17 de dezembro de 2014

The Bridge: To Brooklyn Bridge by Hart Crame


How many dawns, chill from his rippling rest
The seagull’s wings shall dip and pivot him,
Shedding white rings of tumult, building high
Over the chained bay waters Liberty—

Then, with inviolate curve, forsake our eyes
As apparitional as sails that cross
Some page of figures to be filed away;
—Till elevators drop us from our day ...

I think of cinemas, panoramic sleights
With multitudes bent toward some flashing scene
Never disclosed, but hastened to again,
Foretold to other eyes on the same screen;

And Thee, across the harbor, silver paced
As though the sun took step of thee yet left
Some motion ever unspent in thy stride,—
Implicitly thy freedom staying thee!

Out of some subway scuttle, cell or loft
A bedlamite speeds to thy parapets,
Tilting there momently, shrill shirt ballooning,
A jest falls from the speechless caravan.

Down Wall, from girder into street noon leaks,
A rip-tooth of the sky’s acetylene;
All afternoon the cloud flown derricks turn ...
Thy cables breathe the North Atlantic still.

And obscure as that heaven of the Jews,
Thy guerdon ... Accolade thou dost bestow
Of anonymity time cannot raise:
Vibrant reprieve and pardon thou dost show.

O harp and altar, of the fury fused,
(How could mere toil align thy choiring strings!
Terrific threshold of the prophet’s pledge,
Prayer of pariah, and the lover’s cry,

Again the traffic lights that skim thy swift
Unfractioned idiom, immaculate sigh of stars,
Beading thy path—condense eternity:
And we have seen night lifted in thine arms.

Under thy shadow by the piers I waited
Only in darkness is thy shadow clear.
The City’s fiery parcels all undone,
Already snow submerges an iron year ...

O Sleepless as the river under thee,
Vaulting the sea, the prairies’ dreaming sod,
Unto us lowliest sometime sweep, descend
And of the curveship lend a myth to God.

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PROÉMIO: À Ponte de Brooklin (Tradução de Sephi Alter)

Quantas manhãs, molhadas no descanso
As asas da gaivota hão-de rodá-la
Tumultuando anéis brancos, levantando
Por sobre as águas presas Liberdade-

E depois numa curva inviolada
Sair da nossa vista como velas
Fantasmas através de relatórios;
— Até o dia acabar nos escritórios

Penso em cinemas, truques panorâmicos
Com multidões correndo em grande afã
A uma cena de luz nunca entendida,
Prevista aos outros sobre o mesmo ecrã.

E Tu, através do porto, andada em prata
Como se o sol tomasse em ti o passo
Mas te deixasse um mover nunca exausto-
Tua liberdade implícita travando-te.

De uma boca do metro, cela ou prédio
Um louco corre até aos teus parapeitos,
Oscila, grita a camisa em balão,
Um chiste cai da caravana muda.

Da trave, escorre por Wall Street abaixo
Um dente serra ao céu de acetileno;
Nuvens, a tarde inteira, rodam guinchos….
Os teus cabos aspiram ainda o Atlântico.

E obscuro como o tal céu dos Judeus,
Teu prémio... conferes o galardão
Do anonimato que o tempo não cria:
Mostras o alívio vibrante e o perdão.

Ó harpa e altar, da fúria derretida
(como é que mero esforço te encordoou!)
Tremendo umbral do voto do profeta,
Prece do pária, e queixume do amante.

As luzes dos semáforos que escumam
De novo o teu idioma sem fracções,
Contas de estrelas-condensam o eterno:
E já vimos a noite alta em teus braços.

Esperei à tua sombra junto ao cais;
Só às escuras a tua sombra é clara.
Desfeitos os embrulhos da cidade,
Já o ano férreo em neve se afundara.

Ó sem sono como águas do teu rio,
Saltando o mar, prados e sonhos seus,
Uma ou outra vez rebaixa-te até nós
E do encurvado empresta um mito a Deus

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São muito poucos os escritores que com apenas três obras publicadas lograram entrar no cânone das letras norte-americanas. Hart Crane conseguiu-o, quase duas décadas após a sua morte, com White Buildings, The Bridge e Key West. Escritor polêmico, encarnação do poeta maldito, autodestrutivo, alcoólico, homossexual, suicida, nada o ajudou a franquear os portões bem cerrados do panteão das letras. A não ser o seu talento, feito de arrebatamento épico, nem sempre contido na verborragia de imagens, e de momentos líricos, às vezes algo alquímicos.
Apesar de alguma imperfeição da sua escrita, o autor tinha uma rara qualidade: o sentido do seu tempo, o conhecimento de uma América pós-pastoril, moderna, agressiva, materialista. O retrato que faz da nação em The Bridge é permeado pelo êxtase quase xamânico de um visionário. Tal como uma ponte, o seu poema é uma via que liga sem atar e harmoniza sem fundir as facetas tantas vezes contraditórias da América: o passado, o presente e o futuro; a espiritualidade e o materialismo; o puritanismo e a liberdade dos quacres; o mundo euroamericano e o universo ameríndio; a natureza e a tecnologia.
Ao longo das páginas de The Bridge, mitos de origens diferentíssimas e virtualmente pertencentes a todas as épocas conhecidas da História humana, cruzam-se para desenhar uma América do presente e uma nação do futuro. Por vezes, essa diversidade resulta numa colagem pouco convincente e bastante heterogênea; noutras ocasiões, Crane mergulha no inconsciente colectivo, descobre laços entre os mitos, e efetua com sucesso uma síntese mística da alma americana. Vultos da literatura como Poe, Dickinson, Whitman, os progressos científicos da nação mais avançada, as grandes cidades e as paisagens naturais esmagadoras,
sublimam-se numa obra mais inclusiva do que homogênea, testemunho de um homem que viveu a sua época e a sua pátria, até ao suicídio que em 1930 o sepultou não muito longe do Mar dos Sargaços. (João de Mancelos)