9 de maio de 2014

Ela (Her), 2013 - filme de ficção científica, escrito, dirigido e produzido por Spike Jonze. (Resenha escrita por Celo Silva/http://www.espectadorvoraz.com)

Sou um animal sentimental, me apego facilmente ao que me desperta desejo.”, dizia Renato Russo na letra de uma de suas mais belas canções, Sereníssima. Assim como Renato, o cineasta Spike Jonze traz no singular Ela, seu mais recente trabalho, similar interesse nas fragilidades dos sentimentos humanos. Nesse universal medo de ficar sozinho (clichê?). No tão falado vazio existencial gerador de carência - ao ponto de se viver a vida alheia. Na busca incessante por uma alma gêmea (Existe isso?). Tudo muito palpável. E em tais problemáticas reside o maior trunfo da obra: a audiência, resignada, se identifica facilmente com o que está assistindo.

Nesse futuro bege – cor normalmente associada à melancolia - onde Ela é ambientado, o nosso guia por tal jornada sensorial é Theodore (Joaquin Phoenix). Recém-separado, imerso nas memórias boas de outrora, ele vive a vida dos outros ao estabelecer relacionamentos alheios através das correspondências que escreve. Parece que nesse mesmo futuro as pessoas perderam o tato e precisam contratar profissionais para equilibrarem suas relações. Esse é o peculiar oficio de Theodore. Um paradoxo até, visto que demonstra rara habilidade para manter seus clientes felizes, mas na vida pessoal o mesmo não pode ser dito.

O desalento de Theodore é colocado de lado quando adquire um sistema operacional revolucionário que promete ser muito mais do que um simples programa. Durante a instalação, o nosso protagonista se sente atraído por aquela inteligência artificial perfeita, capaz de se adaptar ao cotidiano da vida humana e adquirir características idem. Escolhida uma voz feminina, o sistema, então, resolve ser chamado por Samantha (voz de Scarlett Johansson). À medida que vão interagindo, Samantha se revela atenciosa e confidente de Theodore. E vice-versa. Logo deixa de importar se um é humano e o outro não. A iminente sensação de se sentir completo parece suprir qualquer ausência física...

Colocar-se no lugar de Theodore é compartilhar de sua loucura. Mas apaixonar-se não é uma loucura social permitida, como afirmado em determinado momento? A partir dessa simbólica frase, usada aqui como interrogativa, Spike Jonze alicerça seu filme. Um filme de rara sensibilidade. Em Ela, romance travestido de ficção cientifica, vemos as concessões das relações levadas às últimas consequências. Afinal, quem sabe se comportar em situação similar? Não é quando nada mais importa a sua volta? Para Theodore é caminhar na praia, num sol escaldante, de roupa social e ainda assim se sentir afortunado. É se isolar para o mundo e viver aquele momento sem pensar no amanhã. É se entregar sabendo que cicatrizes irreversíveis podem surgir...

E num exemplar exercício de imaginação, Ela impele a audiência fortuitos momentos de intimidade com o improvável casal. Apenas reafirmando seu inegável talento, Joaquin Phoenix, entregue ao personagem, entra numa acachapante simbiose com a voz de Scarlett Johansson, fazendo com que a moça praticamente se materialize a nossa frente. A primeira cena de sexo virtual é dessas que entra automaticamente para a memória afetiva. E a voz de Scarlett exala tamanha sensualidade, contribuindo muito para uma aura de tensão sexual que permeia boa parte da trama. Ela, entre suas etapas sobre relacionamento, traz uma deveras pertinente: a importância do sexo.

E se, segundo Ela, a ausência de sexo pode ser superada, o desencanto gradual tende a ser mesmo inevitável. Tal perspectiva de Spike Jonze sobre os relacionamento é inegavelmente pessimista e deixa uma sensação amarga ou até inverossímil, principalmente a quem julga o amor algo maior e mais profundo e racionaliza todos os prós e contras. Esse que se mantém numa zona de conforto porventura nunca vai saber como se sente alguém que entra de cabeça numa relação, devaneando uma perfeição impossível de ser atingida. E, talvez, Ela, mais do que um filme sobre a “solidão do homem na era tecnológica”, seja um filme sobre idealização, independente de sua época.



*O paradoxo das facilidades de comunicação com o isolamento e perda do contato físico, tão essencial a todos nós. O mundo virtual, feito de imagens e sons, que tanto nos violenta. "Her" é mesmo uma obra rara, um marco no cinema mundial. Vale assistir! Elaine

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