo de pensar que está para além da lógica que a escola e o mundo moderno nos ensinam. Sem a arrogância de as tentarmos entender. Apenas com a ilusória tentativa de nos tornarmos irmãos do universo.”

“O segredo do escritor é anterior à escrita. Está na vida, na forma como ele está disponível a deixar-se tomar pelos pequenos detalhes do cotidiano.”

"Na ciência (como em outras actividades) o mais importante não é o que chamamos científico. É o lado humano. Criou-se a ideia de que o cientista é isento de erro, uma espécie de ser privilegiado que apenas trilha pelos atalhos do rigor e da exactidão. Essa aversão pelo erro é o mais grave dos erros. È tão vital errarmos como acertarmos. Devemos afastar o medo de errar. Devemos o gosto por experimentar, mesmo cometendo falhas. A natureza foi evoluindo graças ao erro básico que é a mutação. Se os genes nunca falhassem não haveria a diversidade necessária para a continuidade da Vida. Os processos vitais exigem, ao mesmo tempo, o rigor e o erro. Não podemos ter medo de não saber. O que devemos recear é o não termos inquietação para passarmos a saber.”

“O que pode suscitar uma pequena história é quanto por trás do cientista reside um homem, com suas ignorâncias, suas incertezas e suas crenças tantas vezes muito pouco científicas.”

“Só se escreve com intensidade se vivermos intensamente. Não se trata apenas de viver sentimentos mas de ser vivido por sentimentos.”

“Há quem acredite que a ciência é um instrumento para governarmos o mundo. Mas eu periferia ver no conhecimento científico um meio para alcançarmos não domínios mas harmonias. Criarmos linguagens de partilhas com os outros, incluindo os seres que acreditamos não terem linguagem. Entendermos e partilharmos a língua das árvores, os silenciosos códigos das pedras e dos astros.
Conhecermos não para sermos donos. Mas para sermos mais companheiros das criaturas vivas e não vivas com quem partilhamos este universo. Para escutarmos histórias que nos são, em todo momento, contadas por essas criaturas.”

15 de novembro de 2015

Liberdade, Evasão e Consciência na Virtualidade... Por Hercilia Fernandes


“A Internet facilita a informação, minimiza fronteiras, permite a troca de experiências, saberes, poéticas”...

A frase acima, tanto quanto panfletária, parece estabelecer um consenso sobre o meio de comunicação virtual. Isso porque, grosso modo, a possibilidade de acesso, interação e aprendizado, sem dúvida, é uma das maiores conquistas da humanidade, na chamada Era Virtual, com a Rede Mundial de Comunicações.

Até bem pouco tempo, coisas que imaginávamos apenas através das páginas dos livros e sequer pensávamos possíveis de concretude, hoje são passíveis de realização: viajar além-mar, conhecer lugares e pessoas; interagir com diversas línguas e dialetos; obter informações e confrontar, sadia e sabiamente, diferentes pontos de vista... Enfim, ter e oferecer acessibilidade, partilhar e transitar entre linguagens e culturas.

Bem... eu poderia passar horas destacando as maravilhas da Rede, assim como apontar uma dúzia e meia de prejuízos... Porém, uma das coisas que acho incrível na Internet é a possibilidade de tornar o impossível crível; ou seja, a natureza lúdica que envolve a linguagem virtual, a produção, a circulação e aquisição de saberes.

Segundo Huizinga, o homem é um ser ludens. A linguagem, as artes, a poesia, os ensinamentos, os diversos produtos culturais criados, historicamente, pelos homens, bem como os diferentes papéis sociais, são jogos produzidos na cultura. Todavia, há jogos que arrebatam a alma, pois elevam a ludicidade contida na essência humana, envolvendo os sujeitos numa atmosfera de prazer, extravasamento e plenitude.

Por isso, o jogo, apesar de ser considerado uma “coisa não-séria”, é uma atividade encarada com muita seriedade pelo participante; tendo em vista que uma das características formais do jogo é exatamente a consciência. O jogador tem clareza que essa atividade se distingue das “coisas sérias” da vida “real”; muito embora, vivencie com “liberdade”, “seriedade” e “ordem” essas experiências.

Creio que os princípios apresentados por Huizinga no livro Homo Ludens (2000), são apropriados para refletir o fenômeno de sedução que paira na virtualidade; já que - na Internet - as imagens, metáforas, jogos lingüísticos, máscaras, personas, etc., contribuem para envolver o internauta num misto de magia, fantasia e encantamento, tal qual a sensação produzida no ser do leitor ao apreciar e buscar decifrar a linguagem poética.

Para Huizinga toda expressão abstrata se constitui uma metáfora que é, sobretudo, jogo de palavras. O Homem ao brincar com as palavras distingue, define, constata a natureza das coisas, elevando-as ao domínio do espírito que dá expressão à vida. E, “[...] ao dar expressão à vida, o homem cria um mundo poético, ao lado do da natureza”

A linguagem na Internet também se realiza por um sistema verbal e comporta jogos entre palavras, imagens, sentidos. Pode-se entender que ela seduz e remete o homem ao seu plano espiritual, agindo sob a esfera lúdica de sua constituição.

Particularmente, a linguagem virtual age em minha subjetividade como perdição e achado. "Perdição" porque me sinto atraída pelas palavras, cores, sons, imagens... em um ambiente de fartura estética, de liberdade, evasão e intersubjetividade. "Achado" porque, mesmo em meio a toda essa sedução, estou constantemente renascendo, ampliando conhecimentos e também abrindo portas para outrem. Estou consciente de que as sensações de prazer, extravasamento e reencontro com a minha “infância adormecida” também repercutem simbolicamente sob a minha vida cotidiana, tornando-me um ser humano intelectual, moral e espiritualmente melhor. E isso se deve ao aprendizado onírico, simbólico, estético.

Ler um texto, realizar pesquisas, localizar lugares, interagir com pessoas, etc., tudo isso serve para ampliar a minha visão de mundo e também delimitar modos de ação. Muitas das coisas que consegui realizar ultimamente só foram plausíveis graças à existência da Internet; como, por exemplo, adquirir obras raras de Cecília Meireles no gênero Literatura Infantil.

A minha escrita também tem se aprimorado a partir da boa convivência com poetas, escritores e pesquisadores de vários recantos do Brasil e de Portugal e, com essa interação, o compartilhamento de textos e múltiplas linguagens. O recebimento de e-mails, comentários nos blogs, tópicos nas comunidades ou até mesmo de um scrap no Orkut também contribui para a minha contínua formação. E o melhor de tudo isso é que essa aprendizagem se reveste de um sentido especial, já que acontece em um ambiente de alegria, liberdade e beleza.

Creio que aquilo que estudamos com maior vontade e interesse opera maiores modificações em nosso ser; muitos filósofos acenaram para essa realidade. Por esse motivo, lamento profundamente que alguns internautas usem o meio para prejudicar outros, e, com isso, minimizem as próprias oportunidades de crescimento. A linguagem na virtualidade, para mim, significa ampliação da competência imaginativa; e, a imaginação significa a faculdade de prever possibilidades.

Quando estou realizando uma atividade na Internet, seja pesquisando, escrevendo, comentando textos ou contemplando alguma paisagem difusa de algum artista... sinto-me “perdida-mente-achada” nas linhas [...]



Busco me achar
Nas imagens deformadas.
Busco me perder
Nas tuas veredas perfeitas.

Busco apenas enxergar
A tua face morta na margem.
Posto, sei, é muito tarde
Para qualquer enquadro na trave.

Busco viajar
Entre esferas e esquadros.
Busco suprimir
O que há em nós de extrato.

Busco entrever
Qualquer possibilidade de diálogo.
Busco renascer
Em meio aos perdidos e achados.

Busco qualquer discurso
Seja: quimérico, ilusório, abstrato.

Busco um pôr-do-sol
Que aja em nós
Como punhada de anzol.

Busco trafegar
Entre colunas além-mar.
Busco contemplar
A luz que faz questão de se esconder.

Busco vivificar
Um poema fácil de se ler.
Busco reconhecer
Um idioma para me atar.

Busco uma racionalidade
Fácil de sistematizar.
Busco uma animalidade
Difícil de se desenhar.

Busco um país
Que me pareça sólido, ora triz
Busco um neo-idílico feliz
Com a quimera, as trevas
E a luz néon de um antigo Paris.

Busco simplesmente...
O essencial em Portugal
Compreender o porquê
De nascermos simplesmente
Tão animal e tão desigual
E entender por quê:
- O Bem, às vezes, reveste-se de Mal.

12 de novembro de 2015

Sétima elegia de Fabricio Carpinejar


(...) Cumprias distâncias em mim.
Madrugando não alcançaria.
Venho de tua lonjura, os braços eram remos
no barco e aço da âncora.
Acostumado à extensão das raízes, não sobrevivo no vaso dos pés.
Passei a vida aprendendo a respeitar teu espaço.
Como povoá-lo
após tua partida?

9 de novembro de 2015

"Canção a caminho do Céu" poema de Cecília Meireles - Cantado por Amália Rodrigues com música de Alain Oulman


Foram montanhas? foram mares?

foram os números...? - não sei.
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei

E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? maré brava?
E era por ti!

As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
meu coração.

Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.

Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho, alto e perdido,
- e o encantamento arrependido
do meu amor.

6 de novembro de 2015

Eu sei tudo de você? - por Jorge Forbes


Eu sei tudo de você. Assim resume-se a nova febre que acomete casais desconfiados, craques nas novas tecnologias.

Eu sei tudo de você: olho seu whatsapp, baixo seus e-mails, fuxico seu instagram, bisbilhoto seu facebook. E se der, gravo suas conversas e filmo os seus momentos. Aliás, não controlo só você, mas também seus parceiros, seus filhos, seus pais e seus amigos mais próximos.

Eu sei tudo de você e só sabendo tudo de você é que eu posso confiar e declarar meu amor. Chamo isto de transparência, posso aceitar descompassos, mas quero uma relação transparente, na qual tudo que você souber de você mesmo, eu também sei.

Eu sei tudo de você. Oh, quimera pós-moderna, ilusão dos inseguros. Nada disto pessoinhas antenadas, nada de pensar que sua bisbilhotice vai lhes trazer maior conhecimento a respeito de quem quer que seja. Bons tempos aqueles nos quais as pessoas se envergonhavam de abrir uma gaveta alheia e quando bolsa de mulher e paletó de homem eram intocáveis. Agora, com a desculpa rala de ver uma foto ou de que seu celular estava tocando, os sherloquinhos conectados se permitem a incursões invasivas e indecentes.

Pensam que se a tecnologia está aí então é para ser usada, quando a ética reza o contrário: a existência da possibilidade não autoriza o seu uso.

Ademais, há um erro básico em imaginar que se conhece uma pessoa por colher informações supostamente secretas. Nenhum ser humano é traduzível em palavras, o mais essencial de nós mesmos não tem palavras, nem nunca terá. Nem mesmo a própria pessoa sabe de si, é o que todos os dias verifico nos analisandos. A psicanálise melhora esse conhecimento, mas não tem intenção de extenuá-lo. Aliás, se uma parte do tratamento visa o se conhecer melhor, outra, talvez a mais importante, visa dar condições à pessoa decidir sobre o que não conhece e que nunca conhecerá de si e dos outros.

Espera uma revisão, em nossos tempos, o conceito de traição e de fidelidade. Não nos basta mais nos aferrarmos à velha divisão simplista e maniqueísta, do branco e do preto, do fiel e do infiel. O amor, especialmente na pós-modernidade, não se expressa em nenhuma moral de costumes. Amar é bem mais complexo do que o claro ou escuro. São as nuances que melhor rimam com os romances.

Alguém poderia perguntar por que nestes tempos pós-modernos, continuamos a presenciar crises de ciúmes apaixonadas. Embora pareça contraditório, não é. Exatamente porque vivemos uma época múltipla e flexível é que os ciúmes se acerbam como uma tentativa - falsa, sem dúvida - de acalmar a angústia da escolha.

Voltando, pesquisa recente afirma que 40% dos casos de traição na Itália foram provocados pelo whatsapp. Conclusão: jogar o celular pela janela? É claro que não. Só beneficiaria os fabricantes dos ditos cujos. Melhor jogar pela janela aquela pequeneza humana que não sabe diferenciar o que é da cena, com o que é da obscenidade. Explico: as pessoas acham que além da cena está escondida uma verdade maior, A Verdade maiúscula. Ledo engano, um dos sentidos da palavra “obsceno” é exatamente “além da cena”. Assim, ir além da cena, do que está ali, visível, querer escarafunchar além, para ter mais segurança – como dizem – não trás nenhuma nova verdade. É simplesmente obsceno.

29 de outubro de 2015

"La Belle Dame Sans Merci" - John Keats (1795–1821), in The Poetical Works of John Keats (1884)

I.

O WHAT can ail thee, knight-at-arms,
Alone and palely loitering?
The sedge has wither’d from the lake,
And no birds sing.

II.

O what can ail thee, knight-at-arms!
So haggard and so woe-begone?
The squirrel’s granary is full,
And the harvest’s done.

III.

I see a lily on thy brow
With anguish moist and fever dew,
And on thy cheeks a fading rose
Fast withereth too.

IV.

I met a lady in the meads,
Full beautiful—a faery’s child,
Her hair was long, her foot was light,
And her eyes were wild.

V.

I made a garland for her head,
And bracelets too, and fragrant zone;
She look’d at me as she did love,
And made sweet moan.

VI.

I set her on my pacing steed,
And nothing else saw all day long,
For sidelong would she bend, and sing
A faery’s song.

VII.

She found me roots of relish sweet,
And honey wild, and manna dew,
And sure in language strange she said—
“I love thee true.”

VIII.

She took me to her elfin grot,
And there she wept, and sigh’d fill sore,
And there I shut her wild wild eyes
With kisses four.

IX.

And there she lulled me asleep,
And there I dream’d—Ah! woe betide!
The latest dream I ever dream’d
On the cold hill’s side.

X.

I saw pale kings and princes too,
Pale warriors, death-pale were they all;
They cried—“La Belle Dame sans Merci
Hath thee in thrall!”

XI.

I saw their starved lips in the gloam,
With horrid warning gaped wide,
And I awoke and found me here,
On the cold hill’s side.

XII.

And this is why I sojourn here,
Alone and palely loitering,
Though the sedge is wither’d from the lake,
And no birds sing.

*************

A Bela Dama Sem Piedade

Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas,
Sozinho, pálido e vagarosamente passando?
As sebes tem secado às margens do lago,
E nenhum pássaro canta.

Oh! O que pode estar perturbando você, Cavaleiro em armas?
Sua face mostra sofrimento e dor.
A toca do esquilo está farta,
E a colheita está feita.

Eu vejo uma flor em sua fronte,
Úmida de angústia e de febril orvalho,
E em sua face uma rosa sem brilho e frescor
Rapidamente desvanecendo também.

Eu encontrei uma dama nos campos,
Tão linda… uma jovem fada,
Seu cabelo era longo e seus passos tão leves,
E selvagens eram seus olhos.

Eu fiz uma guirlanda para sua cabeça,
E braceletes também, e perfumes em volta;
Ela olhou para mim como se amasse,
E suspirou docemente.

Eu a coloquei sobre meu cavalo e segui,
E nada mais vi durante todo o dia,
Pelos caminhos ela me abraçou, e cantava
Uma canção de fadas.

Ela encontrou para mim raízes de doce alívio,
mel selvagem e orvalho da manhã,
E em uma estranha linguagem ela disse…
“Verdadeiramente eu te amo.”

Ela me levou para sua caverna de fada,
E lá ela chorou e soluçou dolorosamente,
E lá eu fechei seus selvagens olhos
Com quatro beijos.

Ela cantou docemente para que eu dormisse
E lá eu sonhei… Ah! tão sofridamente!
O último dos sonhos que eu sempre sonhei
Nesta fria borda da colina.

Eu vi pálidos reis e também príncipes,
Pálidos guerreiros, de uma mortal palidez todos eles eram;
Eles gritaram… ”A Bela Dama sem Piedade
Tem você escravizado!”

Eu vi seus lábios famintos e sombrios,
Abertos em horríveis avisos,
E eu acordei e me encontrei aqui,
Nesta fria borda da colina.

E este é o motivo pelo qual permaneço aqui
Sozinho e vagarosamente passando,
Descuidadamente através das sebes às margens do lago,
E nenhum pássaro canta.

(John Keats – tradução de Izabella Drumond)

*************

John Keats (1795-1821) foi poeta inglês. Considerado um dos maiores nomes da segunda geração romântica na Inglaterra.

John Keats (1795-1821) nasceu em Moorgate, Londres, Inglaterra, no dia 31 de outubro de 1795. Filho de Frances Jennings e Keats Thomas, fica órfão ainda criança e passa a ser criado por um tutor. Kates e os três irmãos mudam-se para Hampstead. Keats estuda com o cirurgião Dr. Hammond e durante cinco anos trabalha como aprendiz de cirurgião.

Em pouco tempo de vida escreveu obras muito importantes. Escreveu os mais belos poemas da língua inglesa, entre eles "La Belle Dame Sans Merci", "Ode to a Nightingale" e "Ode a uma Urna Grega". Sua obra divide-se entre as frequentes referências à morte e um intenso sentimento de prazer com a vida. É influenciado pelos poetas gregos do período helênico como Homero, bem como pelos poetas ingleses do século XVI, que persegue a perfeição estética.

Sua poesia é marcada pelo sentimentalismo romântico, por imagens vibrantes, de grande apelo sensual, e pela expressão de aspectos da Filosofia Clássica. Em 1814, retorna para Londres, onde trabalha como assistente de cirurgia em dois hospitais. A partir de 1817, decide abandonar a Medicina e dedicar-se inteiramente à poesia. No mesmo ano publica seu primeiro livro "Poemas", marcado por concepções ultra-românticas, mas não faz sucesso.

Em 1818, lança "Endymion" e inicia a produção de seu mais longo poema, "Hyperion", que não chega a concluir devido aos primeiros sinais da tuberculose. Não obtém reconhecimento em vida, sendo cultuado apenas após sua morte.

John Keats, morre ao 25 anos de tuberculose, em Roma, Itália, no dia 23 de fevereiro de 1821.

26 de outubro de 2015

Na praia, sozinho, à noite, por Walt Whitman (1819-1892), em À Deriva do Mar


Na praia, sozinho, à noite,
Quando a velha mãe balança para a frente e para trás,
[entoando sua canção vigorosa,
Quando assisto à brilhante estrela que cintila,
[reflito sobre a chave dos universos e sobre o futuro.

Uma vasta similitude engrena todas as coisas,
Todas as esferas, as desenvolvidas, as mirradas, as pequenas,
[as grandes, os sóis, as luas, os planetas,
Todas as distâncias de lugares, não importando quão longínquos,
Todas as distâncias do tempo, todas as formas inanimadas,
Todas as almas, todos os corpos viventes embora tão diferentes,
[ou de mundos diferentes,
Todos os processos gasosos, aquáticos, vegetais, minerais,
[os peixes, as criaturas,
Todas as nações, cores, barbarismos, civilizações, línguas,
Todas as identidades que existiram ou possam existir
[neste globo ou em qualquer globo,
Todas as vidas e mortes, todo o passado, o presente, o futuro,
Essa vasta similitude os abarca, e sempre os abarcou,
E há de abarcá-los para sempre e solidamente envolvê-los e contê-los.

23 de outubro de 2015

Poema - Fernando Pessoa - *(um dos últimos poemas de Fernando Pessoa, escrito 11 dias antes de sua morte: 19.11.1935)


HÁ DOENÇAS piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pode ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

22 de outubro de 2015

A Noite - Hermann Hesse, em “Poesias Escolhidas", 1921


Rescende a flor na várzea,
longínqua flor da infância
que só de raro em raro ao sonhador
abre o velado cálice
e deixa ver – cópia do sol – seu interior.
Por cima das cordilheiras azuis
cega a noite vagueia
puxando sobre o seio a veste escura:
sorrindo esparze a esmo
sua dádiva – o sonho.
Curtidos pelo dia, em baixo dormem
os homens: têm os olhos
cheios de sonhos,
alguns viram o rosto suspirando
para as flores da infância
cujo aroma os atrai de leve na penumbra,
e ao severo chamado paternal do dia
confortados se alheiam.
Para o exausto, é um alívio
refugiar-se nos braços da mãe
que os cabelos do sonhador alisa
com mãos despreocupadas.
Somos crianças, logo nos fatiga o sol
- ainda que seja para nós destino e futuro sagrado –
e tombamos a cada anoitecer
pequeninos de novo no regaço da mãe,
balbuciamos palavras da infância,
palpamos o caminho do regresso às origens.
Também o pesquisador solitário
que para o vôo ao sol se propusera
vacila, também ele, à meia-noite
voltado para o ponto de partida longe.
E o que dorme, quando um pesadelo o desperta,
confusa a alma, pressente no escuro
a hesitante verdade:
toda corrida, para o sol ou para a noite,
conduz à morte, leva a novo nascimento,
dores que a alma receia.
Mas seguem todos o mesmo caminho:
todos morrem e tornam a nascer,
porque a eterna mãe
devolve-os eternamente ao dia.

19 de outubro de 2015

em ti... Ana Cristina César, in “Inéditos e Dispersos”


Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos

12 de outubro de 2015

Green Grass - Written by: Tom Waits and Kathleen Waits-Brennan


Lay your head where my heart used to be
Hold the earth above me
Lay down in the green grass
Remember when you loved me

Come closer don't be shy
Stand beneath a rainy sky
The moon is over the rise
Think of me as a train goes by

Clear the thistles and brambles
Whistle 'Didn't He Ramble'
Now there's a bubble of me
And it's floating in thee

Stand in the shade of me
Things are now made of me
The weather vane will say...
It smells like rain today
i
God took the stars and he tossed 'em
Can't tell the birds from the blossoms
You'll never be free of me
He'll make a tree from me

Don't say good bye to me
Describe the sky to me
And if the sky falls, mark my words
We'll catch mocking birds

Lay your head where my heart used to be
Hold the earth above me
Lay down in the green grass
Remember when you loved me

11 de outubro de 2015

pure silence... by Rumi

“This is the purpose of emotion, to let a streaming beauty flow through you. Call it spirit, elixir, or the original agreement between yourself and God. Opening into that gives peace, a song of being empty, pure silence.” —Rumi 

9 de outubro de 2015


"Nossa jornada é sobre sermos mais profundamente envolvidos com a vida e, contudo, menos apegados a ela." _Ram Dass

1 de outubro de 2015

carpe diem por Lara Brenner

Photo Dancing in the streets by Christos Lamprianidis

A não ser que o trem saia dos trilhos mais cedo, amigo, você terá que passar pela vida, por esta vertigem, este sopro desenfreado, esta roda imprevisível.

Esse percurso será revestido de sua cara, marca e assinatura. Ao fim, restará um rastro nos que ficam, nas coisas tocadas, no vento que carrega as palavras ditas e no peso do silêncio das que não foram.

O caminho é seu. Ele pode ser insosso, obrigatório, arrastado, preto e branco, só preto, só branco e você, só um passante. Ou pode ser intenso, colorido e você, o melhor dos hedonistas modernos.

Embora a tendência do homem seja esperar por grandes milagres ou mudanças estrondosas, a maior parte das alegrias advêm de momentos simples, que preenchem o cotidiano a espalhar leveza e prazer: uma música, um filme, uma palavra, um livro, um diálogo, um abraço, um doce e tantas coisas miúdas que, de tanto existirem, muitas vezes passam batidas.

Uma música pode-se apenas ouvir e deixar passar, mas pode ser visceral também. Essa variação depende apenas de quem a ouve, pois que ela será o mesmo conjunto de notas para todo e sempre. Um trabalho pode ser um trabalho, os dias, apenas dias, os passos, apenas passos. Mas tudo pode convergir numa sinfonia fluida, se houver permissão para que seja o caminho desenhado.

Por isso, esteja presente em si mesmo enquanto vive. Não sobrevoe o presente a sonhar com o futuro, corroer o passado, ou entregar-se a lamentações pela vida que não tem. Mas, pior, não se torne mais um zumbi vagando adormecido sem nada sentir, compondo um grande saco desalmado de carne e ossos imprestáveis. Você já está aqui, faça direito.

Por mais óbvio que possa parecer, tudo o que se tem agora é o AGORA. Esteja presente com a alma rendida e entregue, com profundidade e consciência da vida que permeia seu sangue, do milagre que é viver cada segundo. Esteja onde você está.

Então, não tome um vinho, TOME O VINHO. Não trabalhe, TRABALHE. Não ouça uma música, OUÇA A MÚSICA. Várias vezes, cem vezes até que aquilo o arranque da dormência e faça nascer um sorriso de orelha a orelha apenas por estar vivo.

Se algo der errado, apenas pense que da crise literalmente nasce a ruptura, a decisão. Abrace a raiva e a frustração com a mesma intensidade de todo o resto. Apenas dê a esses sentimentos um lugar passageiro, no qual só sobre espaço para a “krisis”, a oportunidade de bem decidir. Os gregos sabiam o que diziam.

É isso, amigo, para ser grande, é preciso ser inteiro. Pôr quanto se é no mínimo que se faz e carpe diem.

27 de setembro de 2015

Saudades - Mia Couto, em "Raiz de orvalho e outros poemas". Lisboa: Editorial Caminho, 1999.

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trêmula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

24 de setembro de 2015

Primavera - Cecília Meireles

"Sweet Dreams" by gluhm

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

**Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.

19 de setembro de 2015

A Máquina do Mundo por Carlos Drummond de Andrade

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco o simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mão pensas.