17 de maio de 2014

"Eros e a Civilização" - Livro de Herbert Marcuse (1955) - Resenha Crítica por Rafael Trindade, publicada em 21/12/2012 no Blog: http://arazaoinadequada.wordpress.com


Marcuse foi um filósofo alemão do séc. XX; fez parte do Instituto de Pesquisas Sociais, instituição que ficou conhecida como a Escola de Frankfurt, junto com outros importantes teóricos da época como Adorno e Horkheimer. Seus trabalhos tiveram grande impacto no campo político e foram responsáveis por influenciar movimentos como, por exemplo, a greve de maio de 68. Em 1955 lançou a obra “Eros e a Civilização” onde, dialogando com conceitos marxistas e freudianos, faz uma análise da sociedade da época.
Na primeira parte do livro, já usando conceitos de Freud, Marcuse expõe o que entende ser a sociedade atual e o impacto que esta tem na formação do princípio de realidade do indivíduo. Para o autor, assim como para Freud, a civilização se forma a partir da repressão dos instintos, ou seja, o princípio de prazer é limitado por determinadas condições necessárias à constituição da sociedade. Estes impulsos devem ser recalcados ou sublimados, e neste processo, forma-se o princípio de realidade de nossa civilização. Contudo, Marcuse afirma, agora usando um conceito de Marx, que além da repressão postulada por Freud, a atual sociedade industrial, a partir do princípio de desempenho, impõe também a mais-repressão, exigindo, assim, mais de Eros, princípio de vida, para a manutenção da forma vigente de constituição social. Seguindo essa lógica, o princípio de realidade do indivíduo moderno é completamente moldado pelo princípio de desempenho; as exigências do mundo, através da mais-repressão, seriam responsáveis pela constituição da subjetividade alienada e patológica criando, então, sujeitos voltados para a lógica de mercado, consumidores que se utilizando daquilo que os oprime, afirmam sua liberdade no próprio ato de comprar, “a produção e o consumo reproduzem e justificam a dominação”. Nesse contexto, diz Marcuse, a própria normalidade é problematizada e as patologias, como, por exemplo, a neurose, seriam o protesto do corpo contra sua reificação, sua transformação em apêndice da máquina, uma revolta contra os próprios alicerces que sustentam a civilização no intuito de dar um uso focado em si mesmo. O excesso de repressão seria mecanismo de manutenção da própria civilização que através do enfraquecimento de Eros, impossibilitaria a revolução e a procura da liberdade autêntica, ”a civilização tem que se defender contra o espectro de um mundo que possa ser livre”. Contudo, a dessexualização contínua daria vazão à pulsão de morte, impulso este que estaria levando a sociedade à sua própria destruição.
Na segunda parte do livro, o autor se propõe a ir “além do princípio de realidade”, se contrapondo a Freud e procurando mostrar que a mais-repressão é resultado de vários processos que, apesar de naturais e históricos, podem ser revertidos. Portanto, mesmo que a organização social tenha uma lógica interna, isso não a impede de ser rompida por outras formas de organização, de constituição de princípio de realidade; para Marcuse, a base para uma constituição social libertária estaria contida em sua própria organização atual repressiva. Contudo, isso não explica como uma sociedade pode gerar a liberdade sendo que a não-liberdade faz parte de suas próprias engrenagens. Marcuse afirma, então, que o próprio princípio de desempenho, este sustentado pela mais-repressão, constituirá uma sociedade cada vez mais tecnológica e avançada onde a necessidade de sublimação de pulsões para a atividade laborativa será cada vez menos necessária. Quanto mais a sociedade industrial empregar suas forças na produção, crescimento e desenvolvimento tecnológico, menos será necessário, no futuro, mobilização de energia instintiva em um trabalho alienante e desgastante. A diminuição do esforço na busca de gratificação terminaria por levar as estruturas de mais-repressão ao colapso. Este sistema depende do adiamento da gratificação e do enfraquecimento de Eros, que situa o indivíduo como meio e não como fim; contudo, uma organização que favorecesse Eros criaria “novas e duradouras relações de trabalho”. A diminuição da mais-repressão, em face do favorecimento da gratificação pelos meios tecnológicos, não elimina a necessidade de sublimação para o trabalho, mas a própria definição de trabalho ganharia um caráter de atividade lúdica, porque todo o princípio de realidade, que também modela e perpetua este sistema, se alteraria, criando novas formas de experienciar e relacionar-se com o mundo. Freud acreditava que a eliminação da repressão destruiria a sociedade, que a abdicação dos instintos é fator essencial para sua manutenção, mas o autor de “Eros e Civilização” se contrapõe afirmando que, na verdade, um excesso de repressão, nesse caso definido por ele como mais-repressão, foi imposto por uma sociedade industrial e que isto estaria causando o próprio sufocamento do homem e, como consequência, sua própria eliminação. Para Marcuse, a sociedade tem condições de sustentar-se através da eliminação dessas condições castradoras e transformar-se em outra completamente diferente, onde haveria espaço para o lúdico, onde “Eros, os instintos de vida, seriam libertados num grau sem precedentes”.
No epílogo, Marcuse conclui que a terapia psicanalítica seria uma das responsáveis pela atual constituição social; isto se daria pelo próprio caráter ideológico de sua aplicação. Enquanto a psicanálise fundamenta o homem como um indivíduo doente em função de uma sociedade também enferma, a terapia psicanalítica, escondendo-se atrás de uma “ciência neutra”, procura tratar o paciente para recolocá-lo nos mesmos meios sociais que propiciaram seu adoecimento. Entretanto, mesmo que a terapia psicanalítica trabalhe a favor do status quo, a teoria criada por Freud e apropriada posteriormente por Marcuse explicitaria as condições de libertação das formas repressoras vigentes na sociedade industrial atual. Sendo assim, podemos ver como o pensamento de Marcuse ainda é uma poderosa ferramenta de análise das contradições sociais, e se contrapondo a muitos dos críticos da escola de Frankfurt, vemos como o filósofo nos dá ferramentas conceituais para fundamentar nossa busca por mudanças. Não é à toa que foi considerado um dos teóricos da greve de maio de 68. E também não é sem motivo que nos apropriamos de sua teoria.
A importância deste trabalho pode ser sentida até hoje, tanto pelos meios acadêmicos, como grades curriculares das universidades e publicações de artigos e teses, quanto pela relevância das idéias que ainda se mostram atuais. A explosão de revoltas (tais como a primavera árabe), notícias de suicídios (foxcom e telecom), greves (na Europa, em geral), crises (pelo excesso de especulação e/ou produção), incentivo e compulsão consumista, todas estas características de nossa sociedade nos levam a pensar que alguma coisa está errada e o pensamento de Marcuse ainda é uma poderosa ferramenta de análise destas contradições.
Referência:
Marcuse, Hebert. Eros e a Civilização – uma crítica filosófica ao pensamento de Freud. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 1955.

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