15 de maio de 2014

Marguerite Yourcenar (1903/1987)



Marguerite Yourcenar, pseudônimo de Marguerite Cleenewerck de Crayencour (anagrama de Yourcenar) (Bruxelas, 8 de junho de 1903 — Mount Desert Island, Maine, EUA, 17 de dezembro de 1987), foi uma escritora belga de língua francesa. Foi a primeira mulher eleita à Academia Francesa de Letras em 1980, após uma campanha e apoio ativos de Jean d'Ormesson, que escreveu o discurso de sua admissão.

Foi educada de forma privada e de maneira excepcional: lia Jean Racine com oito anos de idade, e seu pai ensinou-lhe o latim aos oito anos e grego aos doze.

Em 1939 mudou-se para os Estados Unidos, onde passou o resto de sua vida, obtendo a cidadania estado-unidense em 1947 e ensinando literatura francesa até 1949.

As suas Mémoires d´Hadrien (Memórias de Adriano), de 1951, tornaram-na internacionalmente conhecida. Este sucesso seria confirmado com L'Œuvre au Noir (A Obra em Negro, 1968), uma biografia de um herói do século XVI, chamado Zénon, atraído pelo hermetismo e a ciência. Publicou ainda poemas, ensaios (Sous bénéfice d'inventaire, 1978) e memórias (Archives du Nord, 1977), manifestando uma atração pela Grécia e pelo misticismo oriental patente em trabalhos como Mishima ou La vision du vide (1981) e Comme l´eau qui coule (1982).

RESPOSTAS (Tradução de Mário Cesariny )

- Que tens para consolar a cova,
coração insolente, coração incontido?
O fruto maduro pende e sossobra.
Que tens para consolar a cova?
- Tenho o tesouro de ter sido.


Que tens para suportar a vida,
Coração doido, farto de pulsar?
Coração sem brilho e sem jaça.
Que tens para suportar a vida?
- Piedade de tudo o que passa.


Que tens para desprezar o mundo.
Coração duro, fácil de quebrar,
Que tens para desprezar o mundo,
Que tens mais que nós, mais fundo?
- Capaz de me desprezar.
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 TEMPO esse grande escultor (Marguerite Yourcenar)

Acordo. Que disseram os outros? Aurora que, cada manhã reconstróis o mundo; integral nos braços nus que conténs o universo; juventude, aurora do homem. Que me importa o que os outros disseram, o que pensaram, o que acreditaram. Sou Febo del Poggio, um bobo. Os que falam de mim dizem que sou pobre de espírito; talvez nem tenha espírito. Existo como um fruto, como um copo de vinho, como uma árvore. Quando vem o Inverno, as pessoas afastam-se da árvore que não dá sombra; comido o fruto, deitam fora o caroço; vazio o copo, vão buscar outro. Eu aceito. Verão, água lustral da manhã sobre membros agéis; ó alegria, orvalho do coração...
Acordo. Tenho diante, atrás de mim, a noite eterna. Eu dormi milhões de idades; milhões de idades eu vou dormir... Só tenho uma hora. Havia de estragá-la com explicações e com máximas? Estendo-me ao sol, sobre o travesseiro do prazer, numa manhã que não voltará mais.

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