11 de novembro de 2014

Petite fleur - Jill Barber


Si les fleurs
Qui bordent les chemins
Se fainaient toutes demain
Je garderais au coeur

Celle qui
S'allumait dans tes yeux
Lorsque je t'aimais tant
Au pays merveileux
De nos seize printemps
Petite fleur d'amour
Tu fleuriras toujours
Pour moi

Quand la vie
Par moment me trahit
Tu restes mon bonheur
Petite fleur

Sur mes vingt ans
Je m'arrête un moment
Pour respirer
Ce parfum que j'ai tant aimé

Dans mon coeur
Tu fleuriras toujour
Au grand jardin d'amour
Petite fleur

Dans mon coeur
Tu fleuriras toujour
Au grand jardin d'amour
Petite fleur

"No dorso da funda duna" - conto de Marina Colasanti


O sol atravessava lentamente o céu. E abaixo dele, bem abaixo, um emir com sua caravana atravessava o deserto. A claridade era envolvente como um sono. Mas de repente, pelas frestas dos olhos apertados, o emir viu a figura escura de um homem recortar-se no dorso de uma duna. De um homem e de uma cabra.
Que parasse a caravana, ordenou o emir. Um homem sozinho no deserto é um homem morto.
- Mas não estou sozinho, nobre senhor - respondeu o homem, levado à presença do emir.
E este, tendo logo pensado que uma cabra não é companhia suficiente em meio às areias, penitenciou-se no segredo da sua mente. Certamente aquele era um homem santo que vagava em penitência, e tinha a companhia da sua fé.
Assim mesmo, convidou-o a seguir viagem com eles. E diante da recusa, ordenou que se lhe dessem alguns pães e um odre de água. Em breve, a caravana partia.
O homem apertou as espirais do turbante, puxou uma ponta do pano sobre a boca, e acompanhado pela cabra recomeçou a andar.
O sol tinha refeito seu percurso muitas vezes e estava do outro lado da terra, quando um tropel de cavaleiros quase pisoteou o homem que dormia com a cabeça encostada na barriga da cabra. O primeiro cavaleiro puxou as rédeas, saltou na areia. O homem acordou num susto. O tropel parou.
- Um homem sozinho entre as dunas é um homem inútil - disse o cavaleiro, que chefiava aqueles piratas do deserto. E o convidou para que se juntasse ao bando.
Mas quando o homem recusou a oferta, acrescentando que certamente era um inútil embora não estivesse sozinho, o chefe dos piratas achou que debochava ele, e mandou que o surrassem. Sem demora e sem ruído, pois cascos não ecoam na areia, o tropel partiu.
Os ferimentos da surra há muito haviam cicatrizado, no dia em que uma caravana de peregrinos passou no seu caminho. E assim como ele a viu chegar com prazer, também os peregrinos consideraram a presença daquele homem e daquela cabra como um sinal propício, e decidiram acampar ao seu lado no dorso da duna.
Armadas as tendas, acesos os fogos, o chefe da caravana convidou o homem a comer. Os peregrinos sentaram-se ao redor, a comida passou de mão em mão. Só quando ela acabou, o velho perguntou ao homem o que estava fazendo no deserto.
E o sol ainda não havia se posto, e a lua ainda não havia surgido, quando o homem começou a contar.
Havia sido um homem próspero de uma próspera cidade, uma cidade que com seus minaretes e muros surgia em meio ao deserto.
Marido de uma boa esposa, justo pai dos seus filhos, tinha sempre grãos na despensa, e a figueira junto à porta de sua casa a cada ano dava frutos. Um dia, chamado pelos negócios, havia partido em longa viagem. E ao regressar, não mais havia encontrado sua cidade. Só depois de muito indagar entendera que o deserto, soprado pelo vento, havia passado por cima dos muros, engolindo os minaretes, as casas e a figueira. Toda a sua vida estava debaixo da areia. Mas, onde, na areia? E havia começado a procurar.
- É por isso que até hoje anda no deserto? - perguntou o velho chefe da caravana.
Os dentes do homem brilharam à luz da lua que já se havia levantado.
- Ando porque ainda sou morador da minha cidade - respondeu. Inclinou-se, encostou o ouvido na areia, quedou-se atento por alguns minutos. - Há muito a encontrei - disse, erguendo-se.
Sorriu novamente. No ventre daquela duna, debaixo da caravana acampada, estavam os minaretes, as casas, a figueira. Estavam seus filhos e sua mulher. E ele podia ouvi-los a distância. Através da areia que os separava, podia ouvir os gritos dos pregões, as preces dos muezins, o riso da mulher e das crianças que certamente agora haviam crescido.
- Caminho para isso. Para estar sempre acima deles. Para escutar sua vida.
- As dunas - acrescentou - vagueiam pelo deserto. E eu vou, acompanhando a minha.
Pouco faltava para a manhã. Ao alvorecer, os peregrinos partiram.
Mas o vento tinha ouvido o relato do homem. E a próxima caravana que por ali passou já não o encontrou. A duna soprada grão a grão havia eriçado sua crista, cobrindo o homem e sua cabra como antes cobrira muros e minaretes. E abrindo caminho para eles, lentamente, até seu ventre.

Quem me quiser... por Rosa Lobato de Faria


Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.
Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.

Rosa Lobato Faria, nasceu em Lisboa em abril de 1932, e faleceu a 2 de fevereiro de 2010, aos 77 anos, tendo sido uma das mais importantes atrizes, poetisas e romancistas portuguesas. Para além de ter sido autora de diversos livros infantis, publicou vários títulos desde o seu primeiro romance (1995), O Pranto de Lúcifer, ao qual se seguiram outros como Os Pássaros de Seda(1996), Os Três Casamentos de CamillaS. (1997), Romance de Cordélia (1998), O Prenúncio das Águas (1999), A Trança de Inês (2001), OSétimo Véu (2003), Os Linhos da Avó (2004), A Flor do Sal (2005), A Alma Trocada (2007), A Estrelade Gonçalo Enes (2007) e As Esquinas do Tempo (2008). A sua obra encontra-se traduzida em Espanha, França e Alemanha e representada em várias coletâneas de contos, em Portugal e no estrangeiro. Foi também conhecida do grande público como atriz de televisão e cinema. No ano de 2000 recebeu o Prémio Máxima de Literatura.