26 de agosto de 2014

Sobre alma, amor e vazio por Lenívia Mendes (dentrodeumacancao.com.br)


Minha alma, acostumada por tanto tempo presa, arrumou uma forma de olhar pro céu e ser vento, sem direção certa, com a única missão de ser leve e alcançar qualquer lugar que desejasse. De alma livre, há menos necessidades e mais gratidão. Mais vontade de existir do que de resistir. Até desistir é menos dolorido. A insistência é um cinto que aperta e sufoca. Abandonar ideias que já não me vestem mais é libertador.

Do amor, entretanto, eu nunca aprendi a desistir. Talvez porque ele nunca desistiu de mim também. Qualquer forma de amor cabe aqui dentro. E ele é inesperado, invasivo e teimoso. Nasce a despeito de qualquer resistência e de qualquer negação. Atropela todas as outras possibilidades. É algo que, mesmo sem adubo, cria raízes e se instala em meu vazio fértil.

Tenho sim um vazio inquieto e doído. Conviver com o vazio me obrigou a ouvir meu próprio silêncio e fazer as pazes com a solidão. Sou muitas dentro de uma alma só, mas não sou a metade de ninguém e tampouco procuro metades minhas por aí. Estou sempre deixando pedaços meus pelo caminho e nem sempre é possível voltar pra buscar. Tateio no escuro à procura de retalhos que preencham as minhas frestas. Mas são fatias que nunca encaixam. De qualquer forma, prefiro esse vazio agudo de estar faltando um pedaço do que o vazio crônico de ser sempre metade.

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