19 de junho de 2014

Amor de minhas entranhas... por Federico Garcia Lorca

Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas.

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

(Tradução: William Agel de Melo)

Federico García Lorca nasceu na região de Granada, na Espanha, em 05 de junho de 1898. Foi um poeta e dramaturgo espanhol, também lembrado como um pintor, pianista e compositor. Nascido em uma família de proprietários de pequenas terras, mas rico, na aldeia de Fuente Vaqueros, Granada. Foi uma criança precoce, em 1909, seu pai levou a família para a cidade de Granada, na Andaluzia, onde com o tempo ele se envolveu profundamente nos círculos artísticos. Sua primeira coleção de peças em prosa, Paisajes Impresiones, foi publicado em 1918, para aclamação local, mas pouco sucesso comercial. 

Em Madri, no ano de 1919, por recomendação do amigo e antigo mestre, Fernando de los Rios, Lorca foi aceito na Residência dos Estudantes. O local era frequentado por intelectuais, costumando receber palestrantes famosos, como H. G. Wells, Einstein, Paul Claudel, Bérgson, Paul Éluard, Louise Curie, Stravinsky e Paul Valéry.
Sair de sua cidade, deixar a casa de seus pais, ir para faculdade e fazer novos amigos, como não deixaria de ser para qualquer rapaz homossexual oprimido (mesmo nos dias atuais),  foram cruciais na vida sexual de Lorca, como mais adiante se verá.


Na famosa ‘Residência dos Estudantes’ de Madri, Lorca transforma o seu quarto em ponto de encontro de intelectuais e centro de longas reuniões de amigos, assembleias e debates literários. É lá também que conhece Salvador DaliRafael Alberti Luís Buñuel, que futuramente tornar-se-iam a mais fina flor de intelectuais espanhóis.


Do encontro de García Lorca com Salvador Dali surgiu uma grande amizade, movida por uma forte empatia. Se Lorca era um jovem sensível, de uma alma inquieta, Dali, não lhe ficava atrás, era um homem tímido, que se vestia de forma excêntrica. Se para Dali, aparentemente, nascia uma grande e profunda amizade, para Lorca nascia algo mais, uma profunda paixão.
Estudantes de belas artes, direito, filosofia etc conviviam no mesmo local. A proximidade de Federico García Lorca com Salvador Dali e Luís Buñuel foi, de fato, íntima.


De acordo com o pintor, em maio de 1926, Lorca tentou manter uma relação física com ele, apesar de Dali se sentir lisonjeado pelo amor do poeta, não sucumbiu aos seus desejos, já que não se considerava homossexual, o que Lorca sempre teria respeitado.
Na faculdade Luís Buñuelhomofóbico assumido, apesar de ser amigo próximo de Lorca, percebendo traços da homossexualidade deste, fazia terror e não perdia a oportunidade de demonstrar o quanto tinha aversão aos homossexuais. A relação de Lorca e Dali só aumentava. Ao perceber uma proximidade maior entre Federico Lorca e Salvador Dali, Buñuel não poupou esforços para contrariar e sabotar a amizade amorosa que ligava aquele a um complacente Dalí .


Num dado momento, Buñuel vai para Paris e em seguida, Dali larga Lorca em Madri e segue para cidade luz para se encontrar com Buñuel, convencido por este.


García Lorca foi vítima de depressão crescente, uma situação foi agravada pela sua angústia por conta da ocultação da sua homossexualidade de amigos e familiares. Nisso, ele foi profundamente afetado pelo sucesso de seu Romancero Gitano, o que aumentou sua fama, levando-o a dicotomia dolorosa de sua vida: ele ficou preso entre a persona do autor de sucesso, forçado a sustentar publicamente e a vida afetiva sexual, que ele só poderia manter em particular.
O estranhamento crescente entre García Lorca e seus amigos mais próximos atingiu o seu clímax quando Dalí Buñuel realizaram no ano 1929, em Paris, o filme  Un Chien Andalou (Um Cão Andaluz), marco do surrealismo no cinema. García Lorca entendeu que o título do filme era um violento ataque a ele, uma vez ser oriundo de Andaluzia.

O filme encerrou definitivamente o caso de Lorca com Dalí, ao mesmo tempo que Dalí conhecia sua futura esposa Gala. As relações só voltaram as boas tempos depois.


Em 1934, Federico García Lorca já era o mais famoso poeta e dramaturgo espanhol vivoNo dia 19 de agosto de 1936, no auge de sua produção intelectual, foi fuzilado em Granada, aos 38 anos de idade, por militantes franquistas no início da Guerra Civil Espanhola.
E no seu fuzilamento, mesmo que por razões políticas, não deixou de existir a 'cereja do bolo' da homofobia.  Isto porque, segundo o principal  biografo de Lorca, Gibson, um dos assassinos que o executou teria se vangloriado, em Granada, por ter-lhe dado dois tiros "por el culo, por maricón".

A ditadura de Francisco Franco que se seguiu à Guerra Civil (1936-39) censurou por muito tempo sua obra e reprimiu os homossexuais.

Não há como não falar da sua biografia feita por Ian Gibson, aqui no Brasil com título modificado, se chama “Federico García Lorca, uma Biografia”, editora Globo, com tradução de Augusto Klein.  Ignorada por muito tempo, evitada e até marginalizada, a homossexualidade do poeta espanhol Federico Garcia Lorca foi motivo de um estudo aprofundado por parte do biógrafo irlandês.
Nesta biografia, a mais completa que já se produziu sobre ele, alguns mitos são quebrados.
Segundo Ian Gibson " no que toca às circunstâncias da morte de Lorca, o quadro geral é agora claro. No entanto, não se pode dizer o mesmo quando a sua vida privada. Entre os amigos (e a família) do poeta houve sempre uma profunda relutância em comentar ou sequer admitir seu homossexualismo, e uma deficiência desta biografia, se comparada, por exemplo, com a vida de Forster escrita por P. N. Furbank, é que foi simplesmente impossível formar mais que uma visão rudimentar, pelos padrões e europeus ou americanos, desse aspecto essencial da existência de Lorca. Somente uma ou duas cartas ao adorado Salvador Dalí vieram à luz (por sorte temos as do pintor para ele); quase nada se sabe da sua apaixonada relação com o escultor Emilio Aladrén, que morreu em 1942 - salvo o fato de ter sido apaixonada; e poucos dados existem do seu profundo envolvimento com Rafael Rodríguez Rapún, morto durante a guerra." (...).
Numa entrevista concedida pelo biográfo, foi perguntado: “E oficialmente, quais os motivos para prisão de Lorca, quais foram os motivos da denúncia?” e a resposta de Gibson foi:

Que Lorca tinha uma obra subversiva, perigosa, que era amigo de Fernando de los Rios, — ministro socialista —, que era homossexual, e que tinha uma rádio clandestina... era um momento no qual se acreditava em tudo, uma denúncia dessas já bastava para ir ao “paredão”. É preciso imaginar aquele momento, a direita organizou um motim e poderia perder a qualquer momento. Os franquistas já vinham com um plano de matar pessoas e Lorca era um inimigo, não há a menor dúvida de que Lorca era um dos principais inimigos e além disso “rojo, maricón” e famoso.”

O filme Poucas cinzas (Little ashes, 2008), uma produção EUA/Espanha vale muito a pena ser assistido, sugiro que assistam.
Na cena abaixo mostra o primeiro beijo entre Salvador Dali (Robert Pattinson) e Frederico Garcia Lorca (Javier Beltran).



“A quien dices el secreto das tu libertad”


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