20 de dezembro de 2014

Caio Fernando Abreu - Fragmento


“Muita coisa que ontem parecia importante ou significativa, amanhã virará pó no filtro da memória. Mas o sorriso (…) ah, esse resistirá a todas as ciladas do tempo.”

19 de dezembro de 2014

Annabel Lee by Edgar Allan Poe


It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of ANNABEL LEE;
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me.

I was a child and she was a child,
In this kingdom by the sea;
But we loved with a love that was more than love-
I and my Annabel Lee;
With a love that the winged seraphs of heaven
Coveted her and me.

And this was the reason that, long ago,
In this kingdom by the sea,
A wind blew out of a cloud, chilling
My beautiful Annabel Lee;
So that her highborn kinsman came
And bore her away from me,
To shut her up in a sepulchre
In this kingdom by the sea.

The angels, not half so happy in heaven,
Went envying her and me-
Yes!- that was the reason (as all men know,
In this kingdom by the sea)
That the wind came out of the cloud by night,
Chilling and killing my Annabel Lee.

But our love it was stronger by far than the love
Of those who were older than we-
Of many far wiser than we-
And neither the angels in heaven above,
Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful Annabel Lee.

For the moon never beams without bringing me dreams
Of the beautiful Annabel Lee;
And the stars never rise but I feel the bright eyes
Of the beautiful Annabel Lee;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
Of my darling- my darling- my life and my bride,
In the sepulchre there by the sea,
In her tomb by the sounding sea.

*************

Annabel Lee - Tradução de Fernando Pessoa

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

17 de dezembro de 2014

The Bridge: To Brooklyn Bridge by Hart Crame


How many dawns, chill from his rippling rest
The seagull’s wings shall dip and pivot him,
Shedding white rings of tumult, building high
Over the chained bay waters Liberty—

Then, with inviolate curve, forsake our eyes
As apparitional as sails that cross
Some page of figures to be filed away;
—Till elevators drop us from our day ...

I think of cinemas, panoramic sleights
With multitudes bent toward some flashing scene
Never disclosed, but hastened to again,
Foretold to other eyes on the same screen;

And Thee, across the harbor, silver paced
As though the sun took step of thee yet left
Some motion ever unspent in thy stride,—
Implicitly thy freedom staying thee!

Out of some subway scuttle, cell or loft
A bedlamite speeds to thy parapets,
Tilting there momently, shrill shirt ballooning,
A jest falls from the speechless caravan.

Down Wall, from girder into street noon leaks,
A rip-tooth of the sky’s acetylene;
All afternoon the cloud flown derricks turn ...
Thy cables breathe the North Atlantic still.

And obscure as that heaven of the Jews,
Thy guerdon ... Accolade thou dost bestow
Of anonymity time cannot raise:
Vibrant reprieve and pardon thou dost show.

O harp and altar, of the fury fused,
(How could mere toil align thy choiring strings!
Terrific threshold of the prophet’s pledge,
Prayer of pariah, and the lover’s cry,

Again the traffic lights that skim thy swift
Unfractioned idiom, immaculate sigh of stars,
Beading thy path—condense eternity:
And we have seen night lifted in thine arms.

Under thy shadow by the piers I waited
Only in darkness is thy shadow clear.
The City’s fiery parcels all undone,
Already snow submerges an iron year ...

O Sleepless as the river under thee,
Vaulting the sea, the prairies’ dreaming sod,
Unto us lowliest sometime sweep, descend
And of the curveship lend a myth to God.

*************

PROÉMIO: À Ponte de Brooklin (Tradução de Sephi Alter)

Quantas manhãs, molhadas no descanso
As asas da gaivota hão-de rodá-la
Tumultuando anéis brancos, levantando
Por sobre as águas presas Liberdade-

E depois numa curva inviolada
Sair da nossa vista como velas
Fantasmas através de relatórios;
— Até o dia acabar nos escritórios

Penso em cinemas, truques panorâmicos
Com multidões correndo em grande afã
A uma cena de luz nunca entendida,
Prevista aos outros sobre o mesmo ecrã.

E Tu, através do porto, andada em prata
Como se o sol tomasse em ti o passo
Mas te deixasse um mover nunca exausto-
Tua liberdade implícita travando-te.

De uma boca do metro, cela ou prédio
Um louco corre até aos teus parapeitos,
Oscila, grita a camisa em balão,
Um chiste cai da caravana muda.

Da trave, escorre por Wall Street abaixo
Um dente serra ao céu de acetileno;
Nuvens, a tarde inteira, rodam guinchos….
Os teus cabos aspiram ainda o Atlântico.

E obscuro como o tal céu dos Judeus,
Teu prémio... conferes o galardão
Do anonimato que o tempo não cria:
Mostras o alívio vibrante e o perdão.

Ó harpa e altar, da fúria derretida
(como é que mero esforço te encordoou!)
Tremendo umbral do voto do profeta,
Prece do pária, e queixume do amante.

As luzes dos semáforos que escumam
De novo o teu idioma sem fracções,
Contas de estrelas-condensam o eterno:
E já vimos a noite alta em teus braços.

Esperei à tua sombra junto ao cais;
Só às escuras a tua sombra é clara.
Desfeitos os embrulhos da cidade,
Já o ano férreo em neve se afundara.

Ó sem sono como águas do teu rio,
Saltando o mar, prados e sonhos seus,
Uma ou outra vez rebaixa-te até nós
E do encurvado empresta um mito a Deus

*************


São muito poucos os escritores que com apenas três obras publicadas lograram entrar no cânone das letras norte-americanas. Hart Crane conseguiu-o, quase duas décadas após a sua morte, com White Buildings, The Bridge e Key West. Escritor polêmico, encarnação do poeta maldito, autodestrutivo, alcoólico, homossexual, suicida, nada o ajudou a franquear os portões bem cerrados do panteão das letras. A não ser o seu talento, feito de arrebatamento épico, nem sempre contido na verborragia de imagens, e de momentos líricos, às vezes algo alquímicos.
Apesar de alguma imperfeição da sua escrita, o autor tinha uma rara qualidade: o sentido do seu tempo, o conhecimento de uma América pós-pastoril, moderna, agressiva, materialista. O retrato que faz da nação em The Bridge é permeado pelo êxtase quase xamânico de um visionário. Tal como uma ponte, o seu poema é uma via que liga sem atar e harmoniza sem fundir as facetas tantas vezes contraditórias da América: o passado, o presente e o futuro; a espiritualidade e o materialismo; o puritanismo e a liberdade dos quacres; o mundo euroamericano e o universo ameríndio; a natureza e a tecnologia.
Ao longo das páginas de The Bridge, mitos de origens diferentíssimas e virtualmente pertencentes a todas as épocas conhecidas da História humana, cruzam-se para desenhar uma América do presente e uma nação do futuro. Por vezes, essa diversidade resulta numa colagem pouco convincente e bastante heterogênea; noutras ocasiões, Crane mergulha no inconsciente colectivo, descobre laços entre os mitos, e efetua com sucesso uma síntese mística da alma americana. Vultos da literatura como Poe, Dickinson, Whitman, os progressos científicos da nação mais avançada, as grandes cidades e as paisagens naturais esmagadoras,
sublimam-se numa obra mais inclusiva do que homogênea, testemunho de um homem que viveu a sua época e a sua pátria, até ao suicídio que em 1930 o sepultou não muito longe do Mar dos Sargaços. (João de Mancelos)

15 de dezembro de 2014

A pintura de Anna Kostenko


... Como é que minha pintura começou ... Eu acho que começou de forma bastante normal - a partir da necessidade de pintar e desenhar coisas que me cercavam. O ponto de partida foi a minha curiosidade e crença de que eu podia fazer ... Mais tarde, ao passar por diferentes fases e estados criativos eu percebi que a pintura era a única esfera em que eu podia sentir e agir sem restrições. Este não é um estado de euforia passiva. Esse sentimento de liberdade e algum tipo de facilidade só vem por um curto tempo. O trabalho diário continua na esperança de criar uma facilidade e uma intimidade maior com a pintura...
... Eu continuo a descobrir que no mundo comum, real eu não posso fazer um monte de coisas. Por exemplo, eu não sou capaz de expressar meus pensamentos de forma clara. Eu não posso transmitir o significado que eu gostaria de compartilhar com os outros. Mesmo no caso em que a comunicação verbal e comportamento parecem ser perfeitos, a essência, por vezes, não é transmitida verbalmente ... E é o mesmo com as mensagens dirigidas a mim. Consequentemente, eu me sinto como se eu vivesse em uma espécie de "cadeira de rodas", frustrada porque meu contato com o meio ambiente, com outros seres humanos e com o mundo não está completo.
Apenas com a pintura eu sinto que sai da "cadeira de rodas" e estou no meu próprio centro, e consigo transmitir o significado que eu quero transmitir - e o ambiente reage a ela.
    Quando eu pinto sou capaz de fazer mais e eu sou responsável pelo que eu faço. Minha pintura tornou-se meu único fio real de comunicação com o mundo em que  eu vivo e comigo mesma também. Eu crio pinturas e ela me criam.
                                                                                                                                                          Anna Kostenko

Autor: Anna Kostenko
Título: Praia
Ano: 2009
Tamanho: 60x70 cm
Técnica: Óleo sobre tela


Autor: Anna Kostenko
Título: Pessoa
Ano: 2007
Tamanho: 55,5x45 cm
Técnica: Óleo sobre tela


Autor: Anna Kostenko
Título: A Net Yellow
Ano: 2010
Tamanho: 60x70 cm
Técnica: Óleo sobre tela


Autor: Anna Kostenko
Título: Pessoa
Ano: 2011
Tamanho: 60x50cm
Técnica: Óleo sobre tela


 Autor: Anna Kostenko
Título: Sonho 2
Ano: 1997
Tamanho: 90 x 100 cm
Técnica: Óleo sobre tela


Autor: Anna Kostenko
Título: Paisagem irlandesa - Depois da Chuva
Ano: 2010
Tamanho: 60x80 cm
Técnica: Óleo sobre tela


 Autor: Anna Kostenko
Título: Retrato
Ano: 2012
Tamanho: 70x60 cm
Técnica: Óleo sobre tela


Autor: Anna Kostenko
Título: Face VIII
Ano: 2014
Tamanho: 80x80 cm
Técnica: Óleo sobre tela
*************

13 de dezembro de 2014

Canção das mulheres - Lya Luft


Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo a sua vida.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que estou tendo muita paciência com você!''

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.

12 de dezembro de 2014

estrelas... sim, as estrelas! (Fragmento de "O Pequeno Príncipe" - Antoine de Saint-Exupéry)


As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. – Quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem rir! E ele riu mais uma vez. – E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo. Terás vontade de rir comigo. E abrirás às vezes a janela à toa, por gosto... E teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Tu explicarás então: Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir! E eles te julgarão maluco. Será uma peça que te prego... E riu de novo. – Será como se eu te houvesse dado, em vez de estrelas, montões de guizos que riem...

11 de dezembro de 2014

pés por Lenívia Mendes


Meus pés agora procuram o recomeço. Um novo ponto de onde eu possa partir. Partida. Tenho a ânsia de regar a felicidade e sei que flores são capazes de brotar até dos sentimentos mais áridos, que dirá da minha fértil insegurança. Flores que o sol não é capaz de desbotar.

Meus pés buscam agora novos passos. Passado. Minha história inteira tatuada em mim, provando que a vida acontece dentro e não fora de nós. E só nos pertence aquilo que podemos carregar enquanto as mãos continuam livres.

O que nos move são aquelas coisas que não descansam na alma. Eterna inquietude que nos empurra e às vezes nos faz tropeçar. Mas se a gente pensar bem, cada tropeço nos leva um pouquinho mais pra frente.

10 de dezembro de 2014

8 de dezembro de 2014

Rios da alegria - Roseana Murray


Onde correm dentro da alma
os rios da alegria?

Por quais geografias
de tempos misturados,
despenhadeiros
ou vales enluarados?

Em suas águas nadam
peixes de luz quase invisíveis,
fugidios,
rumo a um mar desconhecido.

Deságuam no olhar
esses rios,
como partituras
escritas com o sopro
das estrelas.

7 de dezembro de 2014

Jardim da alma - Rubem Alves


Todo jardim começa com uma história de amor,
Antes que qualquer árvore seja plantada ou um lago construído
É preciso que eles tenham nascido dentro da alma.
Quem não planta jardim por dentro,
não planta jardins por fora e nem passeia por eles.

6 de dezembro de 2014

Desistir? - por Cora Coralina


Eu já pensei seriamente nisso,
mas nunca me levei realmente a sério.
É que tem mais chão nos meus olhos
do que cansaço nas minhas pernas,
mais esperança nos meus passos
do que tristeza nos meus ombros,
mais estrada no meu coração
do que medo na minha cabeça.

4 de dezembro de 2014

3 de dezembro de 2014

Ao longe, ao luar... por Fernando Pessoa


Ao longe, ao luar,
No rio uma vela,
Serena a passar,
Que é que me revela?

Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.

Que angústia me enlaça?
Que amor não se explica?
É a vela que passa
Na noite que fica.

1 de dezembro de 2014

Floresc(S)er de amor por Mariana Gouveia


No lugar onde minha pele termina
começa seu nome em detalhes que te descreve.
O silêncio me orienta e em meio aos rumores do vento
só ouço o seu suspirar.
A minha voz te nomeia de flor

e a delicadeza do jardim, preenche em mim a fragrância do teu suspirar.
Dentro de mim chove sensações de sementes

daquelas que o vento espalha para nascer flor

Floresc(S)er de amor.

Em minha solidão

preencho você de mim.