13 de maio de 2014

Fernando Pessoa... Fragmentos (por Bernardo Soares heterónimo de Fernando Pessoa)


"Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior."

"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto."

"O sonhador não é superior ao homem activo porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de acção. Em melhores e muito mais directas palavras, o sonhador é que é o homem de acção."

"Sendo a vida essencialmente um estado mental, e tudo, quanto fazemos ou pensamos, válido para nós na proporção em que o pensamos válido, depende de nós a valorização. O sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite correm na cidade do seu espírito do mesmo modo que as da realidade."

"Tenho fome da extensão do tempo, e quero ser eu sem condições."

"Uns governam o mundo, outros são o mundo."

"Há em olhos humanos, ainda que litográficos, uma coisa terrível: o aviso inevitável da consciência, o grito clandestino de haver alma."

"E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou."

"Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste."

"Não vejo, sem pensar."

"Não há sossego - e, ai de mim!, nem sequer há desejo de o ter."

"Dói-me qualquer sentimento que desconheço; falta-me qualquer argumento não sei sobre o quê; não tenho vontade nos nervos. Estou triste abaixo da consciência. E escrevo estas linhas, realmente mal-notadas, não para dizer isto, nem para dizer qualquer coisa, mas para dar um trabalho à minha desatenção. Vou enchendo lentamente, a traços moles de lápis rombo - que não tenho sentimentalidade para aparar - , o papel branco de embrulho de sanduíches, que me forneceram no café, porque eu não precisava de melhor e qualquer servia, desde que fosse branco. E dou-me por satisfeito."

" Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos. Isto é verdade em toda a escala do amor. No amos sexual buscamos um prazer nosso por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é objecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana."

"As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. No próprio ato em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois «amo-te» ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constitui a actividade da alma."

"A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida."

"Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha ideia de os achar belos. Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos."

"Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço."

"Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio de meu corpo ou de meu espírito, debruçado sobre as pessoas e os gestos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são."

2 comentários:

MARCELO BASBUS MOURÃO disse...

Elaine, sou amigo do Antonio Carlos Bernardes e, felizmente, ele indicou seu blog que tenho visitado frequentemente. Parabéns pelo bom gosto e pela acertada escolha dos textos que diariamente você atualiza conjugando a belíssima poesia às crônicas de tantos poetas e escritores. Textos à parte a trilha sonora completa cada palavra que é escrita no instante de sua inspiração. Parabéns! Sou de Paty do Alferes, Estado do Rio, faço teatro e também escrevo além de ser advogado. E amigo do Tuninho. Quando puder, faça uma visita no meu blog no qual estou "engatinhando" ... bjs www.marcelobasbusmourao.wordpress.com

Elaine Faria disse...

Olá Marcelo,
Bom demais receber sua visita no Atemporal!
Obrigada por apreciar as minhas postagens e por esse comentário extremamente incentivador e carinhoso.
Adoro sua cidade! Tenho grandes amigos em Paty, em especial o Tuninho.
Estou indo agora mesmo conhecer o teu blog.
Grande Abraço!
Elaine : )